Muito feliz em ter participado e poder compartilhar a gravação do Programa BH Todo Dia, do Canal TV Brasil, já publicada no YouTube. Apresentado por Elias Santos e exibido ao vivo no dia 31 de março, o tema do programa foi “Auto estima, comunicação não violenta, Semana de Arte Moderna e humor”. Destaque do programa a recente apresentação do Oscar, quando a atitude de Will Smith chamou a atenção do planeta para a Alopecia. O tema foi aprofundado por André Gianini, cirurgião plástico e especialista em restauração capilar.
Vários convidados participaram do programa: a terapeuta familiar Cinara Cordeiro, a atriz e apresentadora Kayete, a cantora Carô Rennó e eu, Valdo Resende, divulgando o Seminário Contingências Antropofágicas, apresentado no CCBB Belo Horizonte, com curadoria de Katia Canton e produção da Kavantan & Associados, Projetos e Eventos Culturais. Deixo abaixo os registros dos três blocos do programa: No primeiro bloco, Elias Santos nos convida a opinar sobre a cidade, Belo Horizonte e eu, mineiro, não pude deixar Uberaba de fora dos meus comentários. No encerramento do bloco o especialista convidado fala sobre o tema motivador, a Alopecia.
No segundo bloco, comentamos a Alopecia; pessoalmente destaco a participação da Carô Rennó, que está nesta condição, nos colocando em contato direto com as questões vivenciadas e com experiências contundentes.
No terceiro bloco desenvolvemos o tema central e cada convidado falou do motivo específico em estar presente. No meu caso, a divulgação do Contingências Antropofágicas, 100 anos depois de 22.
Deixo registrado meu prazer em ter participado e conhecido grandes profissionais da minha terra, aprendido sobre o tema e, sendo “novato” nesse tipo de situação, quero elucidar dois aspectos que, posteriormente, percebi e sobre os quais peço desculpas: O quadro que está atrás, na minha parede, com o retrato em aquarela do Palhaço Arrelia, não é de minha autoria, mas de L. Victor, artista santista. A segunda correção é que em Peirópolis, no município de Uberaba, temos sítios Paleontológicos e não arqueológicos (estes, minhas paixões piauienses). Assistam e deixem suas opiniões.
Há 39 anos, através de um comentário crítico publicado em um jornal, Nei Rozeira entrava em minha vida com um texto simpático sobre a montagem “Era uma vez… aonde vamos?” que fiz com o Grupo Caroço. Encantado com tal trabalho, Nei nos abriu os braços, o coração e não demorou nada para abrir-nos também a própria casa, junto a seus familiares. Hoje, infelizmente, despeço-me e presto homenagem ao grande amigo.
Nei Rozeira. Fotos: acervo familiar.
Após uma apresentação da tal peça conheci o autor da crítica, Claudine, mas que preferia ser chamado Nei. Certamente foi essa a primeira confidência, seguida de comentários e causos advindos dos nomes que recebemos de nossos pais. Gentil e educado, Nei pediu autorização para filmar trechos do trabalho, o que aconteceu na sessão seguinte e, naquela mesma noite, fomos convidados para ver o resultado no apartamento que dividia com a mãe, D. Jacira, e a irmã, Sonia, em São Caetano do Sul.
Dessas coisas que acontecem por afinidades múltiplas, nos tornamos amigos. Grandes amigos! Era 1983 e fazia pouco que eu havia chegado de Minas. Eu pensava conhecer muito, embora já percebera não saber nada de São Paulo e suas peculiaridades nem sempre desfrutadas por distraídos ou mal informados. Tal qual irmão mais velho, Nei ensinou-me tudo o que lhe foi possível; encontramo-nos no amor pela música brasileira (ele amava Elis Regina!), pelo cinema, pelo teatro. E confirmamos nossa amizade nas descobertas e no amor por São Paulo.
Administrador atuando em multinacional, já com uma carreira profissional de sucesso, Nei vivia bem. Com generosidade, facilitava-nos a vida – sempre difícil para quem busca fazer arte neste país – com discrição e elegância. Dividindo um apartamento com mais três amigos, vivíamos tempos parcos. Com frequência Nei passava em casa e nos convidava para uma pizza, uma “ida ao japonês”. Eram noites de mesa farta!
Um dia ele manifestou a vontade de jantar estrogonofe com arroz branco, vinho também branco e, de sobremesa, doce de goiabada com catupiry. “Mamãe não anda muito bem, não está cozinhando, e eu gostaria de estrogonofe mesmo, não carne picadinha. Você sabe fazer?” Claro que sim, respondi disposto a usufruir de uma boa mesa. E combinamos para breve. Assim que ele saiu de casa liguei para minha irmã: “Como é que faz estrogonofe?”. A receita veio por carta, um ou dois dias depois, chegando na mesma data marcada para a comilança, com um detalhe que se constituiu em incógnita: Em dado momento seria necessário flambar, sem que houvesse a menor indicação do que seria isso. Nei chegou com todos os ingredientes e eu, receita decorada, não querendo manifestar minha ignorância: “Faço direitinho, mas não sei flambar”. “Poxa, Valdo!” Ele respondeu, “essa é a única parte que eu gosto de fazer, trouxe até o conhaque”. No momento certo, meu amigo tascou fogo na panela e a gente ficou em volta do fogão, feito crianças. Inteligente, certamente ele percebeu que era a primeira vez que cozinhava o tal prato. Elegante, não se manifestou.
Apaixonado por fotos, Nei tinha todo o material para montar um estúdio. No tal apartamento em que eu morava havia um banheiro desativado que, transformado, produziu inúmeras fotografias para todos os residentes e visitantes. Guardo inúmeras imagens desse período, grande parte são registros do trabalho teatral que realizava; outro tanto de paixões de ocasião. Com Beth, uma das moradoras, passávamos horas buscando melhor composição, detalhes de cada fotografia, tudo muito bem dividido dentro do pequeno espaço. As paredes cobertas de paixões do Nei, da Beth e minhas.
Há inúmeras outras histórias que dividimos, que vivenciamos. Nei era discreto e entre nossas afinidades sempre esteve o exercício do direito à vida privada. Desta, fico feliz em dividir o universo sobre o qual transitávamos. Através dele conheci Gore Vidal, James Baldwin e era dele o primeiro livro que li de Pasolini. Do meu lado dividi André Gide, Luchino Visconti, Nelson Rodrigues. Em nossos passeios, no carro intercalava-se Elis e Maria Bethânia, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. E entre as preferidas dele guardo a lembrança de uma canção, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, Mordaça:
… Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva…
Hoje, 14 de março de 2022, quem mora aqui no Bexiga, em São Paulo, viu o dia amanhecer ensolarado para, no final da manhã, cair uma chuva torrencial. O tempo foi meu cúmplice, solidário com minha tristeza ao saber da morte do meu amigo, ocorrida em julho do ano passado. Dessas ironias da vida, quando nos orgulhamos de estarmos conectados e, no entanto, deixamos de ver notícias que nos são fundamentais.
Felizes, em São Vicente.
Nosso último encontro, quando estivemos juntos em momento fugaz, ele esteve com Sonia prestigiando a apresentação do projeto Arte na Comunidade que fizemos em São Vicente, onde residia. Ele chegou junto com a irmã e desfrutamos juntos de pequenos e bons momentos. Meu amigo, manifestando os efeitos do tempo, ainda mantinha um intenso brilho no olhar, meu conhecido, dando-me a certeza de que nosso encontro estava sendo o que deveria ser. De amigos que se amam.
Adeus, Nei Rozeira. Sou profundamente grato por tudo o que vivemos, tudo o que fizemos. Um dia escrevi neste blog sobre você e, emocionado, você me disse que por amizades assim é que a vida vale a pena. E como vale! Obrigado, Nei. Quero terminar este com a frase que aprendi com sua mãe quando vocês se cumprimentavam e que sempre guardei com muito carinho:
Começa amanhã, no CCBB-RJ, a etapa do Seminário Contingências Antropofágicas, refletindo e comemorando o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Presencial e gratuito, veja abaixo a programação e os convidados participantes.
Não bastasse a pandemia, longe do fim com mais de 500 mortes diárias apenas em nosso país, agora pesa sobre nossa cabeça a possibilidade de uma guerra atômica. Não tendo real noção da abrangência de um ataque nuclear, seja de que lado for, não podemos afirmar que estaremos aqui no próximo mês, ou mesmo, no pior quadro, pode ser que tudo termine amanhã. E daí, penso: caso possível, diante do fato qual seria a indagação do universo?
Considerando a idade da Terra, acima dos 6 bilhões de anos, e levando-se em conta que o planeta segue transformando-se, indiferente às mazelas que provocamos sobre a superfície terráquea, o que são os poucos milhares de anos dessa coisa chamada ser humano diante da imensidão do tempo do planeta, da galáxia? E o que importa, o que somos nós perante toda a Via Láctea e outras possíveis vias por nós desconhecidas?
Das criações divinas que, até onde vai nossa compreensão estão em harmonia, consoantes com entornos, com o que lhes é necessário, o ser humano é a coisa que deu errado. Um equívoco. Se há um Deus e se ele criou o espaço infinito, de imensurável beleza, o primeiro erro humano foi acreditar-se imagem e semelhança de Deus. Sejamos honestos! Entremos em nossos quartos e nus, diante de um espelho, encaremos quem realmente somos. Antes disso, um alerta: o que se acredita ser beleza é, constantemente, consequência de delírio emotivo materno. E, segundo alerta, para um exame de consciência livremo-nos de todas as certezas caso não estejam carregadas das dúvidas que geram crescimento.
O espelho honesto refletirá um ser obtuso e, se brasileiro, limitado à polarização vigente. Incapaz de refletir em direção às causas, limita-se a mexer e remexer feridas, “torcendo” por um ou outro, criminalizando um ou outro para esquecer rapidamente o desastre presente, transferindo posturas e interesses para a próxima catástrofe. Produto pensado para consumir, vai para o arquivo dos acontecimentos situações tipo as enchentes em Petrópolis, o ser humano na belíssima praia brutalmente espancado até a morte e a iminente guerra atômica… neste momento em que escrevo, a contenda amenizada por uma partida de futebol – ouço os gritos frenéticos da torcida e, mais a noite, tudo momentaneamente deixado de lado pela competição da hora na televisão.
Esse brasileiro, perante o espelho, dificilmente levará em conta seu estado em função de uma ditadura militar, que excluiu da rede escolar a reflexão propiciada pela filosofia ou que é resultante da vigente educação neoliberal formando tecnicistas com rara capacidade de interpretação, e quase nula capacidade de fazer ciência. Costuma ficar indignado com situações como a do ser humano que viaja para fazer turismo sexual em plena guerra, mas em seguida se diverte perguntando via meme “qual mundo deixaremos para a Rainha Elizabeth?”.
Vizinhos residentes acima da minha cabeça jogam ovos em frequentadores do bar em frente. Esses mesmos vizinhos, incapazes de seguir normas mínimas como dia e hora para recolher o lixo, frequentam outro boteco, da esquina, e lá discutem o destino do conflito mundial entre um copo e outro de cerveja, assoviando para uma bunda ocasional que desce pela avenida. Nos grandes ou pequenos fatos, somos sempre os mesmos.
Nu perante o espelho vejo-me piada divina. Brinquedo que, não dando certo, será apagado da face do planeta. O certo é que este prosseguirá, os continentes afastando-se fisicamente em programa que desconhecemos qual fim. Grandes merdas uma guerra atômica! Dane-se o fim da humanidade. O que serão estes tristes episódios no histórico de bilhões e bilhões de anos vividos pelo planeta? Uma mancha, alguns resquícios entre camadas e camadas que formadas, destruídas e reformadas, constituem-se na massa que flutua em equilíbrio com o sol, em harmonia jamais atingida pelo ser humano.
Prestes a sucumbir ao desalento, continuo olhando para o espelho e imagino-me distanciando do quarto, do edifício, da esfera terrestre. Tento ignorar limitações e viajo por galáxias, atravesso buracos negros, encontro milhares de outros planetas, navego pelo multiverso e, insano, olho para trás, tentando visualizar a terra, aquela que “por mais distante, o errante navegante jamais esqueceria”. E antes da última viagem, certamente há um único e derradeiro texto a ser escrito, uma única palavra direcionada ao Responsável pela coisa toda:
Para comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, o Centro Cultural Banco do Brasil apresenta o projeto Contingências Antropofágicas / 100 anos depois de 22 que acontece no CCBB São Paulo nos dias 17, 23 e 24 de fevereiro, às 17h. Presencial e gratuito.
Sonia Kavantan, Valdo Resende e Kátia Canton. Foto: Andreia Machado
Com idealização do escritor e Mestre em Artes Visuais Valdo Resende, curadoria e mediação da artista visual, escritora e jornalista Kátia Canton e produção da Kavantan & Associados, de Sonia Kavantan, o debate de ideias propõe reflexões sobre os contextos sócio-históricos que deflagraram a concretização do movimento ocorrido entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo.
O seminário também questiona as influências dessa primeira etapa do modernismo na arte hoje e joga luz sobre os significados de uma busca pela identidade brasileira através da arte. Como a questão da brasilidade toma corpo agora? O diferencial do projeto é que estarão no foco da discussão as contingências em três aspectos – Histórico, Estético e Humano.
Programação CCBB SP:
17 DE FEVEREIRO, 17H:
Contingências sócio-históricas – O Significado da Semana:
– Era uma Vez o Moderno – os diversos modernismos no Brasil entre 1910 e 1920, com Luís Armando Bagolin.
– O Azarado Macunaíma, com Priscila Loyde Gomes Figueiredo.
Esse primeiro encontro busca discutir a questões primordiais. O que significou a Semana de 22 na cidade de SP? Como era a Paulicéia até a explosão do modernismo, como eram os artistas e como eles se organizaram em torno do movimento? Como a questão da identidade brasileira se configurou e qual o papel singular de Mario de Andrade, autor de Macunaíma, na pesquisa de nossas raízes e vocações?
23 DE FEVEREIRO, 17H:
Contingências estéticas – A Composição da sinfonia modernista de 22:
– O Lastro Modernista nas Artes Hoje, com Agnaldo Farias.
– Semana de 22 e 2022, com Ana Cristina Carvalho.
A contingência tratada aqui articula as especificidades da estética desenvolvida pelos principais artistas que formaram essa primeira fase do modernismo brasileiro. Nas artes visuais, na literatura e na música, como se caracterizou essa produção? Quem eram eles e como foram responsáveis pela representação de uma geração?
24 DE FEVEREIRO, 17H:
Contingências humanas – O significado do ser moderno hoje:
– Modernas! arte e gênero no Brasil dos anos 1920, com Ana Paula Simioni.
– Personagens da Semana de 22, com Percival Tirapeli.
Essa contingência se liga ao atravessamento do tempo/espaço e do alargamento do conceito modernista até os dias de hoje. Será que aquela é uma Semana que não terminou, como diz o título do livro do jornalista Marcos Augusto Gonçalves? Quais as principais influências que aquele momento nos deixou como herança? O que é mito, o que é verdade?
Dinâmica:
Nos três dias de evento (mesma quantidade de dias da Semana de 1922) haverá dois palestrantes e uma mediadora, com espaço de tempo para perguntas da plateia. O seminário será presencial e terá duas horas de duração. Cada encontro será aberto pela mediadora que apresentará colocações sobre o tema proposto e apresentará os palestrantes. Na sequência cada palestrante fará sua apresentação. O mediador retomará iniciando questionamentos para os palestrantes e depois o público também poderá fazer perguntas. Ao final, após as considerações finais dos palestrantes, o mediador fará o fechamento.
Além de São Paulo, o projeto também acontecerá no Rio de Janeiro (dias 11, 12 e 13 de março, 18h30), Belo Horizonte (dias 1, 2 e 3 de abril, 20h) e Brasília (dias 5, 6 e 7 de maio, 20h).
Ao final de todas as cidades, serão disponibilizados nas redes sociais do CCBB um vídeo com a edição de todas as palestras e uma publicação com a transcrição dos conteúdos. Será emitido certificado digital para a pessoa que comparecer a pelo menos duas palestras. Haverá tradução em libras durante todas as atividades.
Sobre a curadora
Katia Canton é artista visual, escritora, jornalista, professora e curadora. Estudou arquitetura, dança e formou-se jornalista pela ECA USP, em São Paulo. Também estudou literatura e civilização francesas no curso de estudos superiores dado pela Aliança Francesa juntamente com a Universidade de Nancy II. Em 1984 transferiu-se para Paris, com uma bolsa de estudos de dança moderna no estúdio Peter Goss.
Viveu em Nova York por oito anos, onde trabalhou como repórter para vários jornais e revistas e realizou mestrado e doutorado na New York University. Sua pesquisa acadêmica é interdisciplinar e relaciona as artes e os contos de fadas, de várias épocas e culturas do mundo. Trabalhou um ano e meio como bolsista no MoMA, de Nova York, criando projetos de arte e narrativa no departamento de educação. De volta ao Brasil, ingressou como docente na Universidade de São Paulo, sendo professora associada do Museu de Arte Contemporânea (onde foi vice-diretora) e do programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte.
Seu trabalho artístico é multimídia, incluindo desenho, pintura, fotografia e objetos, e conceitualmente se liga a questões sobre sonho, desejos e narrativas. Tem realizado exposições em museus, galerias e instituições culturais no Brasil e no exterior, desde 2008.
Como autora, além de escrever livros sobre arte, criou mais de 50 livros ilustrados para o público infantil e juvenil, tendo recebido vários prêmios, no Brasil e no exterior. Entre eles, recebeu por três vezes o prêmio Jabuti, prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Serviço:
Contingências Antropofágicas / 100 anos depois de 22
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Período: 17, 23 e 24 de fevereiro, 17h
Ingressos: Agendamento através do site bb.com.br/cultura e na bilheteria
Classificação indicativa: 14 anos
Entrada gratuita
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico, Triângulo SP, São Paulo–SP
Acesso ao calçadão pela estação São Bento do Metrô
Funcionamento: Aberto todos os dias, das 9h às 19h, exceto às terças
Informações: (11) 4297-0600
Estacionamento conveniado: Rua da Consolação, 228.
Valor: R$ 14 pelo período de até 6 horas. É necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB.
Traslado gratuito até o CCBB. No trajeto de volta, a van tem parada na estação República do Metrô.
Uma perua transformada em motel a preço módico: Uma hora por R$ 5,00! Recebi o anúncio como se fosse piada em época de crise. Entre dois corações a palavra motel; abaixo o tempo e o preço. Assinando a categoria enquanto nome do negócio: Fode Truck. “Que falta de elegância, Valdo, escrevendo essas coisas. Que feio!”, diria uma tia, já falecida. Eu rio, pensando na felicidade de quem pode pagar os cinco “mangos” para ser feliz, já que, lembrando meu amigo Robinho, “não dá para lutar contra a natureza”.
Não sendo dono da imagem do negócio descrito acima, resolvi ilustrar com uma foto, tirada em São Raimundo Nonato, euzinho em frente a um inesquecível bar. Um balcão lateral, muita bebida disponível, um som sempre aberto aos temas afetivos e, bem em frente ao balcão, uma cama de casal. Um varal preso ao teto, com uma cortina florida separava o ambiente quando amantes resolviam não ir muito longe para fazer o que poderiam fazer ali mesmo. Sem dissimulações, sem hipocrisia. E com o conforto de um bom ventilador para também espantar mosquitos indesejáveis.
Soube de histórias, já que o bar piauiense estava próximo da Universidade local, onde fui dar um curso. Não havia trocas de lençóis entre um uso e outro, mas garantiam peças limpas a cada dia. Para manifestações afoitas, exageradas durante o ato, aumentava-se o som. “Não muito”, garantiu-me o proprietário; “os gemidos de uns estimulam os outros e assim o serviço prospera. O senhor não quer experimentar?”
Essas histórias correm por aí no anonimato possível dos grupos de WhatsApp, neste período do ano em que já se tornou comum jovens articulados e saudáveis movimentarem lençóis para espectadores da tv aberta. E se é verdade que o Brasil é o país da delicadeza perdida, o tesão continua pop e o sexo segue, imbatível, indiferente aos locais onde é praticado.
Prazer é bom e Freud já determinou e nos ensinou princípios que, quando não satisfeitos, geram tensão. A situação pode ser delicada e complicada conforme a formação do ser que terá, ao longo da vida, um possível e considerável conflito entre a elegância, que pede discrição, ou o combate à hipocrisia, mandando essa às favas. Além dos ditames dos “bons costumes”, vivemos época de pandemia e aconselhamos às pessoas que permaneçam em suas casas. Complicado!
Tempos em que sobreviver é luta. Do que viverá o dono do bar piauiense? O preço da perua motel é esse, ou o valor diminuiu por conta da crise vigente? Como se resolvem as pessoas solitárias, que não se contentam com prazeres individuais? Enfim, o bom nisso tudo, é perceber que somos feitos para o prazer e ainda não desistimos dele. E que no “país do carnaval”, proibidos de brincar e desfilar, sem dispor das quantias enormes de dinheiro para ir ao Lollapallooza ou ao Rock In Rio, temos peruas, bares e outras possibilidades para a satisfação de nossas necessidades.