Petula Clark, voz que vence o tempo

Nem só de plásticas, Botox e silicone sobrevivem os grandes. Há cantores cuja voz, que é o que conta, permanece impecável.  Limpa, sem sinal de idade nenhuma. Petula Clark que o diga. Aos 80 anos, com aspecto de agradável senhorinha (sim, ela poderia parecer esses monstrengos transformados  pelo bisturi de incautos doutores!), a cantora inglesa volta ao disco. “Lost in You”, o novo trabalho de Petula Clark será lançado na próxima semana.

Petula Clark, novo disco

Tomei conhecimento de Petula Clark na mesma época que conheci The Beatles. A cantora tomou conta das paradas mundiais com “Dowtown” (clique aqui para ver e ouvir) que, no Brasil, recebeu uma graciosa versão interpretada pelo Trio Esperança. Quando se fala em Petula Clark e The Beatles, vem a expressão “invasão britânica”, quando jovens músicos ingleses tomaram conta do mundo.

Gosto da voz de Petula Clark desde 1967, ano em que ela gravou “This is my song”, a canção de Charles Chaplin para “A Condessa de Hong Kong”. Este é o último filme do grande Carlitos e a “condessa” foi interpretada pela belíssima Sophia Loren. A voz de Petula Clark espalhou-se por todos os cantos do planeta cantando o tema do filme.

Apaixonei-me por Petula Clark, como quase todo adolescente, quando vi o filme “Goodbye, Mr. Chips”. Neste, um colégio inteiro de garotos encantam-se pela esposa do tímido professor, interpretado por Peter O’Toole. Toda a graça do filme está na deliciosa corista, o papel de Petula, que abandona o teatro pelo professor. Uma cena inesquecível é a da voz de Petula, sobressaindo-se ao coro na celebração dominical (veja aqui).

Petula Clark divulga novo disco

Não é fácil achar discos de Petula em nosso país, como também é difícil encontrar discos de Gigliola Cinquetti, por exemplo. Temos oferta de sobra dos discos de loiras platinadas, peitos volumosos, cuja performance reside fundamentalmente em videoclipes bem produzidos. Com o advento da internet é possível adquirir discos de grandes talentos sem sair de casa; assim, não vamos nos preocupar com distribuidores vendidos às gravadoras multinacionais. Quem tiver interesse é ir atrás dessa extraordinária cantora que é Petula Clark.

Após defender o direito de aposentadoria do Papa Bento XVI, é bom começar a semana postulando pelo outro lado, daqueles que, como Petula Clark, não brigam com o tempo, nem pretendem interromper o trabalho, mas caminham serenamente com ele e, graças no mínimo ao bom senso,no máximo ao bom Deus, permanece com a voz impecável no semblante sereno de quem vive em paz com a própria idade.

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Boa semana para todos!

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Atenção:

1) Veja a própria cantora divulgando o vídeo clicando aqui.

Alegoria para a Rosas de Ouro

O Diário de São Paulo desta terça-feira publicou a relação de premiados com o Troféu Nota 10 do carnaval de 2013. A Mocidade Alegre foi a escola a receber o maior número de prêmios. O prêmio de melhor Alegoria, quesito pelo qual fui responsável, foi para a Rosas de Ouro.

Detalhe do Diário de São Paulo
Vejam, no jornal, a matéria completa com todas os quesitos do Troféu Nota 10

No detalhe, a justificativa:

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Também foram agraciadas com o Troféu Nota 10, edição de 2013, as escolas Nenê de Vila Matilde, X-9 Paulistana, Vila Maria, Gaviões da Fiel  e Vai-Vai. Todos os detalhes da premiação estão na edição do jornal, nas bancas. A festa da entrega será quinta-feira, no Bar Brahma Aeroclube.

Ano passado o prêmio de melhor alegoria foi para a Mocidade Alegre. Aproveito este post para homenagear a escola, registrando aqui o material publicado pelo jornal, em 2012.

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Assim justifiquei, em 2012, o prêmio para a Mocidade Alegre.

Mocidade Alegre
Melhor Alegoria de 2012 foi para a Mocidade Alegre

Quero parabenizar todas as escolas premiadas neste ano e, através deste post, homenagear os componentes de todos os setores, de todas as alas, que propiciaram momentos inesquecíveis para todos nós. Também agradecer ao Diário de São Paulo, especialmente aos organizadores do Troféu Nota 10 pela carinhosa atenção durante todas as etapas deste trabalho.

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Bom final de carnaval para todos.

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“A festa é na avenida”

Atente para a mensagem da ilustração!
Creio ser pertinente, somar ao post, essa mensagem fundamental.

Se “a festa é na avenida”, como canta Arlindo Cruz, vamos desligar a TV, o computador e cair na folia. Nunca é demais alertar que avenida, no dito samba, é metáfora para todo espaço onde possamos brincar o carnaval. Se nem todos podem ir ao sambódromo, se há cidades onde não ocorrerão desfiles por falta de verbas e outros problemas, o jeito é apelar para a criatividade, a boa vontade e celebrar a alegria de viver.

Quem já esteve no Sambódromo, seja o de São Paulo ou o do Rio de Janeiro, sabe o quanto a transmissão da televisão é incompleta. Nossos caros profissionais, por mais que se esforcem, não conseguem ir além do óbvio. Enquanto as câmeras buscam mulheres bonitas, gente famosa, o detalhe inusitado, os apresentadores enchem nossos ouvidos com mesmices de todos os anos: É sempre perigoso o momento em que a bateria vai entrar no recuo; será que vai dar tempo da escola passar? Lá, encantados com o espetáculo, quando atingidos no âmago pelo desfile, nos esquecemos de tudo e somos felizes.

Estar em um desfile é permitir-se vivenciar a festa em plenitude; assistir, na arquibancada ou no camarote, é compactuar e interagir com todas as personagens do samba: a elegância da comissão de frente, a delicadeza refinada de mestre-sala e porta-bandeira, a técnica invejável do passista, a sensualidade gritante das cabrochas, o luxo dos destaques, o impecável artesanato das alegorias e, experiência única, o som absolutamente contagiante de uma bateria. A TV mostra por partes. No sambódromo ou na avenida, vivenciamos o todo.

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, diz outra canção, essa de Caetano Veloso. Se não vamos ao desfile da escola, há o trio elétrico, o bloco de rua. O samba ganha todos os espaços e permite a todos nós a alegria da criança, dona de si e da rua. Caminhamos apressados, tensos, por ruas e avenidas durante quase todo o ano. Corremos o risco de esquecer que trabalhamos tanto para que possamos brincar, confortavelmente, com nossos familiares, amigos e conhecidos. E brincar, aqui, é no sentido pleno de estar e ser feliz.

Nas ruas, ou praças, ou mesmo em botecos de esquina, esse é o momento para dançar frevo, sambar ou, simplesmente movimentar o corpo na cadência de uma marchinha. Há quem prefira os blocos gigantescos, na onda de uma Daniela Mercury ou com os Filhos de Gandhy na querida São Salvador; há os que começam com o Galo da Madrugada em Recife, após terem passado pelo Cordão do Bola Preta, no Rio de Janeiro. O melhor bloco é, sempre, aquele que a gente curte; eu, por exemplo, gosto do “Enterro dos ossos”, todo sábado após o carnaval, que encerra as atividades carnavalescas aqui do bairro.

Nem escola, nem bloco de rua? Ainda há bailes, dos mais sofisticados aos mais simples, com a criançada do condomínio, ou com os próprios familiares, afastando os móveis da sala. Permita-se brincar! Permita-se ser alegre, como o menino que dá uma rasante na avenida, com uma toalha amarrada ao pescoço, fingindo-se de Superman. Este é o verdadeiro espírito da festa carnavalesca; sair da rotina e brincar, de ser rei, sapo, rico, pescador, mulher gato, homem aranha… Na escola, no bloco, no salão do condomínio, a ordem é brincar e ser feliz.

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Bom carnaval!

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Nota: As peças que ilustram este post, é da Presença Propaganda. Grato ao Fernando Brengel, o folião mais animado da Vai-Vai!

As rainhas do ziriguidum e do borogodó

Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.
Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.

Tem um monte de gente que procura justificar a própria ignorância com a expressão “não é do meu tempo”. De quebra o preconceito embutido, como se o tempo presente fosse a maior das maravilhas… Cada época tem a sua beleza e hoje estou interessado em grandes mulheres, para um carnaval do balacobaco. Com muito ziriguidum!

Hoje eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar

Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…

Balacobaco só sabe o que é quem tem borogodó. E só quem tem borogodó é capaz de dar um ziriguidum. Tudo esclarecido um carnaval com “it” pode começar com versos acima, cantados por LINDA BATISTA. A primeira grande Rainha do Rádio.

O Brasil tem uma queda pela monarquia, adora eleger rainhas da primavera, do carnaval, do rock, do rebolado… Na chamada era de ouro do rádio elegia-se uma rainha por ano.

LINDA BATISTA foi Rainha do Rádio mantendo o título por onze anos (1937/1948) e, contratada da toda poderosa Rádio Nacional colecionou casacos de peles e carros de luxo. Rainha é rainha! E como essas histórias de monarquia são hereditárias, LINDA transferiu a coroa para a irmã caçula, DIRCINHA BATISTA.

Lá vai o meu trolinho

Vai rodando de mansinho

Pela estrada além

Vai levando pro seu ninho

Meu amor, o meu carinho

Que eu não troco por ninguém…

As irmãs Batista eram do balacobaco. Amadas até por Getúlio Vargas, ficaram meio esquecidas na transição do rádio para a televisão. Já na época havia também o “culto ao novo”. Veio com a Bossa Nova e, posteriormente, com a Jovem Guarda; um fenômeno  que colocou em plano secundário outros grandes astros do rádio como, por exemplo, MARLENE.

Lata d’água na cabeça

Lá vai Maria

Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria…

MARLENE, entre todas as rainhas do rádio, foi a que teve a carreira mais interessante, após a tal fase de ouro. Como atriz protagonizou novelas e peças teatrais. No disco “A Ópera do Malandro” temos dois registros dessa cantora incrível; uma filha de italianos (nascida aqui no “meu” Bexiga!) que canta sambas com o maior borogodó!

MARLENE foi estrela de um dos primeiros programas de carnaval que assisti pela televisão. O nome do programa era “Big Show Royal” e a cantora aparecia com um biquíni deixando evidente o quanto ela era capaz de um ziriguidum. Lembro que minha mãe não gostava; “- Essa mulher é muito escandalosa!”, reclamava. A cantora tinha um jeito de garota levada, mas levada mesmo era EMILINHA BORBA.

Se a canoa não virar

Olê, olé, olá

Eu chego lá

Rema, rema, rema remador

Quero ver depressa o meu amor…

EMILINHA BORBA reinou por 27 anos na Rádio Nacional. Foi campeã em correspondência por 19 anos e capa de 350 revistas. Isso é coisa de rainha! Vencedora de inúmeros carnavais, seus sucessos continuam por todos os bailes do país. “Chiquita Bacana”, “Tomara que Chova”, “Vai com Jeito” e, entre muitos outros, até uma “Mulata Yê, Yê, Yê”…

Mulata Bossa Nova

Caiu no hully gully

E só dá ela

Ye, ye, ye…

Na Passarela!

As cantoras do rádio brigavam feio pelo título de “Rainha”. O voto era popular e as “cédulas eleitorais” vendidas junto com a Revista do Rádio. Em 1949 a Companhia Antártica Paulista resolveu patrocinar MARLENE, dando a grana para a compra de votos. A cantora paulista conseguiu mais de 500 mil votos e sua vitória deu início a uma “guerra histérica” entre seus fãs e os de EMILINHA BORBA. Virou lenda!

Tivemos muitas “rainhas do rádio”. ÂNGELA MARIA, CARMÉLIA ALVES e DÓRIS MONTEIRO estão entre elas. Nenhuma, entretanto, foi grande como DALVA DE OLIVEIRA. Essa “rainha do rádio” foi também a “rainha da voz” e é, por muitos, considerada a maior cantora do Brasil. Nosso país é ou não é chegadão nessa tal monarquia?

Tanto riso, oh, quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

rainhasdoradio2

DALVA DE OLIVEIRA faz com que eu recorde meu pai. Eu era criança e adorava WANDERLÉA com suas pernas (Isso é borogodó!), a cabeleira loira e a dança, ingenuamente sensual (Mas, cheia de ziriguidum!).  Sei lá o que eu estava fazendo; deixei de lado e atendi ao chamado de papai para, no programa FLÁVIO CAVALCANTE, assistir uma apresentação de DALVA: “- Vem cá; veja o que é uma grande cantora!”

Naquele programa ela cantou “Kalu” e, com ÂNGELA MARIA, “Ave Maria no Morro”. As duas grandes cantoras, cheias de borogodó, mandaram ver na melodia e letra de HERIVELTO MARTINS. Quando chegou o momento do maior agudo, ANGELA afastou-se do microfone, dizendo para DALVA: “- Agora é com você!”. E lá foi aquela mulher, magrinha, frágil, soltando seus “agudos fulminantes”, para lembrar a expressão certeira de HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO.

Nossas rainhas, se não estão na memória de muita gente, permanecem nas canções, nas marchinhas. Imaginem o tamanho do balacobaco com todas elas no mesmo palco? Dá até pra imaginar plumas (dizer penas, pra rainhas, não dá!) voando pra todo lado. Por outro lado, penso que DALVA DE OLIVEIRA mandaria seu melhor agudo, pra que tudo terminasse numa boa:

Bandeira branca, amor

Não posso mais

Pela saudade que me invade

Eu peço paz

Saudade mal de amor, de amor

Saudade dor que dói demais

Vem meu amor, bandeira branca,

Eu peço paz.

 .

Até mais!

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Notas:

Os versos acima são, respectivamente:

O Primeiro Clarim – Rutinaldo e Klécius Caldas, 1970 – LINDA BATISTA.
Upa, Upa!(Meu Trolinho) Ary Barroso, 1940 – DIRCINHA BATISTA.
Lata D’água – Luiz Antonio e Jota Junior –1952 – MARLENE.
Chiquita Bacana (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1949), Tomara que Chova (Paquito e Romeu Gentil, 1951) “Vai com Jeito”(João de Barro, 1957) e “Mulata Yê, Yê, Yê” (João Roberto Kelly, 1965) – EMILINHA BORBA.
Máscara Negra – Pereira Matos e Zé Kéti, 1967 – DALVA DE OLIVEIRA.
Bandeira Branca – Laércio Alves e Max Nunes, 1970 – DALVA DE OLIVEIRA.

. Publicado originalmente no Papolog em 14/02/2009.  

Sambas pra cantar e manter na história

bandeiras das escolas

O carnaval é uma festa, ok! O desfile das escolas de samba vai além, é expressão de comunidades inteiras. Um exemplo:Quem já teve a oportunidade de conhecer a baixada fluminense pode entender a importância da vitória na avenida para uma escola como a Beija-Flor. Milhares de pessoas saem do subúrbio afirmando-se perante a metrópole, e toda a nação brasileira. O maior orgulho do povo de Nilópolis é a sua escola de samba. Sentimento similar ocorre nas demais comunidades do samba.

Os sambas-enredo sofrem transformações ao longo do tempo. Tomados como expressões de determinados grupos, tornam-se referências de um momento histórico preciso. Nos anos de repressão, buscava-se um país melhor, livre das opressões de grupos minoritários. Ao mesmo tempo, refletia-se, na avenida, o sonho do “país do futuro”. Foi com um samba assim que a Imperatriz Leopoldinense marcou uma época.

Vem cá, Brasil
Deixa eu ler a sua mão, menino
Que grande destino reservaram pra você
Fala Martin Cererê… (1)

Anos depois, a mesma Imperatriz entrava no Sambódromo carioca pedindo liberdade. Um samba extraordinário que, além de tudo, servia de emblema para uma situação daquele momento carnavalesco; no ano de1989, enquanto a escola de samba pedia por liberdade, lembrando a República e a escravidão, acontecia no Sambódromo um exemplo concreto da intolerância e da coerção social:

Joãozinho Trinta havia sido censurado ao tentar entrar com um Cristo Redentor na avenida; o carro alegórico proibido entrou com a imagem encoberta. Era a denúncia concreta do veto sofrido pela escola. O enredo da Beija-Flor entrou para a história: “Ratos e Urubus,Larguem a minha Fantasia” E Joãozinho, discutindo o enredo, soltou a frase que ficou famosa: “ – Quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo!”A Beija-Flor censurada, quem levou o campeonato foi a Imperatriz Leopoldinense, paradoxalmente, cantando a liberdade.

Liberdade, liberdade!
Abre as asas sobre nós
E que a voz da liberdade
Seja sempre a nossa voz… (2)

Das ditas grandes escolas de samba do Rio de Janeiro, a Portela é sempre mencionada, com “o manto azul da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida”, como bem diz a música de Paulo César Pinheiro.

Falar em Portela é lembrar Clara Nunes, Paulinho da Viola e alguns sambas-enredo muito especiais. Em “Ilu Ayê, Terra da Vida”, de 1972, a escola contava uma história de amor simbolizando tudo o que o negro perdeu ao ser trazido da África como escravo. Após sofrer na senzala atinge uma liberdade simbolizada através do carnaval.

É samba, é batuque, é reza
É dança, é ladainha
Negro joga capoeira
E faz louvação à rainha… (3)

Contando romances ficcionais ou histórias verdadeiras, a Portela deu-nos alguns momentos memoráveis. Quando contou a história do Mestre Pixinguinha fez todo o país cantar e reverenciar o grande compositor.

“Menino bom” na sua língua natal
Menino bom, que se tornou imortal
A roseira dá rosa em botão
Pixinguinha dá rosa canção…(4)

Se prestarmos atenção nos compositores de samba-enredo encontraremos alguns nomes familiares. Artistas que se tornaram grandes também fora do ciclo do carnaval. Certamente um dos mais queridos é Martinho da Vila, que traz no nome a escola, Vila Isabel. Martinho ganhou notoriedade em 1969, com a linda história da “Yayá do Cais Dourado”.

No cais dourado da velha Bahia
Onde estava o Capoeira
A Yayá também se via
Juntos na feira ou na romaria… (5)

Martinho colecionou sucessos ao longo de sua carreira. Nenhum me encanta tanto quanto o samba-enredo de 1972. A Vila Isabel veio com um tema que era mais que um confronto com a ditadura reinante. Veio ensinar, via história, o caminho para a liberdade ressaltando, acima de tudo, a importância das manifestações culturais brasileiras. Esse enredo, que fala por si, merece ser lembrado sempre:

Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes…

…E lá vem maracatu
Bumba-meu-boi, vaquejada
Cantorias e fandangos
Maculelê, marujada
Cirandeiro, cirandeiro
Sua hora é chegada
Vem cantar esta ciranda
Pois a roda está formada… (6)

E, como diz o velho e bom Stanislaw Ponte Preta, “assim se conta essa história”, com graça, poesia e beleza. Interesses comerciais, visando atender aos mandos e desmandos das transmissões televisivas, alteraram em muito o carnaval carioca. Todavia o samba-enredo está aí e, logo, veremos mais uma rodada de desfiles grandiosos. O que nos reserva o futuro, pra onde irá o nosso carnaval?

Certamente o carnaval irá se transformar, como tem ocorrido ao longo dos anos. Sendo festa do povo segue como o povo quer. E por mais que interfiram, por mais que as ações de marqueteiros e publicitários enfiem regras, deformando o estabelecido, as escolas de samba sobreviverão e, com elas, os alimentadores da alma de todas elas, o sambista compositor. E nós, que amamos o samba e o carnaval, continuaremos cantando essas canções.

Um compositor, João Sérgio, criou um belo samba-enredo para a União Da Ilha, em 1978, que brinca com o futuro. Pra onde irá o carnaval? No que se transformarão nossos sambas-enredo? Que tal entrar no espírito da letra da União Da Ilha e deixar correr…

Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser

A cigana leu o meu destino… (7)

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Até!

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Notas Musicais:

(1) Martin Cererê (Zé Catimba e Gibi)Imperatriz Leopoldinense, 1972.
(2)Liberdade, Liberdade (Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir) Imperatriz Leopoldinense, 1989
(3)Ilu Ayê, Terra da Vida (Cabana e Norival Reis) Portela, 1972
(4) O Mundo Melhor de Pixinguinha (Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Velho) Portela, 1974
(5) Yayá do Cais Dourado (Martinho da Vila) Vila Isabel, 1969, que está no disco de comemoração dos 20 anos de samba de Martinho.
(6) Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade (Martinho da Vila, Rodolpho, Graúna) Vila Isabel,1972.
(7) O amanhã (João Sérgio) União da Ilhado Governador, 1978. Simone  gravou esse samba-enredo em 1983, tornando-o um imenso sucesso.

Valdo Resende. Publicado originalmente no Papolog.

São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.

Mangueira é um “Catavento a Girar”

Logo ali já se vê o carnaval chegando. É bom escrever sobre sambas de enredo e grandes escolas. Pra continuar vou de Mangueira, a Estação Primeira, cantada em verso e prosa desde sempre.

Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira
Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira!

Mangueira poderia ser qualquer lugar. As mangueiras proliferam-se pelo país. Belém do Pará, por exemplo, é lembrada por seus mangueirais. Transformar um lugar comum em algo mítico, especial é privilégio da criação artística. Em artes plásticas, em prosa, em poesia ou música, tudo pode ser transformado em sonho, diante de qualquer que seja a realidade. a música colocou no mapa da música brasileira uma Mangueira, eternizada nos carnavais, indo muito além de um único período do ano.

Mangueira é poesia em canção, como em “Sei lá Mangueira”, a criação dos mestres Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.

Visto assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia fez um mar…

Esse mar vem de longe e, desde lá já merecia uma “Exaltação à Mangueira”, feita por Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, imortalizada na interpretação de Jamelão:

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor…

Quando a poesia vai embora, em Mangueira apela-se para o passado. Dá samba bonito! Herivelto Martins já sabia disso quando criou “Saudosa Mangueira”:

Eu sou do tempo do Cartola
Velha guarda o que é que há?
Eu sou do tempo em que
Malandro não descia
Mas a policia no morro também não subia…

Falando em Cartola a lembrança desse morador permanece em Mangueira, nos sambas belíssimos, de uma brutal e encantadora simplicidade como “Alvorada”, onde Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho celebram as belezas do morro e da mulher brasileira:

…Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida…

Cartola é símbolo da escola, como Nelson Cavaquinho que, junto com Guilherme de Brito criou um dos sambas mais geniais de todos os tempos. Fico sempre na dúvida se a melhor interpretação deste samba é de Jamelão, Elis Regina ou Beth Carvalho:

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira…

Ah, Estação Primeira. De Dona Neuma, Dona Zica, de Jamelão de voz inconfundível, do “ Bumbo da Mangueira” Jorge Benjor tão bem homenageou e que Gal Costa canta como ninguém:

Eu conheço esse bumbo
Esse bumbo é da mangueira…
Ele sobe e desce o morro
Com cadência e precisão
E desfila na avenida
Batendo no compasso
Do meu coração
Bum, bum, bum…

Mangueira, a escola, vem encantando gerações. Levou a poesia de Chico Buarque e o som inconfundível de Tom Jobim para o alto, para o morro, junto aos sambistas da escola de cores verde e rosa:

…A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira.

E é assim, só com versos de músicas de altíssima qualidade. Qual escola tem uma história contada dessa forma? Cantada? É fácil pra todo brasileiro gostar da escola de samba, amar suas cores, mesmo nunca tendo ido ao Rio, ao morro.

A música de Mangueira atravessou todas as fronteiras e fez da escola de samba um ícone, amado por quem gosta de samba e do Brasil. E pra terminar esse primeiro post só mesmo a lembrança desse “catavento a girar”, no “Chão de esmeraldas” cantado na composição de Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho.

Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira…

Soberba, garbosa
Minha escola é um catavento a girar
É verde, é rosa
Oh, abre alas para a Mangueira passar!

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Até!

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Nota:

Logo mais escreverei sobre o carnaval da Mangueira neste ano de 2013. Antes resolvi preservar o texto acima, que havia sido publicado originalmente no Papolog, em 05/01/201