Diante desse marzão que assusta
Com seus mistérios e movimentos constantes,
ondas incertas sob sol escaldante
penso nas montanhas de Minas
nos chapadões da minha terra.
Não sendo daqui, sabendo que não voltarei para lá
sinto-me estrangeiro em todo canto
e trago constantemente na bagagem
Um pouco de tristeza, nostalgia e saudade.
Após todo o lero-lero de fraternidade e paz no natal vamos terminar o ano na real, com uma sessão de pancadaria digna do mundo violento em que vivemos. Com ares de espetáculo e fazendo de conta que é esporte, dois indivíduos vão mostrar como esmurrar, chutar e derrotar o próximo. Feliz ano novo!
Obviamente evoluímos. Tanto é que uma das grandes atrações desta noite será o encontro entre duas suaves moçoilas, Ronda e Mesha, que provarão que mulheres abandonaram unhadas e puxões de cabelo. Digníssimas fêmeas do nosso tempo trocarão sopapos como qualquer ser humano. Feliz ano novo!
Evoluímos também ao condenar a violência contra animais. Criamos leis para defender os bichinhos. Não somos capazes, porém, de colocar entre grades os indivíduos que batem em mulheres; a solução ideal então é colocar as meninas sobre tatames.
Após as lutas da noite estaremos mais próximos do ano de paz e harmonia do lero-lero das palavras. Esqueceremos a violência nos estádios, no cotidiano das cidades, no quarto fechado de inúmeras famílias e repetiremos as palavras decoradas desde que nos entendemos por gente: Feliz ano novo!
Final de ano bem próximo, as férias já praticamente presentes e tenho que refrear todas as vontades, melhor expressas por Fernando Pessoa através do heterônimo Álvaro de Campos em “Passagem das Horas”:
Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
Quero mais. Quero rever lugares e pessoas. Conhecer outro tanto. Bem provável que escreva um pouco menos. Que aqui, neste blog, as postagens soem telegráficas. Compreendam, por gentileza. Estou em férias. Mas, não deixarei de passar por aqui, como sempre tenho feito. Acrescentarei um pouco mais ao que já “trago dentro do meu coração” e, com certeza, dividirei com todos aqueles que me prestigiam passando por aqui.
A Prefeitura de Uberaba e a Câmara Municipal de Uberaba realizaram uma cerimônia de denominação de logradouros públicos. O evento ocorreu na sexta, dia 6 de dezembro, no Cine Teatro Municipal Vera Cruz. Diversas personalidades da cidade passam a identificar ruas e praças da cidade, uma homenagem póstuma dos representantes municipais, de amigos e familiares aos que, sob diferentes formas, colaboraram ao longo de suas vidas no cotidiano de Uberaba.
Tive a honra de, em nome dos meus familiares, receber a placa comemorativa da rua identificada pelo nome do meu pai.Desde então a rua mais querida da nossa família, oficialmente denominada “Felisbino Francisco de Resende(Bino) está no jovem bairro Residencial Rio de Janeiro I. Minha mãe, Laura, e todos nós, filhos do Bino, estamos profundamente agradecidos e honrados pelo reconhecimento das diferentes pessoas que conviveram com o “Bino”.
A história de meu pai com Uberaba começou em 1945. Convocado para lutar na II Guerra Mundial, Felisbino Francisco Rodrigues de Resende tomou um trem especial em Araguari, primeira etapa da viagem para conduzir os “Pracinhas” até ao Rio de Janeiro, de onde seguiriam para o front. Quando o trem passou por Uberaba chegou a notícia da primeira grande vitória dos Aliados. Papai chegou até ao Rio de Janeiro, mas não precisou embarcar para a Itália. A Guerra chegava ao fim e Felisbino guardou Uberaba como talismã, a cidade que lhe trouxe a boa sorte.
Trabalhando com Parque de Diversões, Felisbino fixou residência em Uberaba dez anos após a Guerra. Estava casado, com quatro filhos e foi aqui que nasceram outros dois, completando a família. Deixando o parque, ficou com um stand de tiro ao alvo. Colocava este nas festas religiosas da cidade (Nossa Senhora da Abadia, São Benedito, São Judas Tadeu, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora de Fátima) e na Exposição Nacional de Gado Zebu. Tornou-se conhecido de diversas gerações e fez incontáveis amigos pela cidade.
Anos depois, aproveitando a oficina que mantinha no quintal de casa, aqui no Bairro Boa Vista, papai construi um parque com suas próprias mãos. Cada barraca, cada stand, cada brinquedo foi moldado, construido peça a peça e montado no páteo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, por gentileza do vigário de então, Padre Nicola Rudge, a quem carinhosamente chamávamos Padre Nicolau. O “Parque Boa Vista” foi oficialmente inaugurado na quermesse em honra a Nossa Senhora das Graças e, por mais de vinte anos, percorreu os bairros de Uberaba e algumas cidades da região. Aposentado, o Parque Boa Vista foi vendido, mas o Bino, que gostava daquele trabalho e de estar entre amigos, insistiu em manter o stand de tiro ao alvo que, durante muitos anos, permaneceu montado na Rua Prudente de Moraes, no Bairro da Abadia.
Foi assim, levando alegria e diversão para as pessoas que papai fez, com certeza, milhares de amigos em Uberaba. Quando faleceu, em 2005, recebemos o consolo da amizade de centenas de pessoas. O Bino foi então homenageado em Sessão da Câmara Municipal e, posteriormente, pela Comunidade do Campinho.
D. Laura, nossa mãe, emocionada, segura a placa comemorativa
Neste ano de 2013 surge a Rua Felisbino Francisco Resende (Bino). Assim, o Bino entra oficialmente para a história da cidade. Algumas pessoas estiveram empenhadas para tal acontecimento, assim como diferentes lideranças municipais do exercício anterior e do atual exercício na Câmara Municipal de Uberaba. Entre todos, merecem nosso especial agradecimento a líder comunitária Edna Maria Idaló e ao Vereador Marcelo Machado Borges, o Borjão.
Muito obrigado, Uberaba. Certamente o Bino, mineiríssimo, sempre brincalhão, diria: – To parecendo o Juscelino Kubitschek!