Intertexto Paulistano

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Uma banana Basquiat

Para Sonia Kavantan!

Uma banda sinfônica é desmantelada pelo Governo do Estado de São Paulo. Faltam recursos! Parece que há planejamento e aprovação de orçamento de um ano para outro; a tal banda estaria dentro desse orçamento, mas por falta de recursos (E o planejamento?) foram todos demitidos. Li nos jornais que os músicos serão chamados quando houver apresentação com patrocínio. Quem buscará essa grana?

Várias atividades artísticas dependem de patrocínio para que possam sobreviver.  Há um mundo interessado em baixos custos e altos lucros. Bandas sinfônicas, por exemplo, não são exemplos aceitáveis para tal mercado. Esse aspecto – alto custo – na formação de um artista e na manutenção de grupos de música, de dança e similares é tão discutível quanto os lucros advindos de tal atividade. O que é indiscutível e mesmo impensável é o mundo sem música; boa música.

Grosso modo toda forma de arte tem aspectos eruditos e populares; nessas acepções estão formas com maior potencial para comercialização, afluência de público e consequente retorno para quem banca a formação, e o trabalho, de artistas que obtêm respostas rápidas e vantajosas para produtores e patrocinadores. Óbvio, algumas formas artísticas recebem grandes somas de investimentos e outras ficam na dependência de recursos advindos de instituições públicas ou privadas, sendo que nessas últimas, o dinheiro tem vindo atrelado aos possíveis benefícios fiscais oferecidos pelo Estado.

É pela popularidade, e “facilidade” (entre aspas, pois não pretendo diminuir o trabalho de ninguém), que algumas formas recebem grossas somas de dinheiro privado e outras ficam dependendo da verba de orçamentos que são passíveis de “vontade política”, ou seja, o cidadão no poder direciona as verbas conforme os próprios interesses. Um angu de caroço, já que o artista que recebe grana submete-se ao “objetivo de marketing” do patrocinador enquanto o outro, sem grana, mas patrocinado pelo Estado, vive a insegurança das mudanças de poder.

Quem pode negar a necessidade de uma banda sinfônica? Não é porque a ideologia dominante prega rápido retorno financeiro e máquina enxuta que comunidades inteiras deverão desprezar os benefícios de uma ou outra atividade artística; o conflito é praticamente inevitável e as discussões e debates devem ser exercício constante. Algumas questões não devem ser deixadas ao esquecimento: um artista, no exemplo o músico, não se define ao acaso, mas pelo estudo e aquisição de técnica que demanda, além de tempo, grana para a aquisição de instrumentos, pagamento de professores e de todo um conjunto de profissionais que viabilizarão todo o trabalho: da formação do artista aos recitais do mesmo.

Uma imprensa duvidosa empreendeu, em tempos recentes, ataques a artistas que buscaram patrocínio via Leis de Incentivo Fiscal. Entre os vários casos lembro Maria Bethânia e Claudia Leite e, bom notar, independentemente do certo ou errado da tentativa de ação de cada artista, nenhum jornal criticou as empresas que patrocinam, já que são potenciais anunciantes. Usaram sua máquina para denegrir uma ação (site, no caso de Bethânia, show no caso de Claudia Leite) e uma forma de concretizá-la (o patrocínio obtido via Lei). Precisamos estudar as Leis de Incentivo.

A produção cultural, quando pensamos em arte, tem finalidades bem definidas. Há uma função pedagógica e há uma função expressiva. Ao escolher o que produzir – nisto está implícito o como – cooperamos no tipo de sociedade que queremos; nos benefícios que desejamos para todos os envolvidos; e é por questões tais como essas que a ética deve permear a ação de artistas e produtores. É necessário refletir sobre o papel dos produtores culturais, de patrocinadores.

A discussão é ampla e o debate deve ser contínuo. O que é imediato é a necessidade de pensar e refletir sobre as mudanças na educação e os rumos culturais possíveis advindas de atitudes como o desmantelamento de uma banda sinfônica. O que não dá é deixar passar em branco as ações de governos – municipais, estaduais e federais – que colocam em risco o futuro de todos nós. Não se trata de pensar exclusivamente em uma categoria profissional, mas no que cada forma artística representa e em tudo o que pode decorrer da supressão de ambientes em que atuam tais artistas.

Hoje, um amigo lembrou Bertolt Brecht, pois em duas esferas de São Paulo, municipal e estadual, estamos vendo as ações de indivíduos com princípios – ideologia – similares. Um Intertexto (o poema de Brecht). Um Intertexto paulistano. É preciso ficar atento! Sem alimentar neuras, mas ficar atento. Se preciso ir à luta.

“Primeiro, mandaram a Virada Cultural para a periferia,

Mas não me importei com isso

Eu não trabalho nela.

Em seguida proibiram pichações, pintaram grafites…

Mas não importei com isso

Eu também não era grafiteiro

Depois acabaram com a banda… (*)”

.

Até mais.

(*) Conheça o poema de Brecht: 

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

(Bertolt Brecht)

Causos dos santos de junho

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No cotidiano do céu,

Ao lado de santidades

Cabe alegria, escarcéu?

Alguma arbitrariedade?

Quem não sabe de São Pedro

Do dia a dia do Santo

Pensa logo em mausoléu.

Para contar só um dia

Lembro aquele em que anjos

Enquanto o santo adormecia

Aprontaram desarranjo

Deixando o céu sem chaves

Portas lacradas, fechadas

Até pra Deus e Maria.

São Pedro, compenetrado,

Evita fazer milagres;

Todavia o céu fechado

É caso de ira, sabre,

E num levantar de mãos

Tornou anjos estáticos

Retomou chaves, função.

Doutro lado é Santo Antonio

Caindo noutra esparrela

Quando afoitas por matrimônio

Raptam o santo pela canela.

O céu entra em colapso

– Tragam de volta o santo,

Mandem aquelas pro manicômio!

Tarefa pra São João

Libertar o casamenteiro

Só daquelas em danação

Por marido o tempo inteiro

E João apela ao diabo

Pra sossegar, acalmar o facho

Das moças sem gavião.

O demo sempre que pode

Mesmo sem recompensa

Ajuda os do céu, acode.

É sua forma de ofensa

Mostrar superioridade.

Assim aparece às moças

Feito fumegante bode.

Solteironas alvoroçadas

Largam o santo à revelia

Amarguradas e amalucadas

Saem rezando ave-maria.

Antonio volta pro céu

Agradecendo a São João

A liberdade alcançada.

Os três santos de junho

Tão sagrados, tão profanos,

São perenes testemunho

Do amor de Deus aos humanos.

Por isso um dia é pouco

Para orar e bendizer

Nosso trio soberano.

São Pedro nos abrindo portas!

Santo Antonio nos dando o pão

São João iluminando caminhos

Quem irá nos vencer?

Por eles chegamos ao céu

Pertinho da Virgem Maria

Recebam a singela homenagem

De quem se benze todo dia.

 

Valdo Resende, 24/06/2016

Salve, São João!

Talvez esteja entre os vizinhos

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E seguimos em frente, tudo esquecendo…

.

Talvez esteja entre os vizinhos,

Morador do mesmo bairro, na mesma cidade.

Pode ser o cara tranquilo que diz bom dia a todos,

O trabalhador correto, pontual e competente,

O estudante compenetrado, disciplinado,

O temente a Deus, o religioso abnegado.

Um homem qualquer

O ser – humano? – comum,

Indivíduo entre milhões.

Chegado o momento.

Sem alteração física, sem mãos trêmulas, sem incertezas.

Um tipo já conhecido repete o triste ato:

Meticulosamente prepara as armas, averigua a munição.

Criteriosamente escolhe um alvo,

Deliberadamente mata um, dois… Cinquenta pessoas!

O assassino tinha família, trabalho, religião.

Um passado com sinais, agora, constrangedores.

Recolhidos e identificados os corpos

Mães choram irreparáveis perdas.

E o roteiro – já conhecido – é seguido à risca:

Por que venderam armas ao assassino?

Qual a ligação do mesmo com grupos extremistas?

Como ele vivia, com quem, de onde veio tal absurdo?

Veja o passo a passo do acontecido!

Outro roteiro – também conhecido – merece repetição.

Somos os fabricantes e os compradores de armas.

Sossegamos a consciência cobrando do governo,

Clamamos por educação, por mais religião,

Moldamos Deus aos nossos míseros anseios,

Alimentamos preconceitos, seguimos discriminando…

E seguimos em frente, tudo esquecendo por mínimas distrações:

Um jogo de futebol, um capítulo de novela, um enlatado qualquer.

No entanto,

Talvez esteja entre os vizinhos,

Morador do mesmo bairro, na mesma cidade.

Pode ser o cara tranquilo que diz bom dia a todos,

O trabalhador correto, pontual e competente que,

Deliberadamente,

Mata um, dois… Cinquenta pessoas!

Do poeta, para hoje

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Nossa Senhora
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
   Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, 
   Dos propósitos que nos acariciam
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… 
   Vem, e embala-nos,
   Vem e afaga-nos.
   Beija-nos silenciosamente na fronte,
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam 
   Senão por uma diferença na alma.

.

Fernando pessoa/Álvaro de Campos

(Fragmento de “Dois excertos de odes”)

Passeios e livros… de quem?

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Maria Bethânia – foto divulgação.

Domingo passado fui, pela primeira vez, caminhar na Avenida Paulista. Estava cheio de gente, contrariando o político que fotografou o local em dia de chuva. Um passeio simples, barato e que humaniza a região.

Para quem não é de São Paulo: a prefeitura municipal, após criar espaços específicos para ciclistas na Avenida Paulista, resolveu suspender o tráfego de veículos no local durante os domingos. Celeumas à parte, o morador da região agradece. E, parece, também estão contentes muitos habitantes de toda a cidade e os turistas, interessados em visitar o Masp, o Instituto Cultural Itaú, entre outras atrações disponíveis na Paulista. Todo mundo pode passear por lá passeiam com filhos e animais de estimação.

Lanchonetes e restaurantes estão cheios, mesmo com os preços altíssimos. O entra e sai dos shoppings é intenso e eu me dei conta que ainda não entrei no mais recente templo do consumo da Paulista. Passando pelo local recordei o palacete dos Matarazzo, Maysa e toda uma São Paulo que só a história conta. Meu consumo é outro e, aproveitando o momento, fui atrás de livrarias…

Dois dos mais celebrados locais de comércio de livros, a Livraria Cultura e a FNAC estavam movimentados e em ambos uma frustração. Os atendentes com quem falei desconhecem que Maria Bethânia lançou um Caderno de Poesias. Você solicita e os atendentes, que parecem não distinguir Bethânia de Anitta voltam com um DVD em mãos. “– Querido, te pedi o livro, não o DVD!” Resumo da ópera: As duas livrarias mais concorridas da Avenida Paulista não têm o livro de Bethânia para vender.

Maria Bethânia tem alguns milhões de fãs, um público fiel que frequenta seus shows além de comprar CDs e DVDs. Os profissionais de compra das livrarias citadas não sabem disso? Se tais empresas deixam de oferecer um livro elaborado por uma cantora reconhecida internacionalmente pela divulgação da poesia em língua portuguesa, o que pode esperar um autor desconhecido como este, aqui, redigindo este texto?

CAPA OFICIAL baixa

Com muito trabalho consegui disponibilizar “Dois Meninos – Limbo” em algumas livrarias (Saraiva e Martins Fontes). Infelizmente já recebi reclamações de pessoas que foram procurar o romance nesses locais e vendedores disseram que não havia tal livro… Fiquei irritado, quis brigar, mas neste domingo, na verdade, achei graça e saí rindo pela avenida, imaginando Maria Bethânia entrar na Cultura e encontrar o rapaz com expressão de imbecil, questionando a cantora: – livro de quem, mesmo?

Até mais!

Observações:

 

1 – O livro “Caderno de Poesias” de Maria Bethânia é parte da comemoração dos 50 anos de carreira da cantora; contém textos da própria e outros, escolhidos e interpretados em shows por todo o Brasil e no exterior.

capa__frente_-_caderno_de_poesias_-_maria_bethania

Entre os autores selecionados por Bethânia estão Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Castro Alves. O lançamento é da editora UFMG.

2- Passeio virtual: O blog está de cara nova. Além dos posts habituais, outras páginas estão disponíveis. Faça um tour e deixe sua opinião. Muito obrigado. Valdo Resende.

Um Cordel Sobre o Natal

Recebi do meu amigo Giovanni, faz tempo, o vídeo abaixo, com um bonito cordel sobre o natal. Manifestação brasileiríssima, o texto é de Euriano Sales. Vale a pena ver, refletir, e assim, singelamente aguardar e contribuir para um Natal cheio de paz.

Até mais!