Quase dezembro e as calçolas da rainha

Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors
Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors

Hoje volto ao trabalho após vencer uma pneumonia. Tento esquecer a doença; o dia amanheceu ensolarado e o vento, bastante suave, invadiu meu apartamento. Após a rotina matinal ganhei a rua, com saudade do meu Bexiga. Não fui “caminhando contra o vento”, pois com pneumonia não se brinca, nem caminhei “sem lenço, sem documento” já que, desde os tempos da Ditadura descobri que sem lenço, tudo bem, mas caminhar sem documento é temeroso.

A música de Caetano Veloso, “Alegria, alegria”, veio com o vento, com “o sol de quase dezembro”. Nas bancas, dois mineiros, movimentando o país. A senhora mineira venceu o senhor mineiro. A imprensa diz que a senhora venceu por pouco… Foram 3.459.963 pessoas que fizeram a diferença. Eu que não vou chamar 3 milhões de pessoas de pouco. Pela lei, bastava uma para a chamada maioria simples. Logo, 3 milhões é gente demais da conta, sô!

Como tomei para este dia uma frase atribuída ao Dalai Lama – NÃO PERMITA QUE O COMPORTAMENTO DOS OUTROS TIRE A SUA PAZ – deixei as pinimbas políticas para escanteio. O que me ajudou nessa postura, pasmem, foi saber das calçolas da Rainha Vitória via site Glamurama, comandado por Joyce Pascowitch. Alguém pagou R$ 24 mil, em um leilão, pelas peças íntimas da rainha.

O que será que o indivíduo fará com as calçolas da Rainha Vitória? Estarão limpas; foram usadas? Uma vez, em Buenos Aires, me deparei com uma camisa do Pelé, usada em embate contra o Boca Juniors em 11 de setembro de 1963; o jogo foi pela Copa dos Libertadores. O fato mudou tanto a minha vida quanto a possibilidade de encontrar, em outro museu, as calçolas da rainha inglesa…

O sol continua brilhante, o dia está lindo. Preparando minha volta às aulas percebo nitidamente o final do ano e fico mais certo do “quase dezembro”. Sinto “os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos…”

Mês melhor que dezembro é difícil. As pessoas ficam mais doces, delicadas, desejando coisas boas mutuamente; muitas outras sonham com Papai Noel e possíveis mimos natalinos. Sendo férias é mês de reencontro, reconciliações, celebrações de amor, amizade e fraternidade. Enquanto dezembro não vem, “eu vou”: com vontade de terminar bem o que comecei em janeiro; com o desejo de continuar, atravessar mais um ano e, seguir em frente que é o melhor destino pra todos nós. “Eu vou. Por que não? Por que não?”

Até mais!

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O bom combate

o bom combate

Em meio à batalha vem a lembrança de  Paulo e seu bom combate (2 Timóteo 4,6-8).

O bom combate, esclarece o apóstolo e santo, é feito com fé e consciência.

Fé em Deus, nos homens, na vida, no futuro, no meu país…

Consciência que vem da informação, da verificação da veracidade desta e daquilo que nos foi transmitido pelos nossos pais e mestres.

Grande desafio: Exercitar a ética, a hombridade e o caráter em batalhas cotidianas.

Vivendo o combate, é óbvio, escolhemos momentaneamente um lado.

Momentaneamente porque não somos desse ou daquele partido;

deste ou daquele candidato.

Somos do Brasil!

A batalha final está logo ali, gritando exausta para que tudo termine logo.

A vitória, seja de que lado for, será a escolha do nosso país.

Por isso, é ato de fé, entregaremos todas as armas.

Certamente, todos os que lutaram o bom combate,

Respeitarão a escolha da nossa gente.

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Valdo Resende, 21/10/2014

“Arte na Comunidade 2” em Ituiutaba

Neste sábado, dia 30, às 19 horas, na Praça Getúlio Vargas, em Ituiutaba, teremos a Mostra Teatral que é parte da programação do projeto ARTE NA COMUNIDADE 2. Além das escolas participantes do projeto, serão apresentadas duas outras peças:

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Lilia Pitta e Ronan Vaz, Histórias do Pontal de Minas.

– “Histórias do Pontal de Minas”, de Valdo Resende, criada exclusivamente para o projeto Arte na comunidade 2. Fatos reais e fictícios das cidades participantes do projeto estão nas aventuras vividas pelas crianças da região, contadas e interpretadas pelos atores José Luiz Filho, Marcelo Ribas, Ronan Vaz e Lilia Pitta. É o próprio autor quem dirige a montagem.

– “Mágico de Oz”, musical com o Grupo Ciranda de Cena de Uberlândia, Minas Gerais,  resgata valores como a amizade, os ideais da família e a valorização da cultura popular. A trama conta a história de Dorothy, que vivia feliz com seus tios até ser levada por um furacão a outro mundo. Na tentativa de voltar para casa ela sai à procura do grande OZ, o único que poderá lhe ajudar. Nesta busca, Dorothy encontrará muitos perigos e desafios.

José Luiz Filho e Marcelo Ribas, Histórias do Pontal de Minas
José Luiz Filho e Marcelo Ribas, Histórias do Pontal de Minas

Após as apresentações haverá sorteio de prêmios para o público presente. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 é patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata. Para mais informações, acesse a página do projeto no Facebook e fique por dentro de toda a programação.

Ficaremos honrados com a presença de toda a população de Ituiutaba e região. Compareçam!

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Pausa

Um pequeno recesso para repouso e voltarei no dia 1 de setembro. Espero reencontrar todos os que me honram com visitas ao blog, acompanhando minhas publicações. Pensei em “Nu com a minha música” de Caetano Veloso, deixando um pouco de poesia em forma de canção.

 

Penso em ficar quieto um pouquinho

Lá no meio do som

Peço salam aleikum, carinho, bênção, axé, shalom

Passo devagarinho o caminho

Que vai de tom a tom…

até a volta!

 

Nosso Deus, o celular

nosso deus, o celular

Nesta manhã li que uma mãe atirou o filho na parede porque ficou nervosa ao ver a criança mexer no celular. O garoto, de dois anos, faleceu. Ela escondeu o menino de dois anos no interior de um sofá e, depois, acionou a polícia denunciando o desaparecimento da criança. O fato nos dá a medida extrema do lugar ocupado pelo poderoso aparelho em nosso cotidiano.

Tenho a impressão de que o menor uso do celular, na atualidade, está no objeto como meio de comunicação em si, indispensável. O que é realmente necessário dizer ao nosso interlocutor? Se alguém diz que vai para algum lugar, quando nos comprometemos a comparecer a tal encontro, qual a real necessidade de ligações do tipo “estou saindo”, “estou no trânsito” “já estou aqui”? Ontem presenciei quatro ligações “importantíssimas” de uma companheira de viagem. Na rodoviária: “- já estou dentro do ônibus”; após a partida: “-Acabamos de sair”; uma hora e pouco depois: “- Onde você estava, porque não atendeu? Fiquei ligando, ligando… já passamos Ribeirão Preto”. Mais tarde: “- Já passamos Jundiaí” e, poucos minutos depois: “-Entramos na Marginal”. Não me cabe julgar o que cada um classifica como importante para ser comunicado. Casos como o que presenciei ontem, penso, são para psicólogos.

O celular comporta um monte de joguinhos. Também li que esses passatempos são ótimos e atendem diferentes tipos de necessidades. Aqui, acredito que é só estabelecer o que é passatempo e distinguir isso de vício que tá tudo bem. Vício, é bom lembrar, instala-se sorrateiramente em nossas vidas. Afirmamos que bebemos socialmente, fumamos só um pouquinho e todos nós sabemos como, sem controle, onde isso vai parar.

Quando dizem que o celular é instrumento de trabalho, parceiro para alguns, ele não deixa seu caráter fundamental de meio de comunicação. Acessamos nossas contas bancárias, participamos de reuniões estando do outro lado do planeta, vendemos e compramos tanto o necessário quanto o cacareco inútil e por aí vai. O celular, e todo avançado derivado desse, é o grande e poderoso meio de comunicação do século XXI.

O ser humano nunca se contentou em ser um minúsculo ponto diante da grandiosidade do planeta. Na atual fase da nossa civilização extrapolamos os limites físicos e criamos um mundo virtual. Estamos neste através da informática, com infinitas possibilidades, limitada para um considerável contingente que se contenta em usufruir tão somente das redes sociais. Tenho a impressão de que é aqui que reencontro a mãe do garoto assassinado em Minas Gerais.

Pessoas que residem em cidades praieiras convivem com a falsa igualdade propiciada pelo traje de banho. Seminus, bronzeados, alegres ao sol, parecemos todos iguais perante um belo verão. Temos essa possibilidade “melhorada” no mundo virtual. Tiramos as manchas da pele, as rugas e somos amigos de personalidades importantes, de artistas. Nas redes sociais esbanjamos felicidade; a comida é farta, a bebida é abundante. Ampliamos nosso mundinho para milhares de amigos e, suprassumo da rede, somos seguidos por outros. Nas redes, conta mais quem tem maior número de seguidores. Quando isso não ocorre, contentamo-nos em seguir, em fazer parte da vida de quem admiramos. Nas redes sociais podemos simular o mundo que queremos.

O telefone de antigamente era pra falar com o parente distante, chamar o médico, a polícia, os bombeiros. Usávamos o dito cujo até para conversar com amigos, mas tínhamos o limite da conta telefônica – sempre caríssima! – e a restrição da família, já que era raro mais que um aparelho por residência. Hoje, quase todo mundo tem telefone. Smartphone é o termo adequado. Isso é muito bom; um inquietante receio é o de que algumas pessoas, como a tal mãe, tenha só o tal smartphone. Um aparelho que subverte a realidade da pessoa colocando-a em um mundo por essa idealizado. Quando esse mundo é ameaçado a reação é brutal e, horror dos horrores, uma mãe joga o pequeno filho na parede.

Seria estúpido condenar à fogueira tanto o celular quanto seus usuários. A história já teve sua cota de fogueiras que só fizeram retardar, por pouco tempo, o avanço propiciado por novos objetos, novas tecnologias. Longe de proibir, de impedir, cabe educar. Esse triste fato volta a fazer com que se bata na mesma tecla da educação, da formação adequada que é direito de todo e qualquer cidadão. O processo educacional é algo demorado e grandes transformações  levam tempo. Mas não custa insistir na reflexão. Todas as instituições que buscam o bem comum podem discutir e orientar as pessoas para o uso adequado do celular, da internet e similares. O assassinato do garoto mineiro é um ápice, a ponta de um iceberg que tende a crescer.

 

Até mais!

Os assassinos sorridentes

(Abandono - Oswaldo Goeldi)
(Abandono – Oswaldo Goeldi)

A TV exibe imagens de dois policiais em uma viatura

Eles não estão tensos nem aparentam nervosismo

Trabalho cotidiano, eles trafegam pela cidade.

Equívoco histórico, os tiras decidem a vida alheia.

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A TV ressalta detalhes da captura de três crianças

Os meganhas mantêm o sorriso nos lábios

Eles estão seguros e confiantes

Eles são poderosos, armados, fardados.

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A TV exibe rotas de conhecida desova

Os dois homens armados atiram para o alto

Os dois soldados exigem que três crianças sejam homens

Os meninos choram

Três nadas perante armas permitidas pela nação.

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A TV não exibiu assassinatos e, portanto,

Diz a autoridade,

– Está aberto o inquérito! Cabe averiguação.

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Um garoto morreu,

Outro se fingiu de morto, malandro do século XXI,

O terceiro foi solto sob ameaças.

Os soldados continuaram sorrindo

(disseram que estão presos; a TV não mostrou!)

E a nação, ah, o Brasil só se abala por um 7×1.

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Julho/2014