Vinícius, Pátria Minha

Eu, que não sonho futebol, amo a minha terra. E sem saber direito o que dizer ou o que escrever nesse momento , apelo para o poeta:

 


Pátria Minha

Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria…


…a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.


Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…

…Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!


Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo…

 

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.


Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!


Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

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Nota:

O poema completo está publicado em:

“Vinicius de Moraes – Poesia Completa e Prosa”

Editora Nova Aguilar – Rio de Janeiro, 1998

A fogueira de São João

 

Festa de São João - Portinari
Festa de São João – Portinari

Das coisas todas de junho gosto muito da fogueira de São João. Junho vem com frio, um desconforto danado que nos obriga a ficar encolhidos, reclamando por temperatura mais alta. Da fogueira vem, sempre, um calor gostoso formando uma espécie de cúpula protetora, tornando momentaneamente agradáveis as noites de inverno.

Penso nos homens primitivos, em um abrigo qualquer, contando com a lua para iluminar noites perigosas, sempre à mercê de incontáveis perigos. Fora a lua, em meio a tempestades tenebrosas, os nossos irmãos primitivos aguardavam a fugacidade de um raio para visualizar o entorno e, com isso, buscar um mínimo de segurança. De repente o homem dominou o fogo e passou a contar com o maior conforto de então: uma fogueira!

Fogueira para espantar animais perigosos e até outros, irritantes, como mosquitos e similares. Fogo para tornar confortável uma gruta fria, aquecendo a comida, enchendo o ambiente de cheiros apetitosos. Lá pelas tantas, algum “espírito de porco” resolveu assar seres humanos no lugar de bichos… Se os sacrifícios com animais não são nada interessantes, pior é pensar em uma garota sendo queimada para aplacar deuses ou  desses obter benefícios.

Vamos, cada vez mais, nos distanciando de fogueiras. Principalmente morando em cidades como São Paulo, onde apartamentos e construções populares dificultam fogueiras e lareiras. Em um apartamento, como o meu, fica difícil até fogueira de palitos de fósforos… O máximo que me permito é um fogareiro para aquecer o banheiro ou o quarto na hora de dormir; sempre de olho no extintor de incêndios. Mesmo assim, nesses momentos, ainda sinto o ancestral fascínio pelo fogo, pelas labaredas que sobem desmanchando-se no ar; sobressalto-me com estalidos provocados pelo calor e sonho com espaços amplos e fogueiras maiores.

Entre todas as lendas que envolvem fogueiras gosto daquela que conta que Isabel, mulher de Zacarias, prometeu acender uma fogueira avisando à Maria quando do nascimento de São João Batista. A fogueira, para os católicos, lembra esse momento, ao mesmo tempo em que simboliza a nova luz, o novo tempo anunciado pelo precursor de Jesus Cristo. Bem melhor essa história que outras, envolvendo rituais violentos.

O noticiário, neste ano, fala mais em Copa do Mundo do que em fogueiras e festas juninas nordestinas. Sem problemas. São João, justo como acreditamos que um santo seja, não deverá meter-se em pinimbas futebolísticas. Melhor deixar o santo de fora de disputas transitórias e, caso vença a Seleção Brasileira, reservar a noite para comemorar também essa vitória; de preferência, sob o calor de uma gostosa fogueira. De São João!

Até mais!

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ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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O Monge

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Em São Bento peço pela saúde dos meus

E também pelo Brasil. – É a Copa!

Vem o monge, amigo de décadas,

Com o riso franco no semblante sereno.

Recordo o vulto negro da canção

Enquanto recebo o abraço afetuoso.

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O monge não ligará a televisão.

Passará seu dia sem revistas, sem jornais

Muito menos um rádio.

– E a Copa?

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Um sorriso de paz,

Um afago e uma promessa de oração.

O monge volta para seu claustro.

Saio sob o sol do Largo de São Bento

De volta à cidade em verde e amarelo,

Com a certeza da liberdade ficada para trás.

 .

São Paulo, 12/06/2014

Greve é um tropeção na quina da porta

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Há partes do nosso corpo que são lembradas apenas quando doem. Um tropeção e percebemos a importância do artelho mínimo – vulgo dedinho do pé – para o ator de caminhar perfeitamente. Certos setores da sociedade passam pela mesma situação: quem está preocupado com a saúde dos coletores de lixo? Há segurança para que cobradores e motoristas trabalhem tranquilamente?O salário de diversas categorias supre as necessidades dos profissionais e de seus familiares?

Greve é aquela senhora batida na quina da porta. O funcionamento integral é interrompido e aí, só aí, percebemos o quanto importa esta ou aquela categoria profissional. Não adianta reclamar, perder a paciência ou praguejar; perante uma greve o mínimo necessário é olhar menos para o próprio umbigo e prestar um pouco de atenção na situação dos outros – esses outros também somos nós, dependentes daquele que decidiu interromper seu trabalho.

Que os valores sociais são estranhos não há dúvida. Por exemplo, qual a importância de uma greve de deputados ou da própria presidenta no nosso cotidiano? O que mudaria no dia-a-dia do cidadão caso a gloriosa seleção optasse por uma greve? Quem será realmente afetado caso essa gente falte ao trabalho? Já quando são os metroviários, os motoristas de ônibus… Esses, mais que qualquer governador, mexem muito mais com a vida da população. No entanto ganham infinitamente menos e têm raras e parcas regalias.

Greve é instrumento de diálogo. Quando um lado insiste em não ouvir, em não atender, o outro interrompe a ação forçando a volta da conversa, das negociações. A volta sim, pois nenhuma greve resulta de decisão abrupta e inesperada; a greve é o ápice de um conflito aparentemente insolúvel que exige a intervenção de terceiros: no caso, a justiça e a opinião pública.

Instrumento coletivo, a greve é para poucos. Talvez seja esse o motivo da irritação de muitos. Diante da dificuldade em agir como classe de trabalhadores – constituir-se classe é difícil! – destilam rancor e raiva para aqueles que importam para o funcionamento de setores da sociedade tais como os médicos na saúde pública, por exemplo, ou como os metalúrgicos que colocam a economia em polvorosa. Esses fazem a FIESP perder o sono.

Um jornalismo ordinário, cotidiano, tende a enfatizar os efeitos da greve. Se a greve é dos meios de transporte os “grandes jornalistas” pegam invariavelmente uma senhora de meia idade, acima do peso, que irá levar horas para chegar ao trabalho. Alguém se lembra de ter visto, nos nossos telejornais, as dificuldades de uma senhora de meia idade, acima do peso, esposa de um motorista de ônibus? Nossos telejornais manipulam a opinião pública. Caberia aos profissionais de comunicação mostrar todos os lados da questão.

Cabe à Justiça decidir sobre a legalidade de uma greve. O ato de espernear, tal como quando batemos com o pé na quina da porta, é para o cidadão comum. Quanto maior o grito, maior clareza se dará para a importância desses trabalhadores. Só não dá confundir reação com condenação. Condenar é para a Justiça. Se alguma classe trabalhadora exacerbar nos seus direitos terá de responder por esses atos.

Estamos vivendo um caos em São Paulo. Talvez seja o momento para perceber o grau de importância de cada indivíduo: Neymar não poderá dar carona para a população; nem ele, nem o Felipão! Podemos lamentar essa situação. Todavia, é essencial prestar atenção às condições de trabalho de milhares de indivíduos, como os lixeiros que, penso, não se dão conta do que podem provocar se resolverem parar… Enfim, prestar atenção à situação do outro e, sempre que possível, somar esforços por uma vida melhor. Desses profissionais e de todos nós.

Até mais!

Sequilhos e silêncio

sequilhos

Aniversário, quando eu era bem criança, era sinônimo de sequilhos. Vovó e mamãe preparavam várias coisas, tudo com as próprias mãos; não sei o motivo, recordo apenas os sequilhos de polvilho quentinhos, gostosos. Desmanchavam-se na boca com uma leve pressão da língua no palato, o céu da boca que reconhece todas as delícias.

Éramos tantos! Meus irmãos, primos, vizinhos… Brincávamos no quintal enquanto as mulheres reinavam na cozinha. Vovó dirigia tudo calmamente, decididamente. Era a mais velha entre as irmãs e tinha o respeito de toda a família, assumindo-se matriarca. Não tenho nenhuma lembrança de alteração de minha avó. Provavelmente ela gritou com alguém, falou um pouco mais alto, mais tensa; não registrei e se o fiz foi temporário, pois de algo assim não tenho a menor lembrança.

Busco no tempo e nas lembranças a voz de minha avó. Penso nela rezando para Nossa Senhora de Fátima ou diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida; guardo com nitidez o semblante alegre, a voz em palmas cantando parabéns para os filhos e os netos, mas a voz… Era calma, leve e mesmo não tendo ficado registro do timbre sei que era tranquila, calma, e doce, como sequilhos.

Vovó era de gêmeos. Fazia aniversário no dia 5 de Junho. Provavelmente ainda comemoraria sem alarde, sem barulho. Gostava de gente ao redor de si, de champagne, de música.  Ficaria quietinha, olhando as pessoas falando, ouvindo-as e só de vez em quando, muito de vez em quando é que diria alguma coisa. E se dissesse, seria bem baixinho.

Reverencio minha avó neste dia 5 de junho. Pelo aniversário que, ainda agora, é sinônimo de sequilhos; desde aqueles, já tão distantes, que tornaram minha infância melhor. Sobretudo, reverencio minha avó pelo silêncio, pela serenidade e resignação mesmo nas maiores turbulências. Nesse mundo tão barulhento, tão industrializado, só evidencia em mim o tamanho da falta que ela nos faz.

Até mais!

Tempestades

Sinais distantes tornam-se próximos.

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Mesmo reconhecendo evidências de um caos

Apegamo-nos aos míseros raios restantes

Confiando em possíveis melhores tempos.

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Uma tempestade chega e impõe-se,

Ignora-nos caindo sob nossos tetos, nossas cabeças.

Dominados por forças tão poderosas

Vergamos com o vento, fugimos do fluxo das águas;

Se fortes relâmpagos permitem-nos vislumbrar saídas

Trovões recolocam-nos perante nossa pequenez,

Avisam que ainda devemos aguardar momentos ideais.

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Houve épocas em que indiferentes aos perigos da tempestade

Virávamos exploradores, sob a cama, então caverna doméstica,

Ou avançávamos pelo quintal em batalhas imaginárias.

Bom era ver pela janela o redemoinho de ventos, o salpicar de granizos,

A inútil densidade da enxurrada, o tímido retorno do sol.

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Outras tempestades estão por vir

Com ou sem chuvas, ventos, raios e trovões.

Inevitáveis como o ato de respirar, a fome por saciar.

De nada vale esconder-se sob a cama, cobrir a cabeça com lençóis,

Elas virão e, ante tal perigo, único consolo é sabê-las passageiras.

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Mesmo reconhecendo evidências de um caos

Apegamo-nos aos míseros raios restantes

Confiando em possíveis melhores tempos…

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Maio/2014