Um dia de domingo

Crochê por Walcenis V Rezende
A paz é sonho

Cedo aprendi que domingo era dia de descanso, de oração, de estar com amigos ou familiares. Também deveria ser um dia de refeições caprichadas, de sobremesas especiais e tardes preguiçosas diante da TV ou na sala de algum entre os cinemas da cidade. Quando mais jovem era o dia ideal para longas caminhadas, jornadas extensas pela zona rural da minha Uberaba.

Hoje acordei com a tenebrosa notícia de um rapaz ciclista que, atropelado, perdeu o braço. O braço, diz a notícia, ficou preso no carro do motorista que, abandonando o pobre ciclista fez uma parada para jogar o membro no córrego que passa no centro de uma avenida, no Ipiranga.

A lista de acontecimentos violentos é vasta; nem se resolveu a questão dos torcedores presos após a morte de um torcedor “rival”, na Bolívia, e já chegou a notícia de outros marmanjos que, após um jogo perdido, desceram o braço na equipe “do coração”. No Rio de Janeiro, também neste domingo, outro motorista atropelou duas pessoas. O cidadão dirigia uma Ferrari, símbolo de poder econômico. O mesmo poder que leva o filho do milionário a atropelar alguém e não sofrer conseqüências legais.

Não sei se o mundo piorou ao constatar que a violência tem assumido proporções lamentáveis. Tenho certeza de outras faces; por exemplo, a da violência como estética, passatempo, ou como solução. A cultura norte-americana fez da violência grandes espetáculos, consumidos fartamente em nossos cinemas e nos canais de TV. Na estética cinematográfica americana sobram tiros, mortes, carros destruídos, explosões que derrubam tanto prédios quanto cidades. Também de lá os grandes eventos, dito “esportivos”, onde atletas sobem ao ringue em lutas sangrentas.

Foi neste final de semana que vi cenas de uma luta; pouquíssimas cenas, já que mudo de canal quando vejo um sujeito arrancando sangue de outro, já caído no chão, e sendo aclamado como campeão. Podem fornecer quantos argumentos quiserem e sinto que será difícil, em pleno século XXI, alguém me convencer de que isso seja esporte saudável. No entanto, nós, seres humanos, estamos prontinhos a defender essa violência “institucionalizada”. A “nobre arte do boxe” é expressão para descrever um esporte onde uma cara quebrada é parte do jogo.

Sei que muitos estão prontos a defender o boxe, o cinema, tanto quanto as nossas novelas. Sim, nossas novelas também caminharam para uma inusitada violência. Sou noveleiro de final de semana; mesmo lecionando a noite consigo seguir uma ou outra novela e, nas sextas, sábados, vejo capítulos completos. No final da novela “Lado a Lado” fui surpreendido com duas inusitadas bofetadas desferidas pela personagem de Camila Pitanga, a mocinha, na vilã interpretada por Patrícia Pillar. A mocinha vivida pela bela Camila Pitanga desistiu de processar a vilã, mas a jovem resolveu no braço seus problemas com a adversária.

Não está distante a cena em que Luana Piovani (com ares de mocinha), espancou a vilãzinha interpretada por Bianca Bin em Guerra dos Sexos. Do “lado do bem”, as mocinhas de “Salve Jorge” também têm resolvido suas diferenças no braço. A violência dá audiência e a quantidade de pancadaria expõe a precariedade criativa dos autores de novela.

Nesta segunda-feira tomaremos café da manhã vendo e ouvindo sobre o moço que perdeu o braço. É quase certo que noticiarão algum roubo, um novo golpe e as brigas no futebol. Mostrarão cenas da briga de dois jogadores que culminou com a expulsão de um; dirão que é preciso acabar com a violência no futebol. Depois virão os programas de entretenimento; nesses, é hábito repetir cenas de pancadaria de novelas. E assim caminharemos, entre bofetões, assassinatos, atropelamentos, brigas, roubos, com a terrível impressão de que um domingo de paz entrou para a lista de utopias.

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Paz pra todo mundo!

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Mulheres brasileiríssimas

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Para o dia 8 de março saí passeando pela música, lembrando as mulheres todas do nosso imaginário, ícones do nosso povo, exemplos da nossa gente, presentes na música brasileira de todos os tempos. Meu caminho, o abecedário…

No “A” encontrei “Ana Júlia”, “Aurora”, “Ana de Amsterdã”, a trágica “Angélica”e a judiada “Amélia”, com freqüência execrada como alienada, acomodada, sem vontade própria. Eu gosto de vê-la como companheira (coisa difícil de encontrar hoje em dia!).

Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Não vê que eu sou um pobre rapaz…

Deixei “Amélia” no tempo e fui para o “B” e, de cara, recordei “Benvinda”, muito doce e “Bárbara”, muito forte. Esbarrei em “Beth Balanço”, mas parei mesmo em “Beatriz” que é, talvez, uma das mais belas composições de CHICO BUARQUE.

Sim, me leva sempre, Beatriz

Me ensina a não andar com os pés no chão

Para sempre é sempre por um triz

Ai, diz quantos desastres tem na minha mão

Diz se é perigoso ser feliz…

As moças que não percebem o tempo passando são lembradas no “C”de “Carolina”. Mas aqui é legal assinalar a doce poesia de JOYCE, homenageando suas filha Clara e Ana em “Clareana”. Corro rápido para o “D”, de “Dona” que, tenho bem certeza, era música que meu irmão apreciava. Nessa letra tem a “Dinorah”, a “Domingas” a “Doralinda”, mas esse citado irmão ficaria chateado se eu deixasse de citar “Diana”:

Não se esqueça meu amor

Que quem mais te amou fui eu

Sempre foi o seu calor

Que minha alma aqueceu

E num sonho para dois

Viveremos a cantar

A cantar o amor, Diana!

A letra “E” anda meio pobrinha… Só encontrei uma “Valsa de Eurídice”, linda demais pra ter outra. Deixei a tristeza de “Eurídice” e fui rapidinho encontrar “Flora”, na letra “F”. Flora, a da vida real, é a esposa do GILBERTO GIL. Certamente apaixonada pelo cara, por toda a eternidade, depois de tão soberba homenagem.

Toda aquela luz acesa

Na doçura e na beleza

Terei sono, com certeza

Debaixo da tua sombra

Ô, Flora…

Depois da ternura de GIL por sua esposa, chego num ícone de mulher, criada nesse Brasil moreno, imortalizada por JORGE AMADO em seu romance. O “G” só pode ser de “Gabriela”. “Glória, Glorinha” que me perdoe e até GAL, que tem seu nome em música, mas “Gabriela” é o máximo! E tem “Cantiga por Gabriela” “Tema de Amor de Gabriela”… Tudo muito bom, com a assinatura do mestre maior, TOM JOBIM.

Molha tua boca na minha boca

A tua boca é meu doce, é meu sal

Mas quem sou eu nessa vida tão louca

Mais um palhaço no teu carnaval

“H” é letra da “Helena” na voz do grande TAIGUARA, de grata lembrança. Os ecos das risadas de “Irene” ecoam pelo “I” e por todo abecedário musical; todavia a triste história de “Iracema” é que será aqui mencionada também por lembrar uma grande mulher, CLARA NUNES, intérprete definitiva da música de ADONIRAN BARBOSA.

E hoje ela vive lá no céu

E ela vive bem juntinho de nosso Senhor

De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos

Iracema, eu perdi oseu retrato.

“Januária” deve ter visto tudo da janela, ambas com “J”. Aqui tem uma música que gosto muito, “Joana, a Francesa” e sempre recordo a “Jezebel” na poderosa voz de LENNY EVERSON. Tocando em frente, chego no “K” de “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”e charmosa louraça belzebu, com suas calcinhas rendadas.

Pulo rapidinho para o “L” de “Luiza”. Mulheres fortes nessa letra: “Luz Del Fuego”, “Lindonéia” e, é claro, “Lady Laura” (Aqui mando um beijo pra minha mamãe!)

Quantas vezes me sinto perdido

No meio da noite

Com problemas e angústias

Que só gente grande é que tem

Me afagando os cabelos

Você certamente diria

Amanhã de manhã você vai se sair muito bem…

“Maricotinha” é fresquinha, não gosta de chuva. “Marina” pintou o rosto e o pai, DORIVAL CAYMMI não gostou. Nesse “M” tão forte e poderoso, fica a minha senhora do engenho, a “Maria Bethânia”. Há um disco maravilhoso, produzido por ELBA RAMALHO, todo em homenagem à grande mãe de todos nós, Maria, a cheia de graça. MILTON NASCIMENTO e FERNANDO BRANT fizeram a música representativa de todas as Marias do Brasil, na interpretação impecável de ELIS REGINA.

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida…

Encontrei, no “N”, a “Nina” de DANIELA MERCURY e no “O”, Olga. Aqui, gosto de brincar com o “se você fosse sincera, ô, ô, ô, ô ORORA”, que o MUSSUM cantava, divertindo meio mundo. Andei mais, que esse post está ficando imenso, e cheguei no “P” de Patrícia, do CAETANO VELOSO.Resolvi seguir em frente, pois, no “Q”,não encontrei ninguém, indo direto para a próxima letra.

“R” lembra a “Rita Baiana”; uma personagem e tanto, diferente da outra, “A Rita”, que “levou seu retrato, seu prato, seu trapo, que papel!”

Das tantas “Rosas” desse país, a “Rosa de Hiroshima” lembra um momento triste da humanidade, mas hoje é dia de alegrias e eu fico aqui é com “A Rosa” safada, danada da gota, cantada por CHICO BUARQUE e DJAVAN.

A falsa limpou a minha carteira

Maneira, pagou a nossa despesa

Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa

A gueixa

Que coisa mais amorosa

A Rosa….

No “S” todo mundo lembra-se de pedir “Oh!Suzana” não chore… Mas, legal mesmo é lembrar da cigana mais famosa dos últimos anos; de todo o povo querendo, junto com SIDNEY MAGAL, ver “Sandra Rosa Madalena” sorrir e cantar.

Ela é bonita, seus cabelos muito negros

E o seu corpo faz meu corpo delirar

O seu olhar desperta em mim uma vontade

De enlouquecer, de me perder, de me entregar…

Das cantigas de roda CHICO BUARQUE resgatou uma “Terezinha” que viveu grandes amores. Aqui, encontro “Tati”, a garota, e chego ao tango, esse maravilhoso e caliente ritmo. Tango, no “T”, só o “Tango pra Tereza” na voz de ANGELA MARIA, uma entre as grandes cantoras brasileiras de todos os tempos. Tem outra, a “Tereza da Praia”. Duas Terezas, urbanas, mas a “Cabocla Tereza”, de JOÃO PACÍFICO, é imbatível.

Senti meu sangue ferver

Jurei a Tereza matar

O meu alazão arriei

E ela fui procurar

Agora já me vinguei

É esse o fim de um amor

Essa cabocla eu matei

É a minha história, dotô!

No “U” também não encontrei nenhuma Úrsula ou similar. Em “V”, os talentosos JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC contaram a história de “Violeta de Belford Roxo”, uma santinha que engravidou de um sargento, vizinho… Sem querer fofocar, fui para o “X” da Xica que manda, a “Xica daSilva” de JORGE BENJOR.

Pra ninguém me chamar de radical coloquei Diana, uma música estrangeira nesse abecedário. Não será a única. No “Y”, quem pode deixar “Yolanda” de fora?

Se alguma vez me sinto derrotado

Eu abro mão do sol de cada dia

Rezando o credo que tu me ensinaste

Olho teu rosto e digo à ventania

Yolanda, Yolanda

Eternamente, Yolanda

Chegamos ao “Z”, de ZEZÉ MOTTA, e a música que RITALEE fez para homenagear nossa atriz e cantora, que deu cara, voz e uma imagem definitiva para a “Xica da Silva”.  Ave, ZEZÉ MOTTA!

Esse abecedário não pretende ser completo. Antes de concluí-lo, outras músicas já aparecem, mas eu paro por aqui, mandando um beijo para todas as mulheres que permeiam minha vida, e a vida de todos nós.

Feliz dia Internacional da Mulher!

Beijos!

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Sempre no Vapor Barato de Jards Macalé

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Decidi lá na adolescência, que não queria “ficar dando adeus às coisas passando” e assim, pensando que gostaria de “passar com elas”, sempre estive pronto para sair, ir embora. Percebo, passados tantos anos, que as idéias de “Movimento dos barcos”, de Jards Macalé e Capinan, estão entre os norteadores da minha vida.

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo…

Essa música forte, na voz intensa de Maria Bethânia, é, na minha modesta opinião, o que há de melhor em termos de uma canção sobre o fim de um relacionamento. O quarto e o quinto versos da letra de Capinan são de uma beleza aterradora:

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei…

Precisamente, Jards Anet da Silva nasceu em um 03 de Março de 1943 no Rio de Janeiro. Hoje, no domingo em que escrevo este post, o músico completa 70 anos. Parece que a origem do apelido está em um antigo jogador do Botafogo, tão ruim de bola quanto o jovem Jards. Grande fera da música brasileira, a carreira de Jards Macalé é sólida, com trabalhos marcantes que contribuíram para o sucesso dos baianos. Além de Maria Bethânia, Jards comparece em trabalhos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

Em parceria com Wally Salomão, Macalé criou alguns grandes sucessos para a voz límpida de Gal Costa. Quem é jovem, quem foi nos anos de 1970 para cá, identifica-se tranquilamente com os versos de “Mal Secreto”:

..Se você me pergunta: “Como vai?”
Respondo sempre igual: “Tudo legal!”
Mas quando você vai embora
Morro meu rosto no espelho
Minha alma chora…

Sempre fui grato aos dois compositores e não sei dizer, nem de longe, quantas vezes me senti o “rapaz esforçado”, exposto via Gal:

Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Eu choro, converso
E tudo o mais jogo num verso
Intitulado mal secreto

O criador do “Banquete dos Mendigos” tem um longo histórico. Bastaria uma canção para colocá-lo entre os nossos maiores criadores musicais; ou há alguém que, conhecendo, não goste de “Vapor Barato”?

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
(Graças a Deus)
E não me importa, honey
Oh, minha honey baby

Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)
Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)

Novamente com o parceiro Wally Salomão, Jards, em Vapor Barato, retrata uma geração, um momento brasileiro (1971) via show “Fa-Tal, Gal a todo vapor”. Fez isso com tal maestria que ouvindo Gal lembramos do Brasil de então e do rapaz da esquina, parado no ponto de ônibus, desolado em um banco de jardim:

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)

Ah, cidadão Macalé. Pudera eu dizer pessoalmente o quanto gosto dessas canções, o quão importante foi pensar e refletir, durante toda a minha vida, enquanto cantarolava esses versos:

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

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Feliz aniversário, Jards Macalé!

Boa Semana para todos.

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As fotos que ilustram este post estão divulgadas no site do compositor.

Veja mais sobre Macalé em:

http://www.jardsmacale.com.br/

As letras das canções acima e de outras criações do compositor estão em:

http://www.mpbnet.com.br/musicos/jards.macale/index.html

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A Uberaba do meu tempo

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Havia no meu tempo uma Uberaba

Era calma, suave, cheia de tardes bucólicas.

A cidade da minha infância tinha um absoluto céu azul,

Chuvas fininhas, intermináveis, irritantes.

Aventura era encontrar Maria Boneca portando o brinquedo

E fugir, para descansar sob a sombra da Gameleira.

Na exposição de gado meus pais compravam mexericas

Levando-me a preferir, sempre, mexericas ao Zebu.

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No meu tempo Uberaba tinha córregos a céu aberto

Guardados por muretas que nos serviam de encosto

Antes das sessões do Metrópole, do Palace

Esperando caronas do Padre Nicolau após aulas no Cristo Rei.

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Brincava no Mangueirão, passeava pelos trilhos da Mogiana,

No parque infantil da Praça Rigoleto de Martino (hoje só resta a Codau!)

O autor do Hino do Uberaba Sport, o time que, na Uberaba do meu tempo

Rivalizava com o Independente, o Nacional…

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No Boa Vista éramos todos sobrinhos da Tia Carola

Fazíamos teatro com a Belinha

Sabíamos que era maio pelas congadas

E que era dezembro no presépio de d. Castorina.

Foram tempos de festas constantes

Quando bastavam as quermesses de santos e santas

Soando sinos e cânticos nas sete colinas de Uberaba.

Parque Fernando Costa, Uberaba, MG. Foto Valdo Resende

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A minha Uberaba tinha crônica ao meio-dia

O festival do Chapadão de Teatro e de Música

O Observatório, no Lavoura e Comércio,

Tudo criação do Ataliba Guaritá, o Netinho.

Raul Jardim fazia o “Escutando e Divulgando”

Lídia Varanda reinava na PRE-5

E Nhô Bernardino terminava o dia na hora do Ângelus.

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Noite de Uberaba tinha o Parque Boa Vista (Eu era o filho do rei!)

O circo do Cheiroso, batuques no terreiro de Mãe Marlene

Cartas pelas mãos abençoadas de Chico Xavier

Mamãe rezando terço, aguardando-me dormir na noite sempre calma da cidade.

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Recordo o café oferecido pelas freiras do Carmelo

As aulas na Escola Estadual Fidélis Reis

As tardes de jogos no pátio da Igreja Nossa Senhora das Graças…

Tantas coisas como essas que continuam na Uberaba de hoje.

Que vejo longe, sei de ler, de ouvir contar

A cidade de agora é de quem por lá está.

Chácara dos Eucaliptos, foto by Valdo Resende

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Há uma Uberaba que é minha, feita de sonhos acalentados

De planos vitoriosos, de projetos engavetados.

Guardada por todo o sempre e sempre teimando em sair à tona

Aquela cidade ganha meus dias, ocupa minhas noites de insônia.

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Neste dois de março Uberaba faz 193 anos

A cidade de agora é porque um dia foi outra

Essa outra que chamo “minha”

Impregnada em ruas e morros,

Acalentando ternamente o coração transforma-se sempre

Vive o hoje, comemora o agora

Segue rumo ao tempo em que alguém, lá longe, lembrará:

A Uberaba do meu tempo…

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De alma leve com “O Rio de Lágrimas”

Neymar Dias pode ser ouvido nos CDS "Capim" e "Intervalo"
Neymar Dias pode ser ouvido nos CDS “Capim” e “Intervalo”

Quando prestamos atenção percebemos que a vida está sempre nos sinalizando, lembrando-nos nosso verdadeiro tamanho, o papel que temos perante o mundo e, mais raro, até nos lembrando do que nos trouxe até aqui, nesse velho e bom planeta terra. Se falharmos na atenção, é freqüente, o aviso soa mais contundente e os problemas aparecerão. O melhor é que o remédio para tais problemas são tão conhecidos! Dormir bem, tomar refeições saudáveis e, além do corpo, alimentar a alma.

Carecendo de afago na alma atendi, com prazer, convite de amigos para ver o Concerto de Verão que abriu a temporada de 2013 da Orquestra Sinfônica de Santo André. A regência foi de Carlos Eduardo Moreno e o repertório prestou uma homenagem à música brasileira de concerto com obras de Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandes, Villa-Lobos, Cyro Pereira e Neymar Dias.

Auditório lotado, com lugares extras para acomodar tanta gente interessada. Mais uma vez confirmo o que já sei: basta um programa interessante para que as pessoas abandonem a mesmice televisiva. O problema é que poucas cidades brasileiras possuem boas salas de espetáculo e é muito menor o número dos municípios que mantêm uma orquestra sinfônica.

Nada melhor para apurar o ouvido do que uma bela orquestra; discernir, na harmonia de cada peça musical os instrumentos participantes; cada músico como pequena, mas vital parte do todo. Habituados a violinos, flautas, fagotes, clarinetas, harpas; de repente, aparece uma viola caipira. Entre os consagrados Camargo Guarnieri e Villa-Lobos, a Orquestra Sinfônica de Santo André apresentou o jovem Neymar Dias, um virtuose da viola caipira e compositor de talento.  No programa da noite, a orquestra apresentou o Concertino em 3 movimentos para viola  caipira, com o próprio compositor como solista.

Nada mais brasileiro que uma viola caipira; o som limpo, suave e denso, remete à pureza, simplicidade. A platéia ficou hipnotizada sob o som da música de Neymar Dias. Técnica impecável, interpretação segura, o jovem músico foi efusivamente aplaudido e brindou a platéia com um bis onde lembrou Tião Carreiro, Piraci e Lourival Santos, tocando “Rio de Lágrimas”. Essa música é popularmente lembrada como “Rio Piracicaba”, presente nos versos da canção:

O rio de Piracicaba

Vai jogar água pra fora

Quando chegar as águas

Dos olhos de alguém que chora…

A viola de Neymar Dias lavou minha alma, tornando-a leve. Os acordes extraordinariamente executados, na mais pura e perfeita tradição do violeiro que foi Tião Carreiro soaram trazendo de volta um Brasil da minha infância, lembrando-me Uberaba, meu pai, toda a minha família. Tudo indica que, pela forma como foi aplaudido, o músico alcançou a platéia tanto quanto me senti atingido. A viola caipira de Neymar Dias quebrou todas as distinções entre o erudito e o popular, exaltando o que interessa: a boa música.

Domingo em casa, ainda sob os efeitos da boa música. Fica fácil dispensar as desgraças televisas ou a inutilidade de outros programas. Se é mesmo fundamental dormir bem, tomar refeições saudáveis e alimentar a alma, a digestão espiritual pede silêncio, recolhimento. A vida fica mais fácil, melhor, calma com o som de viola caipira, de harpa, oboé, tímpanos, contrabaixos… Bem que outras cidades seguissem Santo André e também propiciassem aos seus munícipes uma boa orquestra. Seríamos um Brasil melhor.

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Boa semana para todos.

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Veja aqui um vídeo onde Neymar Dias lembra canções de Tião Carreiro.

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Mawaca pra Virada Cultural

O Mawaca é um grupo musical que nos proporciona, literalmente, uma profunda e intensa viagem musical; composto por instrumentistas e cantoras, esbanja qualidade cantando a música do mundo: canções japonesas, árabes, portuguesas, indígenas… O novo trabalho e a presença do grupo na Virada Cultural são os temas deste texto.

“Inquilinos do mundo” é o trabalho que o Mawaca anuncia para 2013, baseado fundamentalmente no universo cigano e nos povos nômades. O CD/DVD do grupo, em fase de finalização, pode ter uma carreira melhor se devidamente patrocinado. Os admiradores do Mawaca poderão colaborar para que o grupo obtenha  patrocínio com ações simples: veja o vídeo abaixo, apresentando o projeto. Em seguida, divulgue-o compartilhando o mesmo nas redes sociais.

Além do primoroso trabalho dos instrumentistas do Mawaca, o vídeo, apresentado por Magda Pucci, destaca alguns momentos com solos de Angélica Leutwiller, desta com Valéria Zeidan, e outro, com Christina Guiçá. Vejam!

Em maio teremos a Virada Cultural, o evento que propicia shows por toda a cidade durante 24 horas. Neste momento um site, o Catraca Livre, está fazendo uma enquete, Quem você quer ver na Virada Cultural 2013? Para nortear o voto do internauta o site apresenta uma lista de possibilidades e, no final da lista, há um espaço para colocar uma sugestão, já que a lista não é completa. Minha sugestão de indicação para a Virada Cultural é o grupo Mawaca.

O site não garante a presença dos mais votados na enquete; conforme o próprio, “A Secretaria de Cultura da cidade se compromete a avaliar as indicações feitas pelos leitores“. Há, assim,  uma chance para evidenciar nossas preferências. Cada pessoa pode votar mais que uma vez. Veja as instruções, escolha conforme preferências e indique artistas, caso o nome dos mesmos não conste da lista.

Clique aqui, vote ou indique, no final da lista, a sua sugestão. Espero poder ouvir a música do Mawaca na Virada Cultural. Vamos nessa?

Até mais!

Petula Clark, voz que vence o tempo

Nem só de plásticas, Botox e silicone sobrevivem os grandes. Há cantores cuja voz, que é o que conta, permanece impecável.  Limpa, sem sinal de idade nenhuma. Petula Clark que o diga. Aos 80 anos, com aspecto de agradável senhorinha (sim, ela poderia parecer esses monstrengos transformados  pelo bisturi de incautos doutores!), a cantora inglesa volta ao disco. “Lost in You”, o novo trabalho de Petula Clark será lançado na próxima semana.

Petula Clark, novo disco

Tomei conhecimento de Petula Clark na mesma época que conheci The Beatles. A cantora tomou conta das paradas mundiais com “Dowtown” (clique aqui para ver e ouvir) que, no Brasil, recebeu uma graciosa versão interpretada pelo Trio Esperança. Quando se fala em Petula Clark e The Beatles, vem a expressão “invasão britânica”, quando jovens músicos ingleses tomaram conta do mundo.

Gosto da voz de Petula Clark desde 1967, ano em que ela gravou “This is my song”, a canção de Charles Chaplin para “A Condessa de Hong Kong”. Este é o último filme do grande Carlitos e a “condessa” foi interpretada pela belíssima Sophia Loren. A voz de Petula Clark espalhou-se por todos os cantos do planeta cantando o tema do filme.

Apaixonei-me por Petula Clark, como quase todo adolescente, quando vi o filme “Goodbye, Mr. Chips”. Neste, um colégio inteiro de garotos encantam-se pela esposa do tímido professor, interpretado por Peter O’Toole. Toda a graça do filme está na deliciosa corista, o papel de Petula, que abandona o teatro pelo professor. Uma cena inesquecível é a da voz de Petula, sobressaindo-se ao coro na celebração dominical (veja aqui).

Petula Clark divulga novo disco

Não é fácil achar discos de Petula em nosso país, como também é difícil encontrar discos de Gigliola Cinquetti, por exemplo. Temos oferta de sobra dos discos de loiras platinadas, peitos volumosos, cuja performance reside fundamentalmente em videoclipes bem produzidos. Com o advento da internet é possível adquirir discos de grandes talentos sem sair de casa; assim, não vamos nos preocupar com distribuidores vendidos às gravadoras multinacionais. Quem tiver interesse é ir atrás dessa extraordinária cantora que é Petula Clark.

Após defender o direito de aposentadoria do Papa Bento XVI, é bom começar a semana postulando pelo outro lado, daqueles que, como Petula Clark, não brigam com o tempo, nem pretendem interromper o trabalho, mas caminham serenamente com ele e, graças no mínimo ao bom senso,no máximo ao bom Deus, permanece com a voz impecável no semblante sereno de quem vive em paz com a própria idade.

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Boa semana para todos!

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Atenção:

1) Veja a própria cantora divulgando o vídeo clicando aqui.