Influencer

Ele só queria ser amado, admirado, desejado e, ainda mais, faturar uma graninha por ser assim, um sujeito querido e seguido por milhares, quiçá milhões. Trabalho duro, que demandou tempo iniciado por intermináveis sessões de academia. Como é difícil aumentar o peitoral! Pior são as canelas, as coxas cuja definição as peladas semanais colaboravam, mas o volume… Uns cambitos que pediam melhor alimentação. Esta, outro grande problema.

Fazer uma dieta saudável é complicado. Evitar isso, ingerir aquilo. Nada de ajuda artificial, embora secar barriga é coisa de louco. Os malditos gominhos definidores do tanquinho foram mais difíceis que aumentar bíceps, engrossar panturrilhas. Cansou de ser chamado de frango. Queria ser galo, definido, pronto para pegar quem por ele se interessasse. Nesse ponto demorou algumas semanas para se decidir em relação ao público-alvo até encontrar o meio termo.

Transitou pela indefinição procurando meticulosamente como atingir mantenedores sem que esses fossem perdidos para garotas com as quais apreciava gastar, bancar a conta, sentir-se macho. Melhor vitrine que mulher bonita nunca encontrou. O sucesso chegou aos poucos, na medida em que conquistou uma modelo aqui, saiu com uma aprendiz de socialite ali e, após divulgar imagens de noites que sugeriam prolongamentos sexuais, partia para manhãs em lanchas de amigos abastados, peladas em campos particulares e, finíssimo, até algumas partidas de golfe.

O sucesso social veio junto com um elaborado plano de exposição nas redes sociais. Após erros grosseiros advindos de fotos ruins concluiu ser necessário investir em boas produções. Essas vieram com orientação precisa de um expert, colega de academia. Era preciso ser sensual para todos os sexos, ou seja, nada de fotos direcionadas para essa ou aquela figura humana. Encontrou êxito no estereótipo do homem másculo, elegante, limpo, cheiroso, que mostrava pouco, insinuando o suficiente para incentivar sonhos e desejos alheios. Esses vieram.

O processo todo levou cerca de quatro anos. O menino franzino transformou-se em rapaz viril, sem os exageros musculares dos fisiculturistas. Junto a isso, tornou-se a celebridade elegante; aquela que está em eventos culturais de ponta, que se diverte com a elite em esportes sofisticados, passeios exclusivos. Conseguiu até um emprego de fachada, em uma seguradora após tornar-se amante de um diretor, homem casado e discreto pai de família, habituado a ser mantenedor, portanto, abrindo fácil a carteira. A relação ideal.

O boom da fama aconteceu em namoro relâmpago com uma top do momento. Uma moçoila estrangeira que, em passagem pelo Brasil cedeu encantos ao guapo que, sutil e cúmplice da celebridade, tratou de dar todas as chances para um paparazzi amigo. Este faturou alto com fotos que sugeriam tudo o que não aconteceu, posto que a moça precisava manter a pele saudável para uma sessão de fotos na manhã seguinte e o diretor da seguradora resolveu ter crise de ciúme. A primeira.

Então famoso, apreciava o trabalho matutino: pensar em postagens e poses para durante o dia. Ser gostoso, bonito, tornar-se desejado e invejado pelas pessoas. Estava ótimo ganhar dinheiro para tomar um simples café ou exercitar em tal academia, comparecer em uma festa. Presença! Chegou a contratar auxiliares: fotógrafo, redator, produtor de moda… um pequeno séquito fazendo-o mais bonito, sexy. Tão desejável que o amante, o diretor, resolveu mudar status, querendo ser marido. Com a agilidade dos executivos o homem contratou advogados, dividiu bens e terminou um casamento pensando em novo enlace com o belo e jovem influencer.

Após semanas de nova vida de solteiro para o diretor, e os regalos de sempre para o, agora, noivo, a relação começou a desandar. Para o jovem era temeroso um casamento. O que pensariam as fãs, aquelas que, incautas, não sabiam ler as verdadeiras atividades do famoso? Havia também a exclusividade que a nova fase da relação estava impondo ao rapaz habituado a frequentar a diversidade sexual contemporânea. Sim, ele descobrira ficar enlouquecido com apetrechos diversos manuseados por sadomasoquistas especializados que agiam sem deixar marcas. Tortura preferida, gostava de ser amarrado em argolas dispostas de tal forma que ele ficava tal qual o Homem Vitruviano, de Da Vinci. Braços e pernas presos, bem esticados, e os parceiros lambiam locais de seu corpo que o excitavam, levando-o à loucura. Era mantido preso sem que pudesse ter qualquer movimento. Parte do contrato, os locais de tais práticas não eram revelados e foi este o principal item a despertar o ciúme do parceiro, distante e proibido de participar das festinhas.

Os conflitos pipocaram. O homem mais velho, sentindo-se liberto após o divórcio e dono de ações que garantiam sua posição na empresa tornou-se insuportável. Ia junto a todos os lugares, opinava quanto as poses nas fotos, ao vestuário e, até mesmo, passou a acompanhar as aulas na academia. Uma rusguinha ou outra, por ciúme, seguida de rounds de brigas homéricas, chegando às vias de fato quando o homem tentou impedir o jovem de ir para as sessões secretas, necessitado que estava o guapo de relaxamento. A briga terminou em queda sobre móveis baixos onde ambos trincaram partes do corpo. A perna do influencer, o braço esquerdo do amante.

Conflito abafado, os convalescentes viveram trégua durante o período de recuperação física. Quando o jovem famoso tentou retomar sua vida descobriu estar sem cartão de crédito, ter uma conta corrente zerada e nem o carro e a moto estavam em seu nome. Com ódio, enviou sentimentos de gratidão ao amigo que fizera com que ele aplicasse dinheiro escondido, mantivesse contas secretas. E acima de tudo que jamais gastasse do que ganhava. Tinha seu trabalho nas redes sociais. Pegou seus pertences e saiu, sem se despedir do agora ex-mantenedor.

A retaliação foi rápida e devastadora. Com a objetividade dos grandes administradores o homem buscou os rivais do influencer. Entre esses, os mais baixos, os mais perversos. E criou sua versão da história: Apanhou, teve o braço quebrado, foi roubado, perdeu a família por um viciado que frequentava um “castelo” escuso, território de sadomasoquistas pederastas. Completou a narrativa com imagens de olheiras feitas por maquiador de última hora, o mesmo que cobria as imperfeições do ex-namorado.

Julgamento rápido, o cancelamento veio junto com pederastia e sadomasoquismo elevadas momentaneamente aos trending Topics do Twitter. Ao influencer restou chorar a fama perdida, a aura para sempre manchada pela impossibilidade de desmentir o caso com um homem mais velho, pai de família que perdeu mulher e filhos por conta de um vadio de ocasião.

O cancelamento foi amargo. Durou cerca de quatro meses. O tempo levado para que a moçoila top pop star voltasse ao Brasil. Alheia aos escândalos anteriores e aproveitando-se desses para garantir maior visibilidade, a moça aceitou até expor situações mais íntimas. Um intenso e inequívoco beijo de língua, uma mão amassando um peito enquanto a outra, da parceira, aconchegava o sexo do rapaz, já então recolocado instantaneamente ao podium. Influencer!

Outras viagens

BANZO

Diante desse marzão que assusta
Com seus mistérios e movimentos constantes,
ondas incertas sob sol escaldante
penso nas montanhas de Minas
nos chapadões da minha terra.
Não sendo daqui, sabendo que não voltarei para lá
sinto-me estrangeiro em todo canto
e trago constantemente na bagagem
Um pouco de tristeza, nostalgia e saudade.

Recife, verão de 2014

QUARTO DE HOTEL

Agora, quando distante de tudo
Abro janelas para além do espaço,
Portas para outros tempos.

Parece que há sons juvenis
Sombras esguias, fôlegos intensos
Cheiros que se esvaem no calor noturno.

Ecos de determinação, vontade férrea
Batalhas contra o estabelecido
Certeza do ser predestinado.

Penso nesse ser cada vez mais distante
Reconstruído em lembranças.
Restaram abismos intransponíveis
Distâncias colossais…

Longe era o tempo que faltava pra ser grande
Longe eram quilômetros entre cidades
Longe era o futuro que agora me afronta
Mostrando o fim do qual busco afastar-me.

Apenas uma noite.
Uma longa noite de calor insuportável.
Distante da casa onde raramente abro janelas.

Rio de Janeiro, novembro/2013

Dreams Island

Era muito pequeno, um menino de calças curtas. Nem se lembra exatamente quando ocorreu, mas ter ido visitar uns tios que moravam no litoral, lá em Vitória, no Espírito Santo, mudou para sempre a sua vida. Tudo por conta daquela prima chata, sabidona, que havia percebido que o menino ficara encantado com a cidade. “– Uma ilha, ela disse. Aliás, são muitas ilhas que compõem a cidade. Por isso é tão bonita! É água para todos os lados!”

A sabidona tinha estado em Montes Claros, visitando o primo. Reclamou do calor, da seca, da ausência de água em abundância. “– Aqui não tem mar? Lugar esquisito. Como viver longe do mar?” Pois mineiro vive muito bem, responderia ele se não tivesse se sentido inferiorizado, sem saber nadar, assustado com o mar em movimento. Piorou um pouco em visita à Vila Velha. Sabe-se lá o motivo, havia ondas enormes e por mais que a prima insistisse ele nem molhou os pés. Banho de mar… Tinha feito todo asseio antes de sair de casa.

Muito depois o menino descobriria que água, sabão e alguns remédios o curariam da catapora. A mãe não se conteve, fez promessa, e logo na primeira oportunidade foram para Vitória, terra dos avós maternos e, na cidade, foram ao município vizinho participar de missa no Convento de Nossa Senhora da Pena. A prima estava lá. Ela estava em todos os lugares! E não perdeu de vista o olhar de espanto do menino admirando a paisagem do alto do morro. “– Aqui é Vila Velha! Lá é Vitória”, apontou a cidade rente a água. “– Temos muitas ilhas, mais de trinta! Sua Montes Claros não tem tanta água assim.”

Ele levou uns cascudos do pai, uns puxões de orelha da mãe. Recíproca a outros, dados por ele na sabidona a quem, na hora da briga, foi chamada de capixaba, como se isso fosse palavrão. Mineiro é coisa bonita. Mineira, então, nem se fala! Mas, capixaba! “– Você não passa de uma capixaba xexelenta!”. Nunca mais se falaram, nas duas ou três vezes que se viram ele fez caretas, ela olhando-o com ar superior. “– Temos muitas ilhas!”. Ele seguiria firme em um juramento feito lá longe, com as orelhas ardendo: um dia teria a sua ilha!

Já adulto, anos e anos depois, sabia que Minas Gerais tinha ilhas, um monte delas. Gente abençoada, mineiro tem água até para construir ilha artificial, longe de tubarões, de ressacas perigosas. Engenheiro de profissão, conseguiu grandes trabalhos construindo estradas e antes dos cinquenta anos já pensava em comprar um pedaço de terra. Um sítio, uma fazenda; nada muito grande, desde que fosse banhado por água e, fundamental, que tivesse uma ilha. Poderia ser pequena, mas seria uma ilha; a sua ilha.

Conheceu todas as ilhas do Rio Doce: Brava, Bonaparte, Etelvino, Nossa Senhora da Penha… Ela, a santa daquela distante viagem. Bem que poderia ajudá-lo a encontrar sua ilha, em pedaço de terra que ele pudesse comprar. Quase comprou uma pequena chácara em Piracicaba, no Estado de São Paulo, por onde passava o rio famoso na região e na canção. Resoluto, só compraria terra em sua Minas Gerais, terra com água e ilha, tão bonita quanto Vitória. Não falava disso com ninguém e, na calada, sabia da sua luta quase insana. A capital capixaba é bonita demais!

Mineiro que é mineiro sabe de Guimarães Rosa, de Augusto Matraga. “Todo homem tem sua hora e sua vez!”. Eis que a dele chegou. A empreiteira o enviou para inspecionar reformas na estrada que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, bem no município do Brumadinho. A esposa adorou a região e na primeira oportunidade surgida compraram uma bela chácara às margens do Rio Paraopeba. Aquelas serras, aqueles rios com água farta!

Estavam longes de Brumadinho, mais distantes de Belo Horizonte e felizes com o sossego e a tranquilidade local. O casal de filhos crescidos, casados e com famílias constituídas, teria na chácara um local de férias garantido. A esposa bem que estranhou quando ele batizou a chácara: Dreams Island. Ele não negociou. A mulher entendeu a ilha como o refúgio entre cercas de arame farpado em quase toda a propriedade, exceto na parte rente ao rio. Ele, sem confessar a ninguém, só adquiriu o local por conta de duas pedras que emergiam do Paraopeba entre outras, menores, e volta e meia cobertas pela correnteza.

Tantos anos passados, nenhuma ilha disponível para suas possibilidades financeiras, ele resolveu se contentar com a Dreams, como a chamava para si. Quem sabe compraria outra, mais para a frente. Uma ilha maior, bonita. Todavia, nada melhor do que ter sua ilha, ali, para uso particular.

Finais de semana ou em feriados prolongados ele pegava vara de pescar, munia-se de iscas, um rádio de pilhas, boa cachaça e rumava para sua ilha. Raramente se lembrava da capixaba xexelenta. Quando ocorria, tinha certeza de que ela não possuía uma ilha como a dele, só dele, todinha para ele. Um dia de ausência de peixes a cachaça provocou sono pesado. Ele acordou com as costas ardendo, assadas na pedra inclemente. Ele repetiu outras vezes a façanha: Pescaria preguiçosa, cachaça farta, sono tranquilo.

Estaria bêbado naquele 25 de janeiro de 2019? A família não sabe. Estavam todos em Vitória, nas bodas de prata da prima que ele odiava. Talvez ele tivesse tentado salvar alguma coisa da pequena ilha quando se perdeu sobre os dejetos vindos do desastre da barragem, em Brumadinho. A chácara virou um lodaçal fedorento, o rio perdido, a terra contaminada. A horta, o pomar, a casa. Tudo perdido, destruído. Foi encontrado algumas semanas depois, morto, um nome entre mais de duas centenas de outros. O reconhecimento foi fácil. No pescoço ele portava um colar recebido de presente da esposa. Era de ouro maciço, personalizado, com o nome Dreams Island preso entre correntes.

Hoje tem Quarentenados

Esta noite estarei no programa Quarentenados, criado e produzido pelo Deu Samba na Cast, quando serei entrevistado por Marta Olivieri.

O pessoal do Deu Samba vem, desde 2017, trabalhando, nas palavras do coletivo “com o propósito de trabalhar elementos representativos em ilustrações da nossa cultura afro brasileira”. E complementa: “Com o tempo, a necessidade de se conversar sobre o que nos forma foi ficando mais pujante e com a união de pessoas que trabalham na cultura, na educação e como ativistas, surgiu a Deu Samba na Cast”.

Feliz em poder contar sobre minha trajetória, processo de trabalho e ressaltar a importância da escrita, não só na minha vida como na de todo cidadão.

Agradecendo a oportunidade, convido a todos para, às 19h00, entrarem no YouTube (VEJA ABAIXO). Muito obrigado e, se oportuno, deixem comentários.

Até mais!

Juntos no Quarentenados

Deu Samba na Cast é um coletivo de gente interessa em cultura, transformações sociais, solidariedade e outros aspectos de tudo o que valoriza o ser humano. O grupo realiza lives, podcats e programas como o Quarentenados. Neste, o tema gira em torno de um profissional, seu histórico, suas atividades e a vivência durante esse período de pandemia,

Convidado por Marta Olivieri, estarei no próximo episódio da série Quarentenados do pessoal do Deu Samba na Cast] .

O papo será em torno das minhas atividades como escritor. Fiquei feliz pela oportunidade, agradeço o convite e espero vocês.

Serviço:

Deu Samba na Cast

14/09 próxima terça, 19h00 no YouTube acessando<a href=”http://&lt;!– wp:paragraph –> <p>14/09 próxima terça, 19h00 no YouTube acessando este link https://www.youtube.com/results?search_query=deusambanacast</p&gt; <!– /wp:paragraph –> <!– wp:paragraph –> <p></p> este link

Até lá!

Semana Cultural em Caieiras

Na próxima sexta, 19h00 participarei do encerramento da Semana Cultural organizada pela Secretaria de Cultura de Caieiras. O tema, Folclore em diferentes manifestações culturais brasileiras, será apresentado em live com o Secretário de Cultura Wesley Gonçalves que me honra com esse convite e a quem, desde já, agradeço.

O folclore é um tema muito gostoso; fatos e hábitos folclóricos estão presentes em todas as fases de nossas vidas. Pequenas e grandes manifestações populares nos encantam e preenchem momentos essenciais em que manifestamos fé, alegria, celebrando a vida, a memória e os costumes de nossa gente.

Aguardamos todos vocês. Sexta-feira, 27 de agosto, 19h00 no Instagram da Prefeitura de Caieiras.

Até lá!

Querida Rosângela Maschio!

Caríssima,

Estou feliz e grato com suas mensagens. Conhecer sua opinião, suas reações, suas posições em relação ao que escrevo no romance que você me informa estar terminando de ler, me deixa profundamente feliz.

Desde que lancei “dois meninos” ocorreram muitas coisas complicadas na minha vida pessoal (fui acidentado, fiquei um ano de molho, chegou a aposentadoria, veio a demissão da universidade… Além de perdas maiores, como o falecimento de minha mãe).

Nesse tempo também ocorreram atividades que me enriqueceram profissionalmente. Realizei projetos na Baixada Santista, no Vale do Paraíba, tive uma peça de teatro apresentada na maioria dos CEUs – Centros Educacionais Unificados de São Paulo, além de apresentações no Sul e Nordeste do país. Também tive um poema citado em publicação do aniversário de minha cidade natal, lancei uma coletânea de contos… Enfim, a vida seguiu seu curso e, nesses anos após o lançamento do romance, percebo e constato um fato perturbador.

“dois meninos” caiu como uma bomba silenciosa por aí. O lançamento foi concorrido, com duas centenas de pessoas presentes. Eventos posteriores (lançamento no Rio de Janeiro, palestras, feiras e cursos) contribuíram para a modesta carreira do livro (Marta Blanco, editora que merece todo meu respeito, já havia me alertado para o fato de que, no Brasil, romance vende pouco!). O fato é que o livro atingiu centenas de pessoas e eu fiquei aguardando pronunciamentos (risos!).

Todas as formas expressivas manifestam algo que, via de regra, merece discussão, resposta. Pessoas próximas comentaram, algumas indo mais fundo e, infelizmente, a maioria preferiu o silêncio. Um silêncio respeitoso, posto que volta e meia manifestavam admiração pelo escritor. Ninguém é obrigado a dar retorno de livros lidos, compondo críticas ou publicando resenhas. Todavia, um comentário mínimo seria de bom tom…

Uma amiga muito querida, Marise de Chirico, também responsável pela diagramação e projeto gráfico, dias antes de enviarmos o livro para a gráfica me questionou com seriedade: – Você vai manter seu texto na primeira pessoa? Me pareceu absurdo, mas Marise me alertava para possíveis consequências relacionadas a preconceitos e homofobia. Bom, “A vida é luta renhida”, disse Gonçalves Dias, “Viver é lutar”.

A bomba silenciosa teve seus efeitos. Sou grato ao meu romance por ter tirado da minha vida uma quantidade razoável de pessoas. Sou um sujeito de sorte! Dessas reconheço e guardo tal fato como alerta perene. Nossas ações provocam reações e assim é a vida. A questão complicada é o silêncio, mesmo “respeitoso”, pois neste caso me parece companheiro do preconceito, da homofobia.

“dois meninos” tem uma imensa carga autobiográfica mesclada com ficção. E, daquilo que é fictício também assumo a autoria, pois se escrevi é porque penso da forma e posição exposta. Há vários motivos pela maneira com a qual resolvi contar tal história. E Rosângela, vou me permitir, contarei algumas nessa mensagem.

O anonimato das personagens veio por duas razões, e a primeira pode ser referenciada ao momento atual. Quais as histórias dos mais de 550 mil mortos vítimas do Covid? Não são números, são pessoas com sonhos, desejos, vontades, projetos, famílias, amores, amantes, profissões… O anonimato em “dois meninos” nasceu da necessidade de sensibilizar as pessoas para que percebessem vidas humanas vitimadas pela AIDS. A segunda razão vem de uma dúvida cruel; sem autorização do morto, sem ter conversado a respeito, eu poderia nominar, detalhar sua vida?

Tendo como ponto de partida um poema – “dois meninos – limbo” é um poema decodificado, transformei fragmentos de versos em capítulos e, assim, me permiti ampliar a metáfora concisa em história detalhada. Um exercício literário que se estendeu naquilo que chamei de “hipertexto”, dando uma opção de leitura ao colocar frases e períodos em negrito que pretendem sintetizar a história. Essas opções formais caminharam com a dificuldade em caracterizar personagens sem nominá-los.

Concluindo maneiras de contar e formas de expor a história, durante o lançamento e ainda hoje recuso a expressão “romance gay”, fundamentalmente por “gay” não se constituir em gênero literário, mas um tema entre tantas outras possibilidades. Usar tal expressão facilitaria acesso a um mercado específico, talvez provocasse reação contrária em outros. De qualquer forma, sempre estive interessado em literatura e, na medida do possível, em ser um Escritor.

Volta e meia me deparo com situações que envolvem a vida privada alheia, com a corriqueira expressão “saia do armário”. E penso que minha resposta deva ser: – Tire meu livro do armário e venha falar a respeito.

É ótimo conversar horas e horas sobre tudo o que nos envolve. Aquele papo de amigo que mergulha fundo, como escreveu Clarice Lispector, buscando “o é da coisa”. Aquele “é” que todos nós temos e que serve de parâmetro, medida, norteamento para todos os seres viventes do planeta. Esse “é” que, de tão conciso, confunde pessoas rasas, que pairarão sempre na superfície incapazes de um mergulho profundo que há, ou deveria haver, em todo ser humano.

Creio que teremos muitas conversas pela frente, cara Rosângela. Espero que sejam presenciais, virtuais, por escrito, em forma de romance, poesia, letra de música, post no twitter, via pombo correio… Por enquanto deixo público meu abraço e minha gratidão a você, e aos que leram e deram retorno sobre esses “dois meninos”.

Um carinhoso abraço!

Valdo Resende