Amanhece

arcoiris flavio monteiro

Um copo de cristal

Sobre a mesa

Inventa as cores todas do arco-íris…

(Mario Quintana)

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Um haicai para manhãs de cinza!

Crédito da foto: Flávio Monteiro.

Até mais.

Desolação

valdoresendefinados

Fim de estrada. Só.

Sem espaço para os passos.

Adiante e atrás: pó.

(Cyro Armando Catta Preta)

Um haicai pra sorrir da ganância.

Até mais!

Hipótese

drummond

E se Deus é canhoto

e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

(Carlos Drummond de Andrade)

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Em tempos de verborragia, eu decidi seguir de haicai.

Até mais!

Um casamento para celebrar a vida

Casamento do Robinho
Robson Germano e Flávia Paggioli – O casal!

Pausa para o casamento de Flávia e Robinho. Pausa para nós todos, mais para os dois, pois para eles foi consequência de um sem número de tarefas e procedimentos concretizando no papel uma bela união. Unidos já estão, o amor já é grande, mas a sociedade precisa de papeis e um casamento é sempre um bom momento para celebrar o amor e a vida.

A persistência está entre as melhores qualidades do ser humano. Que importam as pinimbas de governantes que ameaçam resolvê-las com bombas sobre o planeta? Deixa pra lá as inseguranças de quem não consegue encarar um nu com a tranquilidade de ver um reflexo de si ou, no máximo, do reconhecimento do sexo oposto. A vida segue e o lance é buscar a felicidade, a vida em comum, o compartilhamento de todas as coisas possíveis quando há o afeto. Fiquei pensando nessas bobagens humanas enquanto aguardava o momento da cerimônia, tendo a certeza de que o que realmente importa é celebrar os grandes afetos. É para amar que estamos no planeta.

Robinho é daquelas pessoas em que o adjetivo amável cai como luva. Amigo de muitos anos, Robinho tornou-se amigo e membro da minha família. Dono de uma alegria imensa, ele contagia e espalha alegria por onde passa. Quem o presencia brincando com crianças ou com animais tem a dimensão exata do ser humano que ele é. Acredita-se um ser de sorte e, certamente por ter esta é que encontrou a Flávia.

Flávia é batalhadora. Uma menina doce, suave, que trabalha o próprio corpo e o corpo de seus alunos – professora de educação física que é! – sem deixar de exercitar a sensibilidade, pesquisando e trabalhando com música eletrônica. Com Robinho forma um par inequívoco. Gostam de diversão, apreciam as boas coisas que há por aí sem deixar de lado as atitudes responsáveis para seguir em frente; com segurança, tranquilidade e muito afeto.

casamento do robinho 2

Fiquei feliz em testemunhar o enlace. Padrinho! E insisto: É muito bom perceber que, embora tenhamos corrupção de sobra no país, ameaça de guerra atômica, indivíduos querendo destruir obras de arte e mais um monte de coisas ruins, há gente, muita gente, insistindo em investir no amor, nas relações familiares, na convivência com os amigos. Um casamento é o princípio de uma família e espero,com todo o coração, que tudo dê certo. Que sejam felizes, que permaneçam unidos, que tenham um ao outro para enfrentar todas as barras do cotidiano.

Meu amigo Robinho agora é um homem casado. Quem o conhece deve sorrir um pouco com essa frase, mas ao mesmo tempo sabe que ele será o melhor dos maridos. E eu, que conheço também a Flávia, afirmo a máxima que neste caso me deixa muito feliz: Deus fez, Deus uniu. Um belo casal. E que assim permaneçam.

Até mais.

O que é arte mesmo?

arte

Todo radicalismo é, no mínimo, chato. É tenebroso, doentio, prepotente, soberbo, orgulhoso e, a história registra, também é assassino. E burro! Irritantemente burro. Ultimamente temos presenciado radicalismos da direita – o que implica haver outro, o da esquerda. Ambos teimam em impor modo de ver, sentir e viver aos outros. Radicais são donos da verdade, embora nem sempre se saiba o que é a verdade.

Temos agora um imenso contingente de pessoas alçadas à categoria de críticos de arte, com posições assentadas em moral, bons costumes, religiões e ninguém, mas ninguém mesmo, citando Tatarkiewicz (A Grande Teoria) ou, então, Pareyson (A teoria da formatividade in Os Problemas da Estética). Isto pra citar dois, entre os grandes teóricos. Exposição, peça de teatro, um quadro, foram vítimas de uma censura ilícita (já que não há censura no país) e entre os argumentos vem o costumeiro atentado ao pudor assentado na conclusão de que “Isto não é arte”.

Seria pedir pouco ao receptor de denúncias que conceituasse a dita cuja, já que, acatando acusações e determinando a suspensão de eventos ou a retirada de objetos expostos, juízes e delegados devem, no mínimo, saber sobre o que estão agindo; portanto, sabem o que é arte e, assim sendo, quem poderá dizer que temos profissionais despreparados?

Venho lecionando há mais de duas décadas em universidades e nunca encontrei alunos que soubessem conceituar arte. Ok, lá é um lugar para se aprender. No entanto, é de se estranhar que o indivíduo passe por oito, dez anos de escola e entre na universidade sem a capacidade de conceituar sobre algo que está presente no cotidiano de todo mundo. Todos falam de arte, todos reconhecem produtos e manifestações artísticas, mas o que é arte mesmo?

Profissionais de medicina têm agido sobre o rosto de muitas pessoas, em procedimentos de estética duvidosa, mas ninguém questionou se isto é medicina ou não. E quando morre-se de calor em construções já condenadas à ação de aparelhos de ar condicionado não se questiona se tal local é ou não obra de engenharia. Outros exemplos são possíveis, mas creio que medicina e engenharia são um bom mote para indagar sobre motivos que levam indivíduos a discutir arte, principalmente aqueles que confundem arte com entretenimento.

Sobre a pecha de “arte” e “artistas” há muita coisa por aí, feita inclusive por gente que gaguejaria quando questionada sobre a imitação e a mimese em Platão e Aristóteles. O que diriam os moralistas de plantão sobre o paradigma formalista de Clive Bell ou com que prazer orientariam suas falas com base no que Collingwood escreveu (The Principles of Arts).

Creio que os radicalistas que andam se manifestando por aí não querem saber de Platão, Tatarkiewicz, Bell, Collingwood, Pareyson… Querem é impor sua ignorância e sua interpretação de mundo sobre os demais. Querem que todos vejam a lascívia que está na mente deles, a pornografia, a zoofilia; uma moral que é boa pra manchete de jornal e pra alardear uma preocupação com o que outro deve ver e fazer.

Tenho estudado arte ao longo de toda a minha vida. Não sou teórico, sou estudioso. Acredito profundamente a arte como elemento questionador que propõe reflexão e que, quando julga, deixa de ser arte. Não vou, neste post, publicar as definições de arte aceitas pela comunidade acadêmica e que têm norteado meu trabalho profissional. Vou sim, questionar os críticos de plantão, moralistas de ocasião, donos da verdade: O que é arte mesmo? Conceitue!

Até mais!

Quatro Cantos

 

medeia
Ilustração em vaso grego, inspirada em Medeia

A música tem permeado toda a minha vida. Através do canto, desde a infância, das brincadeiras com violão onde surgiram as primeiras composições. Com o tempo meu trabalho ficou restrito à letras e, com orgulho e gratidão, somo parcerias com Wilson de Oliveira, lá de Minas Gerais, Leonardo Venturieri, no Pará e aqui, em São Paulo, com Maurício Werá e Flávio Monteiro. De um velho projeto resgato o soneto abaixo, já musicado por Maurício Werá. Nossa inspiração veio da tragédia Medeia, de Eurípedes, lembrada na ilustração acima.

QUATRO CANTOS

Maurício Werá e Valdo Resende

Canto pelos quatro cantos do mundo

Minha voz ocupa espaços sonoros

Entre um canto e outro calo ou choro

Silêncio e morte onde o som infundo

Quer saber então por que é que eu canto

E nas pausas descanso a garganta?

Se existe razão para quem canta

Louvar a alegria e entoar o pranto?

A canção é toda matéria viva,

O calor da pele, a fria deriva.

Ressoam na voz cor e escuridão.

A razão não sabe do sentimento

Que embarga a voz e encarna o tempo

Música ultrapassa qualquer compreensão.

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Até mais!

Entre Jeanne e Brigitte

jeanne e brigitte.jpg
Jeanne Moreau e Brigitte Bardot em “Viva Maria!”

E lá se foi Jeanne Moreau. Com seu rosto doce, grandes e expressivos olhos. “Uma Mulher Para Dois”, “A Noite”, lembranças de filmes dos anos de 1960. Acompanhava minha irmã Waldenia em cineclubes e fiquei impressionado com a moça francesa, a atriz talentosa. Todavia, eu era criança. E havia Brigitte Bardot, com pseudo ingenuidade em corpo deslumbrante. Havia o sorriso de Brigitte, seus olhos brilhantes, os cabelos loiros…

Não havia grandes problemas, mas para os radicalismos da juventude, o incômodo era considerável. Em terras tupiniquins eu também me dividia entre Elis Regina e Wanderléa. Para algumas cabeças isso era quase impossível. Eu resolvera o impasse, temporariamente, via astrologia onde, dizem, os do signo de gêmeos gostam de “todo o mundo”. Não era bem assim; eu tinha meus desafetos e, hábito desde então nem vou citá-los, mantendo-os no devido limbo.

Mais que bonita, Jeanne Moreau foi uma mulher forte. Dessas atrizes marcantes ao darem vida a personagens que retratam uma época, refletem mudanças e transformações consideráveis como, por exemplo, nos filmes “Duas Almas em Suplício” ou então em “Jules e Jim”. Brigitte, por sua vez, foi um grande símbolo sexual, o que por si, para a época, já se constitui em marco considerável. Encantou meio mundo em “E Deus Criou a Mulher” e marcou, ao lado de Marcelo Mastroianni, em “Vidas Privadas”.

Um dia chegou a notícia de um filme com as duas francesas. Já chegou com o rótulo de golpe comercial, visando grandes bilheterias. O roteiro é uma brincadeira onde duas Marias tornam-se grande atração de um circo ao, “acidentalmente”, inventarem o strip-tease e, de sobra, tornando-se líderes revolucionárias… Um grande sucesso onde as moças esbanjam beleza, simpatia e talento, com ambas concorrendo a prêmios de melhor atriz pelo filme.

Nunca soube se foram amigas. Brigitte deixou de ser atriz e tornou-se ativista em prol dos animais. Jeanne, na década seguinte, veio ao Brasil para filmar com Cacá Diegues. Fez Joanna Francesa, cantando no filme a música de Chico Buarque. E pra continuar firme em meu coração compareceu, nos anos de 1980, em disco de Maria Bethânia declamando “Poema dos olhos da amada” (Vinicius de Moraes e Paulo Soledade).

E lá se foi Jeanne Moreau. Morte sentida como a de grandes amigos distanciados no tempo e na geografia, mas nem por isso menos considerados. Jeanne foi uma atriz; uma grande atriz! E gostando de Jeanne e Brigitte aprendi a distinguir atriz de estrela. Brigitte, mais que atriz, foi uma grande estrela. Daquele tipo de estrela que não precisa de filme pra ser lembrada. Jeanne, além da beleza, será lembrada também pelos filmes, pelas canções, pelo trabalho cuidadoso. Que descanse em paz!

Até mais!