Sophia Loren dança ao som de Elza Soares

Sophia Loren dançando…

Ouvir Elza Soares cantando “Malandro” enquanto Lola (papel da atriz Abril Zamora) puxa Sophia Loren para dançar é daqueles momentos que encantam pelo aparente inusitado encontro dessa mulheres incríveis: a cantora brasileira e a atriz italiana. Na tela, a sambista que enfrentou poucas e boas para sobreviver canta para a personagem judia, sobrevivente do holocausto. Sophia, ou melhor, Madame Rosa, sob olhares de crianças sob seus cuidados, dança com uma mulher que, um dia, foi lutador de boxe.

Malandro, sou eu que te falo em nome daquela

Que na passarela é porta estandarte

E lá na favela tem nome de flor…

Rosa, a Rosinha no samba cantado por Elza pode morrer de dor. A mesma dor que parece comum na Rosa de Sophia, neste Momo e Rosa.

Ibrahima Gueye e Sophia Loren, dupla inesquecível

Há duas imensas satisfações ao rever Sophia Loren em Momo e Rosa, o filme em que volta ao cinema, aos 86 anos, dirigida pelo filho Edoardo Ponti. Primeiro por ser um grande filme, digno da filmografia de Sophia; segundo, por nos propiciar um intenso encontro com a atriz italiana que, certamente, continua no coração de milhões de fãs ao redor do mundo. A intérprete impecável diz presente, ao lado do menino Ibrahima Gueye.

O filme me enche de lembranças: pra começar, a formidável dupla Sophia-Ibrahima lembra outra, também no encontro de uma velha senhora com uma criança: Fernanda Montenegro e Vinícius de OIiveira em Central do Brasil. Não faço crítica de cinema. Sou fã. E estou novamente apaixonado por Sophia Loren. E vou deixar a memória fluir.

A Madame Rosa do filme atual foi prostituta; e recordo outra, a Filumena, da comédia Matrimônio à Italiana. Uma das várias parcerias de Sophia Loren com Marcelo Mastroianni.

A Segunda Grande Guerra, que fez sofrer a Judia Rosa, também fez sofrer outra personagem de Sophia, a Giovanna de Girassóis da Rússia, também nesse a parceria com Mastroianni. Um drama menor se comparado ao drama de Cesira, a linda viúva interpretada pela atriz em Duas Mulheres, consagrando-a definitivamente como grande atriz. Também a Grande Guerra como fundo, e novamente com Marcelo, recordo conflitos inconciliáveis em Um dia muito especial.

El Cid, Orgulho e Paixão, A Queda do Império Romano, A Condessa de Hong Kong, O homem de la Mancha… O sono já perdido enquanto as personagens interpretadas por Sophia emergem da minha adolescência em diante, acompanhando-me vida à fora.

Certamente não sou o único, neste Momo e Rosa, a ter o filme como forma de reencontro com a estrela deslumbrante, a mulher desejada, a amiga de muitos anos. O tempo está aí, dando dignidade na mulher ainda imponente, ainda como olhar arrebatador, a boca cheia de promessas e, sobretudo, a atriz que me faz esquecer todas as outras personagens, enquanto choro por Rosa, a judia sobrevivente de Auschwitz.

Daqui para a frente, tenho certeza ouvirei Elza e seu malandro, e pensarei em Sophia, a Rosa, como a da canção, cheia de dor e de amor.

Nota:

Malandro, a canção interpretada por Elza Soares, é de Jorge Cruz e João Batista de Alcântara.

Pombinha branca

De muito longe vem a voz que me traz a canção.

Tento ouvir com nitidez, determinar o timbre

A divisão, o andamento.

Reconhecer a tessitura com precisão…

Em vão.

A canção está no pensamento e,

a voz, no coração.

Embalou um, embalou dois,

Embalou seis filhos!

Distraiu netos enquanto os banhava

Vestia, perfumava.

Em vão busco a voz precisa

Só tenho certeza da canção

Que um dia foi cuidado

carinho, puro afeto e,

Hoje, 3 de novembro,

É saudade.

Meu cotidiano de Pedro

A janela escancara um dia ensolarado e, preso, observo a rua tímida, como diria Chico Buarque. Sem Construção, o que emerge do escaninho de canções é Pedro Pedreiro, aquele penseiro esperando o trem.

Vejo uma moça andando lentamente, meio a esmo, segurando um cigarro e, na mão esquerda, uma máscara carregada pela alça. Dois mascarados, homens, não procuram namorados como diz outra antiga canção, esperam passageiros. Talvez esperem o Pedro que, cansado de esperar, resolva tomar um táxi.

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa

Um tempo de espera esse 2020. Ingênuo, cheguei a pensar que seriam 15, 30 dias. E os dias, semanas, meses… Tento entender as pessoas que entregam a vida à própria sorte e saem, procuram trabalho, amigos, vão a festas, reuniões. Isto porque, na real, vem aquela coisa do Pedro, de esperar a morte, ou esperar o dia de voltar pro Norte. Mas, que Norte é esse?

Norte real, geográfico, não tenho. Quero ficar por aqui mesmo. Voltaria pra terra que chamei de minha, mas meus pais já não estão lá. Trago-os nas lembranças, no coração, em orações cotidianas. Norte profissional tá lento, feito Maria Fumaça tentando sobreviver em tempo de trem bala. É a pandemia, me consolo. De Norte afetivo vou bem, obrigado, e nesse “quesito” me distancio desse Pedro Buarque de Holanda. Só nesse!

Esqueço momentaneamente as mazelas desse nosso mundo pra divagar na durabilidade e atualidade de Chico Buarque de Holanda. Penso sair da janela e pegar um monte de CDs. Uma overdose do compositor pode acalentar o coração. Acalentar me lembra Acalanto, um acalanto nada bom:

Dorm’inha pequena

Não vale a pena despertar

Eu vou sair por aí afora

Atrás da aurora

Mais serena…

Ah, está tudo muito difícil, mas a gente tem o Chico Buarque. E Elis, Bethânia, Nara, todas pra cantar as músicas do cara. Esse Cara que não é dele, é do Caetano. Ambos nos consomem com seus olhinhos infantis, como olhos de um bandido. Só que, tchau, Caetano, não estou para o que der e vier. Estou esperando! Como o Pedro:

Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
… o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando a festa
Esperando a sorte…

Talvez minha única diferença desse Pedro Pedreiro é ter ouvido Chico desde a infância e, portanto, sei disso:

Pedro não sabe, mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar

E assim sigo, teimoso, atrás de um sonho, mesmo que impossível. Segurando o desespero da falta de vacina, do excesso de ignorância, do desconforto da máscara que me faz encarar, por qualquer lugar que vá, a morte, a doença, o fim. Reluto, insisto e sonho. Quero voltar atrás.

Ser Pedro Pedreiro, pobre e nada mais

Paro de escrever e vou ali, feito Januária ou Carolina, olhando o mundo pela janela. Esperando o trem, um trem de mineiro

Que já vem, que já vem, que já vem ….

Quatro passageiros do Trem das Lives

Viagem planejada, preparativos finais, no próximo domingo teremos um Trem das Lives especial alusivo ao dia dos professores. Optamos por escolher professores que atuam em regiões distintas, na medida do possível expondo aspectos do ensino e da educação no país. Os nossos convidados:

Nosso Trem passará por Bertioga, onde encontraremos Marisa Schmidt. Pedagoga formada há mais de 50 anos, exerceu com absoluta paixão cada dia dedicado ao magistério. Nos anos 1970 foi professora de importantes instituições como o Colégio Visconde de Porto Seguro, de origem alemã. Marisa também empreendeu, mantendo uma pré-escola em São Bernardo do Campo. Hoje exerce outra de suas paixões, a poesia.

Fortaleza é outra estação dessa viagem. No Ceará conversaremos com Cristiane de Andrade Buco. Doutora em arqueologia, musicista desde a infância, bacharel em violão clássico, Cris transita pela música e, em especial, pelas artes rupestres com paixão declarada pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, onde realizou intensa pesquisa. Hoje leciona em curso de pós-graduação.

Com a agilidade que a web possibilita, o Trem das Lives dará uma passada por Londrina, no Paraná, para encontrar e conversar com Carlos Eduardo Costa. Graduado em psicologia, pós-doutor e professor da UEL, Universidade Estadual de Londrina, Cae é dedicado, estudioso e antenado com as questões do ensino e pesquisa. Psicologia experimental e análise de comportamento estão entre os assuntos que, facilitados pelo professor, tornam-se tranquilos e agradáveis.

Ilustrador, escritor, roteirista de história em quadrinhos, o professor Octavio Cariello fará uma participação afetiva no especial do Dia do Professor no Trem das Lives. Para ficar em uma palavra da hora, sem Spoiler! O artista está preparando algo bem legal para nossa live. Só esperando pra ver e, com certeza, usufruir!

Fernando Brengel e eu, Valdo Resende, estamos felizes e simultaneamente ansiosos. O tempo não passa!!! Estaremos lá! Aguardamos todo mundo!

Fique ligado:

Especial Dia dos Professores

Domingo, 11.10

18h00

Instagram @tremdaslives

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Nando Cury nasceu em Botucatu, SP. Mora no bairro do Sumaré, São Paulo. No próximo domingo nós o conheceremos um pouco mais. Das crônicas publicadas por ele escolhemos, para hoje, uma que envolve o universo musical. Sobre música, Nando Cury diz:

“Adoro música. Participei de algumas bandas como Os Jetsons e XPTO (em Botucatu, nos anos 60). Fui um dos vocalistas e compositores de O Quarteto, nos anos 70. Nos Anos 80, estudei harmonia na Escola de Música Travessia e fiz parte do grupo vocal Piruá. Agora sou um dos integrantes da banda Beatles For All.”

O Trem das Lives, com Nando Cury, será no próximo domingo, dia 4, 18h no Instagram do Trem das Lives (@tremdaslives). Veja abaixo um relato da experiência musical do autor:

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Quase caí da carteira, quando Mário Bock, meu colega de turma, me contou a novidade. Ele havia conseguido pra mim, em 1973, no nosso segundo ano da Faculdade de Comunicação Objetivo, um estágio no estúdio de Rogério Duprat. Continuei não acreditando, então fui falar com o grande regente e arranjador. Passei 20 dias dentro do Studio Vice Versa, meio paralisado, só observando o Sá, o Guarabyra e os músicos da banda O Terço elaborarem músicas com apelos publicitários. Que, depois do arremate final de Duprat – incluindo arranjos, vozes, instrumentos e mixagem – virariam jingles famosos de conhecidos produtos.

De formação erudita, Rogério Duprat fundou o Grupo Música Nova, em 1961, já indicando ares de vanguarda. Como professor da Universidade de Brasília, junto com Damiano Cozzela e Décio Pignatari, cuidou da modernização da teoria e da prática musical no Brasil. Expandiu sua técnica de composição numa temporada que passou na Europa, onde estudou com influentes compositores da música contemporânea eletroacústica, o francês Pierre Boulez e o alemão Stockhausen. Apesar de ter gerado trilhas premiadas para teatro e cinema, a fama de Duprat só foi alavancada na época dos inesquecíveis Festivais da Música Popular Brasileira da TV Record. Exatamente no IIIº Festival de 1967, considerado o mais competitivo e de melhor qualidade musical. Realizado no Teatro Paramount, na Brigadeiro Luiz Antônio em São Paulo, o IIIº Festival contou com uma plateia, em sua maioria, composta por ruidosos estudantes universitários. A TV Record bateu o recorde mundial de audiência, para espectadores fiéis. Tive o privilégio de ser um deles, assistindo com amigos, cada música de cada etapa, através da tela do televisor preto e branco, lá da nossa sala de estar em Botucatu. A disputa não era só pela melhor canção e melhor intérprete. Rogério Duprat ganhou o prêmio de melhor arranjo com “Domingo no Parque” de Gilberto Gil, segunda colocada no festival. Venceu outro gigante chamado Hermeto Paschoal, que fez o arranjo para Ponteio de Edu Lobo, a grande campeã. Duprat usou, como bases, o canto e o violão de Gil, misturando os naipes de cordas e metais da orquestra com berimbau, os backing vocais e sons dos instrumentos dos Mutantes, de Rita Lee, Arnaldo Baptista (baixo) e Sergio Dias (guitarra).

No ano seguinte, em 1968, Duprat criou os arranjos de Tropicália, que lançou o Tropicalismo, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Nesta obra, os inventivos arranjos de Duprat sincronizaram-se com a criatividade exuberante que aflorava de um grupo especial de novos compositores do país. As canções do álbum, em sua maioria, levaram a assinatura de Caetano e Gil, como em “Panis et Circenses”, interpretada pelos Mutantes. Caetano e Gil tiveram ainda a parceria de dois poetas que se destacavam naquele momento. Torquato Neto compôs com Gil “Geleia Geral”, interpretada por Gil. E com Caetano a canção “Mamãe Coragem”, cantada por Gal. Capinam fez “Miserere Nobis” com Gil, que também foi o intérprete. Caetano Veloso assinou “Enquanto seu lobo não vem”, cantada por ele e “Lindoneia”, que ficou perfeita na voz de Nara Leão. Tom Zé foi o autor de Parque Industrial, para o coro de Gil, Caetano, Gal e Os Mutantes. Gal Costa conduziu divinamente o hit “Baby” de Caetano.

Dessa mesma época, valem ser destacados os arranjos de orquestra que Duprat construiu, para tornar ainda mais originais e cobiçados, os três primeiros álbuns dos incomparáveis Mutantes de: 1968 (que traz “Panis et Circenses”), 1969 (que leva “Não vá se perder por aí”) e 1970 (Divina Comédia ou Ando meio desligado).

Capa do disco Tropicália: projetada pelo artista plástico Rubens Guerchman.

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Obs.: a PARTE 1, que aborda personagens da formação musical do autor está no Facebook. Faça uma visita e conheça outros contos e crônicas em https://www.facebook.com/nandocury

Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água

Luedji Luna é cantora que vem da Bahia, com a suavidade da gente de lá, em clipe dirigido por Joyce Prado.

O primeiro álbum da compositora e cantora Luedji Luna foi “Um corpo no mundo”, lançado em 2017. “Bom Mesmo É Estar Debaixo Dágua”, segundo trabalho da cantora, já está nas plataformas digitais. Composição de François Muleka, direção da própria Luedji . Veja a ficha técnica completa nas informações adicionais ao clipe, no próprio Youtube.

Tive o prazer de ser dirigido em vídeos de Joyce Prado, o que me facilita olhar com redobrada atenção ao que ela faz. Agora no clipe “Bom Mesmo É Estar Debaixo Dágua” reencontro a diretora sensível, que promove e valoriza sobremaneira as personagens de suas imagens. Luedji Luna canta e dança com tranquilidade que resulta em pura poesia, deixando sempre a canção dominar conteúdo e forma. Vale a pena ver, ouvir, rever.

Até mais!

Embarque no Trem das Lives

Nesse domingo, às 18h, estreia Trem das Lives, bate-papos a respeito de literatura, artes e muito mais.

No primeiro programa, o escritor Valdo Resende fala a respeito da sua carreira, do livro Uberaba 200 Anos – No Coração do Brasil, organizado por Marta Zednick de Casanova, e revela os lançamentos que está preparando. Para mediar a conversa, Valdo convidou o publicitário Fernando Brengel. Um encontro de amigos feito para você.

Trem das Lives. Embarque na Cultura Brasileira.

20.09.20, domingo, 18h00

instagram @valdoresende

Olá,

Acima, a comunicação oficial do nosso novo projeto, Trem das Lives, pensado com muito carinho para todos os nossos amigos e seguidores das nossas atividades. Estou feliz e confiante, ao lado de Fernando Brengel, amigo de longa data, parceiro no livro Um Profissional Para 2020, companheiro de anos e anos como professores na mesma instituição de ensino.

Escolhemos um dia, o domingo, e um horário possível, 18h00, pensando em nossos alunos que  não estarão em aulas, e além desses, nos propomos a oferecer algo para todas as pessoas que curtem as criações humanas, as formas expressivas, os conteúdos que encantam todas as gerações.

Aguardamos vocês. Contamos com todos para embarcarem conosco nessa viagem deliciosa que vai muito além dos meios, da geografia. Vamos viajar nesse trem, também conhecido como cérebro, nos divertindo, aprendendo e compartilhando momentos agradáveis. Vou repetir dia e hora e a rede social:

Trem das Lives. Embarque na cultura brasileira.

20.09.20, domingo, 18h00

instagram @valdoresende