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Há partes do nosso corpo que são lembradas apenas quando doem. Um tropeção e percebemos a importância do artelho mínimo – vulgo dedinho do pé – para o ator de caminhar perfeitamente. Certos setores da sociedade passam pela mesma situação: quem está preocupado com a saúde dos coletores de lixo? Há segurança para que cobradores e motoristas trabalhem tranquilamente?O salário de diversas categorias supre as necessidades dos profissionais e de seus familiares?

Greve é aquela senhora batida na quina da porta. O funcionamento integral é interrompido e aí, só aí, percebemos o quanto importa esta ou aquela categoria profissional. Não adianta reclamar, perder a paciência ou praguejar; perante uma greve o mínimo necessário é olhar menos para o próprio umbigo e prestar um pouco de atenção na situação dos outros – esses outros também somos nós, dependentes daquele que decidiu interromper seu trabalho.

Que os valores sociais são estranhos não há dúvida. Por exemplo, qual a importância de uma greve de deputados ou da própria presidenta no nosso cotidiano? O que mudaria no dia-a-dia do cidadão caso a gloriosa seleção optasse por uma greve? Quem será realmente afetado caso essa gente falte ao trabalho? Já quando são os metroviários, os motoristas de ônibus… Esses, mais que qualquer governador, mexem muito mais com a vida da população. No entanto ganham infinitamente menos e têm raras e parcas regalias.

Greve é instrumento de diálogo. Quando um lado insiste em não ouvir, em não atender, o outro interrompe a ação forçando a volta da conversa, das negociações. A volta sim, pois nenhuma greve resulta de decisão abrupta e inesperada; a greve é o ápice de um conflito aparentemente insolúvel que exige a intervenção de terceiros: no caso, a justiça e a opinião pública.

Instrumento coletivo, a greve é para poucos. Talvez seja esse o motivo da irritação de muitos. Diante da dificuldade em agir como classe de trabalhadores – constituir-se classe é difícil! – destilam rancor e raiva para aqueles que importam para o funcionamento de setores da sociedade tais como os médicos na saúde pública, por exemplo, ou como os metalúrgicos que colocam a economia em polvorosa. Esses fazem a FIESP perder o sono.

Um jornalismo ordinário, cotidiano, tende a enfatizar os efeitos da greve. Se a greve é dos meios de transporte os “grandes jornalistas” pegam invariavelmente uma senhora de meia idade, acima do peso, que irá levar horas para chegar ao trabalho. Alguém se lembra de ter visto, nos nossos telejornais, as dificuldades de uma senhora de meia idade, acima do peso, esposa de um motorista de ônibus? Nossos telejornais manipulam a opinião pública. Caberia aos profissionais de comunicação mostrar todos os lados da questão.

Cabe à Justiça decidir sobre a legalidade de uma greve. O ato de espernear, tal como quando batemos com o pé na quina da porta, é para o cidadão comum. Quanto maior o grito, maior clareza se dará para a importância desses trabalhadores. Só não dá confundir reação com condenação. Condenar é para a Justiça. Se alguma classe trabalhadora exacerbar nos seus direitos terá de responder por esses atos.

Estamos vivendo um caos em São Paulo. Talvez seja o momento para perceber o grau de importância de cada indivíduo: Neymar não poderá dar carona para a população; nem ele, nem o Felipão! Podemos lamentar essa situação. Todavia, é essencial prestar atenção às condições de trabalho de milhares de indivíduos, como os lixeiros que, penso, não se dão conta do que podem provocar se resolverem parar… Enfim, prestar atenção à situação do outro e, sempre que possível, somar esforços por uma vida melhor. Desses profissionais e de todos nós.

Até mais!