Os Andes e os 60 anos da conquista do Everest

Um dia estivemos nos Andes, hoje sonho com o Everest
Um dia estivemos nos Andes, hoje sonho com o Everest

Chove. Ainda por cima, faz frio! Sobra ler o que normalmente é deixado para depois. Por isso descobri que a primeira escalada ao topo do Everest completa 60anos. Em 1953 o neo-zelandês Edmund Hillary e o nepalês Sherpa Tenzing Norgay capitalizaram o feito. Dois indivíduos entraram para a história que registra, na real, mais 300 pessoas que fizeram parte da expedição.

Depois que atingiram o topo do mundo os alpinistas olharam a paisagem, sentiram-se mais próximos de Deus e desceram. Com esse grande feito a humanidade descobriu que é possível chegar ao pico do Everest, embora ninguém tenha se interessado em morar por lá. Falta ar e o frio é insuportável. Fala-se que para conseguir tal façanha, além de excelentes pulmões, é preciso ter força de vontade. E grana, muita grana.

Os alpinistas costumam dizer que se sentem mais próximos de Deus nesses lugares. Não sei até que ponto eles conseguem esse encontro ao vencer os 8.848m de altura do monte, na fronteira do Nepal com a China. O certo é que os aventureiros deixam 50 toneladas de lixo por ano ao longo do trajeto. Gostaria muito de saber o que Deus pensa dessa gente que adora a natureza, celebra e prega a união com a mesma, infestando-a de lixo.

Recentemente um japonês, Yuichiro Miura, comemorou e foi ovacionado por seus conterrâneos ao alcançar o topo do Everest aos 80 anos. Bravo! Tai uma boa ocupação para minha velhice: escalar o Everest, atravessar os Andes e ou acampar no Saara. Pode ser que eu consiga, embora conviva com um pulmão precário, já que surgem equipamentos sempre melhores.

Para os grandes alpinistas, escalar o Everest tem se tornado fato banal. “Qualquer um” pode conseguir isso. Está registrado no “O Tempo”, simpático jornal mineiro: “Em um único dia em 2012, 234 escaladores atingiram o pico”. Chegando lá, os pobres aventureiros tiveram que esperar duas horas e meia, numa humilhante fila, para chegar ao cume. Como não sou grande alpinista, não me incomoda dividir as glórias com mais duas, três centenas de pessoas. E como pretendo fazer isso na velhice tempo é que não me faltará; poderei permanecer duas ou mais horas na fila do pico…

A ponte que já foi trilha e o Condor sobrevoando as montanhas
A ponte que já foi trilha e o Condor sobrevoando as montanhas

Chove. Faz muito frio e estou em um confortável e aquecido quarto. Na real, não tenho a menor vontade de deixar esse aconchegante ambiente para enfrentar o calor exasperante do Saara, a falta de ar no alto do Everest. Acontece que um dia, sem programar absolutamente o que me esperava saí para um passeio, para “ver” os Andes. Descobri que era uma incursão pelo local e ao avançar mais de 180 km cordilheira adentro, chegando próximo à fronteira do Chile, experimentei na pele o fascínio desses lugares maravilhosos.

Êxtase é a melhor palavra que encontro para definir a visão da Cordilheira dos Andes. Majestosa é outra. O que é visão passa a ser contato, incursão, imersão. De repente o chão apresenta pequenos pedaços de gelo, neve, e isso vai crescendo até que nada da terra é visto. Tudo é branco, cinza gelado, fosco, aparentemente metálico, lítico e as palavras somem ante o rio teimoso que corta a paisagem; a imaginação vai até onde a memória conhece e vem o pensamento dos primeiros que por ali passaram, de outros que – incrível! – construíram uma estrada de ferro na região. O gelo milenar tornou-se ponte, a trilha foi percorrida por Incas, as informações não cessam o encantamento.

O veículo parou para que colocassem correntes nas rodas, que evitam deslizamento. Mas esse veio e escorregar sobre uma camada de gelo é assustador e apavorante. Saímos todos bem e até mesmo a chegada de uma tempestade não afetou o ânimo. Pareceu-nos óbvio, parte do “pacote”; como estar nos Andes e não viver a experiência de uma tempestade de neve? Abreviou-nos o passeio e não fomos além. Voltamos pela mesma estrada, paralela ao rio e, em certo ponto, à estrada de ferro.

O rio irriga o deserto que antecede a cordilheira. Mãos humanas conduziram as águas geladas para fazendas onde se produz uvas e, em conseqüência, alguns dos melhores vinhos do continente. Recordo Mendonza, a cidade, com muito carinho e tenho essa região da Argentina como um dos locais guardados “no lado esquerdo do peito”.  Por toda a cidade há uma possibilidade de visão dos Andes. Toda aquela neve em infinitas tonalidades entre o branco e o cinza, com partes opacas e outras tão brilhantes quanto o gelo pode ser. Recordo ter pensado na grandiosidade de Deus. O ser humano vai ter que dar um duro danado para acabar com tanta beleza, mesmo com 50 ou mais toneladas de lixo, a triste marca no Everest.

Orgulho-me de não ter deixado um único papel de bala em solo andino. Não tenho vontade de subir ao local mais alto da cordilheira, nem mesmo sei qual é o ponto mais alto. Há quem goste, quem curta. Bastou-me a beleza que, de tão deslumbrante, colocou o frio, o vento, o gelo, tudo o mais em plano secundário. Por isso espero voltar e rever o que mão nenhuma consegue realizar; o que foto e pintura nenhuma conseguem fixar. Não quero a vaidade de dizer que fui ao topo do mundo, nem que resisti ao calor de uma noite no Saara. Ver já seria muito bom; sem sujar o ambiente, melhor ainda. E não importa a “banalidade” da ação, mas a experiência da visão de locais cuja autoria só pode ser atribuída a Deus. Quem quer ir comigo?

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Bom feriado para todos.

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Nota: A edição de hoje do jornal “O Tempo” (Belo Horizonte, 30/05/2013)  trouxe a matéria sobre os 60 anos da coquista do Everest. A matéria não está assinada, mas o ótimo texto inspirou-me a escrever este post.

Nota 2: Na primeira foto, da esquerda para a direita, Diego Cardoso Flavio, Agus Gelfo, Flávio Monteiro e eu.

Concerto para a semana inteira

Por gentileza, clique para ouvir o Adagio do “Concierto de Aranjuez”, de Joaquin Rodrigo. É o melhor que posso oferecer nessa “segundona braba”. Deixe a música rodar e leia, ou não leia, à vontade. Só não deixe de ouvir o solo de Paco de Lucia.

Um final de semana com muita música é fundamental para equilibrar com a correção de trabalhos e provas. O sábado foi dia de rock, lá no Santa Sede Rock Bar, na Zona Norte. Um aniversário foi um bom pretexto para um ensaio aberto da “Lotus em Chamas”. Os caras da banda abriram a noite e esquentaram o ambiente que seguiu em alto e bom som com as bandas “Abandita Muscaria” e “Marcenaria”.

Rock, como se sabe, incendeia a alma. Para acalmar os ânimos e ter calma para enfrentar uma nova semana com mais provas para aplicar, trabalhos para receber, o ideal é um bom concerto. Quem tem amigos…

Tive o privilégio de ver Fabio Zanon com a Orquestra Sinfônica de Santo André, sob a regência de Carlos Eduardo Moreno. O violonista fez o solo do Concierto de Aranjuez que foi todo gravado e espero, em breve, poder ouvir novamente (espero divulgar o lançamento!). A orquestra esteve brilhante e Fabio Zanon mostrou porque é aclamado como um dos melhores do mundo. Sem ter a gravação dessa noite optei por fixar esse momento lembrando outro grande artista, Paco de Lucia, que é o solista do vídeo neste post.

Sem mais lero-lero; a semana está lotada de trabalho e é só com boa música que tudo fica suave.

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Boa semana para todos!

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A morte e as flores de maio

Flor de Maio Foto By Valdo Resende
Maio de 2013

A ditadura da felicidade é um caso sério. Uma simples menção da lembrança do falecimento de meu pai – Dia 21 de maio fez oito anos – e já tentaram impor-me o diagnóstico de depressão. É como se a palavra morte determinasse um falante depressivo, ou o que é pior, que assume um comportamento depressivo. Nesse “assume” está implícito morbidez, prazer na tristeza e, entre outras, a suposição de que um indivíduo decide em um determinado instante que vai curtir uma depressãozinha básica.

Depressão, ao que parece, não é algo bem visto socialmente; nem desejável.  Também receio que, para muitas pessoas, é mais fácil conversar sobre novela e futebol que “aturar” um amigo triste. Recordar a data de falecimento de um ente querido é algo que parte de um momento intensamente triste, mas que pode conduzir ao culto de boas lembranças, de reverência, de gratidão.

Felicidade é um estado e isto implica ser algo passageiro. E nem sempre o oposto de felicidade é a tristeza, se considerarmos que a paz, estar em paz, é fundamental. Acho impossível ser feliz ao recordar a morte de meu pai, de meu irmão, de muita gente querida já falecida, todavia estou entre aqueles que permanecem em paz lembrando os que se foram.

Ninguém é obrigado a fazer coro no culto de alguém aos antepassados. Todavia, quando se ultrapassa o senso vulgar do “diagnóstico de revista”, conversar sobre as coisas boas de quando convivíamos com certas pessoas é mais que possível; é agradável e nos permite experimentar a tal tranqüilidade da alma. Então, penso que o problema não é falar sobre os finados (os mortos, não o feriado!). O problema é a morte.

Como falar sobre morte em uma sociedade onde a felicidade é um estado obrigatório?  Como refletir sobre finitude em um mundo onde seres buscam desesperadamente aparentar juventude, como se essa fosse infinita? Não pretendo que ninguém reveja seus conceitos, nem é intenção estabelecer diálogos cotidianos sobre enterros e velórios. O recado é: nem todos aqueles que recordam carinhosamente seus mortos são depressivos. E mais: pensar na nossa finitude é ótimo para avaliar o que vale a pena vivenciar cotidianamente.

Não cultivo a morte, cultivo plantas e a vida; e depois de dois dias de check-up, muito corridos, só hoje pela manhã foi que percebi a chegada das flores de maio no meu pequeno jardim. Ato contínuo foi abrir as cortinas para que as tímidas florezinhas recebessem merecida luz. Fiquei admirando a simplicidade das formas, a intensidade e sofisticação das cores; pensei em meu pai, em meu irmão e na vida que continua bela, extremamente bela, como as flores.

Flores de Maio. Valdo Resende

Papai tinha habilidade para fazer coisas tão distintas quanto dobradiças, velocípedes, estilingues; sempre tinha em mãos um bambu com um chapéu preso em uma das pontas; era a melhor maneira que ele tinha para colher frutos, da minha casa e das árvores dos vizinhos,  sem que a fruta caísse ao chão. Meu irmão gostava de plantas e tinha o hábito de ocupar espaços vazios plantando ipês e outras árvores decorativas. Cuidava de plantas em avenidas próximas de onde ele morava, levava mudas de árvores para todos os lugares, desde o bosque municipal, em Uberaba, até o jardim da casa de minha irmã.

Herdei de meu pai algumas habilidades manuais e me reconheço irmão de meu irmão no gosto pelo cultivo das plantas. Nada de triste, nem de mórbido, muito menos depressivo. É só a constatação da vida que recebi de meu pai Felisbino, que ficou melhor na convivência com meu irmão Valdonei e que vejo renovada nos vasos que florescem no meu pequeno jardim.

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Até mais!

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Roubaram o Senador!

O querido e respeitado senador
O querido e respeitado senador

É o fim da picada. Tentem imaginar a cena do “Assalto ao Senador”: um bando de jovens chega para um “guenta” no respeitável cidadão e leva carteira, relógio, corrente, aliança e… Só. Senadores não andam de tênis e as roupas, meio caretas para a moçada, são deixadas com o proprietário.

A cena poderia ser diferente: Dois ou três rapazes taciturnos, semblante carregado aproximam-se com voz forte e decidida, encostando canivete ou revólver no cidadão. “– Vai entregando a grana ai, tio! Rápido e calado.” O Senador ameaça apresentar-se; leva um safanão, sentindo o metal forçando as costelas. “- Não embroma, tio! Entrega o baguio”. Pronto. O senador virou tio. Indignado tio.

Os mais apressados com a notícia repetirão o velho ditado, com a notícia do roubo ao político: “- Quem rouba ladrão tem cem anos de perdão.” Incabível ditado quando o político é o senador Eduardo Suplicy. A honra, a dignidade e a honestidade são características de um cidadão cujo comportamento é digno do maior respeito. Mas não é que roubaram o senador? A notícia, que li aqui (clique para ler) veio confirmada através da televisão; Suplicy, de mãos dadas com Daniela Mercury, pedindo seus pertences de volta. Consta, segundo a televisão, que apenas a carteira foi devolvida.

É fato que assaltante, normalmente mamado, cheirado ou imbuído em outra droga qualquer, não iria reconhecer o semblante simpático e bonachão do Suplicy. E esses indivíduos, cujos valores são precários, respeitariam o bom homem que é o Senador? Ou aproveitariam para um sequestro relâmpago? A conta bancária do Senador deve conter uns bons trocados.

O complicado da situação é ler que a Virada Cultural, agora sob uma prefeitura petista, estaria sendo boicotada pela polícia, que é estadual. O estado, sabemos todos, é de outra facção política. Então, imaginem-se no lugar do cidadão assaltado, aproximando-se do policial que, de braços cruzados indica uma delegacia para o infeliz que, ao chegar, é informado de que deve fazer o boletim de ocorrência via internet.

Suplicy não é nada bobo. E  sugiro para quem duvidar da inteligência desse cidadão honesto, político impoluto, pensar em outra possibilidade: ao entrar no palco durante a abertura da Virada Cultural (Daniela Mercury abriu oficialmente o evento) para pedir de volta seus pertences, o Senador fez uma senhora denúncia de como estava a segurança do evento, já com assaltos na primeira hora.

Passamos pelas imediações de alguns palcos da Virada Cultural. Após o aniversário de uma amiga, que ofereceu-nos um simpático jantar, fomos até a Praça Roosevelt, depois até a Praça da República e Avenida São Luís. Muita gente! Uma multidão imensa de gente alegre, disposta a divertir-se. Natural que com tão grande multidão tenha ocorrido conflitos, problemas. A prova mais contundente de que o evento foi democrático foi que além da gente comum, que sofreu violência, sobrou até um assalto para o Senador. Portanto, diria a ministra, ex-esposa do Senador: “- Relaxa e goza. “. Afinal, sem ironias, um acontecimento envolvendo milhões não pode ser avaliado por poucas centenas de problemas.

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Boa semana para todas!

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A mão sobre minha fronte

Laura Vinagreiro Resende

Lá onde o céu é azul

Alem do Rio Grande

Uma luz tênue de vela

Roga aos céus, apela

Alguém!

Esse alguém é minha mãe; sempre pronta e disposta a rezar por todos nós. Ladainhas, terços, rosários… Antes, mais jovem, mamãe acendia velas para todos os santos. Sempre por nós; os filhos, os netos e, também, os irmãos dela, os sobrinhos, os primos, as tias…

Sempre confiei nas orações de minha mãe. Acredito que Deus ouve todas as mães, principalmente quando elas não pedem por si, mas pelo bem de todos os seus.

Além do Rio Grande fica Minas Gerais, Uberaba, onde minha mãe pede a intercessão de Nossa Senhora da Abadia, a proteção da Medalha Milagrosa. Santo Antônio ajuda-a a achar coisas; São José traz chuvas. Todos os santos e santos permeiam a vida de minha mãe que, às vezes, cochila um pouquinho entre uma reza e outra. Para quem pede tanto, alguns minutos de descanso são mais que merecidos.

Longe de si minha luta

Acima de mim seu afeto

Une espaço e tempo

Retém cada momento;

Alguém!

Nossa mãe nos deu asas; aquelas invencíveis, denominadas conhecimento. Fomos além até do que ela pode entender e adquirimos um vocabulário, às vezes, inatingível para seus conhecimentos. Não importa; ela conhece as coisas do gostar, do querer bem.

Mamãe fala com os que já foram como se estivessem ouvindo-a. Não, ela não é médium; papai, meus avós, meu irmão e tantos outros permanecem vivos no coração de minha mãe; na fala cotidiana de uma longa vida que desconhece as medidas de tempo. Estas medidas que são meras abstrações, distantes da realidade da alma. Da alma de todas as mães.

Livre, acho eu, liberta:

Acuada, talvez, pelo amor

Uma mulher pequena

Rindo-me, serena

Alguém!

Dona Laura, a nossa mãe, tratou de viver a vida como achou que devia. Foi longe para os parâmetros de meus avôs sem jamais deixar-se distante deles. Gosto de saber das lutas que teve e sou grato pelas batalhas que venceu principalmente por garantir a todos nós, seus filhos, uma vida melhor.

Aqui, sozinho neste momento e em tantos outros, sinto falta da mão de minha mãe sobre minha fronte. Nada neste mundo me acalma tanto, me propicia sono tranqüilo e momentos de intensa paz. Sempre que próximo, em toda e qualquer instância recebo de minha mãe o afago supremo, o remédio eficaz; o calor de sua mão sobre minha testa, fazendo-me fechar os olhos, em paz..

Os versos acima são de uma música, denominada Leréia  que fiz para minha mãe. Quero registrá-los aqui, desejando que mães e filhos possam ter um dia cheio de carinho e, sobretudo, afeto. Esse imenso afeto que, junto com meus irmãos, tenho por Laura, a minha mãe.

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Até!

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Este texto não é de Clarice Lispector

Clarice Lispector
Clarice Lispector

Determinados nomes, tudo indica, garantem a qualidade de textos da mesma forma que boas marcas estabelecem credibilidade para produtos ou serviços. O sujeito escreve uma asneira e para obter a fé das pessoas tasca um Carlos Drummond de Andrade, uma Clarice Lispector como autores. Este texto não é de Clarice Lispector; nem de Mário Quintana, nem de Fernando Pessoa, Luis Fernando Veríssimo ou outro grande escritor. É meu; assumo os riscos e responsabilidades!

Clarice Lispector é vítima constante de pessoas que nunca leram um romance ou um conto escrito por ela. Há alguém que publica uma bobagem piegas e alguém que compartilha. Uma conhecida defendeu o direito de compartilhar por achar “bonito”. Ok, mas além da questão estética, há a ética! Aquela “coisa” que nos leva a fazer o que é correto.

Há quem não dê importância ao fato. Que mal há em dizer que tal texto seja de Mário, Fernando ou Carlos? Demonstram de cara a total incapacidade em perceber a distinção entre um e outro. Se não valorizam o trabalho artístico, compreendem o que seja arte? Sempre me pergunto se essas pessoas são capazes de criar alguma coisa – um texto, um poema, uma canção, um quadro. É muito fácil “palpitar” sobre o que outros fazem; mais fácil copiar e alterar aquilo que foi criado após intenso trabalho.

Quem atribui autoria de baboseiras à Clarice Lispector sabe, por exemplo, que ela trabalhava com uma máquina de escrever no colo enquanto cuidava do primeiro filho? Que isso passou a ser mania e que ela tinha o hábito de acordar as três, quatro horas da manhã?  Que anotava todas as idéias para depois organizá-las em seus textos? Que para sobreviver, além de escrever livros, escrevia também para jornais e fazia traduções? Será que conseguem perceber a importância desses fatos naquilo que foi criado – escrito – por ela?

Direito autoral é uma questão delicada que vai além da questão financeira. Somos “autores” quando preparamos uma simples refeição e sabemos que uma pitada de sal dada por outrem pode desandar tudo. Somos criadores da composição que resulta no que chamamos de nosso visual e não permitimos que mudem nosso “estilo”.  Não costumamos admitir que alguém altere a decoração de nossa sala, nosso quarto… No entanto, quando a criação é do outro nos permitimos toda a sorte de opiniões, sugestões e até alterações não solicitadas.

Quando o assunto é dinheiro, tudo se torna mais delicado. As pessoas param o trabalho, feito relógios, quando terminam o expediente. Também não admitem trabalhar uma hora que seja sem a devida remuneração. Há aquelas que cobram por conselhos e até mesmo pela companhia de alguns minutos. Adoram ostentar marcas e não titubeiam em pagar por elas, mesmo com a consciência de que pagam um “valor simbólico” – calças jeans são todas do mesmo tecido; paga-se a marca. Quando questionadas sobre o valor de poemas e canções discutem, ponderam; algumas acham exagero pagar por uma poesia mesmo admitindo total incapacidade de criar alguns versos até para o ser amado.

Há vários casos de processos de pessoas reivindicando direitos autorais. Há um, envolvendo o nome de Clarice Lispector (Conheça clicando aqui) de um poema que, na internet, foi divulgado como sendo dela. Atualmente há, na novela Malhação, uma personagem que fala todo tipo de coisa sempre começando por algo do tipo “- Já dizia Clarice Lispector”. A personagem repete o comportamento verificado nas redes sociais e associa alguns absurdos ao nome da escritora. Não sei se há algum acordo entre a Rede Globo e os herdeiros de Clarice Lispector. Não é de se esperar que uma TV aberta e comercial tenha algum compromisso com a formação do cidadão; resta lamentar.

Infelizmente tenho a certeza de que meu texto não mudará em nada o hábito das tais pessoas que usam o nome de um grande escritor indevidamente. Gostaria, porém, que elas pensassem sobre as dificuldades de quem escreve; de quem lida com a língua, com uma linguagem.  Todo indivíduo tem a noção da dureza do próprio trabalho; do quanto é difícil, complicado, árduo. E é por isso que, incoerentemente, concluo este texto citando Clarice:

“A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.”

Creiam-me todos; esse período nada fácil é de Clarice Lispector. Está em “A Paixão Segundo G.H.”, romance publicado pela Editora do Autor, no Rio de Janeiro, em 1964.

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Até mais!

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Adeus, terror! Tchau, agonia! Vou tocar caxirola.

Caxirola do Brown
Criador e criatura. A caxirola de Brown!

O cardápio da violência é vastíssimo! A dentista que teve o corpo incendiado; neonazistas acusados de agredirem um nordestino; uma jornalista estuprada; o julgamento do goleiro, o julgamento do cúmplice; outro jogador de futebol encrencado em uma favela; o bicheiro detido embriagado… A noite de domingo avança com os programas televisivos tornando espetáculo a violência e a barbárie. Boa noite, terror, é o “show da vida”!

Amanhã, como tenho feito nas últimas semanas antes de ir para o trabalho, evitarei os jornais matutinos que “repercutem” os crimes do final de semana. Prefiro sair sem saber as condições do trânsito, as previsões do tempo. Pelo menos não começo o meu dia com receio de caminhar pelas ruas e praças da cidade; afinal, parece que o terror, os crimes, as ações violentas não tem solução.

Em muitos crimes há sempre a presença de um menor que costuma assumir a culpa; então temos certeza de que logo esse ser estará novamente caminhando pela cidade. Provavelmente ao lado do político sabidamente corrupto, condenado, mas caminhando com vários seguranças que garantem a integridade física do cidadão. O menor e o político serão abençoados por algum religioso, desses que cumprindo pena por crimes horrorosos, encontraram um deus conveniente que propicia formas mais amenas para quem assassinou os próprios pais ou a namorada. Bom dia, agonia!

Mundo terrível esse nosso, onde o terror a agonia tem sido estrelas cotidianas. Nem adianta dizer que é coisa do Brasil, já que em Roma um cidadão feriu três inocentes tentando, conforme noticiado, atingir um político; nos EUA continuam as investigações sobre as razões pelo atentado de Boston e uma surpreendente notícia: 6 milhões de desempregados na Espanha. A taxa de desemprego no país subiu para 27,2%, segundo dados oficiais.

A Espanha, é fato mais que conhecido, sediou a Copa do Mundo de 1982 e é a atual campeã do mundo, título obtido em 2010 na África do Sul. No top-20 dos maiores salários de jogadores, a Espanha comparece com cinco representantes que juntos, recebem a fabulosa quantia de 104,2 milhões de euros por ano (veja toda a lista aqui). A FIFA alardeia progresso e crescimento para os países que sediaram o evento esportivo. Para a Espanha, a gente já sabe: deu certíssimo para o futebol e para os principais atletas; para o povo, sobra o pau nos embates com a polícia nas manifestações de gente desesperada pela falta de trabalho.

Aqui na terrinha, todos os crimes e problemas não ofuscam inaugurações e outros preparativos para os eventos esportivos. Grande estrela, o estádio Maracanã está prontinho e recebeu os operários em jogo comemorativo. Único fato destoante foi uma vaia que Fernanda Abreu levou da torcida do Flamengo, ao cantar o hino nacional na abertura do evento vestindo uma camisa do Vasco. “Que deselegante” diria a apresentadora da Rede Globo.

Em Salvador, dois problemas: A Tribuna da Bahia denunciou a proibição da FIFA, impedindo os baianos de comemorarem o São João (Imaginem o nordeste sem festas juninas!); o fato não diminuiu o brilho da inauguração do Estádio Fonte Nova. Como tem sido hábito, o Vitória derrotou o Bahia. A torcida do azul, vermelho e branco encheu o campo de Caxirolas (Imaginem isso acontecendo durante a Copa! Que escândalo O ministro Aldo Rebelo ficou indignado!).

Dilma gostou da Caxirola;  quem sabe ela não toque na abertura da Copa?
Dilma gostou da Caxirola; quem sabe ela não toque na abertura da Copa?

A caxirola, é bom saber, é um instrumento criado pelo retumbante Carlinhos Brown. O músico, percussionista impar, criou um “treco” baseado no “caxixi”, o popular chocalho. A intenção é dar continuidade ao iniciado na África do Sul, com a vuvuzela, segundo Brown, uma maneira da torcida ter sua “voz” (gritar estimulando o time não é usar a voz?). O inventor ainda garantiu que é possível tocar o hino nacional com o instrumento.

Pronto, a vida ficou melhor. Até este texto ficou mais leve. Preocupações com crimes hediondos, corrupção política e outras mazelas para que? O lance é ver programas esportivos; e nos jornais, revistas e sites, fazer o mesmo. E é provável que o mais importante que um cidadão brasileiro possa fazer seja um curso para tocar caxirola. Não dá, no país do samba e da bossa nova, passar vergonha na frente dos gringos por não tocar o tal instrumento. Isto sim, um grande crime. Portanto, Adeus, terror! Tchau, agonia! Vou fazer cursinho para tocar caxirola.

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Boa semana para todos!

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