A menina e um açude

O certo é que ninguém sabia de nada por inteiro. Um pouco daqui e uma história de trancoso dali; uma conversa ao pé do fogo e as coisas eram dadas como inteiras. Saber mesmo era vivido, e todos os mais velhos tinham muito o que contar. Volta e meia vinha a mesma questão. Como foram parar naquele pedaço de terra? Com tanto lugar de chuva farta, de chão bom para plantio logo ali, pararam por quê?

Perdeu-se no tempo as miudezas da viagem, o trajeto das mudanças. Tio Horácio gostava de apregoar que quando os portugueses chegaram por aqui não havia cartório. Se alguém se diz dono da terra, esse alguém tomou posse. Dos índios, primeiro. Depois de escravizado fugido que havia parado tentando se estabelecer. Deles mesmo, sabiam que tinham um pedacinho de terra, mas como chegaram… certamente vieram empurrados por alguém.

Dona Carolina, carola de tanto rezar, contava de quando tudo era da Igreja. “Toma conta desse pedaço!”, mandava o rei, lá em Portugal. E esse pedaço era destinado a um padroeiro! São João, Santo Antônio! Um moço sabido, de passagem, ensinou que os reis mandavam e desmandavam, nomeando bispos, cardeais, párocos. Isso era chamado padroado. Desde que os religiosos ficassem pianinho cuidando do povo, fazendo com que obedecessem ao rei. Quando resolveram colocar rei e rainha só em maracatu, fundando a República, isso tudo mudou.

“Os grandes brigam entre si, e se há guerras mandam pobres guerrear por eles. E os vencedores tomam tudo o que presta, e mandam os que antes ocupavam o território catar coquinho onde der”. Quem relatava revoluções e coquinhos era o velho Gaspar, preto velho, sabedor de coisas. “Só viemos parar aqui porque aqui não interessava para ninguém. Deixaram uns e outros pegarem um pedaço de chão seco, duro, mas bom quando chove. E a gente vai levando, dizia”.

Ela ainda hoje se lembra das histórias, dos casos e causos, tudo junto e misturado. Sem luz elétrica, as noites claras de lua cheia e calor intenso favoreciam a lerdeza sobre a rede, cada momento um tomando a palavra, lembrando um que morrera na luta, outro que fora embora. Retirante. Ela não queria ser retirante. O pedaço de chão que tinham era suficiente para a mandioca, o feijão. Também criavam um ou outro bicho útil para alimentar todo mundo. Salgavam a carne, durava mais tempo. Comiam com farofa.

Para a menina estava bem ter aquilo, para ela grande riqueza. Sendo mais velha de muitos irmãos a garota percebia as vantagens de ter algo que era da família, garantia de ter onde dormir, o que comer. Faltava água, a comida não era muita, mas a família era unida tanto na fartura quanto na fome. A menininha intuía naquilo uma grande força. Juntos trabalhavam, juntos colhiam, comiam e, às vezes, passavam forme. Vidas Secas, sabe ela agora, quando Graciliano contou a história dela, de toda gente como a família dela.

A escola chegou. Foi um mundo de coisas que D. Zilda, a primeira professora, contava. Quando terminou o primário não havia o que fazer, mas a menina queria mais, sentia que nos livros estava o mundo para ser descoberto, muito mais para ser desvendado. Se a boa vida era para os espertos, a escola ajudava na esperteza do conhecimento. Era preciso saber ler para fazer escritura, para saber-se realmente dono do que quer que fosse. Saber das novidades quando um jornal aparecia embrulhando coisas ou sob o sovaco de alguém.

Tio Horácio sacudia o jornal para o ar, feliz, apregoando o nome do governante que prometera e que agora iria cumprir. Iam construir um açude tão grande quanto a necessidade de todas as famílias, os donos de sítio, os meeiros e mesmo os ricos, que esses também têm sede. Viriam as máquinas para aprofundar o terreno, viriam os construtores para erguerem as barragens. Seria um açude imenso! E com a ajuda da Padroeira – tudo bem que fora imposta pelo padroado – nunca mais haveria de faltar água. Era deixar a chuva cair, encher o açude e rezar para que a cada estação de inverno o açude fosse abastecido.

O governo cumpriu a notícia e realizou a obra. Ela, bem menina ainda, não sabia que o dinheiro usado por todo e qualquer governo vinha de impostos da terra e do trabalho de gente como a família dela. Quando inauguraram o açude, coisa de Deus ou do Diabo, semanas antes choveu como nunca enchendo tudo, fazendo-a ter ideia do que seria o mar. O dia foi de festa com banda de música, benção de bispo, foguetório e comilança.

As autoridades foram embora e a menina, Luiza, percebeu a mudança brusca do dono do açude. Sim, do dono, pois o governo construíra o açude em latifúndio gigante, tudo terra de um único proprietário. E para poder usar a água, benção da terra e do céu, era como assinar promissória de dever favor ao “dono do açude”. Ai de quem não tocasse a música que ele mandasse! Aquilo não estava certo.

A consciência daquele momento, daquele instante, bateu forte no peito, no coração, no cérebro. De quem é a terra, senão de quem dela cuida e vive? De quem é a água, senão dos deuses das nascentes dos rios, córregos, das nuvens de chuva? Por que um governo constrói na terra de um único, fazendo todos os demais dependentes desse? Aquilo realmente e com certeza não estava certo. Ela iria brigar, dar trabalho para esses pretensos donos de tudo.

Décadas depois, agora com 89 anos, Luiza nos conta que esse fato deu origem à sua trajetória. Ali ela soube que iria lutar pela terra, pelo direito de todo ser humano em ter um pedaço de chão, poder beber e utilizar a água que é bem coletivo. “Começou ali”. Ela tem a memória lúcida, certa. Luiza nunca mais deixou de lutar.

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NOTA: Quase tudo acima é fictício, exceto a realidade das regiões do semiárido nordestino, a construção do açude em terras privadas e essa Luiza ser a Erundina, cujo fato narrado à Chico Pinheiro inspirou este texto. Para os que não a conhecem, começou ali a trajetória da mulher que veio a ser a primeira prefeita da cidade de São Paulo. Atualmente é deputada federal.

Salve, Luiza Erundina! Para ela minha humilde homenagem.

Artesão à beira-mar

A cidade é uma mistura de agitação e calmaria, talvez acompanhando o movimento das marés. O tempo e o mar, é Iemanjá quem sabe, conta o atendente da barraca que oferece cerveja, caipirinhas. “Vai ser o que ela quiser. E se ela quiser, ela acaba com tudo isso aqui” diz o rapaz que costuma ouvir os chamados que vem por entre as águas. E nada, indo o mais longe possível, independendo da hora. Prefere a noite, muito mais calma.

Nem tudo é idílico e há pontos do imenso jardim que limita praia e avenida. Há ratos, enormes, inúmeros. Alimentam-se de sobras de comida deixadas por frequentadores que nem sempre seguem regras de conduta coletivas. Deixam restos esparramados, nem esperam os garis terminarem o serviço e já estão jogando pedaços de coisas, ou lançando-as fora das lixeiras. Um vizinho, entre risos, lembrou quando a prefeitura arrumou um monte de gatos, deixando-os ao longo do jardim para acabarem com os ratos. Sumiram. Segundo o vizinho viraram espetinho.

Para os que podem durante os dias de semana desfrutar das tardes tranquilas à beira mar as histórias chegam; não tantas quanto as ondas, nem com a tranquilidade e leveza das nuvens. Às vezes vem leves, despretensiosas como pequenos barcos à vela. Também vêm com o peso dos imensos cargueiros, cheios de segredos e mistérios. Pode-se saber com certa facilidade o que trazem dentro dos pallets de diversas cores e tamanhos. Entre esses pode ter algo estranho, assim como é no casco que a polícia sempre encontra presas toneladas de cocaína.

Foi assim, com enorme preambulo, cheio de moralismo barato e de ordinária justiça divina que Wanderlei se aproximou. Nem sempre damos conversa aos transeuntes, principalmente quando visivelmente alterados por bebida, droga ou se, nunca saberemos, o aparente delírio de alguns ocorre por fome. Pedem dinheiro, cigarro, e são até desaforados, como aquele que pediu 20, 15, 10 reais e, exasperado, aceitaria 5. Quando disse não ter – pois raramente ando com dinheiro – ele foi embora me maldizendo, deixando claro que se arrumasse um tostão voltaria pra me dar, pois eu estava pior que ele.

Wanderlei chegou de mansinho, trazendo todos os seus pertences consigo. Uma sacola pendurada a tiracolo, uma mochila pesada, suja, nas costas. Falou de Deus, de como é bom ser respeitado como gente, que somos todos irmãos, que sonha ter uma casa. Queria voltar a dormir de conchinha com a companheira, mas precisa encontrar outra, pois tiveram que se separar. A mulher danou a usar cocaína, o que não foi legal.

Mantinha o olhar atento, esperando a deixa para dizer “não quero”, “não tenho”, e ao mesmo tempo a curiosidade veio. Como essa gente sem eira nem beira consegue o pó? Dizem que é caro. As conjecturas faríamos depois: pode ser como pagamento por aviãozinho, pode ser subproduto, tipo craque. Mantinha meu olhar fixo naquele homem magro, barba por fazer, suado e sujo. Sem deixar de sonhar insistia em um lugar para si, longe das inconstâncias do mar. Queria trabalhar! E resolveu nos mostrar o que sabia fazer, como ganhava a vida.

Ao abrir a sacola que estava a tiracolo vimos um monte de latas. E ele, orgulhoso, mostrou-nos um cinzeiro feito com o material reciclado. Embora interessante, o olhar do homem percebeu que não havia nos conquistado com o objeto um tanto fora de moda, destinado ao desprezo das gerações não fumantes. “Vou fazer uma para vocês verem como eu sei trabalhar! Só preciso ter um lugar pra trabalhar, vender e ter minha casa”.

Sem parar de falar, Wanderlei pegou uma latinha dessas que são vendidas aos montes em quiosques e barracas. Primeiro, com a ajuda de um canivete, tirou o adesivo que cobria a lata, deixando visível o alumínio, ou material que o valha. Sob nossos olhos, pegou uma tesoura, cortou aqui e ali, e aprontou a base do que pretendia. Outra lata, para utilizar partes específicas, e repetindo os procedimentos concluiu a panela, “Uma panela de pressão!”, apresentou ao final, orgulhoso.

São os turistas que compram, ele disse completando que um “gringo” chegou a dar R$ 100,00 reais por uma peça. A isca foi maior do que poderíamos abocanhar. Rindo, disse a ele que as peças, isqueiro e panela, tinham ficados ótimas, mas não tínhamos todo esse dinheiro. Resignado, ele sentenciou. “Aceito o que você tiver”. Ficamos, Flávio e eu, com a panela. Embora ele tenha insistido para que ficássemos com os dois objetos pelos R$ 20,00 reais que estavam conosco.

É certo que a foto não faz jus ao objeto. Fundamentalmente a panelinha não revela que foi feita de pé, seu criador falando calmamente, quase sem parar. Mãos sofridas e calejadas trabalharam com admirável rapidez o objeto, que resta dizer, Wanderlei aprendeu com um pessoal que “mora aí”, apontando-nos para moradores de praia sentados em bancos próximos. “Eu não! Eu vou ter minha casa, uma mulher para dormir de conchinha”.

A panelinha está entre os objetos que enfeitam nossa casa. Olho para ela e pretendo guardá-la para recordar que entre os moradores da praia há de tudo. Desde aqueles que é bom mantermos distância, como outros que ajudam a recolher cadeiras e barracas, empurrando enormes carrinhos no começo da noite, ou os que vendem balas e outros cacarecos. Essencialmente, que há gente como o Wanderlei que em qualquer circunstância terá como trunfo uma admirável habilidade artesanal. E um papo tranquilo para vender seus produtos.

Santos, primavera de 2024.

Série: Cacarecos, badulaques e bugigangas.

A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )

O tempo, o vento e a Terra

Porto Alegre alagada. Foto: reprodução.

Como não pensar em Porto Alegre neste momento? Esse país imenso, onde coisas tão díspares acontece, é lá para os pampas que o pensamento voa no tempo temendo ventos de tempestade. Seria melhor encontrar Bibiana, o Capitão Rodrigo. Na minha galeria de personagens apaixonantes coloco Ana Terra ao lado da Capitu, de Machado de Assis, e Rosalina, de Autran Dourado. Os tempos de agora são dos Terra, dos Cambará.

“O tempo e o vento” é um dos mais belos títulos da literatura brasileira. A trilogia de Érico Veríssimo me foi apresentada ainda no colégio e, curioso, fui atrás da obra. Uma senhora imersão no Rio Grande do Sul. Na mesma época apareceu um comercial da Varig, da série “Conheça o Brasil”, e um filme bem ruinzinho, baseado no livro: Um certo Capitão Rodrigo. Teve melhor sorte quem viu Tarcísio Meira, anos depois, na pele da personagem.

Nesta semana vi a longa entrevista que Hildegard Angel fez com Maria Tereza Goulart. Uma outra intensa história, essa de gente real, sobre um tempo em que Jango foi personagem central da vida brasileira. De quebra, o papo ainda trouxe Leonel Brizola e fatos dos grandes fazendeiros gaúchos. Um desses fazendeiros, na atualidade, elegeu um prefeito que relegou ao abandono o museu – Memorial Casa João Goulart, contou Maria Tereza.

Titubeante texto que, como o vento, me leva para um lado, para outro, com dificuldade em encarar a calamidade, a destruição. O que incomodou bastante nos jornais foi saber que os prefeitos pedem evacuação de áreas densamente povoadas. Como? A rodoviária alagada, o aeroporto fechado, as estradas submersas, as pontes destruídas. E volta outra literatura, a poesia de Castro Alves que me faz exclamar “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?”

Um pix mais outros, tomara que sejam milhares, deve resultar em paliativos, socorro nessa hora trágica. E que todas as atenções sejam prioritárias aos que sofrem neste momento. E a palavra trágica veio conscientemente da lembrança de hamartia, para ressaltar que chuvas não são problemas. Problemas são as ações humanas que resultam em consequências terríveis. A natureza não grita mais pelo que fizemos e estamos fazendo; ela está respondendo.

Estamos vendo derreter o A68, esse que por algum tempo foi o maior iceberg do planeta. Sofremos um calor insano e temos sentido as altas temperaturas que nos colocam em antessalas do inferno. E continuamos produzindo lixo, aumentando pastos e para isso desmatando florestas. Assistimos guerras e genocídios que só fazem enriquecer os que produzem armas. E por aí vai.  São as ações humanas alterando a vida no planeta terra.

Que o tempo e o vento, guerras e distrações pop não nos façam esquecer da urgência de salvar nossa casa, a Terra. Antes de todo o planeta, nesses dias a urgência tem nome: Rio Grande do Sul!

Até mais!

Para contribuir:

*Passarim, da trilha de O tempo e o vento composta por Tom Jobim.

Foi, não foi, segue a vida.

Toda segunda-feira é a mesma coisa. O cidadão que viu o jogo no domingo, assistiu aos “disse-me-disse” dos comentaristas, viu a repetição dos gols na tv e na internet, segue a vida. Ou seja, pega logo cedo o jornal, vai para o caderno de esportes, e conforme o resultado do time do coração envia provocações aos amigos, responde a outras. A hora do almoço será animada: foi pênalti, não foi, roubou, não roubou e, aos perdedores para o Palmeiras, resta a única e duvidosa réplica do populacho: não tem mundial!

Nelson Rodrigues, que em A Falecida faz um personagem alterar o enterro da esposa por conta do amor ao time, alardeava a paixão pelo futebol. E entre os apaixonados, como o corno da citada peça, há indivíduos com peculiaridades interessantes. Como aqueles caras obesos que invadem sedes dos próprios times exigindo dos esguios jogadores de futebol o que não são capazes de fazer em campo. Há outros, que vendem a própria casa para viajar em finais de campeonato, o que levou o sistema público de habitação a colocar a casa financiada no nome das esposas.

Nos tempos de faculdade constatei inúmeras ausências de alunos nas quartas-feiras. Os que vinham às aulas ficavam ansiosos, escondiam fones de ouvidos e não era raro um grito de gol em meio à explanação do professor. Havia entre os jovens aqueles que participavam das tais torcidas organizadas. Desde aquele cuja família vivia do negócio – alugar ônibus e levar torcedores às partidas – ao jovem que acreditava firmemente que gritar e pular durante 90 minutos era sua fundamental contribuição para a vitória do time. E por isso se julgava no direito de exigir o gol, o campeonato inteiro. E faltar às aulas, mesmo sendo reprovado por isso.

A família Rodrigues, do Nelson citado acima, foi dona de jornais. Ao perceber o quanto o esporte mexia com as pessoas tratou de criar os campeonatos que viraram febre no país. Para vender jornais e dar dinheiro aos cartolas há a repetição do que ocorre nas segundas, também nas quintas-feiras. E o excesso de campeonatos, aqui e no exterior, leva ao incauto torcedor o envolvimento constante e diário com o futebol. E toda uma imensa gama de negócios é movimentada.

Torcedor que se preza paga dez vezes mais o valor de uma caneca, “oficial”, assim também com uniformes e diversos outros cacarecos. As camisetas personalizadas com nomes de atletas são um caso à parte. O torcedor paga os olhos da cara para ter a camisa “oficial do craque da hora” e quando este passa a jogar para time rival recebe ódios mesclados com paixões recolhidas. No fundo de gavetas, em companhia das ridículas cartas citadas por Fernando Pessoa, estão as camisas nominadas com o craque um dia amado, idolatrado, salve, salve!

Faz pouco tempo, aqui em Santos, uma movimentação entre os banhistas chamou a atenção. Um atleta, morador do pedaço, dera pinta na praia e com simpatia e educação cumprimentou aos alvoroçados torcedores que pouco se importavam que, naquele momento, o indivíduo era um condenado na Itália aguardando a decisão que o levou a jogar no xilindró – notícias recentes dão conta que presidiários emprestaram chuteiras para o moço. Uma mudança notável! A nova postura quanto ao comportamento dos “heróis” está levando alguns a pagarem pelos seus crimes. Ao que uma observação apurada indica, continuarão sendo adorados e respeitados por um grupo restrito de gente que confunde esporte com vida.

Sinto-me ET quando exponho esse tipo de ideias, às vezes utilizando termos bem mais densos que esses acima. Atribuo minha postura ao antigo professor e diretor do colégio, um sujeito enorme, de origem alemã. Rígido em seus princípios, obrigava os alunos a praticarem todos os esportes. Todos! Cada modalidade contribuía na condição física e na educação moral dos alunos: o importante é competir! Completava e exclamava com frequência. E lá estávamos jogando vôlei, basquete, pulando na cama elástica, praticando as modalidades olímpicas e, é claro, o futebol. Em alguns momentos enfrentávamos adversários melhores, perdendo feio. Lá estava o diretor, no final, orgulhoso da nossa participação: Vocês jogaram com dignidade. Lutaram! O importante é competir.

A farra durante uma partida esportiva é sempre bem-vinda. E a tensão vale, pois a representação do embate está ali, “viver é lutar!”. E a comemoração, o sarro nos amigos é parte do combo. Vivi muitos anos atendendo telefonemas do meu irmão após cada jogo do Corinthians. Ele não falava nada. Colocava o hino para eu ouvir. Sempre respondi com palavrões adequados ao momento. Vários! E a rusga com o irmão terminava ali, já que é sabido que em dois, três dias haveria outro jogo. Ficar discutindo a morte da bezerra é muito chato. Uma briga só vale a pena quando é possível alterar o rumo das coisas. Se foi, se não foi, se teve, se não teve… A bola vai continuar rolando (Ops! Há um bafafá aí sobre a bola rolando!). Segue a vida.

Os profissionais úteis

A manhã de segunda chama para as responsabilidades que temos para a semana. Além do trabalho cotidiano há que pagar contas, marcar médico e, necessário, dar uma paradinha para olhar o mundo. Pelo noticiário é o hábito costumeiro; há outras possibilidades simples como, por exemplo, abrir a janela e olhar a vida pulsando no céu, na rua, na vizinhança. O som familiar do caminhão vem junto com a voz dos coletores de resíduos e o ritual se repete.

Um rapaz vem à frente, facilitando o trabalho dos colegas que jogarão os sacos no interior da carroceria do caminhão. Acenam para moradores simpáticos, gritam entre si. O caminhão para em frente ao edifício vizinho. Entram rapidamente e tomam água, já à espera deles. Fresca e visivelmente gelada. O mínimo do tanto que devemos fazer por esses coletores dos resíduos que produzimos. Eles seguem com seu costumeiro alarido, falando coisas que não entendo, mas que percebo carregadas de bom humor.

Um adolescente bem vestido sai do sobrado em frente portando um saco bem cheio de sabe-se lá o que e entrega em mãos do coletor. Cumprimentam-se e o rapaz volta, abrindo a porta de um carro e toma seu rumo. Penso que nem tudo está perdido, já que há jovens percebendo nossa parceria fundamental com esses profissionais úteis, verdadeiramente necessários.

Certamente aguentaríamos algumas semanas sem o trabalho deles se produzíssemos apenas resíduos recicláveis. Mas, há os orgânicos, que em pouco tempo apodrecem e se indevidamente tratados resultam em doenças, pestes. E em seu árduo trabalho esses profissionais nos livram da proliferação de ratos, de baratas. O cheiro é péssimo. No entanto os rapazes coletores passam alegres, sem máscaras, expostos a coisas estragadas e podres que saem de nossas casas. Deveriam usar máscaras! Na real, deveríamos pensar e produzir algo que não os sufocasse e garantisse saúde enquanto correm pelas ruas limpando a cidade.

Coletores, varredores, hortelãos, lavradores, faxineiros, jardineiros, os seres úteis. Claro que médicos também são imprescindíveis, assim como engenheiros, dentistas, professores e outros profissionais. A questão é que há médicos, por exemplo, que só nos salvam se tivermos dinheiro para pagar a conta. E há os médicos dos postos públicos, essa maravilha brasileira que torna um médico o ser absolutamente útil. Assim como nossos coletores sofrem sem máscaras, o médico do “postinho” também sofre por não ter equipamentos necessários. Esse é o nosso mundo.

Sou interrompido pelo latido de dois cães que, devidamente amarrados pelos donos, se estranham no passeio público. Noto que os donos são obesos e lerdos, contrastando em muito com o corpo esguio e ágil dos coletores já próximos da esquina quando virarão e os perderei de vista. E penso em alguns desses profissionais que no exercício diário, correndo contra o tempo, e forçados pelo volume de trabalho acabam tornando-se campeões de corridas, fazendo valer o ditado que nos orienta a transformar limão em limonada.

Penso no sonho de cada coletor. Certamente, não foram crianças sonhadoras desejando correr pela cidade atrás de um caminhão fétido e sujo. São humanos, acreditam em um Deus, têm família, cuidam dos pais, dos filhos. Cuidam de nós, saneando nossas ruas, levando embora o que não queremos dentro de nossas casas. Não são estranhos, nem podem ser. São úteis. Merecem salário justo, digno. E sobretudo devemos à eles o respeito. Esse respeito que temos pela vida, pela nossa saúde, que depende do trabalho deles para que tudo caminhe da melhor maneira possível.

A mudança de Laura

Olhando para o computador travado ela se sentiu mais uma vez refém de algo não solicitado, não desejado. Não era a primeira vez que Laura se sentia assim, impotente diante de forças que estão muito além do que minimamente ela poderia enfrentar. Menina, bem menina, saiu da roça onde os pais amealhavam um pedaço de terra e, chegando na casa da madrinha que oferecera cama e comida durante o período da escola, ela descobriu o rádio.

A Madrinha Elvira gostava de jornais e revistas, mas a menina ainda não sabia ler. Gostava das fotografias impressas, das capas ilustradas com desenhos coloridos de casais apaixonados. Nada se comparava ao rádio com programas musicais, noticiários, novelas. Foi uma mudança e tanto! Do som de pássaros, dos ventos balançando árvores, dos animais no curral e no chiqueiro, ela passou a ser acordada por vozes graves dizendo “bom dia!” seguidos da alegre resposta de Elvira: Bom dia!

Apesar do medo diante de tantas novidades ela se manteve forte. Era desejo dos pais que conseguiram fazê-la entender ser necessário aprender a ler, a fazer contas, a conhecer as ciências. Tudo isso poderia e deveria ser utilizado no próprio campo onde eles prometeram, e ela sonhava, um dia voltaria em definitivo. Laura só não conseguia perceber quando ocorreria tal retorno.

Viver com a madrinha era mudança “para mais de metro”, ditado que aprendeu na cidade. O leite era entregue na porta, bem cedinho e em seguida vinha o pão, quentinho. Em dias alternados passavam o verdureiro, um vendedor de doces e, vez em quando, o carteiro batia palmas no portão. Iam à igreja com frequência, à praça com coreto no final das tardes de domingo, alegradas por uma banda com muitas marchas e modinhas. Pelo menos uma vez por mês iam ao cinema e Laura jamais esqueceu a luz apagada, a tela imensa e o primeiro filme, um romance açucarado. A madrinha chorava com a história. Ela se encantava com as imagens.

Muitos anos depois, já adulta e casada, deu-se conta de que a televisão tinha provocado outros hábitos e também o telefone tivera, aos poucos, colocado o carteiro em segundo plano.  Laura alimentou dúvidas sobre o bem que a tv poderia proporcionar, pois percebera que a câmera mostrava o que os donos da emissora queriam, o ângulo que eles desejavam. Já o telefone facilitara a vida de quem tinha leitura fraca, de quem não gostava de escrever.

Por muito tempo ela permaneceu fiel ao costume de enviar cartões de aniversário, por ocasião da Páscoa e pelas festas de final de ano. Em menos de uma década novas atitudes, novos protocolos, as respostas foram escasseando e definitivamente cessando substituídas por cartões virtuais. Nem se achava cartões para comprar. Tudo estava sendo rápido demais. Tão rápido que se fazia difícil perceber o que estava sendo imposto, as necessidades que estavam sendo criadas por conta de novidades, algumas não solicitadas, como as atualizações do computador. Laura estava cansada de correr atrás das mudanças que vinham de fora.

Tudo acelerado, vertiginoso. Todo consumo vira lixo. Os diferentes discos, compactos, k-7 e cds. As fitas VHS e os dvs, tudo rapidamente transformado em material obsoleto, ocupando espaços dentro de imóveis cada vez menores e mais caros, por isso mesmo exigindo que discos, fitas, livros se tornassem arquivos invisíveis, virtuais, inúteis com o computador travado, com a ausência de energia elétrica e as baterias descarregadas.

Já quase aposentada ela resistiu bravamente às redes sociais. Assumiu a imagem de mulher fora do tempo, só usando o computador para ler, pesquisar, utilizar serviços bancários e, ao telefone, só atendendo parentes e amigos próximos. Essa postura não veio por acaso, mas em consequência de perda de documentos por ataque de vírus e outras ameaças de golpes por telefone e e-mail. E de uma ojeriza que impunha mais do que o necessário, ser preciso ter o objeto do ano. O carro novo, o último modelo de telefone. Ela via crescer uma indisposição, uma resistência ao não desejado.

Nos últimos tempos, longe do trabalho, limitou-se a um aparelho básico para o caso de receber ou fazer chamadas urgentes. Contatos restritos a parentes, amigos, um pronto-socorro e um médico de confiança. Recebendo notícias via computador, gostava de pesquisar o mesmo fato, tentando saber o que realmente acontecia e o que cada empresa de comunicação estava defendendo. A tv fechada utilizada apenas para filmes e documentários, abandonando definitivamente as novelas que a encantaram na infância.

Então já enfrentara as piores mudanças advindas da morte do marido e da única filha, vítima de uma “bala perdida”, esse eufemismo para a incapacidade humana de controle da criminalidade. Ficara sozinha, morando fora do país o único neto com quem só conversava raramente, o que ela preferia acreditar ser fruto da diferença de fusos horários. Foi quando irritada diante do computador travado que pensou no futuro, em outras possíveis e previsíveis mudanças. Decidiu ser ela a autora e protagonista da vida que sonhara; algo que poderia ser vivido no tempo que lhe restava.

Dias depois riu quando um técnico sugeriu mais memória, outro eufemismo absurdo. Resistiu à ideia de um novo computador. Utilizou a pequena capacidade que ainda restava do aparelho para pesquisar, durante algumas semanas, até encontrar algo que atendesse aos objetivos pensados e decididos. E Laura encontrou. Uma casa de repouso no campo para pessoas em idade avançada, mas ainda com capacidade e disposição para mexer com horta, jardim e, se com vontade, a possibilidade de cuidar de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos.

Foi em uma segunda-feira que carregadores encontraram Laura, de pé e decidida, ao lado de duas malas modestas, apenas com roupas, uma maleta com álbuns de retrato e um caderno de lembranças. Segurava uma pequena bolsa com documentos, e o fatídico, mas necessário telefone celular. Os homens vieram para levar tudo, móveis e utensílios para uma instituição que ela escolhera. Viu saírem das janelas as cortinas, das paredes os quadros com paisagens e retratos familiares. Despediu-se de pequenos bibelôs, vasos com flores, o pequeno santuário e cada uma das imagens que ele abrigara.

Antes que os carregadores terminassem todo o trabalho chegou um conhecido corretor, com quem ela deixou a chave para que o imóvel pudesse ser vendido. Saiu sem olhar para trás, um leve sorriso nos lábios. Essa mudança, a penúltima, desejada e sonhada desde menina, de volta ao campo,  só seria interrompida pela mudança definitiva, fim de caminho nesse mundo, o que, certamente, não dependeria dela o dia, a hora e a forma de acontecer.