Mais um território em que autoras se destacam, as Graphic Novels são romances ilustrados, em que se faz comum a união entre desenhistas e escritores. Tendência que vem ganhando força no mercado editorial, para falar dessa especialidade, convidamos a premiada Marcela Godoy.
Autora e roteirista referencial do segmento. Entre seus trabalhos destacam-se “Romeu e Julieta”, “Macbeth”, “A Dama do Martinelli” e “Fractal”.
“Papa-Capim: Noite Branca”
O primoroso texto de Marcela Godoy e o belo traço de Renato Guedes uniram-se para nos presentear com o volume “Papa-Capim, Noite Branca”.
Papa-Capim, personagem de Maurício de Souza, investe-se da missão de acabar com uma ameaça sobrenatural capaz de pôr fim à sua aldeia, Noite Branca. Daí para a frente, a Graphic Novel da dupla nos levará a uma trama surpreendente.
Para falar dessa e de outras obras, mais o universo das Graphic Novels, o Trem das Lives recebe a autora nesse domingo:
Quer saber o que pensam, como pensam, o que vai pela cabeça dos jovens? E, para isso, evitando os questionários frios, as manifestações forçadas por interrogatórios ou situações similares? Entre as possibilidades das respostas do que pensam, o que gostam, como se comunicam… Que tal um concurso de contos? O resultado é certeiro e pode ser comprovado no “V Concurso de Contos Meu Livro, Minha Arte” promovido pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro!
Recebi uma caprichada publicação da ALTM: Antologia, com o registro do Concurso de Contos, Meu livro, Minha Arte. Além dos três primeiros lugares, há outras cinco menções honrosas e outros vinte trabalhos classificados pela comissão julgadora, formada por membros da Academia: Ani de Sousa Arantes Santos, Arahilda Gomes Alves, Gilberto de Andrade Rezende, João Eurípedes Sabino. Esta comissão presidida pelo Acadêmico Renato Muniz Barreto de Carvalho. O conteúdo vai muito além de um exercício formal de um gênero literário!
É ler os contos publicados e constatar um amplo painel humano. Há jovens sonhadores, inquietos investigadores… há os que deixam fluir a fantasia, e outros que revelam suas mazelas, suas inquietações, suas aspirações. Me vejo entre esses adolescentes e percebo neles meus conhecidos, meus sobrinhos, jovens amigos. Alguns já carregam profundas lembranças, futuros memorialistas, transmitindo faces de situações que mostram nossa cultura, nossos hábitos e tradições.
Também há romance, é claro! E investigação. E situações atávicas que revelam vidas vividas no serrado, no chapadão. Gostei de rever meus medos de infância, quando fantasmas brincalhões abriam e fechavam portas, ou quando objetos se transformavam em outros por artimanhas de sabe-se lá quem! Sobretudo, há contos que referem livros, o tema prioritário do concurso.
Espero que esses trabalhos de jovens escritores sejam lidos por muitos! Pelos pais, para que conheçam quais os caminhos percorridos pela verve criativa dos filhos; por professores, para que sintam orgulho do trabalho realizado – um leitor é aquele sujeito alfabetizado, em toda a acepção da palavra. Também espero que esses contos, material de reflexão, sejam lidos por irmãos, amigos, conhecidos dos autores que, via literatura, são vozes de todos os demais jovens com seus anseios, suas angústias, medos, desejos…
Parabenizo e agradeço ao João Eurípedes Sabino, o presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro que, em meio a essa triste pandemia, conseguiu aglutinar parcerias e colaborações, não medindo esforços para realizar o concurso. Temos na publicação mais que o registro de um evento: temos o pensamento dos nossos jovens de Uberaba que, em sua singular individualidade, expressam toda uma geração.
Foi simultâneo sentir-se acordado e abrir os olhos. Não reconheceu o cheiro dos lençóis e notou, rapidamente, ser outro o travesseiro onde repousava a cabeça. Olhou para a cama, os aparelhos sustentando frasco de soro, outro com remédio também aplicado na veia. Mexeu os braços, movimentou as pernas, virou a cabeça para um lado e outro, o olhar indo além para encontrar paredes sem graça, cores muito claras, frias, um hospital…
O livro espírita lido há tempos dizia de hospitais onde seres desencarnados deveriam se recuperar antes de enfrentar a realidade. Aguçou o ouvido, percebendo que havia sons conhecidos fora do quarto. Sem identificar se vindo do corredor ou de quarto vizinho, reconheceu o som costumeiro da televisão com seus repetitivos programas matutinos. Só faltava, na eternidade, ter que conviver com receitas culinárias de ingredientes que ele nunca tinha na despensa…
Duas enfermeiras entraram sorridentes, anunciando troca de turma e dando boas-vindas ao convalescente. – Vejam só, disse a moça de pele viçosa e descansada, indicando ser a que prosseguiria dali para a frente. – Então o senhor acordou! Está tudo bem? O senhor tem direito a acompanhante e, não sendo vítima da pandemia, a entrada e permanência neste setor é liberada, embora as visitas estejam controladas. O senhor quer que a gente chame alguém?
Não havia quem chamar. A família longe, os parentes distantes, os amigos em quarentena… Ficou sem jeito, envergonhado por estar sozinho. Havia tido tempo de alertar o porteiro, deixar a casa aberta até a chegada da ambulância. Com quem teria ficado a chave do apartamento? Ainda bem que o porteiro, Ademir, era de confiança. Em não sendo e acreditando-o morto, Ademir tiraria proveito da situação? Pediu à moça o celular. Ela retirou o aparelho, já descarregado e sem cabo, da gaveta do criado mudo. – Vou conseguir um carregador para o senhor! Seu médico deve passar ainda pela manhã! Bom dia! E antes de sair, em gesto automático, ligou um televisor, deixando o controle remoto ao alcance do paciente. Ele aguardou a porta fechar para desligar o aparelho.
A enfermeira dissera estar tudo bem. Um infarto. Ele pensou em investigar as próprias condições; respirou profundamente várias vezes e sentiu-se bem com a ação. Pegou o interruptor, preso na lateral do leito, e começou a brincar com as possibilidades do móvel. Subiu e desceu toda a cama, levantou a parte superior, sentando-se e voltando a repousar para, em seguida, levantar os pés. Perguntou-se se a cama poderia ir de um lado a outro, controlada pelo paciente. Lembrou Frida Kahlo e mudou rapidamente de ideia. Não estava interessado em passar a vida sobre uma cama, mesmo que ela tivesse luzes e música embutida, frigobar e outras bobagens chamadas “confortáveis”. Era uma cama e o melhor seria sair dela.
Decidido a se levantar, ao sentar-se sentiu o peito apertado, notando sinais estranhos na mandíbula, no pescoço. Insistiu em levantar-se e veio a tontura, a falta de ar. Ele poderia insistir, deixar de chamar socorro, e buscar a saída, o banheiro, qualquer outro lugar que não aquele quarto de hospital. As enfermeiras voltaram, alvoroçadas. – O que o senhor está sentindo? Não pode sair da cama! Parece criança! Ele não havia feito barulho. Como elas teriam percebido? – O senhor, quando assinou o convênio, autorizou monitoramento por câmera estando sozinho. Foi uma ótima ideia até vir alguém para ficar com o senhor. O médico já vem. Tenha paciência!
Ele poderia mandá-la à merda. Ficou ruminando raiva. Criança! À puta que pariu com essas conclusões precipitadas. Identificou a câmera, localizada bem em frente à cama e outra, na parede lateral. Será que teriam câmera o vendo quando no banheiro? E se ele se masturbasse, ostensivamente para a câmera? É. Criança. E riu das próprias conclusões, sem deixar de lançar um olhar de ódio para os pequenos objetos. Estava cansado de contatos via aparelhos. Televisão, rádio, computador… E as ligações, os grupos de WhatsApp, as redes sociais… O inferno da pandemia exposto e imposto através de lentes, telas, sons. Havia cancelado jornais impressos e revistas, com receio de contágio…
Veio um café, com a feiura das bandejas hospitalares. Tudo muito limpo, organizado, asséptico, encapado com plástico. Manteiga sem gosto, café fraco e sem açúcar, leite morno e frutas, e barra de cereais, um suco de caixinha – que todos têm sabor artificial; suco de caixinha… A senhora do café se mostrou simpática, ofereceu ajuda. Ele agradeceu e comeu, pensando em quanto tempo duraria para carregar a bateria do telefone.
Alguns minutos após o café entrou o médico. Simpático profissional. Veio com papo similar ao da enfermeira. – Quer dizer que o senhor andou fazendo arte! Vamos ver como é que está esse coraçãozinho, a pressão! Tá sentindo alguma coisa? Ele informou estar irritado com o fazendo arte. Eu faço arte! Sou artista. Algum problema ser artista? E tenho coração, que coraçãozinho quem tem é codorna. O almoço vai vir no mesmo nível do café ou pode melhorar um pouco?
O simpático profissional mudou. Mostrou-se profissional sério. – Seu nível de estresse levou-o ao infarto. Todo o senhor chegou aqui cheirando a cigarro. Está muito acima do peso e a depressão transborda do seu olhar. Entendo. O senhor luta contra todas as imposições advindas da pandemia. É uma luta solitária. Serviria de consolo dizer que eu trocaria de lugar com o senhor? As pessoas chegam aqui fora de si. Parei de contabilizar aquelas que não voltaram, que morreram na manhã seguinte. Estou cansado e farto de ter um paciente novo a cada dia porque o do dia anterior faleceu. E creia-me, estou feliz porque o senhor está vivo. Estou vendo-o pela segunda vez e vivo! O senhor tem direito a atendimento psicológico. Vou pedir para que venham vê-lo o mais breve possível.
Ambos em silêncio, o médico mediu novamente a pressão, auscultou o pulmão e o paciente resolveu mostrar outra face: – Meu coraçãozinho não vai aguentar ter que falar com psicólogo hoje. Dá para trocar por um cigarrinho? O médico voltou a ser simpático, menos profissional, já quase amigo. – O senhor quer um café expresso antes do cigarro, uma cerveja, uma cachaça? Vou mandar vir o psicólogo antes do almoço. E antes que se afastasse, o paciente segurou-o pelo braço, em ação que seria inusitada, não fosse o Covid 19. – O senhor é a primeira pessoa em quem toco nos últimos oito meses. E quando o médico retornou o olhar, sério, a tensão foi quebrada pelo próprio doente. – Não quero sexo, nem beijo na boca. É só um aperto de mão. Riram e o médico saiu, prometendo voltar ao final do dia.
O que ele diria para o psicólogo? Seria bom que fosse uma mulher. Há tanto tempo que não falava presencialmente com uma mulher! Apenas via internet com a esposa, que estava morando em Lisboa desde o início da pandemia. Fora anteriormente, para ajudar a filha grávida do segundo neto. Decidiram que seria melhor que a esposa permanecesse por lá, cuidando para que ninguém se contaminasse. Ele concordou, macho autossuficiente, forte e decidido – Aqui as coisas estão de mal a pior. As UTIs lotadas, um imbecil no poder, as pessoas andando pelas ruas sem máscaras…
Três, quatro semanas depois o macho autossuficiente já ansiava pela volta da esposa. Orgulhoso, fingia estar bem. Protetor, insistia em que a filha é quem precisava de cuidados. Meses depois era um menino solitário, chorando sem receios de ser visto por não haver ninguém para vê-lo. Inventou para a esposa que a câmera do computador estava com defeito, que não conseguia mexer com o celular, para que não vissem a barba por fazer, o corpo ganhando peso, o olhar triste. Com frequência interrompia as ligações, para que não percebessem que caía em prantos. Na ligação seguinte amaldiçoava a telefonia nacional.
Um ano estava sendo tempo demais! A chegada da vacina trouxe um alento e, logo que possível, ele tomou a primeira dose. O susto pela contaminação do vírus em amigos e familiares se tornara corriqueiro. Contudo, não conseguia aceitar as mortes. Alguns parentes, um irmão, dois sobrinhos, vários amigos, dezenas de parentes de amigos, de familiares de amigos, de pessoas famosas. Morte. No corredor do edifício, no elevador, na portaria… Morte. No bar da esquina, na caixa da padaria, no entregador do supermercado. Morte.
Analista financeiro, estava com quatro bons clientes e realizava consultorias. Tudo via internet. Assustava-se com o lucro dos grandes perante a insensibilidade de responsáveis por vacinas, por ajuda financeira aos mais necessitados. Será que o médico diria para o psicólogo que ele não era artista? Riu, pensando que se não olhassem atentamente sua ficha não mereceriam respeito. Voltou a si, ao motivo de estar ali infartado.
Recebia relatórios, documentos, orçamentos, dados de investimentos e devolvia pareceres. Tudo via e-mail. Logo estava conversando o mínimo com colegas profissionais, sem qualquer traço de humanidade. Como se máquina respondendo aos comandos. Disque 1 para resultados positivos, 2 para negativos, 3 para as variações de mercado… Passou a evitar as redes sociais, com seus incontáveis quadrados negros com a palavra luto em destaque. Desligou a tv, buscando informações especializadas, contatos diretos na bolsa de valores e em específicos jornais digitalizados. O que pesou mesmo foi a solidão, a tristeza e o desânimo ante uma situação aparentemente condenada ao caos e à tragédia.
O telefone tocou. Estava já carregado, alegrou-se! Era a esposa. Aflita. O solícito Ademir mexera nas coisas, encontrara telefones, avisando do acontecido. Ela estava a caminho. Conseguira passagem para a noite, após todos os trâmites para comprovar que estava vacinada. Ela falava convulsivamente, preocupada. E ele, sem conseguir se conter, chorou o pranto represado ouvindo a esposa. Soluçando pesadamente, pediu que a mulher voltasse, que ele não aguentava mais. Pediu desculpas pela fragilidade, pela incapacidade de viver só, pelo medo de morrer sem revê-la. Ele nem notou que, enquanto se abria ao telefone, a psicóloga havia entrado e esperava, já observando-o. Quando deu por si, buscando água e alívio para o choro, a profissional pegou o telefone, identificou-se falando com a esposa e com ele simultaneamente. – Venha sim! Ele vai ficar bem. Já está melhor, conseguindo colocar tudo para fora já é um caminho. Venha! Aguardamos a senhora para que saiam juntos daqui do hospital, voltando para casa. Vai ficar tudo bem.
O Trem das Lives está construindo um belo acervo de vídeos que abordam diferentes faces da cultura brasileira. Entre no YouTube, siga-nos, ative o sininho sobre notificações de novos vídeos!
Junho chega com Roberto Carlos voltando com tudo por aqui. O título acima é do livro do Jotabê Medeiros, lançado em abril deste ano. Lendo o livro me dei conta de que lá se vão 58 anos de convivência, desde as primeiras canções do “Rei” que entraram em minha memória. A leitura é emocionante por dois motivos básicos: a memória de infância acionada em cada trecho do livro e a percepção do tempo, da história que caminha ignorando nossas vontades. Tempo, tempo, tempo, tempo… diz outra canção, de Caetano Veloso, este também presente na vida de Roberto Carlos.
Conheci Jotabê Medeiros no ano passado, durante a Bienal do Livro de São Paulo quando mediei uma mesa da qual participou também o jornalista e escritor Nelson Motta. Assunto daquele momento, a vida do Nelson Motta e as biografias escritas por Jotabê, “Belchior, apenas um rapaz latino-americano” e “Raul Seixas, não diga que a canção está perdida”. Agora nos encontraremos no Trem das Lives, e o assunto será “Roberto Carlos, por isso essa voz tamanha”, celebrando os 80 anos do cantor e compositor,
O livro sobre Roberto Carlos oferece sobretudo aos fãs uma profunda viagem pelas diferentes fases da vida do parceiro de Erasmo Carlos, favorecendo lembranças sobre a Jovem Guarda, Wanderléa, e tudo o que veio depois. Há “detalhes”, muitos! De coisas esquecidas, de fatos desconhecidos, de momentos em que nossas vidas aconteceram com a trilha sonora de canções inesquecíveis.
Eu vesti calça calhambeque e, junto com essa, um cinturão “tremendão”… Minhas irmãs compravam discos, guardavam fotos. Tive um caderno onde colava fotos da Wanderléa… Meu irmão e meu avô curtiam a Martinha. O padrinho Nino ouvia “A Distância” e a namorada achava que era por conta de umas desavenças… ele ria e a gente sabia, ele se lembrava de outra namorada, anterior, perdida no tempo. Um dia Ronaldinho me ligou, em pleno expediente. Eu, no trabalho, tive que parar: – Escuta aí a música que o RC fez pra nós. “Você meu amigo de fé, meu irmão, camarada…” Como o próprio RC diria, “são muitas emoções” e eu ficaria horas escrevendo sobre essas.
Próximo domingo tem Roberto Carlos na live que farei com Jotabê Medeiros. Todos convidados para reviverem momentos pessoais e conhecer outros faces contadas pelo escritor. Aguardo todo mundo!
Um encontro com o escritor João Eurípedes Sabino, Presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro acontecerá no próximo domingo, 23 de maio, 18h00, na página do Instagram do Trem das Lives. As principais obras, o lançamento da Revista Convergência e os próximos projetos literários do escritor serão abordados na live.
O CONVIDADO JOÃO EURÍPEDES SABINO
Engenheiro Civil e Engenheiro de Segurança, Perito Judicial, Professor Universitário, Auditor Fiscal do Trabalho aposentado, sobretudo João Eurípedes Sabino é um escritor. Nascido em Uberaba, Minas Gerais, onde reside e exerce a presidência da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira n° 32, o escritor mantém uma agenda cheia, sendo articulista do Jornal da Manhã e cronista da Rádio Sete Colinas. É membro fundador e preside o Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região.
Nascido em 1949, João Eurípedes publicou sua primeira obra em 1987: Da Pertinência e Objetividade dos Quesitos nas Ações Possessórias e de Retratação é uma importante contribuição na formulação de quesitos judiciais. Em seguida, João Eurípedes publicou uma série de livros destacando-se em poesia e prosa.
Aos 17 anos de idade descobriu que no mapa da cidade natal, algumas ruas e avenidas formam o desenho nítido de uma ave. Foi o mote para publicar, tempos depois, “A Pomba da Paz de Uberaba”. Anos de pesquisa em presídios, hospitais e institutos envolvendo andarilhos, familiares desses e encontros com alguns resultaram no livro “O Andarilho, quem é ele?”. Entre os demais livros publicados pelo autor está a biografia de José Formiga do Nascimento, o Zote, figura proeminente de Uberaba que foi descrita no livro “O Zote que eu Vi”.
Defensor ardoroso da cultura em todos os sentidos. A literatura, o meio ambiente e o patrimônio histórico, têm sido bandeiras prioritárias para ele.
Ex-membro da Sociedade dos Amigos da Biblioteca Municipal de Uberaba, João Eurípedes Sabino integrou o Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico da cidade e possui algumas condecorações, dentre elas: Diploma e medalha de honra ao mérito no Exército Brasileiro; Medalha Major Eustáquio, pela Câmara Municipal de Uberaba, em 1992 e a Medalha Comemorativa dos 150 Anos de Uberaba, pelo Poder Executivo Municipal, em 2006.
A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a Revista Convergência.
Fundada em 1962 por um grupo de intelectuais de Uberaba, tendo entre seus membros Mário Palmério, o imortal da ABL – Academia Brasileira de Letras, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro vem, desde então, divulgando os escritores e obras regionais, cumprindo um papel importante e fundamental no Brasil Central.
Entre os trabalhos da ALTM destaca-se a Revista Convergência, uma das publicações oficiais mais antigas feitas pelas Academias de Letras em todo o Brasil. Nestes tempos pandêmicos teve uma edição virtual, mantendo o espírito de trabalho da entidade. A edição n° 31 será comentada por João Eurípedes durante a live.
O TREM DAS LIVES
O Trem das Lives surgiu em outubro de 2020 visando divulgar lançamentos de livros, peças de teatro e demais atividades artísticas e manifestações culturais. As lives são descontraídas, priorizando o tempo dado aos convidados, facilitando aos mesmos um espaço não comum nas mídias tradicionais. As viagens desse trenzinho ocorrem aos domingos, no Instagram, às 18h00, com duração de 1h. A divulgação é feita pelos idealizadores e convidados via Facebook, Twitter e o próprio Instagram. Os vídeos com registros das lives estão no Youtube.
Da janela da clausura dessa interminável quarentena vejo Rubão, na porta da doceria. Ele não leva jeito de quem gosta de doces, mas como a doceria vende outras coisas… Meu conhecido deve ter por volta de 40, 50 anos. Pode ser mais, ou menos. Ninguém mantém o frescor da pele morando na rua. E é na Avenida Brigadeiro e em outras calçadas de vias próximas onde ele reside.
Rubão está sempre alegre, trocando pouquíssimas palavras com os transeuntes, mas estabelecendo papos enormes com quem só ele vê. Tem um olhar arguto e uma percepção notável. Provavelmente foi o primeiro indivíduo a registrar que eu havia parado de fumar. Nunca mais pediu-me cigarro. Percebo, quando o encaro, um certo olhar de superioridade. Ele é livre, e eu sou preso a convenções, ao modo de me vestir, transitar, viver… Ele me olha com desdém de quem é livre e, da janela onde o vejo, sinto inveja.
Havia um outro conhecido cuja tristeza incomodava. Tinha um olhar desesperador e, me parece, já perdera a fala no silêncio imposto por todos os que o ignoravam, caminhando como se não o vissem. Diferente de Rubão, que é alegre e que se deita na calçada como quem toma sol em praia paradisíaca, esse outro vivia encolhido nos cantos e, inesquecível, durante chuvas permanecia agachado, como quem toma um banho restaurador, ou sofre um castigo. Era um homem triste e toda a tristeza ficava no olhar, quando entregávamos algo a ele. Também como Rubão recusava roupas limpas. Um dia cismei e teimei em levar calça e camisa para ele. Olhou-me silenciosamente, com expressão de não precisar daquilo e seguiu, lentamente, evitando me olhar por algumas semanas. Um dia desapareceu. Aliás, um dia percebi que não o via há algum tempo.
Observo a postura do Carlos, que guarda carros três vias acima da rua onde moro. – Com licença, senhor, vou trabalhar! É assim que ele se despede, após conversas rápidas enquanto compro frutas de um ambulante que mantém um carrinho na esquina da Artur Prado com a Rua Pio XII. Carlos tem uma subserviência latente, de quem descobriu na aparente mansidão um meio de sobreviver à violência urbana. Atento às vagas de ocasião, orienta motoristas que precisam estacionar. E lá vai ele, com leves mesuras, cabeça baixa, com os braços indicando à esquerda, à direita. E informa que guardará o carro enquanto o dono não estiver presente. Lembro a arrogância dos que nem um mero olhar dirigem à “essa gente”. Já vi em um e outro momento quando entregam uma moeda, com desprezo. Carlos ignora, e volta sorrindo, conversando com o vendedor, comigo. Sem nunca deixar a atenção ao trânsito. – Com licença, senhor, vou trabalhar!
Também na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bem em frente ao início da Alameda Ribeirão Preto e rente à grade que cerca o supermercado, há uma cabaninha feita de material alternativo, encontrado certamente pela dona, uma moça tensa. Tenho medo de olhar para ela. Aos gritos e xingamentos para o ar, para os veículos que passam, para aqueles passantes que a incomodam, ela me lembra aquelas mulheres fortes, dispostas a tudo para defenderem seu espaço, suas crias. Descobri, com o tempo, que é o tipo e a forma de olhar que a incomoda. Percebi também que a luta é pelo que é dela, aquela cabana onde, durante algum tempo, ela dividiu com um namorado. As brigas eram notáveis. O dono da banca de jornais, bem próxima, já manifestou ódio pela moça. Um dia desapareceu a moça, a barraca. Pensei com meus botões: – conseguiram! E cogitei que pudessem ter arranjado algum pretexto para prendê-la, matá-la. Cheguei a vê-la em outra rua, me alegrando por sabê-la viva. E, mais algum tempo ela voltou e está lá, no mesmo lugar. O passeio é público, logo é dela. E ela mora onde bem quer.
Esses paulistanos certamente incomodam muita gente. É fácil dizer que eles são “sujos”, que são “vagabundos”, que “deveriam trabalhar”, que deixam a cidade “feia”. Lá atrás, em algum momento, essa gente foi para a rua. Sem possibilidade de uma outra vida, vivem como é possível. Alguns com serenidade, outros com tristeza, aqueles com raiva e outros, ainda, com a indisfarçável liberdade de padrões, de formas, maneiras.
Vejo o trabalho do Pe. Lancelotti e de outros grupos que apoiam esses paulistanos. Trazem comida, agasalhos no inverno, prestam socorro aos que ficam doentes, brigam por eles quando necessário. Pessoalmente vejo-os como pessoas corajosas por terem se apossado, insistido, resistido a tudo e todos. São sobreviventes! E ouso mesmo a dizer que há momentos felizes, quando por exemplo vejo Rubão brincando com o garçom do bar que fica na esquina. O rapaz trabalha para evitar que o outro perturbe os clientes. Às vezes grita, outras o pega pelo braço e indica direção oposta, mas também é quem o alimenta, brinca e, solícito, busca isqueiro para acender o cigarro do amigo.
Antes de terminar este volto à janela. Rubão está lá, firme e forte em frente à doceria. Parado de forma a observar a televisão acima dos freezers. Está lá, com a postura de dono da rua, peito aberto, corpo ereto, quase desafiador. Como se dissesse “a rua é minha, daqui não saio, ou saio quando quiser”. Está sem máscara, sorridente, falante, os braços dançando pelo ar em papo com interlocutor invisível. E constato o medo que sinto das ruas, da pandemia, do contágio. E torço, rezo, para que tudo corra bem para esses meus caros vizinhos.