Onde criminosos se dão bem!

Certamente os deuses do futebol são amorais. Também residem longe, muito longe da ética. O que importa aos tais deuses é que nada, nem ninguém, atrapalhe a eficiência de um time. Mesmo que, para a vitória almejada, seja necessário ignorar a presença de criminosos em campo, ou nas laterais, orientando e dirigindo as agremiações. Os deuses do futebol são os mais fiéis seguidores de Maquiavel, vivenciando a máxima: Os fins justificam os meios.

A fé nos tais deuses e os seguidores da cartilha determinada pelos mesmos é atitude de muita gente incauta, os tais torcedores obcecados pela camisa. Não raciocinam; torcem! E quando raciocinam fazem vistas grossas para crimes e falcatruas de ídolos, ou dos dirigentes desses. Quando questionados costumam sair com a mais ordinária das colocações: Mas isso não é futebol! Não preciso aprofundar que pouco interessa o crime caso o criminoso seja hábil no drible, artilheiro no campeonato.

Sustentação maior aos deuses do futebol vem da imprensa. Desviam o assunto, dão pequenas notas, defendem os tais criminosos e, principalmente, apagam o acontecimento relegando o mesmo ao esquecimento. Exemplo contundente o incêndio no vestuário do Flamengo, no Rio de Janeiro. Pobres meninos que morreram queimados! Pobres familiares que choram suas perdas.

Estupradores, assediadores, pais que abandonam filhos, sonegadores de impostos: criminosos e crimes mais comuns e constantes no nosso futebol. A imprensa até notifica alguma coisa, como o fato de Robinho estar chateado pela presença da polícia na porta de sua casa, constrangendo o pobrezinho que não havia entregado o passaporte, determinação da justiça.

Histórias envolvendo o universo de futebol vêm de longe e nossos maiores ídolos não ficaram distantes de situações controversas. A filha que Pelé só reconheceu juridicamente é triste exemplo. Garrincha, diz a lenda, foi pai em diversos países, abandonando a família aqui no Brasil e mantendo-se distante também dos tais filhos estrangeiros. Elza Soares pagou preço alto em situação em que a atitude fundamental deveria ter partido do jogador. Ao longo dos anos me habituei com caras feias quando comento tais fatos. Nunca deixei de admirar esses que considero os maiores atletas do nosso futebol, todavia, é bom salientar que aqueles tempos sendo outros, o mal que fizeram é o mesmo que alguns outros ainda fazem.

As coisas estão mudando nesse momento em que uma notícia alastra-se quase que instantaneamente, tendo mudado um pouco as coisas. Além do atleta condenado na Itália temos um outro caso contundente em andamento, na Espanha. Que a justiça seja feita e que cada um cumpra o que for determinado. E por estarmos em um mundo novo, onde novas questões são colocadas e novas posturas são exigidas, cumprir pena não basta. É preciso que o envolvido em crime, após cumprir determinações legais, adote ações diferenciadas para que a coisa não se repita.

Novas atitudes, é o mínimo que se pede do atual técnico do Corinthians, o exemplo da hora de profissional de futebol envolvido em história tenebrosa. E não é, hipocritamente, vestir camisa com imagem de Nossa Senhora. É sim, assumir o que fez, desculpar-se e trabalhar em ações contra pedofilia, contra assédio a menores. Se o sujeito “não fez nada” estando presente no quarto onde ocorreu o crime, que o faça agora. Investir contra tal técnico não é vingança, é exigência de uma posição honesta e de ações concretas lutando para evitar que isso se repita.

Finalmente, apelo para a melhor arma que temos para mudar a postura de cartolas e seus comparsas. Boicotemos os patrocinadores! Sejam de atletas ou times, duas respostas contundentes podemos dar: denunciar e boicotar! Lugar de criminoso é no banco dos réus, respondendo à justiça. E fora do banco, na cadeia ou fora dela, atuando em prol de vítimas de tais crimes.

Os órfãos de Glória Perez

É muita família incompleta! A Brisa de Lucy Alves é mãe, mas não tem pai nem mãe. Chiara, da estreante Jade Picon não tem mãe; Ari, o Chay Suede, não tem pai. Faz tempo que não aparece tanto órfão em uma única novela. E não são poucos!

Entre as personagens centrais sem pai nem mãe estão: a Núbia (Drica Moraes), a Guida (Alessandra Negrini), o Oto (Rômulo Estrela), a Talita (Dandara Mariana), o Moretti (Rodrigo Lombardi), o Guerra (Humberto Martins), a Cidália (Cássia Kiss), Gil (Rafael Losso), Stênio (Alexandre Nero), Heloísa (Giovanna Antonelli), o professor Dante (Marcos Caruso) e por aí vai. Tem mais! É só checar as personagens. Quem segue a novela Travessia, de Glória Perez, deve ter percebido essa estranha quantidade de gente solta no mundo. Sem lastro, sem raízes.

Antes que D. Glória Perez me pergunte se eu fiz o “L”, informo que sim, fiz, e já pondero: Ah, mas tem família sim! a Tia Cotinha, de Ana Lúcia Torres lembra a Margarida, namorada do Pato Donald. Muitos sobrinhos sem eira nem beira. Todos caem no colo da tia. Rudá tem mãe, tia, padrasto e nenhum pai para defendê-lo! As moças, irmãs, ficaram sós no mundo, já que não há menção de outro familiar. Há uma família atual, formada por Lais (Indira Nascimento) e Dimas (Ailton Graça) e um casal de filhos que enfrenta o vício do menino em jogos virtuais. Uma avozinha, um avô, faria um bom jogo entre as crianças e os pais.

Mais que a orfandade geral, pais e avós costumam roubar a cena em novelas. Que me perdoem os mais jovens, mas, os veteranos garantem momentos de puro deleite para nós, noveleiros. Aproveito e saio de Travessia para homenagear Renata Sorrah em Vai na fé. Não sobra para ninguém quando a atriz assume a atriz na novela (Se não entendeu a frase é porque ainda não teve o prazer de ver a Sorrah dando show!). Voltemos à Travessia.

Tenho cá com meus botões que elenco de novela é uma escala onde o topo, tomando Travessia como exemplo, está ocupado por Ana Lúcia Torre, Marcos Caruso, Cássia Kis e Drica Moraes. Esse grupo de atores faz, literalmente, todo e qualquer tipo de personagem com brilho único e se sobressai de longe aos demais. Infelizmente estão órfãos, ou sozinhos, embora resvalem aqui e ali em possíveis relações.

Nem de longe ocorre, em Travessia, a possibilidade de um embate como o criado pela mesma autora em Caminho das Índias, envolvendo D. Laura Cardoso (Laksmi) e Lima Duarte (Shankar), que protagonizaram cenas memoráveis, de absoluta emoção. Também de Glória, em O Clone tivemos momentos belíssimos entre Stênio Garcia (Tio Ali) e Jandira Martini (Zoraide), tão intensas e belas quanto outras, na mesma novela, protagonizadas por Nívea Maria (Edna) e Juca de Oliveira (Prof. Albieri).

Glória Perez sabe escrever para atores veteranos e colocá-los em cenas que transbordam beleza e talento. Se não o faz, em Travessia, creio ser por conta da COVID. Sim, a maldita pandemia que criou protocolos e limitou o trabalho de atores mais velhos. Provavelmente a autora terminou a sinopse em pleno caos da doença e foi tirando aqui, cortando ali, deixando de lado os núcleos familiares profundos que apresentou em novelas anteriores. Tenho também cá comigo que foi a emissora quem limitou as personagens feitas por atores mais velhos. Do contrário, por que colocar tanta gente órfã na mesma história? Aí fica aquela coisa estranha, de gente sem lastro, sem memória.

Vou nessa! Hoje tem o casamento, ou não, da neta do Chico Buarque, que entrou na história como pesquisadora. Também sem pai, nem mãe, nem ninguém. Vejo Clara Buarque e fico com saudade da Marieta Severo e de tanta gente boa que está em casa.

Até mais!

Vambora julgar!

O Juízo final – Michelangelo – Capela Sistina

Condenações e erros judiciais me remetem imediatamente ao caso dos irmãos Naves, em Araguari, MG. Dois irmãos, Sebastião e Joaquim Naves, foram acusados de matar um primo, Benedito Pereira Caetano. Dos detalhes criados pelo imaginário dos acusadores consta que o sujeito teria sido enforcado às margens do Rio das Velhas, sendo dependurado por uma corda, cada irmão segurando uma extremidade. A história é tensa, cheia da violência de que o ser humano é capaz de imaginar. Vou deixar abaixo o vídeo com o filme baseado na história, em memorável interpretação de Juca de Oliveira e Raul Cortez. E, caro leitor, por gentileza, não me julgue pelo “spoiler” (palavrinha horrorosa): o tal Benedito foi encontrado anos depois, vivinho da silva.

Essa história foi contada e recontada em minha família. Meus pais se conheceram e se casaram em Araguari, onde em seguida nasceu minha irmã mais velha. No colégio onde estudei em Uberaba trabalhou uma parenta dos Naves, Ana Rosa. O caso dos irmãos Naves sempre foi mote para a máxima de Jesus Cristo: “Não julgueis, e não sereis julgados” (Lucas 6:37). Longe de mim bancar o impoluto, sem erros. Julgar é ato reflexo. A gente se depara com a notícia e, conforme a extensão do espanto, vem a ânsia em julgar, ou melhor, em condenar! Mas seria possível exercitar uma refreada básica nos julgamentos? Difícil!

O que me move a escrever e refletir sobre o tema é o conhecimento. Aquele que não temos sobre o que, ou quem julgamos. Então, mais que a possibilidade do erro que, em si, já é terrível e também outro crime, é o que sabemos sobre aquilo sobre o qual sentenciamos. Há uma diferença imensa entre exigir apuração dos fatos, tomar medidas judiciais, aguardar solução cabível de autoridades competentes e pronunciar sentença. A questão se amplia com a força da Internet, já que os julgamentos precipitados podem gerar – há vários exemplos concretos – massacres de inocentes.

Em “Nada de novo no front”, o livro de Erich Maria Remarque que está com versão nos cinemas, um professor incita alunos a irem para a guerra. Ele mesmo não vai para as trincheiras. Nos tempos atuais, influenciar e incitar os outros parece ser ato comum e constante nas redes sociais. E as consequências, como no filme, pouco importam ao “influencer”. Dá-se o veredito permanecendo no raso, na margem, na aparência da capa, no disse-me-disse ouvido de não sei quem. No cotidiano da rede inventaram um tal “cancelamento”, pois, ao que isso indica, o maior sofrimento que se pode fazer ao outro na atualidade é condená-lo ao ostracismo. E os influencers seguem a vida, aguardando outra ação “condenável” para aumentar likes, seguidores, engajamento.

No cotidiano fora das redes outras verdades favorecem julgamentos e vereditos; talvez, o maior motor disso é a crença de que “só jesus salva” e estar “no lado certo da história”; a religião do outro é sempre a errada e o respeito só devo aos meus irmãos de fé. As religiões determinando comportamentos geram angus de caroço imensos, aceitos ou não pela “sociedade”. Aqui, entre aspas, para assinalar que quase sempre se usa a expressão “a sociedade não aceita” para se eximir de um “Eu não suporto tal coisa”. Já sobre o “lado certo da história”, resta dizer que será sempre o de quem fala. Esquerda, direita, centro, acima e abaixo, mais ou menos, o que diz o ideólogo do partido é o que é correto.

Enquanto escrevo me sinto mal. Critico o ato de julgar julgando e tento refletir, buscando discernir entre o que é crítica e o que é julgamento. No frigir dos ovos, repito, o que mais me incomoda é condenar sem conhecimento. E lá vai a bomba! Permita-se um mínimo de honestidade e responda sem consultar a imensa enciclopédia que é a internet:  O que é o Tibete? Quais são os hábitos e costumes principais do povo tibetano? Economicamente, como sobrevivem? Caracterize a geografia, cite as fronteiras e por aí vai… Enfim, sou ocidental e a atitude do Dalai-Lama me é assustadora. Taí um bom momento, prometo, para estudar o significado de Dalai-lama, sabendo que lama, no título do sujeito, é falso cognato.

Bom julgamento!

Cariello por Cariello ou da unicidade da arte

Artbook41 – divulgação

Quando mergulhamos profundamente em uma determinada forma ou expressão artística percebemos, no mínimo, o que distingue profundamente uma da outra. Essa distinção facilita nova percepção: do quanto a arte é necessária e do quanto as artes no seu conjunto colaboram no entendimento humano. Antes de entrar no trabalho de Octavio Cariello, que me leva a refletir neste texto, quero pontuar três ideias:

Pobre artista de teatro quando não entende, ou não concretiza o teatro enquanto interação com a plateia. O jogo se estabelece e se completa na relação direta, pulsante, quente ou fria, trágica ou cômica. Sem o contato estabelecido com o receptor costuma ocorrer, frequentemente, o exibicionismo ordinário.

Infeliz o músico que não sabe ouvir, o ser, o objeto, o animal, a natureza, o mundo! Quem não ouve não faz do som percebido a matéria prima do ofício, não aprende a explorar suficientemente as possibilidades da voz, do instrumento. Quem não ouve consegue harmonizar?

Não seguirei exemplificando sobre as demais formas artísticas. Penso na hierarquia das artes, uma necessidade tão pobremente humana em colocar algo acima de algo. Penso no obsoleto conservador que insiste em recusar aquilo que não está nos cânones clássicos.  E provoco conscientemente: Seja lá qual for a importância da arquitetura ou da poesia, nem uma nem outra resolveu problemas básicos humanos. Ah, e banco o dialético: seria função da arte melhorar o animalzinho que se diz pensante?

Com o lançamento de Artbook41, Octavio Cariello me levou a pensar na especificidade da arte, na unicidade de cada forma artística:

Imagine-se artista. Poeta, escritor, pintor, ator, dançarino… Tente se ver em diferentes fases da vida, simultaneamente e interagindo com esses “eus” que um dia fomos através de um enredo sólido, coerente, consistente e coeso. Sim, a história é literalmente esta: Um encontro de um indivíduo com outros dois de si mesmo, em idades distintas. Parece simples. Vou voltar a exemplos:

Um arquivo como o da Rede Globo permite a um montador reunir, em enredo minimamente coerente, Gloria Pires conversando consigo própria ao longo do tempo. O resultado costuma ser canhestro, sem unidade, o roteiro manipulado em função da cena que se tem (pode ser Dona Fernanda Montenegro, Francisco Cuoco, ou qualquer um dos atores com longa carreira na emissora).

Em Boyhood, Richard Linklater filmou o crescimento de um grupo de atores durante doze anos. Algo similar também ocorre em outro filme, Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio. As experiências mostram as transformações ocorridas na vida das personagens. Soaria um tanto ou quanto artificial imaginar a reação de alguém com 12 anos após constatar algo feito por si mesmo aos 18 de idade. Em termos de cinema seria especulação, ou mesmo algo tipo programar a ação de si no depois.

Octavio Cariello é artista gráfico. E Mestre dos Quadrinhos Brasileiros (título merecido recebido da organização do Troféu Ângelo Agostini). Das 128 páginas que compõem o livro, ele usa apenas quatro para fazer, com maestria, o que gostaríamos de fazer em algum momento de nossas vidas. Um garoto aos quinze anos, um adulto aos 30, um homem caminhando para a maturidade. Três versões do artista que se encontram com sarcasmo, muito humor e uma boa dose de angústia. Cariello por Cariello! Usando sua capacidade artística para realizar algo singular, faz de si e de sua vida algo absolutamente único, específico. E de seu trabalho, um exemplo do que se pode chamar unicidade da arte. Bravos!

“Juninho Perdendo o Rumo” é apenas parte do Artbook41. Um grande álbum composto com trabalhos diversos de Cariello, desde Recife, onde nasceu, aos mais atuais realizados em São Paulo, cidade onde vive. Um exemplo que já dá “pano pra manga” para que se tenha ideia da incrível qualidade dos trabalhos que compõem o livro.

Será no próximo sábado, dia 15, o lançamento do livro na Gibiteca de Santos. Outros detalhes desse encontro estarão disponíveis em breve: aqui e nas redes sociais do local e do próprio artista. Também via redes sociais é possível adquirir o Artbook41, diretamente com Octavio Cariello.

Violência

A professora assassinada aos 71 anos por um garoto de 13 que a atingiu pelas costas; o garoto esfaqueado no metrô, no Canadá; as crianças mortas em plena creche! A menina baleada, notícia do jornal de daqui a pouco. Não é de agora que nos vem tanta violência. Só em 2022 foram 40,8 mil mortes, os dados são do G1. Lá atrás me vem a assustadora cena de um casal jogando a filha pela janela, ou da moça que, com o namorado e um cúmplice, foi condenada pela morte dos pais. Foi! Já está em liberdade. Penso que cada pessoa lembra de um crime. Da própria cidade, do país, do mundo. Aquele crime específico que nos leva a indagar horrorizados, tal qual fez o poeta séculos atrás perante a escravidão: Deus, meu Deus, onde estás que não respondes?

Provavelmente o ser humano foi um erro de Deus. Ou sabotagem do plano divino realizada com êxito pelo demônio. Independendo de religião, de escolaridade, constata-se que o ser humano é autor de crimes contra seus iguais, contra os animais dito irracionais, com o planeta. Somos os únicos seres que destruímos sem pudor o ambiente que nos cerca e que, em primeira e última instância, é o nosso lar. Roubamos uns aos outros, exploramos os mais frágeis que nós mesmos, matamo-nos em números cada vez piores.

Das cinco vias que nos levariam a Deus (todas bem definidas por Santo Tomás de Aquino), a primeira afirma que tudo está em movimento. Tudo se transforma! E o Santo concebeu Deus como o autor do primeiro impulso, da força que movimentaria tudo e todos. Um empurrãozinho divino! Lá pelas tantas, quando o ser humano se viu forte e consciente de força e conhecimento, passou a dar seu próprio empurrãozinho. Tipo a Europa carecer de expansão para resolver a incapacidade de autossustentabilidade e passar a invadir demais continentes, por exemplo. Ou os EUA crescendo o olho sobre o petróleo alheio e interferir na América Latina, no Oriente e agora mesmo, na própria Europa.

Conversa de todos os lugares, de quem seria a responsabilidade por tanta violência, tantos crimes? Como consertar e redirecionar o ser humano? Grande orgulho das raças planetárias, as religiões se odeiam e lutam entre si, em nome de Deus, para dizer que o Deus de cada tribo, de cada grupo que é “O Cara!”. Desde a Grécia Clássica, quando surgiram os filósofos que estão colocados como base da cultura ocidental, a filosofia se mostrou ótima sobre o “livre pensar”, mas bem capenga quanto ao “como resolver”. Criaram a sociologia, investiram nos estudiosos de economia, gritaram eufóricos o surgimento da psicologia e, em ondas sucessivas, quando cada uma das ciências se revela ineficaz para solucionar o humano, volta-se aos primórdios: os astros, os búzios, as cartas, os ancestrais (palavra da moda!).

Deixei de citar acima a educação. Estou envolvido com educação nos últimos 40 anos e vivo entre professores, sou de família de professores, meus melhores amigos são Professores, Mestres e Doutores em educação. Daí me irritar quando todo e qualquer cidadão se coloca na condição de determinar os rumos do planeta a partir da educação. Para sanar a violência: educação! Para acabar com o feminicídio: educação! Para eliminar todas as fobias: educação!

A História (de historiador, de gente doutora!) nos diz desde os primeiros vestígios da espécie que o ser humano não é coisa que preste. A Mesopotâmia, terra maravilhosa, está entre rios, a geografia nos ensina e a história nos revela que lá começou a grande briga humana – desde os Sumérios – e que tal briga tem relação com água e comida. Sabe como é: tendo rio, há água potável e plantios férteis nas matas. Hoje em dia, por lá e outras regiões do planeta, brigam por minério e petróleo. E com todo o planeta em perigo, logo começarão as brigas por ar. A Amazônia deverá ser a estrela maior de possíveis conflitos.

Ingenuamente podemos indagar os motivos da não conciliação entre as nações sobre as dádivas da terra. Poxa, o progresso facilitou nossas vidas, acabou com o trabalho escravo (exceto no Brasil!), aumentou os meios de produção, facilitou a vida com os meios de transporte e comunicação, a ciência descobre a cura de qualquer doença… Não foi à toa que Louis Armstrong cantou What a wonderful world! O problema é que não nos conciliamos sequer entre nossos familiares!

Como há muito enfiaram em nossas cabeças que precisamos muito mais que comida, água e um teto para refúgio de chuva e frio, trouxemos para dentro dos nossos lares a velha briga humana pela posse do que “tem mais valor”. É uma loucura total ver as pessoas, algumas velhas como eu, ou bem mais velhas, lutando por posses de bugigangas como se fossemos viver eternamente. E jovens, muito jovens, incapazes de dividir, disputando um mísero terreno ou uma grande fortuna. O certo, e horroroso de se constatar, que os problemas humanos são os mesmos de milhares de anos passados, após o fim de impérios, nações, dinastias, grupos étnicos. Não aprendemos com o passado. Nem com o presente. E aí, a mim, perdoem o desânimo, só resta temer pelo futuro.

Não há solução no conhecimento isolado, em uma única religião. Não há solução mágica! Não há solução por uma única via. Não há possibilidade de se resolver sem a união de todo o conhecimento, todos os setores, todos os grupos humanos. É preciso, sobretudo, ter a humildade para reconhecer a nossa grande, imensa incapacidade de viver em harmonia. Absoluta incapacidade de solucionar os problemas que enfrentamos. Em nome de Deus, ou daquilo que se quiser, é preciso admitir que SOZINHOS estamos apenas caminhando para um final pior, bem pior do que o momento em que vivemos.

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Nota: A imagem ilustrativa é do ator Malcom McDowell em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – Stanley Kubrik, 1971)). Uma possibilidade de legenda para essa obra prima do cinema: A violência não domesticada.

Os mercados e a Lo Prete

O Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Foto: Divulgação

Há mercados e o mercado da Lo Prete, a Renata dos jornais noturnos. A âncora dá show de competência e, somando forma e conteúdo, esbanja o que falta por aí: credibilidade. Um porém é quando o assunto é o “mercado”. Invariavelmente a Lo Prete chama comentaristas de economia – uma gente com jeito de pau-mandado – para que comentem as irritações, as exigências, as reclamações do setor mais obscuro e tenebroso da economia brasileira. O “mercado”.

O que passa pela cabeça do cidadão comum quando a simpática jornalista diz o tal substantivo? Quatro mercados distintos, além do da Lo Prete, me vêm a cabeça. Três deles são mais charmosos! Ter tido a felicidade de conhecer tais mercados me dão ideia do que diz o jornal:

O Mercado Modelo, em Salvador, está inserido em cenário de pura magia. Meu itinerário preferido sugerido é ir direto para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, cantarolar Caymmi enquanto visita o local e, saindo, tomar rumo para o Elevador Lacerda só para, lá de cima, tomar ciência de quão bela é a Bahia de todos os santos e deuses. Desça e vá direto ao Mercado Modelo. O local é cheio de obras de arte e artesanato para os consumidores. Comprei em um box um tríptico de madeira muito simpático e paguei os tubos. Continuando a passear encontrei o artista, autor do objeto comprado que me ofereceu o mesmo objeto por menos da metade do preço. Básico: mercado é coisa de sujeito que explora até a última gota da força do trabalho de outros.

Outro mercado mágico é o Ver-o-Peso, lá em Belém do Pará. Inúmeros corredores repletos de ervas e similares da Amazônia nos impõe a absoluta riqueza da floresta e seu potencial para a medicina em prol da nossa saúde. Cura-se quase tudo com as ervas disponíveis no Ver-o-Peso. Entre o que não se cura é a ganância humana e a safadeza da indústria farmacêutica que pega o que a natureza nos dá, mexe aqui e ali, mistura, e vende a preços absurdos. Pior, vai, pega a erva, analisa e cataloga para depois registrar patente. As histórias são muitas! Básico dois: mercado se apropria e coloca em escala industrial com preços abusivos aquilo que pode ser obtido praticamente de graça. Tipo água!

O Mercado Municipal, em São Paulo, me lembra um resumo do mundo da comilança. Sanduíche de mortadela é um dos atrativos do local. Volumoso, farto! Uma delícia. Viagem ao mundo se faz legal em bancas de frutas: de Tegucigalpa, Istambul, até a querida Varginha… Tudo o que a gente conhece e o que se pode imaginar em cheiro, textura, sabor. Uma festa para o paladar que, quando empolgamos, deixamos quantias imensas no pagamento das frutas. O preço imenso é justificado pela distância. Navio, avião, caminhão, carrinho de feira. Básico três: mercado compra um monte e repassa para a gente no preço da unidade. Não reclame, vá buscar vinho no Porto! Aproveite e visite Portugal.

Na real, no cotidiano, o “mercado da Lo Prete” são os mercadinhos da vizinhança. Aqui bem perto de casa há dois, bem perto um do outro. Ontem fui comprar bananas. No primeiro, seis reais o quilo. No segundo, quatro e noventa. Uma observação atenta e a banana barata estava madura, carecendo de consumo mais rápido. Não pretendendo estocar banana e conhecendo o “macaco que habita em mim”, comprei a fruta madura. Básico quatro: mercado nunca perde. Abaixa o preço. E o grande mercado não abaixa, joga fora para manter lá em cima o preço da bugiganga.

Renata Lo Prete – Foto: divulgação.

Terminando minha viagem mercadológica volto à querida Lo Prete. Ojeriza é a palavra que me ocorre para definir a sensação que me vem quando a âncora diz: “o mercado reagiu”, “o mercado não gostou”, “o mercado não concorda”, ou qualquer outra expressão. Nem Renata Lo Prete, nem os comentaristas paus-mandados dizem de quem exatamente estão falando. Quem foi o “cidadão de bem” que reagiu pessimamente com a porcentagem baixa do empréstimo consignado? Certamente aquele banqueiro acostumado a ter 400% de lucros e que ameaça suicídio quando essa margem desce para 350%. Ou então é algum ocupante daquele prédio horroroso da Avenida Paulista, onde ficava um pato ridículo que diz bem qual o interesse dos mandantes que habitam tal local.

Um nome, D. Renata! Pelo menos um nome, na hora de referir-se ao mercado. A gente sabe que quando a senhora diz o Governo, que é do Lula que se está falando. Como tem nome os ocupantes da prefeitura, dos ministérios todos quando citados. Agora, ficar só no mercado! Será que a jornalista quer que a gente acredite que é o Sr. Antônio, o das bananas mais caras referidas acima, quem faz o país dançar conforme suas vontades? De qualquer forma, resta dizer que é facílimo resolver todos os problemas financeiros da população, D. Renata. É só “fazer” o Governador de Minas e a gente mesmo aumentar nossos salários em 258%. Simples assim!

Para poetas de todas as idades

Estão abertas as inscrições para o XXI Concurso “Fritz Teixeira de Salles de Poesia”, promovido pela Fundação Cultural Pascoal Andreta, de Monte Sião, Minas Gerais. As inscrições vão até o dia 28 de abril de 2023.

O concurso contempla três categorias:

Infantil – Até 13 anos incompletos na data de encerramento das inscrições.

Juvenil – De 13 anos completos até 18 anos incompletos na data de encerramento das inscrições.

Adulto – Acima de 18 anos completos.

A participação no concurso é livre para autores de todas as idades, sem qualquer restrição, obedecendo unicamente a divisão por categorias nas respectivas faixas etárias.

Haverá premiação para os três melhores trabalhos, por categoria, e o edital completo está neste link:

https://fundacaopascoalandreta.com.br

Veja o edital, siga corretamente as instruções e não deixe de participar!