Semana Cultural em Caieiras

Na próxima sexta, 19h00 participarei do encerramento da Semana Cultural organizada pela Secretaria de Cultura de Caieiras. O tema, Folclore em diferentes manifestações culturais brasileiras, será apresentado em live com o Secretário de Cultura Wesley Gonçalves que me honra com esse convite e a quem, desde já, agradeço.

O folclore é um tema muito gostoso; fatos e hábitos folclóricos estão presentes em todas as fases de nossas vidas. Pequenas e grandes manifestações populares nos encantam e preenchem momentos essenciais em que manifestamos fé, alegria, celebrando a vida, a memória e os costumes de nossa gente.

Aguardamos todos vocês. Sexta-feira, 27 de agosto, 19h00 no Instagram da Prefeitura de Caieiras.

Até lá!

Querida Rosângela Maschio!

Caríssima,

Estou feliz e grato com suas mensagens. Conhecer sua opinião, suas reações, suas posições em relação ao que escrevo no romance que você me informa estar terminando de ler, me deixa profundamente feliz.

Desde que lancei “dois meninos” ocorreram muitas coisas complicadas na minha vida pessoal (fui acidentado, fiquei um ano de molho, chegou a aposentadoria, veio a demissão da universidade… Além de perdas maiores, como o falecimento de minha mãe).

Nesse tempo também ocorreram atividades que me enriqueceram profissionalmente. Realizei projetos na Baixada Santista, no Vale do Paraíba, tive uma peça de teatro apresentada na maioria dos CEUs – Centros Educacionais Unificados de São Paulo, além de apresentações no Sul e Nordeste do país. Também tive um poema citado em publicação do aniversário de minha cidade natal, lancei uma coletânea de contos… Enfim, a vida seguiu seu curso e, nesses anos após o lançamento do romance, percebo e constato um fato perturbador.

“dois meninos” caiu como uma bomba silenciosa por aí. O lançamento foi concorrido, com duas centenas de pessoas presentes. Eventos posteriores (lançamento no Rio de Janeiro, palestras, feiras e cursos) contribuíram para a modesta carreira do livro (Marta Blanco, editora que merece todo meu respeito, já havia me alertado para o fato de que, no Brasil, romance vende pouco!). O fato é que o livro atingiu centenas de pessoas e eu fiquei aguardando pronunciamentos (risos!).

Todas as formas expressivas manifestam algo que, via de regra, merece discussão, resposta. Pessoas próximas comentaram, algumas indo mais fundo e, infelizmente, a maioria preferiu o silêncio. Um silêncio respeitoso, posto que volta e meia manifestavam admiração pelo escritor. Ninguém é obrigado a dar retorno de livros lidos, compondo críticas ou publicando resenhas. Todavia, um comentário mínimo seria de bom tom…

Uma amiga muito querida, Marise de Chirico, também responsável pela diagramação e projeto gráfico, dias antes de enviarmos o livro para a gráfica me questionou com seriedade: – Você vai manter seu texto na primeira pessoa? Me pareceu absurdo, mas Marise me alertava para possíveis consequências relacionadas a preconceitos e homofobia. Bom, “A vida é luta renhida”, disse Gonçalves Dias, “Viver é lutar”.

A bomba silenciosa teve seus efeitos. Sou grato ao meu romance por ter tirado da minha vida uma quantidade razoável de pessoas. Sou um sujeito de sorte! Dessas reconheço e guardo tal fato como alerta perene. Nossas ações provocam reações e assim é a vida. A questão complicada é o silêncio, mesmo “respeitoso”, pois neste caso me parece companheiro do preconceito, da homofobia.

“dois meninos” tem uma imensa carga autobiográfica mesclada com ficção. E, daquilo que é fictício também assumo a autoria, pois se escrevi é porque penso da forma e posição exposta. Há vários motivos pela maneira com a qual resolvi contar tal história. E Rosângela, vou me permitir, contarei algumas nessa mensagem.

O anonimato das personagens veio por duas razões, e a primeira pode ser referenciada ao momento atual. Quais as histórias dos mais de 550 mil mortos vítimas do Covid? Não são números, são pessoas com sonhos, desejos, vontades, projetos, famílias, amores, amantes, profissões… O anonimato em “dois meninos” nasceu da necessidade de sensibilizar as pessoas para que percebessem vidas humanas vitimadas pela AIDS. A segunda razão vem de uma dúvida cruel; sem autorização do morto, sem ter conversado a respeito, eu poderia nominar, detalhar sua vida?

Tendo como ponto de partida um poema – “dois meninos – limbo” é um poema decodificado, transformei fragmentos de versos em capítulos e, assim, me permiti ampliar a metáfora concisa em história detalhada. Um exercício literário que se estendeu naquilo que chamei de “hipertexto”, dando uma opção de leitura ao colocar frases e períodos em negrito que pretendem sintetizar a história. Essas opções formais caminharam com a dificuldade em caracterizar personagens sem nominá-los.

Concluindo maneiras de contar e formas de expor a história, durante o lançamento e ainda hoje recuso a expressão “romance gay”, fundamentalmente por “gay” não se constituir em gênero literário, mas um tema entre tantas outras possibilidades. Usar tal expressão facilitaria acesso a um mercado específico, talvez provocasse reação contrária em outros. De qualquer forma, sempre estive interessado em literatura e, na medida do possível, em ser um Escritor.

Volta e meia me deparo com situações que envolvem a vida privada alheia, com a corriqueira expressão “saia do armário”. E penso que minha resposta deva ser: – Tire meu livro do armário e venha falar a respeito.

É ótimo conversar horas e horas sobre tudo o que nos envolve. Aquele papo de amigo que mergulha fundo, como escreveu Clarice Lispector, buscando “o é da coisa”. Aquele “é” que todos nós temos e que serve de parâmetro, medida, norteamento para todos os seres viventes do planeta. Esse “é” que, de tão conciso, confunde pessoas rasas, que pairarão sempre na superfície incapazes de um mergulho profundo que há, ou deveria haver, em todo ser humano.

Creio que teremos muitas conversas pela frente, cara Rosângela. Espero que sejam presenciais, virtuais, por escrito, em forma de romance, poesia, letra de música, post no twitter, via pombo correio… Por enquanto deixo público meu abraço e minha gratidão a você, e aos que leram e deram retorno sobre esses “dois meninos”.

Um carinhoso abraço!

Valdo Resende

Marcela Godoy, Escritora e Roteirista

Mais um território em que autoras se destacam, as Graphic Novels são romances ilustrados, em que se faz comum a união entre desenhistas e escritores. Tendência que vem ganhando força no mercado editorial, para falar dessa especialidade, convidamos a premiada Marcela Godoy.

Autora e roteirista referencial do segmento. Entre seus trabalhos destacam-se “Romeu e Julieta”, “Macbeth”, “A Dama do Martinelli” e “Fractal”.

“Papa-Capim: Noite Branca”

O primoroso texto de Marcela Godoy e o belo traço de Renato Guedes uniram-se para nos presentear com o volume “Papa-Capim, Noite Branca”.

Papa-Capim, personagem de Maurício de Souza, investe-se da missão de acabar com uma ameaça sobrenatural capaz de pôr fim à sua aldeia, Noite Branca. Daí para a frente, a Graphic Novel da dupla nos levará a uma trama surpreendente.

Para falar dessa e de outras obras, mais o universo das Graphic Novels, o Trem das Lives recebe a autora nesse domingo:

Trem das Lives

Domingo, 04.07.21, 18h00

Instagram

Esperamos você.

Contos de gente jovem

Quer saber o que pensam, como pensam, o que vai pela cabeça dos jovens? E, para isso, evitando os questionários frios, as manifestações forçadas por interrogatórios ou situações similares? Entre as possibilidades das respostas do que pensam, o que gostam, como se comunicam… Que tal um concurso de contos? O resultado é certeiro e pode ser comprovado no “V Concurso de Contos Meu Livro, Minha Arte” promovido pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro!

Recebi uma caprichada publicação da ALTM: Antologia, com o registro do Concurso de Contos, Meu livro, Minha Arte. Além dos três primeiros lugares, há outras cinco menções honrosas e outros vinte trabalhos classificados pela comissão julgadora, formada por membros da Academia: Ani de Sousa Arantes Santos, Arahilda Gomes Alves, Gilberto de Andrade Rezende, João Eurípedes Sabino. Esta comissão presidida pelo Acadêmico Renato Muniz Barreto de Carvalho. O conteúdo vai muito além de um exercício formal de um gênero literário!

É ler os contos publicados e constatar um amplo painel humano. Há jovens sonhadores, inquietos investigadores… há os que deixam fluir a fantasia, e outros que revelam suas mazelas, suas inquietações, suas aspirações. Me vejo entre esses adolescentes e percebo neles meus conhecidos, meus sobrinhos, jovens amigos. Alguns já carregam profundas lembranças, futuros memorialistas, transmitindo faces de situações que mostram nossa cultura, nossos hábitos e tradições.

Também há romance, é claro! E investigação. E situações atávicas que revelam vidas vividas no serrado, no chapadão. Gostei de rever meus medos de infância, quando fantasmas brincalhões abriam e fechavam portas, ou quando objetos se transformavam em outros por artimanhas de sabe-se lá quem! Sobretudo, há contos que referem livros, o tema prioritário do concurso.

Espero que esses trabalhos de jovens escritores sejam lidos por muitos! Pelos pais, para que conheçam quais os caminhos percorridos pela verve criativa dos filhos; por professores, para que sintam orgulho do trabalho realizado – um leitor é aquele sujeito alfabetizado, em toda a acepção da palavra. Também espero que esses contos, material de reflexão, sejam lidos por irmãos, amigos, conhecidos dos autores que, via literatura, são vozes de todos os demais jovens com seus anseios, suas angústias, medos, desejos…

Parabenizo e agradeço ao João Eurípedes Sabino, o presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro que, em meio a essa triste pandemia, conseguiu aglutinar parcerias e colaborações, não medindo esforços para realizar o concurso. Temos na publicação mais que o registro de um evento: temos o pensamento dos nossos jovens de Uberaba que, em sua singular individualidade, expressam toda uma geração.

Parabéns aos envolvidos!

Outras faces

Foi simultâneo sentir-se acordado e abrir os olhos. Não reconheceu o cheiro dos lençóis e notou, rapidamente, ser outro o travesseiro onde repousava a cabeça. Olhou para a cama, os aparelhos sustentando frasco de soro, outro com remédio também aplicado na veia. Mexeu os braços, movimentou as pernas, virou a cabeça para um lado e outro, o olhar indo além para encontrar paredes sem graça, cores muito claras, frias, um hospital…

O livro espírita lido há tempos dizia de hospitais onde seres desencarnados deveriam se recuperar antes de enfrentar a realidade. Aguçou o ouvido, percebendo que havia sons conhecidos fora do quarto. Sem identificar se vindo do corredor ou de quarto vizinho, reconheceu o som costumeiro da televisão com seus repetitivos programas matutinos. Só faltava, na eternidade, ter que conviver com receitas culinárias de ingredientes que ele nunca tinha na despensa…

Duas enfermeiras entraram sorridentes, anunciando troca de turma e dando boas-vindas ao convalescente. – Vejam só, disse a moça de pele viçosa e descansada, indicando ser a que prosseguiria dali para a frente. – Então o senhor acordou! Está tudo bem? O senhor tem direito a acompanhante e, não sendo vítima da pandemia, a entrada e permanência neste setor é liberada, embora as visitas estejam controladas. O senhor quer que a gente chame alguém?

Não havia quem chamar. A família longe, os parentes distantes, os amigos em quarentena… Ficou sem jeito, envergonhado por estar sozinho. Havia tido tempo de alertar o porteiro, deixar a casa aberta até a chegada da ambulância. Com quem teria ficado a chave do apartamento? Ainda bem que o porteiro, Ademir, era de confiança. Em não sendo e acreditando-o morto, Ademir tiraria proveito da situação? Pediu à moça o celular. Ela retirou o aparelho, já descarregado e sem cabo, da gaveta do criado mudo. – Vou conseguir um carregador para o senhor! Seu médico deve passar ainda pela manhã! Bom dia! E antes de sair, em gesto automático, ligou um televisor, deixando o controle remoto ao alcance do paciente. Ele aguardou a porta fechar para desligar o aparelho.

A enfermeira dissera estar tudo bem. Um infarto. Ele pensou em investigar as próprias condições; respirou profundamente várias vezes e sentiu-se bem com a ação. Pegou o interruptor, preso na lateral do leito, e começou a brincar com as possibilidades do móvel. Subiu e desceu toda a cama, levantou a parte superior, sentando-se e voltando a repousar para, em seguida, levantar os pés. Perguntou-se se a cama poderia ir de um lado a outro, controlada pelo paciente. Lembrou Frida Kahlo e mudou rapidamente de ideia. Não estava interessado em passar a vida sobre uma cama, mesmo que ela tivesse luzes e música embutida, frigobar e outras bobagens chamadas “confortáveis”. Era uma cama e o melhor seria sair dela.

Decidido a se levantar, ao sentar-se sentiu o peito apertado, notando sinais estranhos na mandíbula, no pescoço. Insistiu em levantar-se e veio a tontura, a falta de ar. Ele poderia insistir, deixar de chamar socorro, e buscar a saída, o banheiro, qualquer outro lugar que não aquele quarto de hospital. As enfermeiras voltaram, alvoroçadas. – O que o senhor está sentindo? Não pode sair da cama! Parece criança! Ele não havia feito barulho. Como elas teriam percebido? – O senhor, quando assinou o convênio, autorizou monitoramento por câmera estando sozinho. Foi uma ótima ideia até vir alguém para ficar com o senhor. O médico já vem. Tenha paciência!

Ele poderia mandá-la à merda. Ficou ruminando raiva. Criança! À puta que pariu com essas conclusões precipitadas. Identificou a câmera, localizada bem em frente à cama  e outra, na parede lateral. Será que teriam câmera o vendo quando no banheiro? E se ele se masturbasse, ostensivamente para a câmera? É. Criança. E riu das próprias conclusões, sem deixar de lançar um olhar de ódio para os pequenos objetos. Estava cansado de contatos via aparelhos. Televisão, rádio, computador… E as ligações, os grupos de WhatsApp, as redes sociais… O inferno da pandemia exposto e imposto através de lentes, telas, sons. Havia cancelado jornais impressos e revistas, com receio de contágio…

Veio um café, com a feiura das bandejas hospitalares. Tudo muito limpo, organizado, asséptico, encapado com plástico. Manteiga sem gosto, café fraco e sem açúcar, leite morno e frutas, e barra de cereais, um suco de caixinha – que todos têm sabor artificial; suco de caixinha… A senhora do café se mostrou simpática, ofereceu ajuda. Ele agradeceu e comeu, pensando em quanto tempo duraria para carregar a bateria do telefone.

Alguns minutos após o café entrou o médico. Simpático profissional. Veio com papo similar ao da enfermeira. – Quer dizer que o senhor andou fazendo arte! Vamos ver como é que está esse coraçãozinho, a pressão! Tá sentindo alguma coisa? Ele informou estar irritado com o fazendo arte. Eu faço arte! Sou artista. Algum problema ser artista? E tenho coração, que coraçãozinho quem tem é codorna. O almoço vai vir no mesmo nível do café ou pode melhorar um pouco?

O simpático profissional mudou. Mostrou-se profissional sério. – Seu nível de estresse levou-o ao infarto. Todo o senhor chegou aqui cheirando a cigarro. Está muito acima do peso e a depressão transborda do seu olhar. Entendo. O senhor luta contra todas as imposições advindas da pandemia. É uma luta solitária. Serviria de consolo dizer que eu trocaria de lugar com o senhor? As pessoas chegam aqui fora de si. Parei de contabilizar aquelas que não voltaram, que morreram na manhã seguinte. Estou cansado e farto de ter um paciente novo a cada dia porque o do dia anterior faleceu. E creia-me, estou feliz porque o senhor está vivo. Estou vendo-o pela segunda vez e vivo! O senhor tem direito a atendimento psicológico. Vou pedir para que venham vê-lo o mais breve possível.

Ambos em silêncio, o médico mediu novamente a pressão, auscultou o pulmão e o paciente resolveu mostrar outra face: – Meu coraçãozinho não vai aguentar ter que falar com psicólogo hoje. Dá para trocar por um cigarrinho? O médico voltou a ser simpático, menos profissional, já quase amigo.  – O senhor quer um café expresso antes do cigarro, uma cerveja, uma cachaça? Vou mandar vir o psicólogo antes do almoço. E antes que se afastasse, o paciente segurou-o pelo braço, em ação que seria inusitada, não fosse o Covid 19. – O senhor é a primeira pessoa em quem toco nos últimos oito meses. E quando o médico retornou o olhar, sério, a tensão foi quebrada pelo próprio doente. – Não quero sexo, nem beijo na boca. É só um aperto de mão. Riram e o médico saiu, prometendo voltar ao final do dia.

O que ele diria para o psicólogo? Seria bom que fosse uma mulher. Há tanto tempo que não falava presencialmente com uma mulher! Apenas via internet com a esposa, que estava morando em Lisboa desde o início da pandemia. Fora anteriormente, para ajudar a filha grávida do segundo neto. Decidiram que seria melhor que a esposa permanecesse por lá, cuidando para que ninguém se contaminasse. Ele concordou, macho autossuficiente, forte e decidido – Aqui as coisas estão de mal a pior. As UTIs lotadas, um imbecil no poder, as pessoas andando pelas ruas sem máscaras…

Três, quatro semanas depois o macho autossuficiente já ansiava pela volta da esposa. Orgulhoso, fingia estar bem. Protetor, insistia em que a filha é quem precisava de cuidados. Meses depois era um menino solitário, chorando sem receios de ser visto por não haver ninguém para vê-lo. Inventou para a esposa que a câmera do computador estava com defeito, que não conseguia mexer com o celular, para que não vissem a barba por fazer, o corpo ganhando peso, o olhar triste. Com frequência interrompia as ligações, para que não percebessem que caía em prantos. Na ligação seguinte amaldiçoava a telefonia nacional.

Um ano estava sendo tempo demais! A chegada da vacina trouxe um alento e, logo que possível, ele tomou a primeira dose. O susto pela contaminação do vírus em amigos e familiares se tornara corriqueiro. Contudo, não conseguia aceitar as mortes. Alguns parentes, um irmão, dois sobrinhos, vários amigos, dezenas de parentes de amigos, de familiares de amigos, de pessoas famosas. Morte. No corredor do edifício, no elevador, na portaria… Morte. No bar da esquina, na caixa da padaria, no entregador do supermercado. Morte.

Analista financeiro, estava com quatro bons clientes e realizava consultorias. Tudo via internet. Assustava-se com o lucro dos grandes perante a insensibilidade de responsáveis por vacinas, por ajuda financeira aos mais necessitados. Será que o médico diria para o psicólogo que ele não era artista? Riu, pensando que se não olhassem atentamente sua ficha não mereceriam respeito. Voltou a si, ao motivo de estar ali infartado.

Recebia relatórios, documentos, orçamentos, dados de investimentos e devolvia pareceres. Tudo via e-mail. Logo estava conversando o mínimo com colegas profissionais, sem qualquer traço de humanidade. Como se máquina respondendo aos comandos. Disque 1 para resultados positivos, 2 para negativos, 3 para as variações de mercado… Passou a evitar as redes sociais, com seus incontáveis quadrados negros com a palavra luto em destaque. Desligou a tv, buscando informações especializadas, contatos diretos na bolsa de valores e em específicos jornais digitalizados. O que pesou mesmo foi a solidão, a tristeza e o desânimo ante uma situação aparentemente condenada ao caos e à tragédia.

O telefone tocou. Estava já carregado, alegrou-se! Era a esposa. Aflita. O solícito Ademir mexera nas coisas, encontrara telefones, avisando do acontecido. Ela estava a caminho. Conseguira passagem para a noite, após todos os trâmites para comprovar que estava vacinada. Ela falava convulsivamente, preocupada. E ele, sem conseguir se conter, chorou o pranto represado ouvindo a esposa. Soluçando pesadamente, pediu que a mulher voltasse, que ele não aguentava mais. Pediu desculpas pela fragilidade, pela incapacidade de viver só, pelo medo de morrer sem revê-la. Ele nem notou que, enquanto se abria ao telefone, a psicóloga havia entrado e esperava, já observando-o. Quando deu por si, buscando água e alívio para o choro, a profissional pegou o telefone, identificou-se falando com a esposa e com ele simultaneamente. – Venha sim! Ele vai ficar bem. Já está melhor, conseguindo colocar tudo para fora já é um caminho. Venha! Aguardamos a senhora para que saiam juntos daqui do hospital, voltando para casa. Vai ficar tudo bem.

São Paulo, outono de 2021

Valdo Resende

Trem das Lives no YouTube

O Trem das Lives está construindo um belo acervo de vídeos que abordam diferentes faces da cultura brasileira. Entre no YouTube, siga-nos, ative o sininho sobre notificações de novos vídeos!

Embarque na cultura brasileira!

RC, por isso essa voz tamanha

Junho chega com Roberto Carlos voltando com tudo por aqui. O título acima é do livro do Jotabê Medeiros, lançado em abril deste ano. Lendo o livro me dei conta de que lá se vão 58 anos de convivência, desde as primeiras canções do “Rei” que entraram em minha memória. A leitura é emocionante por dois motivos básicos: a memória de infância acionada em cada trecho do livro e a percepção do tempo, da história que caminha ignorando nossas vontades. Tempo, tempo, tempo, tempo… diz outra canção, de Caetano Veloso, este também presente na vida de Roberto Carlos.

Conheci Jotabê Medeiros no ano passado, durante a Bienal do Livro de São Paulo quando mediei uma mesa da qual participou também o jornalista e escritor Nelson Motta. Assunto daquele momento, a vida do Nelson Motta e as biografias escritas por Jotabê, “Belchior, apenas um rapaz latino-americano” e “Raul Seixas, não diga que a canção está perdida”. Agora nos encontraremos no Trem das Lives, e o assunto será “Roberto Carlos, por isso essa voz tamanha”, celebrando os 80 anos do cantor e compositor,

O livro sobre Roberto Carlos oferece sobretudo aos fãs uma profunda viagem pelas diferentes fases da vida do parceiro de Erasmo Carlos, favorecendo lembranças sobre a Jovem Guarda, Wanderléa, e tudo o que veio depois. Há “detalhes”, muitos! De coisas esquecidas, de fatos desconhecidos, de momentos em que nossas vidas aconteceram com a trilha sonora de canções inesquecíveis.

Eu vesti calça calhambeque e, junto com essa, um cinturão “tremendão”… Minhas irmãs compravam discos, guardavam fotos. Tive um caderno onde colava fotos da Wanderléa… Meu irmão e meu avô curtiam a Martinha. O padrinho Nino ouvia “A Distância” e a namorada achava que era por conta de umas desavenças… ele ria e a gente sabia, ele se lembrava de outra namorada, anterior, perdida no tempo. Um dia Ronaldinho me ligou, em pleno expediente. Eu, no trabalho, tive que parar: – Escuta aí a música que o RC fez pra nós. “Você meu amigo de fé, meu irmão, camarada…” Como o próprio RC diria, “são muitas emoções” e eu ficaria horas escrevendo sobre essas.

Próximo domingo tem Roberto Carlos na live que farei com Jotabê Medeiros. Todos convidados para reviverem momentos pessoais e conhecer outros faces contadas pelo escritor. Aguardo todo mundo!

Trem das Lives, domingo, dia 06, 18h00

instagram.com/tremdaslives