Diego Bertola e intercâmbio

Veja a live que conta a viagem de um brasileiro pela Irlanda, buscando crescimento profissional e a aprimorar o inglês.

Maia Faria no nosso Trem

Fernando Brengel escreveu um carinhoso texto para nos apresentar Maia Faria, a próxima convidada do Trem das Lives:

“Conheci a Maia nos anos 1980. Fizemos teatro juntos. Passamos por duas experiências cênicas formidáveis. Uma delas levo especialmente impressa em minha alma: o TAXI, Teatro do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP.

A troupe do TAXI, gente inteligente e talentosa ao extremo, tornaram-se amigos especialíssimos.

Um dia a Maia evaporou. Foi para Paraty, morou com artistas, fez uma casa, das tantas que construiu, deixou-a para a moçada e voltou para São Paulo. Algo me dizia que por pouco tempo.

Nova abdução. Dessa vez o destino a levou para São Lourenço – MG. Fui atrás da minha irmã. Ela me levou para conhecer São Thomé das Letras. Pena que naquele dia os OVNIs não deram as caras.

“Oi Fê! Tô em Piraputanga!” What? “Mato Grosso do Sul”. Ergueu um baita Centro Cultural. Aulas de dança, teatro, música. Escreveu para jornais.

“Oi Fê! Mudei para Ponta Porã – MS. Estou com uma escola de dança junto com a Morgana e …”.

Bem, antes que a Maia pegue a avenida que liga a cidade a Pedro Juan Caballero, Paraguai, o Valdinho e eu a convidamos para o Trem das Lives desse domingo.

Uma justa e necessária homenagem a quem acredita na arte como meio de formar cidadãos e plantar futuros.

Uma justa e necessária homenagem a um ser humano ímpar.

Bem-vinda amiga. Esperamos você de braços e corações abertos.”

O Trem das Lives parte aos domingos, 18h00 via instagram.

Acesse: instagram.com/tremdaslives

Até lá!

Memorial de um irmão

Duas meninas e um menino. E mais uma menina! Dona Laura pensou que não seria bom que o garoto ficasse só. Tentou mais uma, duas vezes e as gestações não vingaram. Fez promessa. Não queria que o filho fosse só. Daria nome de Aparecido ao irmão para companheiro do primogênito. Deu certo. Penso em dois lados nessa questão… O lado preferido é o de ter sido desejado e, promessa cumprida, carrego Aparecido no nome. O outro lado… Nasci para ser irmão…

Passados tantos anos, tenho a certeza de ter nascido para ser protegido. E foi assim: ele me ensinou a jogar bola, a brincar no quintal. Ficava desolado por eu ser péssimo em futebol. E me deixava sentado à beira do campo, observando-o nas peladas de várzea de quase todas as tardes. Logo descobri que gostava de subir em árvores. Havia na extremidade oeste do campo de futebol um mangueiral, que denominávamos mangueirão. Eu gostava de subir até às “grimpas” e, na hora de descer… Tinha de aguardá-lo terminar o jogo. Não conseguia descer sozinho e ele vinha, com a paciência de Jó me trazer de volta ao chão.

Deve ter sido um saco ter tido um irmão como eu. Amanhecia e eu já saia atrás dele, querendo brincar, fazer tudo junto. De vez em quando ele se enchia e me dava uns cascudos. Mamãe resolveu a história ao modo dela. Fez com que nos abraçássemos sob cintadas – Pra vocês aprenderem a não brigar! Dali a pouco eu estava atrás dele, novamente. Outros cascudos. Minha mãe: – Você não tem vergonha. Fica andando atrás dele! Eu, não tinha. E da nossa infância ainda guardo um dia, ele exasperado por minha mãe demorar a servir o almoço e ela, sempre de maneira educativa, quebrou um prato na cabeça dele. Eu ri! E ela quebrou outro na minha, para não rir do meu irmão. Rimos os três.

Ele foi crescendo, menino bonito. Elogiado por todo o mundo. Eu era magrelo e desengonçado. Guardo comentários do tipo, “mas você é o irmão mais novo? Não parece de jeito nenhum”. Era a morte. Ele tinha cabelos negros e os meus eram castanhos, ele tinha nariz reto, o meu aquilino e os dentes! Ele tinha dentes alvos, certos, dando-lhe um sorriso encantador. Eu era e sou freguês de dentista. A pré-adolescência chegando para ele e eu ficando um pouco na infância, isolado de brincadeiras, saídas noturnas.

Com propensão à autossuficiência, bem pequeno eu o ajudava o “empresário” a coletar esterco nos campos próximos ao bairro, mas não o acompanhei quando ele foi engraxar sapatos e, em seguida, trabalhar como vendedor de uma loja. Uma briga árdua em casa com meus pais que desejavam que ele apenas estudasse, e ele querendo ser dono da própria vida, ter sua própria grana. Dona Laura querendo que ele estudasse. Meu pai Bino querendo uma vida melhor, longe do trabalho pesado. Meu irmão venceu o conflito e, resultado do acordo, foi estudar a noite.

Em casa era tudo dividido, tudo separado. Cada um com sua gaveta, sua parte no armário. Territórios a serem descobertos pelo irmão mais novo. Ele guardava revistinhas do Zéfiro no fundo da gaveta, embaixo de tudo. E eu, usufruía delas sob protestos por deixar sinais de ter mexido em coisas alheias. E houve pileques, primeiros namoros, primeiras transas que, na calada da noite, nossas camas no mesmo quarto, eram confiadas a mim. Solidificava ali uma confiança que levarei por todo o sempre, guardando aquelas e todas as outras confidências que mereci.

Além da bicicleta, dos livros, das revistinhas, eu gostava das roupas dele. Só me achava bem usando tal camisa ou camiseta. Mais conflitos! Não me recordo a briga, mas ela ocorreu e o resultado foram quase dois anos de silêncio. Eu já era adolescente! E como todo insuportável ser nessa idade decidi que não falaria mais com ele que, nesse ínterim, foi embora para a Aeronáutica, em Brasília. Guarda presidencial. Andando pra cima e pra baixo fazendo a segurança do sujeito da época. Tempos depois, sob muita conversa e mais conflitos, ele deixou a carreira. E contava, só em momentos ensimesmado, de ataques sofridos pelo quartel, os tiroteios noturnos enquanto ele, de uma guarita, atirava em alguém sem saber o porquê. Foi nesse período em que ele morava no Distrito Federal que voltamos a conversar. Uma visita aos familiares – era um mês de maio! – e ele veio passar o aniversário com uma família. Queria encontrar-se também com uma namorada de ocasião. A visita de um primo causou o impasse, já que esse viera para passear com meu irmão. Este me pediu para fazer companhia ao primo. Voltamos e nunca mais deixamos de nos falar.

Chegamos a momentos que são mais dele que meus. E guardarei discrição. Ele saiu de Brasília, ficou pouco tempo em Uberaba, um outro período em Ribeirão Preto e, por fim, se estabeleceu em Campinas. Em Ribeirão Preto conheceu a esposa, Mércia, casou-se e teve dois filhos, Ruchela e Rulian. E sem descuidar da família, continuou cuidando de mim.

Em São Paulo eu começava a vida artística. Era uma pauleira, mas meu irmão estava sempre do meu lado. Eu gostava de cantar e fui me apresentar em um festival. O Teatro Municipal de Santo André, no ABC, estava lotado e, sendo chamado, entrei no palco fingindo uma segurança que era pura fachada. Vi ao fundo, na plateia, meu irmão liderando uma torcida que era feita de amigos nossos, meus e dos compositores. E não pude conter o riso quando ele ouviu os acordes e calou a torcida no grito: – Calem a boca que ele vai cantar. Ganhei melhor intérprete!

Sempre morando em Campinas, ele vinha frequentemente a São Paulo. Chegava aonde eu morava e já descia com a caixa de ferramentas em mãos. Consertava fiação, encanamento, rebocava um buraco… Quando fui atropelado, em menos de uma hora ele estava ao meu lado. Quando me acompanhava em passeios noturnos, mantinha silêncio sobre os ambientes, o “povo doido” com quem eu andava. Era meu fiador e acompanhava as tretas para conseguir alugar um local para morar. Um dia decidiu: – Vou comprar um apartamento para você morar. Depois você me paga. E foi assim.

Depois do apartamento que comprei sem garagem, pois não gostava de carro e não queria dirigir, comprei um carro (geminiano!) e aos finais de semana ele vinha me ensinar a dirigir. E, também, cuidava do carro. Ficava atento para que eu pagasse impostos em dia, cuidasse dos freios, balanceamento de pneus… – Tá na hora de trocar esse carro! E eu, seguia o que ele determinava. Por conta do receio de minha mãe das enchentes frequentes em São Paulo e por eu não saber nadar, ele me deu uma boia. Eu andava por todo lado com a boia no banco traseiro e, era fatal, ao parar no semáforo vinha um garoto: – Moço, me dá essa boia!  E eu via o olhar incrédulo com minha resposta: – Não posso, não sei nadar!

Dessas linhas loucas traçadas pelo destino, eu precisaria do carro para conduzir meu irmão durante sua doença. Não sei por quantas vezes saí daqui de São Paulo para ir a Campinas e, de lá, rumar para Uberaba, onde meu irmão se tratou de um câncer e onde veio a falecer. Foram momentos difíceis, mas então já sabíamos estar em silêncio um ao lado do outro. Muito antes da doença eu já passara por longas horas silenciosas ao lado do meu irmão. Sabíamos pelo olhar ou pelo tom de voz quando estávamos tristes, alegres. Nas primeiras horas de toda e qualquer viagem tínhamos conversas acaloradas, colocando as coisas em dia. Quando tristes, nos calávamos, compreensivos e cúmplices.

Hoje meu telefone não toca quando o Corinthians ganha. Não tem mais aquela chamada sem fala, só com o hino do Timão para me fazer engolir a vitória do rival. Hoje, quando ouço Martinha, lembro da rivalidade que tínhamos, pois eu sempre gostei da Wanderleia. Me senti absolutamente desamparado quando ele faleceu. E fui aprender a fazer imposto de renda, a comprar e vender carro (um desastre!), a seguir minha vida com a presença da lembrança, cotidiana, às vezes suave, outras vezes intensa.

Eu tive um irmão mais velho. Valdonei. Ele teve uma vida diversa com cada uma das minhas irmãs e que, penso, sejam elas que devam contar, se quiserem, como foi. Sei que era um carinho especial pela Waldênia, um jeito de resolver coisas com a Walcenis, uma cumplicidade enorme com a Walderez e, com o Wander, ele foi pai, assim como foi comigo.

Eu tenho um irmão mais velho. Tão pai quanto meu próprio pai. E se recordo cada detalhe (tantos e tantos!) é por saber e constatar que tudo o que vivemos é maior que a tristeza, a saudade, a ausência, a morte. O que vivemos é lastro que me leva, fazendo com que eu encare a vida com serenidade e alegria. De vez em quando a tristeza bate pesado, mas é rebatida com lembranças como essas que, espero, sejam dignas dele, que faz aniversário neste 03 de maio, meu irmão, Valdonei Vinagreiro de Resende.

Luz, câmara, ação… Valdemar Jorge!

Próximo convidado do Trem das Lives, Valdemar Jorge no texto de Fernando Brengel:

Se você procurar o Valdemar Jorge talvez não o encontre. Mas se chamá-lo por Dema, daí sim muita gente sabe quem é.

Dema fez carreira na TV Cultura. Como produtor, assina um sem número de teleteatros, especiais, jornais e infanto-juvenis do porte do premiado Bambalalão.

Paralelamente ao ritmo insano da TV, durante anos dividiu seus conhecimentos com alunos da ECA-USP, em que se formou, Oswaldo Cruz e UNIP. Um professor criativo, querido e extremamente respeitado.

Nos últimos anos dedica-se à Noturna Filmes, sua empresa, bem como à carreira literária. Escritor de mão cheia, produziu biografias como as de Inezita Barroso, bem como artigos e textos a respeito de Fernando Faro e Antônio Abujamra.

Nosso convidado desse domingo, trará reflexões importantes a respeito de comunicação, literatura e de outros tantos temas.

A seguir, um depoimento em que ele conta um pouco dessa rica trajetória. Assista. E, no domingo, embarque com a gente.

Luz, câmara, ação. Agora é com vc Deminha.

Serviço:

Trem das Lives

Domingo, 18h00 no link:

Instagram.com/tremdaslives

Chico Rei entre nós

Chico Rei / Divulgação

Chico Rei, reza a tradição, veio do Congo para Ouro Preto, em Minas Gerais, por volta de 1740. Após muita luta conquistou a própria alforria e libertou outros escravizados. 

Joyce Prado, nossa convidada do Trem das Lives do próximo domingo realizou o documentário , “Chico Rei entre Nós” explorando faces atuais de uma situação que vem de longe.

Há outros como Chico Rei, lutando e resistindo? A resposta primeira é sim, através de obras como esse documentário e outros trabalhos da diretora Joyce.

Diretora e roteirista à frente da Oxalá Produções, Joyce realiza filmes, lives e documentários voltados primordialmente às questões do negro.

Além do longa “Chico Rei entre Nós”, destacam-se também em sua filmografia “Fábula de Vó Ita”, “Okán Mimó: Olhares e Palavras de Afeto”, entre outras produções.

Joyce estará conosco para contar um pouco de sua carreira, bem como antecipar as previsões para o Oscar 2021. Tudo ao vivo, sem cortes.

Veja abaixo o trailer e, aos interessados, o filme pode ser visto via @todesplay.

Outros paulistanos

Da janela da clausura dessa interminável quarentena vejo Rubão, na porta da doceria. Ele não leva jeito de quem gosta de doces, mas como a doceria vende outras coisas… Meu conhecido deve ter por volta de 40, 50 anos. Pode ser mais, ou menos. Ninguém mantém o frescor da pele morando na rua. E é na Avenida Brigadeiro e em outras calçadas de vias próximas onde ele reside.

Rubão está sempre alegre, trocando pouquíssimas palavras com os transeuntes, mas estabelecendo papos enormes com quem só ele vê. Tem um olhar arguto e uma percepção notável. Provavelmente foi o primeiro indivíduo a registrar que eu havia parado de fumar. Nunca mais pediu-me cigarro. Percebo, quando o encaro, um certo olhar de superioridade. Ele é livre, e eu sou preso a convenções, ao modo de me vestir, transitar, viver… Ele me olha com desdém de quem é livre e, da janela onde o vejo, sinto inveja.

Havia um outro conhecido cuja tristeza incomodava. Tinha um olhar desesperador e, me parece, já perdera a fala no silêncio imposto por todos os que o ignoravam, caminhando como se não o vissem. Diferente de Rubão, que é alegre e que se deita na calçada como quem toma sol em praia paradisíaca, esse outro vivia encolhido nos cantos e, inesquecível, durante chuvas permanecia agachado, como quem toma um banho restaurador, ou sofre um castigo. Era um homem triste e toda a tristeza ficava no olhar, quando entregávamos algo a ele. Também como Rubão recusava roupas limpas. Um dia cismei e teimei em levar calça e camisa para ele. Olhou-me silenciosamente, com expressão de não precisar daquilo e seguiu, lentamente, evitando me olhar por algumas semanas. Um dia desapareceu. Aliás, um dia percebi que não o via há algum tempo.

Observo a postura do Carlos, que guarda carros três vias acima da rua onde moro. – Com licença, senhor, vou trabalhar! É assim que ele se despede, após conversas rápidas enquanto compro frutas de um ambulante que mantém um carrinho na esquina da Artur Prado com a Rua Pio XII. Carlos tem uma subserviência latente, de quem descobriu na aparente mansidão um meio de sobreviver à violência urbana. Atento às vagas de ocasião, orienta motoristas que precisam estacionar. E lá vai ele, com leves mesuras, cabeça baixa, com os braços indicando à esquerda, à direita. E informa que guardará o carro enquanto o dono não estiver presente. Lembro a arrogância dos que nem um mero olhar dirigem à “essa gente”. Já vi em um e outro momento quando entregam uma moeda, com desprezo. Carlos ignora, e volta sorrindo, conversando com o vendedor, comigo. Sem nunca deixar a atenção ao trânsito. – Com licença, senhor, vou trabalhar!

Também na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bem em frente ao início da Alameda Ribeirão Preto e rente à grade que cerca o supermercado, há uma cabaninha feita de material alternativo, encontrado certamente pela dona, uma moça tensa. Tenho medo de olhar para ela. Aos gritos e xingamentos para o ar, para os veículos que passam, para aqueles passantes que a incomodam, ela me lembra aquelas mulheres fortes, dispostas a tudo para defenderem seu espaço, suas crias. Descobri, com o tempo, que é o tipo e a forma de olhar que a incomoda. Percebi também que a luta é pelo que é dela, aquela cabana onde, durante algum tempo, ela dividiu com um namorado. As brigas eram notáveis. O dono da banca de jornais, bem próxima, já manifestou ódio pela moça. Um dia desapareceu a moça, a barraca. Pensei com meus botões: – conseguiram! E cogitei que pudessem ter arranjado algum pretexto para prendê-la, matá-la. Cheguei a vê-la em outra rua, me alegrando por sabê-la viva. E, mais algum tempo ela voltou e está lá, no mesmo lugar. O passeio é público, logo é dela. E ela mora onde bem quer.

Esses paulistanos certamente incomodam muita gente. É fácil dizer que eles são “sujos”, que são “vagabundos”, que “deveriam trabalhar”, que deixam a cidade “feia”. Lá atrás, em algum momento, essa gente foi para a rua. Sem possibilidade de uma outra vida, vivem como é possível. Alguns com serenidade, outros com tristeza, aqueles com raiva e outros, ainda, com a indisfarçável liberdade de padrões, de formas, maneiras.

Vejo o trabalho do Pe. Lancelotti e de outros grupos que apoiam esses paulistanos. Trazem comida, agasalhos no inverno, prestam socorro aos que ficam doentes, brigam por eles quando necessário. Pessoalmente vejo-os como pessoas corajosas por terem se apossado, insistido, resistido a tudo e todos. São sobreviventes! E ouso mesmo a dizer que há momentos felizes, quando por exemplo vejo Rubão brincando com o garçom do bar que fica na esquina. O rapaz trabalha para evitar que o outro perturbe os clientes. Às vezes grita, outras o pega pelo braço e indica direção oposta, mas também é quem o alimenta, brinca e, solícito, busca isqueiro para acender o cigarro do amigo.

Antes de terminar este volto à janela. Rubão está lá, firme e forte em frente à doceria. Parado de forma a observar a televisão acima dos freezers. Está lá, com a postura de dono da rua, peito aberto, corpo ereto, quase desafiador. Como se dissesse “a rua é minha, daqui não saio, ou saio quando quiser”.  Está sem máscara, sorridente, falante, os braços dançando pelo ar em papo com interlocutor invisível. E constato o medo que sinto das ruas, da pandemia, do contágio. E torço, rezo, para que tudo corra bem para esses meus caros vizinhos.

Até mais!

O Ridico e o Lambrecado

Felicidade é não ser ridico e lambrecar o prato

O cérebro, que desconhece os limites do ir e vir, leva-nos para muito além do espaço e do tempo e, para isso, enche nossas noites de sonhos. Tempos de reclusão imposta ao corpo, dei de sonhar com gentes da minha infância, cenários já desfeitos por reformas e mudanças. É incrível a quantidade de imagens reservadas na tal massa cinzenta e que, imprevisíveis, brotam sabe-se lá por qual motivo nessas noites pandêmicas. Eu que não vou tirar emprego dos discípulos de Freud. Ocorre que, lembrando ao acordar de sonhos recentes, com esses emergem palavras lá das profundezas das memórias. Algumas, voltei a usar.

“Me lambrequei todo!” Disse irritado após um acidente na cozinha quando, tentando socorrer uma tampa que caia, deixei uma vasilha cheia de gororobas sujar minha barriga, minhas pernas, o chão. “O que aconteceu?” Acudiu-me o Flávio e eu, irritado: “Tô todo lambrecado!”. Ele riu, já meio que habituado às estranhas palavras que tenho usado. “Você inventou essa palavra”. Claro que não, lá em Minas, na infância, a gente usava direto. Lambreca, lambança, lambuzado… E a memória se fez presente.

Um dia deixaram Walcenis, minha irmã, tomando conta dos sobrinhos. Dois, três? Com certeza, dois sobrinhos e nosso irmão caçula. Logo, no mínimo três crianças. Lá pelas tantas, uma delas encheu as fraldas no que resulta na plenitude da palavra em questão: “Ela ficou toda lambrecada de merda”! Eram sobrinhos, minha irmã não tinha traquejo nem a sina das mães em resolver tal problema e o jeito foi apelar pedindo socorro à D. Doralva, nossa vizinha que, prontamente, deu banho na criança feliz e aliviada.

Antes de entrar na segunda palavra, ridico, cabe uma digressão. Eu já pesei 55kg! Em priscas eras, com 1,84m eu era muito magrelo. Foi marcante ligar para Uberaba e dizer para minha mãe: “- Estou pesando 56kg!” Ela festejou e o tempo passou. Corre por aí que, com a idade, a gente engorda um quilo por ano. Soma-se à idade comilanças durante a pandemia e… Me descubro com 96kg.  E constato que lá se vão  uns 41kg, ops,  anos de quando liguei para Dona Laura.

96kg não seriam problemas se a distribuição desses não fosse cruel. Certamente, de todo o peso adquirido a maior parte está concentrada na pança (palavra adequada para a atual situação). A gente segue a vida, de bermuda e camiseta, até o momento em que se faz necessário usar uma calça comprida e… uma, duas, três, quatro calças destinadas para doação por excesso de cintura do dono. Bora retomar antigos hábitos e assumir um regime.

Hora da refeição peço ao Flávio (ele, de novo!) para abastecer meu prato. O dito cujo come feito um passarinho e eu, justificando meu apelido palmeirense, encho o prato feito um porco. Ao pedir ao jovem esguio e equilibrado para me servir sei, por experiência de vida, que ele naturalmente diminuirá as minhas porções de refeição. Entusiasmado com a função ele, ao invés de uma colher de arroz, por exemplo, passou a me servir meia colher. “Ridico!”

O embate estabelecido entre a gula e o comedimento resultou no conflito exposto com a palavra vinda lá da infância: Ridico. Ele riu e corrigiu: “- Ridículo?” “Não, ridico mesmo, você está ridicando comida!”. Nova acusação de estar inventando palavra e, confesso, a dúvida bateu. Será que existe “ridico” ou só a gente falava assim? Antes de ir ao dicionário apelei para o argumento de “autoridade”: nós mineiros falamos assim. E o cara me olhou com aquela expressão de “tá inventando coisa”. Pois bem, está lá, bem claro. Ridico: avaro, sovina, mesquinho. Ele sorriu com a definição e sentenciou: “Você que pediu!”.

E assim estou eu, tentando comer menos e evitando me lambrecar. Poderia terminar falando do incrível universo dos sonhos que, de quebra, levam-nos a lembrança de palavras e expressões tão antigas quanto nossa memória. Prefiro reclamar: Estou com saudade de um bom pedaço de pudim, mas o ridico – exímio chef de pudins – disse que engordarei quatro kg com a iguaria. Vida difícil!