O silêncio

DSC01080
O Mosteiro guarda o silêncio 

Ontem estive no Mosteiro de São Bento, no centro velho de São Paulo. O silêncio da nave mergulhada no caos paulistano foi quebrado por monges orando suavemente. Doce cantiga que remete a outras eras. O latim substituído pelo português mantém a delicadeza da “Ave Maria”, atingindo o coração de todo aquele que espera pelo aconchego materno “agora e na hora da nossa morte”.

Os monges falam pouco e entre os beneditinos há uma orientação para que se cultive o silêncio. É fascinante o modo de vida daqueles que economizam palavras, favorecendo a reflexão, a meditação. monges, eremitas ou o cidadão comum, todos os que cultivam o silêncio têm aparência calma, olhar tranquilo, semblante sereno.

E cá estou, ironicamente, palavreando excessos para enaltecer o silêncio… todavia, busco e anseio por ele.

Se comparado com o passado reduzi expressivamente o contato com jornais, televisão e similares. As razões são simples: Com chuva, congestionamento, falta disso ou daquilo ninguém está dispensado do trabalho, portanto… Sobretudo, há o negativismo de uma equivocada premissa que entende notícia boa como notícia ruim; sobram desgraças nos jornais cotidianos. Outro exercício é evitar a internet após jogo de futebol, quando rolam manifestações de gente que sempre esquece que outros jogos virão…

Difícil embate entre o excesso e a quietude onde parte da população se resolve pela fala e tantos outros entram em parafuso quando lhes é imposto o silêncio. Situação complicada onde sobram direitos e faltam deveres… Enfim, quem sou eu pra solucionar essa questão! O jeito é apelar para a poesia de Cecília Meireles e, forçosamente, cultivar o silêncio e nele, se possível, aprender alguma coisa.

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a terra.
Onde termina o Céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso.
Sem pensar.

.

CÂNTICO 03

NÃO DIGAS ONDE ACABA O DIA

Cecília Meireles
In Cânticos, 1982

 

Até mais!

Lamento por Ribeirão do Carmo

IMG_20150626_195453a

O ouro de Minas matou muita gente.

Escravizou outro tanto,

Favoreceu reis e bandidos

(Se é que há diferenças entre esses!)

Enriquecendo boa parte deles.

A velha Ribeirão do Carmo testemunhou,

Gostou e mudou de nome.

.

Quanto já se sabia do ouro de Minas?

Muito tempo, dizem.

Só o quinto dos achados permitiu aparecer.

Quando os reis de Portugal tudo queriam

Nada saia da terra; raro era até a pirita,

O ouro dos tolos que deu vez ao verdadeiro

Quando Portugal contentou-se com o tal quinto.

.

Saiu muito ouro de Ribeirão do Carmo

Tornada Mariana, primeira capital de Minas,

Acostumada desde nascença aos conchavos

Acertos, tramoias da gente de toda espécie,

Personagens da corrida do ouro.

.

Escasseado o ouro recolhido à mão

A necessidade de máquinas, conhecimento,

Deu vez aos ingleses, notórios mineiros.

Sua Majestade formou seis companhias

Todas para extrair ouro de Minas.

Ancestrais da Vale, a vilã da hora.

Mariana, que foi Ribeirão do Carmo,

Tudo viu, tudo aceitou.

.

Os ingleses ficaram com o ouro

Os EUA explorando o ferro.

Negociantes no quintal alheio,

Aboliram o quinto dos achados

Pela propina aos sem caráter.

.

Ah, MInas Gerais!

Se fosse apenas o ouro, se quisessem apenas o ferro…

Há lítio, berílio, zinco, titânio, nióbio, chumbo

Engrossando a lista dos metais.

Há também enxofre, ocre, ardósia, bário, grafita,

E tantos outros não-metálicos,

Que o pobre de Mariana que foi Ribeirão do Carmo

Não consegue entender, nem sabe como administrar,

Muito menos explorar.

.

Explorado, vê a lama descendo.

Assustado descobre chefes,

Líderes, diretores, arraia miúda,

Escondendo os donos de tudo:

Ingleses, Americanos,

Gente de Percival Farquhar.

.

Aqueles de memória pródiga

Lembrarão a Belgo-mineira,

Luxemburgo por trás de tudo;

Mas é bom lembrar Washington

Não o homem, a capital de acordos

Fazendo de conta que seria nosso

O ferro que processado vendem (caro!) a nós.

.

Ah, mineiros de Mariana,

Ah, capixabas de tantos ais!

Que sabem de tudo isso?

Que levarão de todo o horror?

Não ficam com os minérios

Nem com o quinto dos achados

Nem com royalties ou similares

De metais e não-metais.

.

Ganharam um rio de lama

Matando Minas, ameaçando o mar.

E Mariana silenciosa,

Sonhando quando Ribeirão do Carmo

Livre da ambição desmedida

Vinda com ouro, ferro e tudo o mais.

.

Valdo Resende,

Novembro/2015

Desde Drummond!

E o poema poderia ser apenas um eco do passado…

“Lira Itabirana”, Carlos Drummond de Andrade, 1984

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

Laura

Estarei distante neste aniversário de mamãe. Este ano, sem festa, lembramos o encontro do ano que passou e quero registrar o momento feliz da D. Laura com os filhos e a mais nova bisneta. Feliz aniversário, mamãe!

IMG_20141101_173729
Com Waldênia
IMG_20141101_165211~4
Com Walcenis
IMG_20141101_172955~2
Com Walderez

IMG_20141101_165646~3

IMG_20141101_184918
Com Maria Luisa

Que Deus abençoe e dê saúde, paz e alegrias para nossa mãe.

Até mais!

Para Carlos Moreno

Carlos Moreno está em Florilégio II, Nas Ondas do Rádio. Foto João Caldas.
Carlos Moreno está em Florilégio II, Nas Ondas do Rádio. Foto João Caldas.

Das boas coisas que acontecem na vida: Neste final de semana dividirei um palco, em Praia Grande, com Carlos Moreno, na Mostra Teatral que encerra o Arte na Comunidade 3. Uma honra! Carlos Moreno está em “Florilégio Musical II, Nas Ondas do Rádio” e eu sou autor e diretor de “Brincando Entre a Serra e o Mar”.

Como a maioria dos brasileiros conheci Carlos Moreno via televisão. Posteriormente tive a oportunidade de vê-lo em outros trabalhos, principalmente no teatro, sempre admirando o ator talentoso, o grande profissional. Foi em reuniões e eventos promovidos por Sonia Kavantan que nos conhecemos. Em comum, além da amiga, somos quietos, discretos e reservados; ou seja, nada além de papos econômicos, muita cordialidade e, de minha parte, uma dívida.

Estreias teatrais são momentos tensos e, frequentemente, imprevistos causam grandes problemas. Quando a dificuldade é no palco, em cena aberta, dizem que a solução vem com a ajuda dos “deuses do teatro”; todavia, é preciso entrar em cena e para que isso ocorra é necessário que tudo esteja pronto, que cada profissional cumpra com sua parte no complexo ato de montar um espetáculo.

Foi há muito tempo! Dirigi, para a Kavantan & Associados, a peça “Lampião Jr. e Maria Bonitinha”, de Januária Alves. Houve um problema com a profissional responsável pela confecção dos figurinos e os atrasos na entrega do vestuário foram inevitáveis. Mais que atraso, nas vésperas da estreia faltava concluir ajustes e acabamentos em algumas peças. Uma difícil corrida contra o tempo.

Com a estreia marcada para sábado, Sonia Kavantan lembra que foi na véspera que Carlos Moreno chegou ao teatro, oferecendo-se para nos ajudar. Na minha memória ficou o dia da estreia, quando andando de um lado para outro finalizando som, luz, adequando cenários, atendendo chamados de todos os lados, passei pelo subsolo do palco – uma imensa sala de ensaios e afins – vi Carlos Moreno sentadinho no chão, quietinho, agulha e linha nas mãos, terminando uma peça de roupa. Quase alheio ao burburinho daquele momento, Carlinhos – aqui posso denominá-lo assim – estava concentrado, atento ao trabalho e, em dado momento, serviço concluído afastou-se discretamente; como sempre.

Leciono para o curso de Propaganda e Marketing e sempre menciono a longa parceria entre Carlos Moreno e a Bombril. Falo do grupo Pod Minoga e, recentemente, lembro as edições do Florilégio. Quando pertinente conto essa história do ator e afirmo, com a experiência que a vida me propiciou, que os grandes são generosos.

No próximo sábado estaremos na mesma cidade, no mesmo palco. Tomara que tenhamos um dia tranquilo. Não sei se teremos momentos para conversar, trocar ideia, recordar histórias passadas; por enquanto fica aqui a lembrança de um gesto pelo qual expresso minha profunda gratidão.

Obrigado, Carlinhos!

Três anos de “Um Profissional Para 2020”

Autores presentes no lançamento: Fernando Brengel, Victor Olszenski, Claudia Regina Bouman Olszenski, Vania Maria Lourenço Sanches, Valdo Resende e Vania de Toledo Piza
Autores presentes no lançamento: Fernando Brengel, Victor Olszenski, Claudia Regina Bouman Olszenski, Vânia Maria Lourenço Sanches, Valdo Resende e Vânia de Toledo Piza

Há três anos, exatamente no dia 19 de setembro de 2012 lançávamos, na Livraria Martins Fontes o livro “Um Profissional para 2020” pela B4 Editores. Naquele dia, depois de um exaustivo trabalho que durou muitos meses, estávamos prontos para o teste vital: o encontro com o público.

De lá para cá tenho tido muitos bons momentos em função deste trabalho e creio que minha vida, assim como a de meus companheiros, tomou cores diferenciadas com esse lançamento. Pensei e tenho certeza do quão é necessário agradecer.

Organizei o livro “Um Profissional para 2020” e contei com preciosas colaborações. De Claudia Regina Bouman Olszenski a calma e firmeza na hora de decidir; de Victor Olszenski a capacidade de negociar com diplomacia impecável e de Fernando Brengel, através da Presença Propaganda, uma incrível divulgação que colocou o livro em grande destaque nas mídias sociais.

O elenco de autores completa-se com Carlos Eduardo Costa, Elen Gongora Moreira, Luís Américo Tancsik, Regina Cavalieri, Vania de Toledo Piza e Vania Maria Lourenço Sanches, mais nosso caríssimo prefacista, Mitsuru Higuchi Yanaze. Quero lembrar e registrar as colaborações de Kelly Cristiane Silva (auxiliando Regina Cavalieri) e Regina Ferreira Luppi (participando na pesquisa que deu origem ao capítulo sobre “O comportamento nas redes sociais”).

Outros colaboradores não devem ser esquecidos. Fátima Borges, nossa revisora; Adriana de Aguiar Silva, apoiando-nos com materiais gráficos; Cadu Blanco, nosso primeiro contato com os editores e Marta Blanco, que apoiou-nos incondicionalmente para a concretização do projeto.

Uma, entre as belas  peças criadas pela Presença Propaganda, sob direção de Fernando Brengel
Uma, entre as belas peças criadas pela Presença Propaganda, sob direção de Fernando Brengel

Meus mais sinceros e profundos agradecimentos aos parceiros, amigos, conhecidos, aos profissionais envolvidos – perdoem se a memória falhou e alguém não foi citado – por esse trabalho do qual me orgulho muito. Gratidão é a palavra que sintetiza esse momento e momentos posteriores, para todos aqueles que dedicaram parcela do próprio tempo para ler cada capítulo do nosso livro.

Nesta última semana dediquei algumas horas para retomar “Um Profissional Para 2020”. Constatei, sem qualquer receio de errar, que meus colegas acertaram o caminho com rara precisão. Nosso livro mantém-se atual nos temas abordados e certamente é ponto de partida para nortear todo jovem que pretende atuar nas áreas de marketing, publicidade e administração.

Por tudo isso, reitero agradecimentos e deixo aqui meu carinhoso abraço aos companheiros de jornada, torcendo sempre para que nosso trabalho possa resultar em caminho para os profissionais de amanhã.

Beijos carinhosos,

Valdo Resende