A morte e as flores de maio

em
Flor de Maio Foto By Valdo Resende
Maio de 2013

A ditadura da felicidade é um caso sério. Uma simples menção da lembrança do falecimento de meu pai – Dia 21 de maio fez oito anos – e já tentaram impor-me o diagnóstico de depressão. É como se a palavra morte determinasse um falante depressivo, ou o que é pior, que assume um comportamento depressivo. Nesse “assume” está implícito morbidez, prazer na tristeza e, entre outras, a suposição de que um indivíduo decide em um determinado instante que vai curtir uma depressãozinha básica.

Depressão, ao que parece, não é algo bem visto socialmente; nem desejável.  Também receio que, para muitas pessoas, é mais fácil conversar sobre novela e futebol que “aturar” um amigo triste. Recordar a data de falecimento de um ente querido é algo que parte de um momento intensamente triste, mas que pode conduzir ao culto de boas lembranças, de reverência, de gratidão.

Felicidade é um estado e isto implica ser algo passageiro. E nem sempre o oposto de felicidade é a tristeza, se considerarmos que a paz, estar em paz, é fundamental. Acho impossível ser feliz ao recordar a morte de meu pai, de meu irmão, de muita gente querida já falecida, todavia estou entre aqueles que permanecem em paz lembrando os que se foram.

Ninguém é obrigado a fazer coro no culto de alguém aos antepassados. Todavia, quando se ultrapassa o senso vulgar do “diagnóstico de revista”, conversar sobre as coisas boas de quando convivíamos com certas pessoas é mais que possível; é agradável e nos permite experimentar a tal tranqüilidade da alma. Então, penso que o problema não é falar sobre os finados (os mortos, não o feriado!). O problema é a morte.

Como falar sobre morte em uma sociedade onde a felicidade é um estado obrigatório?  Como refletir sobre finitude em um mundo onde seres buscam desesperadamente aparentar juventude, como se essa fosse infinita? Não pretendo que ninguém reveja seus conceitos, nem é intenção estabelecer diálogos cotidianos sobre enterros e velórios. O recado é: nem todos aqueles que recordam carinhosamente seus mortos são depressivos. E mais: pensar na nossa finitude é ótimo para avaliar o que vale a pena vivenciar cotidianamente.

Não cultivo a morte, cultivo plantas e a vida; e depois de dois dias de check-up, muito corridos, só hoje pela manhã foi que percebi a chegada das flores de maio no meu pequeno jardim. Ato contínuo foi abrir as cortinas para que as tímidas florezinhas recebessem merecida luz. Fiquei admirando a simplicidade das formas, a intensidade e sofisticação das cores; pensei em meu pai, em meu irmão e na vida que continua bela, extremamente bela, como as flores.

Flores de Maio. Valdo Resende

Papai tinha habilidade para fazer coisas tão distintas quanto dobradiças, velocípedes, estilingues; sempre tinha em mãos um bambu com um chapéu preso em uma das pontas; era a melhor maneira que ele tinha para colher frutos, da minha casa e das árvores dos vizinhos,  sem que a fruta caísse ao chão. Meu irmão gostava de plantas e tinha o hábito de ocupar espaços vazios plantando ipês e outras árvores decorativas. Cuidava de plantas em avenidas próximas de onde ele morava, levava mudas de árvores para todos os lugares, desde o bosque municipal, em Uberaba, até o jardim da casa de minha irmã.

Herdei de meu pai algumas habilidades manuais e me reconheço irmão de meu irmão no gosto pelo cultivo das plantas. Nada de triste, nem de mórbido, muito menos depressivo. É só a constatação da vida que recebi de meu pai Felisbino, que ficou melhor na convivência com meu irmão Valdonei e que vejo renovada nos vasos que florescem no meu pequeno jardim.

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Até mais!

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5 comentários Adicione o seu

  1. Gabi disse:

    Mt Lindo!!! O ypê no jardim da mamãe florece todos os anos, está enorme, lindo, do jeito q o Tio Donei gostaria de ver… Recordar é uma forma de manter as pessoas, as histórias, vivas dentro da gente, e não acho nada depressivo nos lembrarmos sempre do Vovô Bino e do Tio Donei, pelo contrário, nos traz uma nostalgia boa, histórias engraçadas, momentos bons q vivemos com eles! beijo grande!

  2. Lisa Yoko disse:

    O lance é curtir a saudade, lembrando dos bons momentos que tivemos com as pessoas queridas…

  3. celia ferreira peixoto leitão disse:

    Bonita maneira de falar sobre perdas tristes sem se deter no lamento doído. Reverencia os entes queridos que se foram estabelecendo paralelo encantador entre a vida e a flor.Um texto que nos leva à reflexão e nos faz bem.
    Valdo, você é um Artista na arte de escrever. Parabéns.

  4. maramonaco disse:

    Herdei do minha avó várias flores de maio, as quais aprendi a cultivar e amar, afinal herdei de alguém que me criou e ensinou a amar as flores, não choro a partida, choro as vezes a saudades, que enxugo através das flores em meu jardim, como que se houvesse uma conversa entre nós apenas separada pela cortina que não enxergamos, viva as flores, viva o amor que aprendemos a cultivar.

  5. Walcenis disse:

    A Saudade da presença dói; questiono; revolto.
    Mas… Tenho também que levar em conta o quanto que tudo valeu a pena.

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