Companheiro de viagem

Valdo Resende companheiro de viagem

O instante vai e a paisagem torna-se turva

Lembrança desfocada como a foto tirada pela janela do carro em movimento.

O vazio vence a excitação, já que o velho cotidiano toma conta;

Antes que vença, ainda recorremos a fotografias, retendo o recente vivido.

Brinco com o garoto que, cúmplice do tempo, já ostenta 13 anos e diz que é rapaz.

Falo com o afilhado que, na minha mente, será sempre o menino:

– Olha o Pão Doce, que lindo!

Ele sorri, olhando-me como se olha ao parvo. Pão Doce…

Antes que eu repita a expressão noto novo brilho, do menino que é rapaz.

Um acordo tácito é estabelecido sem documentos ou registros:

O Pão Doce é muito bonito!

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Férias são sonhos plenos de imagens fugidias, múltiplas, logo esmaecidas

Ingressos, recibos, cartões e fotos, um ou mais cacarecos são lembranças

E a roupa suja para a lavanderia é realidade, golpe fatal do fim da viagem.

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Desse recente momento ficará o límpido olhar de Antônio

Indiferente à ostentação do Barroco; ignorando teorias artísticas no MAR

Mantendo a paciência com as portas fechadas da Casa Daros e do Museu do Índio

Tudo aparentemente esquecido atrás do sorvete no final do dia.

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SP/Inverno de 2013

Tudo vazio, a cidade cheia de gente

Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro.
MOSTEIRO DE SÃO BENTO – RIO DE JANEIRO

Hoje poderá ser um dia muito diferente para a história brasileira. Aqui, no Rio de Janeiro, não se fala em outra coisa. A manifestação nacional por um país melhor enche todos de esperança. Parece que os lugares ficarão vazios para que as ruas sejam tomadas por toda a gente.

MAR - Museu de Arte do Rio
MAR – Museu de Arte do Rio

Tenho passeado por alguns lugares, encontrado muita gente e essas fotos, de dias anteriores, são registros de momentos raros em que uma sala ou parte de uma sala ficou assim, sem visitantes. E é assim, vazio, que eu espero que fique hoje o novo MAR – Museu de Arte do Rio, mesmo com sua belíssima exposição,

MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES
MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES

Também espero que os seguranças não tenham nada além da vigília silenciosa. É dia de protesto, não de destruição. No Museu Nacional de Belas Artes, bem no calor da visita papal, está a exposição  “A Herança do Sagrado: Obras-primas do Vaticano e de museus italianos”. Amanhã, certamente, as filas voltarão ao imponente museu.

MUSEU VILLA-LOBOS
MUSEU VILLA-LOBOS

Em Botafogo, bem que algum aluno da escola do Museu Villa-Lobos poderia fazer voltar o som do piano do maestro e compositor, colocando um som diferente para as palavras de ordem… Se o silêncio permanecer em favor do barulho das ruas… tudo bem.

TEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

E é aqui, nas imediações do Theatro Municipal que, dizem, a coisa vai pegar. Estou torcendo para que tudo fique bem. Vou lá, ver como é que carioca faz passeata. Depois… bem, depois que liberarem as estradas volto para casa, minha São Paulo que, tudo indica, também está fervilhando.

Até mais!

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Pé quente, cabeça fria

Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do "pé quente, cabeça fria"
Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do “pé quente, cabeça fria”

Para ser bem honesto estou no limite da paciência. Não com o momento, não com a situação em si, mas com a superficialidade sobrando, os julgamentos correndo soltos e inconsequentes e as súbitas e imensas certezas que tomaram conta de quase todo mundo. O momento é de euforia escancarada…

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Você pode conquistar o mundo dessa vez

Sem querer puxar o breque, e estando muito longe de perder a esperança, penso que o momento é de conquista mesmo; mas de possibilidades concretas, pensadas e, sobretudo, refletidas com responsabilidade. Estamos mudando e Victor Olszenski, com lucidez e embasamento teórico, abre outras perspectivas em texto publicado com o título “Como as manifestações públicas impactam as empresas” com indícios dos caminhos que virão.

Porque ler o texto do Victor? Primeiro porque somos público e para o público que somos há empresas governamentais nos prestando serviços. Há outras empresas, contratadas pelo governo, que atendem ou deveriam atender nossas atividades. O texto é analítico, sem apelos emocionais, sem exageros de retórica. É um profissional de marketing pensando o marketing daqui para frente. E é bom atentar para como as coisas funcionam.

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Faça tudo que você queria e nunca fez

Estamos mudando. Melhor que mudar o mundo é mudar nossas vidas, o “nosso quadrado”. Ontem, na Universidade, passamos um bom tempo discutindo política e educação. Nós, professores, precisamos muito discutir educação. O texto do Victor alertou-me para a necessidade de discutir mais, com profundidade, com frieza analítica e buscando, mais que o arranjo momentâneo, as soluções corretas, mesmo que em longo prazo. Cada indivíduo pensando soluções na própria área em que atua.

Enquanto escrevo faço uma pausa durante o jogo  Brasil x Uruguai. E é óbvio que, brasileiro, vou discutir futebol, e também palpitar na saúde, pensar em um caminho para resolver a seca no nordeste, apostar em soluções para o trânsito na capital paulista… Vou reclamar da lentidão da internet, do almoço demorado, do preço dos remédios. Tenho direito; temos direitos!

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas cuidado porque existe o bem e o mal

Brasileiro está descobrindo que pode reclamar e que quem reclama não é chato, apenas exigente e com direitos. Ao longo de muitos anos acreditei que uma das piores coisas que fizeram contra o país foi o fato de colocarem na cabeça de muitos a idéia de que “reclamar é chato”, que “quem reclama tem problemas” ou ainda que aquele que reclama “agita a maioria e provoca situações desagradáveis”.

O mal momentâneo é que as redes sociais tornaram-se “redes de exigências”, todo mundo querendo arrumar a casa. Bom até certo ponto. Bom mesmo se além de palpitar na casa alheia todos pensarem em como resolver a própria casa. As reclamações dos outros são oportunidades de crescimento, é o alerta do Victor Olszensky.  O que os outros têm a reclamar em relação a nós mesmos?

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas se alguém se fizer de engraçado, meta o pau.

Outro dia li alguém pedindo qualquer coisa musical estrangeira ao reclamar do som que anda rolando nas passeatas. Esse cidadão não deve conhecer Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), os intérpretes de “Pé quente, cabeça fria” que é a música para minhas revoluções particulares. O  individuo levou-me a pensar em fazer um post lembrando grandes canções políticas brasileiras. Aí, li o texto do Victor, pensei no que as pessoas reclamam do meu trabalho…  Esse sim, é o maior (e o mais difícil) exercício que deve ser feito com muito “pé quente e cabeça fria”! Antes que façam passeata embaixo da minha janela…

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Até mais!

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Nota:

Doces Bárbaros foi show, filme e disco feito pelos quatro baianos em 1976. Segundo Caetano Veloso a idéia foi de Maria Bethânia. “Os mais doces bárbaros” é a primeira faixa do disco. Pé quente, cabeça fria pode ser ouvida clicando aqui.

 

Não chamem o síndico, o trabalho é para o político.

O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.
O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.

A maior tarefa da reconstrução deste país começa com a renovação ou mesmo a reconstrução partidária. Minha avó já faleceu e a síndica do meu prédio tem as limitações da função; as duas não poderão conduzir a nação. Dirigir um país é trabalho para especialistas e se há inúmeras forças ameaçando conflitos, a especialidade vital é a política. E política não se faz sozinho, daí a necessidade de uma política partidária. Se não há nada de bom entre os partidos, que tal criar um novo?

Hoje, sábado, 22, acabo de passar pela Avenida Paulista. As manifestações continuam e presenciei, infelizmente, a intolerância de um pequeno grupo para com um cidadão portando camisa e bandeira de um partido político. As pessoas exibindo cartazes, faixas, indo para o meio da avenida com o sinal fechado. Voltando, reiniciavam a discussão com o representante do “pcnãoseideque”. O irônico da situação é que as pessoas brigando, entre outras coisas, pelo direito de manifestar-se querem impedir outras de manifestarem-se também.

O que mais me incomoda nas pessoas que são contra manifestações partidárias é o fato de raramente ver, pelas ruas e avenidas, pessoas com camisas do PMDB ou do PSDB.  Penso que todos esses eleitores estejam por todos os lugares já que esses estão entre os maiores partidos do país. No entanto, omitindo a própria opção partidária, um número considerável de indivíduos quer impedir que outros exibam a filiação partidária. Ser membro de um partido é direito garantido pela Constituição.

Antes que me cobrem uma posição partidária devo dizer que fiz parte de um grupo que buscou angariar assinaturas para legalizar o surgimento do Partido dos Trabalhadores. Participei, junto com o grupo de teatro que dirigia, de várias ações em São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Mauá e São Caetano do Sul buscando adesões para a formação do partido. Depois que o PT foi fundado reservei-me o direito de atuar como cidadão e votar em quem achava que devia. O PT é o projeto da minha geração e fico feliz em ter contribuído minimamente para que houvesse mudança na história política desse país. Ao longo de todos esses anos encontrei políticos admiráveis e afirmo que merecem todo o respeito e consideração.

Essa canção, sempre atual, diz muito do que são os anseios da minha geração.

Corre solta a falsa premissa de que todo político é corrupto. Esta funciona bem para eximir o indivíduo de sua responsabilidade perante a comunidade e deixa aberto o caminho para outros tornarem concretos os próprios interesses. Ou mudamos a premissa da corrupção de todo político ou entregamos a direção do país para nossas avós, ou para a síndica; bom notar que pastores e padres não podem assumir, pois nada mais político e tendencioso que instituição religiosa…  Então, sendo assim, para quem iremos delegar a direção do país?

As manifestações destes dias estão aí com várias lições para serem digeridas, aprendidas. A gota que faltava caiu e as pessoas estão nas ruas, reivindicando direitos. Algumas lideranças se sobressairão neste momento; gente de esquerda, de direita ou de centro, de diferentes partidos e agremiações. Que venham! Acima de tudo merecerão respeito, pois todo aquele que se dispõe a trabalhar pelo bem coletivo merece consideração.

Para os jovens esse é um momento de grande aprendizado. Alguns sairão como verdadeiros representantes de grupos, comunidades. Outra geração, seguindo em frente, aprimorando e corrigindo os trabalhos anteriores. Pode ser que ocorra algum retrocesso, mas o caminho é para frente. E se o individualismo é egoísta, resta o coletivo, o grupo, o Partido. E se as pessoas não acreditam em nenhum dos atuais partidos que criem outros. O que não dá é passar a vida fazendo passeatas sem que se tenha algo ou alguém para concretizar desejos e anseios de toda a nossa gente.

Até mais!

Sejam bem-vindos ao mundo novo!

NOVO MUNDO

Quando Zuckerberg e seus amigos criaram o Facebook estariam pensando em protestos e manifestações como estas que estamos vivenciando? É incontestável a idéia de que a internet muda a vida das pessoas e, definitivamente, as redes sociais são um marco na vida das populações. Bem-vindos ao mundo onde revoluções são organizadas sem que se saia de casa.

Essa nova realidade há que ser pensada por todos os lados e já ouso alguns esboços para futuros aprofundamentos:

– A imprensa deixa de ser a única porta-voz dos acontecimentos. Todo cidadão capaz de escrever, fotografar e que está conectado ao universo virtual pode falar por si mesmo. A imprensa perde credibilidade quando diz uma coisa e as imagens captadas pelo cidadão comum denunciam outra situação.

– Os governantes, mesmo em “Paris”, não têm o direito de dizer que “não foram informados dos acontecimentos”. As aparências não enganam quando a notícia tem a velocidade da Internet e se São Paulo perder a Exposição Universal (que é o que governador e prefeito foram tentar conseguir) por conta do que agora ocorre, é bom lembrar que nossa cidade tornou-se uma das maiores e melhores cidades pra se viver, sem que tenha tido aqui exposições universais ou copas do mundo.

– A polícia terá que usar com menor freqüência o velho argumento de que “vamos averiguar e apurar os fatos”. As imagens são candentes, em alta resolução e ganham o mundo instantaneamente, tanto quanto os depoimentos verbais. Os superiores terão que agir com honestidade ou evidenciarão cumplicidade com atos violentos.

– A população começa a perceber a força das redes sociais, embora tateie no uso eficaz. Governo e órgãos de segurança (Atentem para a expressão “segurança” e não “repressão”) carecem de observar as redes não com a intenção de reprimir, diluir ou acabar com os movimentos, mas para participarem com a população na busca de soluções compatíveis com os interesses reais dos indivíduos e suas respectivas comunidades.

– Uma verdade perturbadora: as redes mostram o fim da idéia que o brasileiro é bonzinho, um “ser cordial”. O ódio sobra em expressões que pedem violência, justificam atos violentos. A ditadura fez uma montanha de filhinhos prontos a exercer a dita cuja sobre os demais.

Bem-vindos ao mundo novo!

Nessa madrugada lembrei-me dos Inconfidentes mineiros. Ditos inconfidentes pelos poderosos da época, revolucionários reverenciados pela história. Pensei no quanto demorou em que um grupo fosse formado, em como foram difíceis as comunicações para agendar reuniões. Quantas horas, ou mesmo dias, passaram sem que se soubesse o real destino do amigo na masmorra ou já no desterro. Penso em Marília, pobre Marília, sem notícias do seu volúvel Dirceu, já em outro leito em terras africanas.

Ainda pensando em Minas me vi criança, em 31 de março de 1964, com a lembrança da energia elétrica cortada e da expressão preocupada de meus pais. Sem o rádio, único meio ágil de então, restava esperar o jornal que, já então duvidoso, anos depois, em 1968, chegaria totalmente censurado.

Vendo agora a rapidez de toda a sorte de manifestações, a força das palavras, a inegável verdade das imagens, as notícias tortas, os pedidos de paz, as agressões dos intolerantes – tudo isso em um curto espaço de tempo, ALGUNS MINUTOS, ALGUMAS HORAS – dou graças a Deus por estar vivo e dou graças à vida por me permitir viver tamanha revolução.

Há muito que pensar, muito para refletir. Fico imaginando os desvairados do passado que queimaram livros, proibiram pronunciamentos através de cortes aos jornais, aos programas de rádio e TV. Será que tem algum celerado pensando em reprimir as redes sociais? Será que algum estúpido pensa em tirar do ar a telefonia celular, a própria internet?

O passado nos mostra que pouco adiantou censurar, prender, torturar, queimar, matar; e isso quando levávamos meses para receber notícias. O mundo caminhou independentemente da tirania e crueldade de alguns. Agora, é bom que TODOS OS LADOS fiquem atentos: caminhamos com velocidade maior que a dos braços descendo o cassetete, que os jornais e telejornais moldados pelo interesse de seus donos. Sobretudo as ações de grupos, de comunidades inteiras, são agora extremamente mais rápidas que o voto. Sejamos responsáveis.

Bom final de semana para todos.

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Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Coesão, ou “a vida como realmente é”

Marisa Monte em Londres. O vestido, de perto, é bem diferente...
Marisa Monte em Londres. O vestido, de perto, é bem diferente…

Proponho um pequeno exercício coletivo: primeiro todo mundo vai descontar 40% do próprio salário. Segunda ação, vamos todos usar o transporte público para ir trabalhar. Pode ser amanhã, entre 07h00 e 09h00; quem preferir pode optar pelo mesmo “passeio” entre 17h00 e 19h00. Que fique bem claro que é só uma proposta; todos podem dizer não.

Lá no Ceará, em Juazeiro do Norte, os professores da rede pública terão seus salários reduzidos em até 40%. A cidade quer se enquadrar na LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal). Aqui em São Paulo a alta do transporte público resultou que o preço da passagem foi de 3,00 para R$ 3,20.

Os professores cearenses anunciaram greve. Ocorreram manifestações em São Paulo contra a alta da passagem. E eu… Bem, no sábado pela manhã, fui visitar a exposição “Jogos Olímpicos: Esporte, Cultura e Arte” na Galeria de Arte do SESI – SP, no majestoso prédio da FIESP.  A exposição é inédita e traz o acervo do Museu Olímpico de Lausanne, na Suíça.

Lá estão os cartazes da maioria das edições do evento, as tochas olímpicas, as medalhas de ouro, prata e bronze de todas as edições e mais, muito mais. Há uniformes de atletas e materiais das diferentes modalidades esportivas. Vídeos, muitos vídeos. Uns falam sobre história, outros com reportagens como, por exemplo, a preparação dos atletas, física e emocionalmente.

Dos vídeos que parei para assistir gostei mais do que mostrou nossos artistas, ao final da última Olimpíada em Londres, quando a bandeira olímpica foi entregue ao então prefeito do Rio de Janeiro. O show brasileiro foi muito lindo. Batuque de bumbo, berimbau; batida de violão, cavaquinho e flautas, melodiosas flautas acompanhando Marisa Monte brincando de cantar Villa-Lobos. Percebi que a apresentação brasileira foi muito melhor sem qualquer comentarista de TV atrapalhando a audição do espetáculo.

Também na exposição constata-se o ditado que diz sobre gatos pardos… Ao lado do aparelho de TV que reproduz o filme da apresentação brasileira encontra-se o vestido que Marisa Monte usou no espetáculo. Sob as luzes do estádio londrino é lindo. Na real ali, dentro da vitrine, quase podendo ser tocado, a constatação é de que o efeito foi lindo, mas que o tal vestido é chinfrim, isso é…

Professores e passageiros de transporte público, recordem Micha, o simpático ursinho russo.
Professores e passageiros de transporte público, recordem Micha, o simpático ursinho russo.

Não vi o Tatu Bolinha, ou sei lá o nome que pretendem para o mascote brasileiro. Uma vez mais me encantei com Micha, que ainda faz lembrar com emoção o final das Olimpíadas de Moscou. O ursinho é destaque entre outros animais e seres estranhos, representantes simbólicos das culturas de locais onde ocorreram os jogos.

Quem chegou até aqui deve se perguntar sobre o que entendo por coesão; a tal característica textual que evidencia harmonia entre as partes de um texto; conexão entre assuntos e temas. Só que fiquei pensando: Quem realmente se preocupa com a educação deste país e com a situação dos professores? Quem, entre os que andam com seus carros estão realmente preocupados com aqueles que vão amassados dentro dos ônibus paulistanos?

Em atitude coesa com a maioria da população resolvi ignorar os problemas alheios e curtir a exposição do SESI.

O SESI é uma instituição preocupada com a educação. Tanto é que na presente exposição há um magnífico salão para encontros e oficinas. Não há um programa impresso com a história do evento, ou com os dados da exposição. Há um fôlder para crianças, com joguinhos que distraem os pimpolhos e deixam pais e mães felizes. Agora, preciso voltar aos temas iniciais…

Tenho ido para o trabalho usando ônibus, metrô e trem. A direção está no contrafluxo e isto me garante um razoável espaço para virar para os lados e, com sorte, ir sentado olhando a paisagem. Não percebo nenhuma melhoria nos últimos seis meses, nada que justifique o aumento da passagem. Percebo, por exemplo, que a CPTM e o METRÔ desligam escadas rolantes na hora do fluxo, pois isso garante maior lentidão e os passageiros demoram mais para chegar à plataforma de metrô e trem. Também colocam grades orientando o fluxo da boiada (Ops!), da grande multidão.

Quanto ao salário dos professores… Rola por aí o Plano Nacional da Educação- PNE que diz, entre outras coisas, que o professor deve ser valorizado através da equiparação de rendimento médio dos profissionais do magistério das redes públicas de educação básica aos dos demais profissionais com escolaridade equivalente. Simplificando rasteiramente, iguais salários para a categoria. Portanto, o professor do Estado do Ceará que tome cuidado, pois o corte pode atingi-lo, baseando-se para isso na tal equiparação que prevê o PNE… Algo semelhante já aconteceu aqui em São Paulo. Um político aumentou o salário dos professores de um lado. Outro congelou, até que Estado e Município se equiparassem…

Ah, mantendo a coesão deste precário texto: a exposição no FIESP vai até 30 de Junho. De segunda a domingo, com entrada franca! Todo aquele que quer ver seu filho dentro dos ideais olímpicos deve estimulá-lo visitando a exposição.

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Boa semana para todos.

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