A música tem permeado toda a minha vida. Através do canto, desde a infância, das brincadeiras com violão onde surgiram as primeiras composições. Com o tempo meu trabalho ficou restrito à letras e, com orgulho e gratidão, somo parcerias com Wilson de Oliveira, lá de Minas Gerais, Leonardo Venturieri, no Pará e aqui, em São Paulo, com Maurício Werá e Flávio Monteiro. De um velho projeto resgato o soneto abaixo, já musicado por Maurício Werá. Nossa inspiração veio da tragédia Medeia, de Eurípedes, lembrada na ilustração acima.
E lá se foi Jeanne Moreau. Com seu rosto doce, grandes e expressivos olhos. “Uma Mulher Para Dois”, “A Noite”, lembranças de filmes dos anos de 1960. Acompanhava minha irmã Waldenia em cineclubes e fiquei impressionado com a moça francesa, a atriz talentosa. Todavia, eu era criança. E havia Brigitte Bardot, com pseudo ingenuidade em corpo deslumbrante. Havia o sorriso de Brigitte, seus olhos brilhantes, os cabelos loiros…
Não havia grandes problemas, mas para os radicalismos da juventude, o incômodo era considerável. Em terras tupiniquins eu também me dividia entre Elis Regina e Wanderléa. Para algumas cabeças isso era quase impossível. Eu resolvera o impasse, temporariamente, via astrologia onde, dizem, os do signo de gêmeos gostam de “todo o mundo”. Não era bem assim; eu tinha meus desafetos e, hábito desde então nem vou citá-los, mantendo-os no devido limbo.
Mais que bonita, Jeanne Moreau foi uma mulher forte. Dessas atrizes marcantes ao darem vida a personagens que retratam uma época, refletem mudanças e transformações consideráveis como, por exemplo, nos filmes “Duas Almas em Suplício” ou então em “Jules e Jim”. Brigitte, por sua vez, foi um grande símbolo sexual, o que por si, para a época, já se constitui em marco considerável. Encantou meio mundo em “E Deus Criou a Mulher” e marcou, ao lado de Marcelo Mastroianni, em “Vidas Privadas”.
Um dia chegou a notícia de um filme com as duas francesas. Já chegou com o rótulo de golpe comercial, visando grandes bilheterias. O roteiro é uma brincadeira onde duas Marias tornam-se grande atração de um circo ao, “acidentalmente”, inventarem o strip-tease e, de sobra, tornando-se líderes revolucionárias… Um grande sucesso onde as moças esbanjam beleza, simpatia e talento, com ambas concorrendo a prêmios de melhor atriz pelo filme.
Nunca soube se foram amigas. Brigitte deixou de ser atriz e tornou-se ativista em prol dos animais. Jeanne, na década seguinte, veio ao Brasil para filmar com Cacá Diegues. Fez Joanna Francesa, cantando no filme a música de Chico Buarque. E pra continuar firme em meu coração compareceu, nos anos de 1980, em disco de Maria Bethânia declamando “Poema dos olhos da amada” (Vinicius de Moraes e Paulo Soledade).
E lá se foi Jeanne Moreau. Morte sentida como a de grandes amigos distanciados no tempo e na geografia, mas nem por isso menos considerados. Jeanne foi uma atriz; uma grande atriz! E gostando de Jeanne e Brigitte aprendi a distinguir atriz de estrela. Brigitte, mais que atriz, foi uma grande estrela. Daquele tipo de estrela que não precisa de filme pra ser lembrada. Jeanne, além da beleza, será lembrada também pelos filmes, pelas canções, pelo trabalho cuidadoso. Que descanse em paz!
Cleide Queiroz em Palavra de Stela. Foto: João Caldas.
Um bom trabalho, dizem, pode ser resumido em uma frase; lá vai: Cleide Queiroz mostra infinitas faces de uma mulher no monólogo Palavra de Stela. Escrito assim parece pouco, indigno da performance da atriz que comemora nessa montagem 50 anos de carreira . Por isso é fundamental escrever um pouco mais.
Stela do Patrocínio foi internada em uma colônia psiquiátrica aos 21 anos e assim ficou por quase trinta anos. Um jeito diferente de Stela ser e, principalmente, de dizer coisas impressionou outra mulher, a artista plástica Neli Gutmacher, quando esta montou um ateliê na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, em Jacarepaguá. Uma terceira mulher, Viviane Mosé, organizou a fala de Stela gravada por Neli , publicando essas em forma de poesia no livro “Reino dos bichos e dos Animais é o meu nome”. Uma síntese do percurso de mensagens resultantes na montagem Palavra de Stela, escrita e dirigida por Elias Andreato .
Sinto que é necessário ampliar esse preâmbulo. Que tal conhecer algumas palavras, da Stela do Patrocínio, transcritas do programa da peça?
“Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E nem sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir, desaparecer,
Eles me procuram onde eu estiver”
Eita! Dá uma vontade enorme de ter mais versos de Stela.
Uma história densa, um texto forte, poético. O público entra na sala do Top Teatro e a atriz já está em cena. Cleide Queiroz. A mulher tece teias por onde outras mulheres surgirão via mente de Stela, voz e corpo de Cleide. Poucos adereços em um cenário que ressalta possíveis espaços na mente da personagem, tornado físicos pela capacidade cênica da atriz.
A história não é linear. Vamos descobrindo Stela do Patrocínio aos poucos, simultaneamente vamos reconhecendo aqui e ali a trajetória da moça, da atriz, tudo devidamente realçado na direção de Elias Andreato e no inquietante figurino de Mira Haar. Tem mais: Iansã comandando ventos e todos os elementos, tem Medeia tornada Joana, aquela da Gota D´água, que Cleide já interpretou na íntegra. Tem um jeito de ser e cantar que é Maria Bethânia sem deixar de remeter à fonte da própria Bethânia, Dalva de Oliveira e, sobretudo, tem Stela do Patrocínio.
Stela do Patrocínio, com Cleide Queiroz. Foto: João Caldas.
Stela é a doente abandonada, a professora, a dona de casa, a menina, a mulher exuberante. Stela vai se desnudando, se desvelando enquanto fala com o público, com o gravador da psiquiátrica, com as pessoas todas que povoaram sua mente. Cleide Queiroz revela Stela em versos declamados com ritmo preciso, em canções que somam intenções, mas também a atriz nos mostra a personagem via silêncios perturbadores.
A coordenação do projeto é de Carlos Moreno. A direção de produção é de Sonia Kavantan. Palavra de Stela tem música original e arranjos de Jonatan Harold, desenho de movimento e programação visual de Roberto Alencar – cujos registros figuram entre as notáveis ilustrações do programa. Mira Haar, além do figurino, assina a cenografia. As fotos são de João Caldas.
Palavra de Stela está no TOP TEATRO (Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista. Tel: (11) 2309-4102). A temporada vai até o dia 27 de Agosto. Os horários: sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h. Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia). Duração: 70 minutos. Vendas online: http://www.aloingressos.com.br/
Marque na sua agenda, reserve seus ingressos. Palavra de Stela é imperdível.
Das abstrações humanas penso que o tempo está entre o que há de mais incrível, uma criação ímpar, infinitamente superior a qualquer objeto, qualquer bugiganga; superior até mesmo à, por enquanto utópica, máquina do tempo.
Lá vamos nós, para mais um semestre. Derivado do tempo, o calendário nos informa que passamos a primeira metade de 2017 e vamos em frente, rumo ao futuro. Este futuro vai se fazendo a cada novo instante; por conta do tempo, colocamos o que virá lá pra onde não sabemos, onde seremos outros, faremos novas coisas, continuaremos até, lembrando Fernando Sabino, sermos interrompidos antes de terminar.
É difícil seguir sem pensar no que vai ficando, no tudo que já passou. Às vezes seguimos meio que instintivamente, respirando porque assim os pulmões exigem, buscando comida quando o estômago grita. Levamos perdas, e guardamos dia, mês e ano do tempo findado para aqueles muito amados. Respiramos fundo, dolorido, e de pé, seguimos.
Nas beiras vamos deixando o que não acrescenta; o que pouco vale. O tempo, quase sempre, é benção infinita pra quem não carrega o que merece ficar esquecido às margens: mágoas, raivas, desprezos, iras, contratempos menores. Os que são sábios deixam nas beiras ansiedade, o consumo idiota, a vaidade obsoleta, as mesquinharias todas da vida. Por aqui tenho muito que aprender!
O tempo! Difícil pensar a existência sem ele. Creditamos ao mesmo nossas rugas e o corpo deteriorado tanto quanto a experiência adquirida, os bens conquistados. Nele depositamos todas as esperanças de uma vida melhor, de um mundo mais justo. Tanto quanto qualquer filosofia ou religião é o tempo que nos permite pensar presente e passado, prospectar futuro e, se Deus permitir, sonhar melhores dias, outros tempos.
Lá vamos nós. Mais um semestre! Estamos cheios de receios nesses tempos que vivemos, tentando vislumbrar o que nos aguarda e o que nos reserva o futuro. Prosseguimos pensando no que passamos, em tudo o que ficou e que, bem ou mal, bom ou ruim, constituiu-se na experiência que, embora nem sempre de todo aproveitada, nos permite ter esperança de melhores dias.
Das abstrações humanas penso no tempo, tenho fé. Talvez seja a fé o que há de mais incrível, o sentimento mais bonito…
Antonio Fagundes respondeu com tranquilidade quando Pedro Bial perguntou sobre sua formação literária, sobre suas primeiras leituras: – Gibi, respondeu Fagundes; tal expressão diz bem a idade do ator; hoje em dia falam HQ. Como ele, li Gibi. E fotonovelas, e fascículos de radioteatro, e tudo ao que tive acesso, incluindo as famosas revistinhas de Carlos Zéfiro, que meu irmão denominava “catecismo”.
A entrevista fez-me buscar na memória as primeiras leituras… Vamos lá! O que ficou:
Primeiro, os fascículos de O DIREITO DE NASCER. Não ouvi a novela transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, ou pela Rádio Tupi, de São Paulo. E pouco vi da primeira versão da novela para a televisão. Todavia, em um quartinho que havia nos fundos da oficina onde meu pai trabalhava, estavam lá vários fascículos de resumo da novela, com fotos nas capas dos artistas participantes. Eram muitos fascículos e devo ter lido todos, embora guarde apenas os detalhes principais da novela cubana escrita por Félix Caigne.
Também li gibis. Os primeiros foram dos habitantes de Patópolis, a cidade criada por Walt Disney. Donald, Peninha, Tio Patinhas, Margarida… Todos os personagens de Disney me são familiares, mas nenhum deles supera “O Fantasma”, personagem criada por Lee Falk. É muito genial a ideia da personagem existindo eternamente, o filho tomando lugar do pai. E tinha todo o exotismo africano, dos pigmeus…
Foi a foto de um ator, vestido a James Dean, que me chamou a atenção para as fotonovelas. O ator era Raimondo Magni. Segundo um internauta, dono de uma página que sigo, a fotonovela é de 1962. O título é “Quando o amor chegar” e foi publicada pela revista Capricho. Não lembro nada da história… Nem sei se conseguirei ter acesso, mas foi bom saber que existe e que, por estar já no tal quartinho, isso deve ter ocorrido lá pelos idos de 1963 ou 1964…
Ainda criança, a Jovem Guarda imperando, li tudo o que saia nas revistas sobre Wanderléa. E ganhei de um amigo, alguns números da revista Intervalo, que guardo com o maior carinho. Pura paixão!
Para gostar de ler é preciso ter acesso ao que ler. É o que penso. Dos primeiros textos fui para os contos de fadas. As mais belas histórias, em versão escrita por Lúcia Casasanta foram lidas e relidas. E depois vieram os livros; como cheguei aos mesmos está aqui mesmo, em post anterior.
De todos os meus hábitos de infância é a leitura o que mais prezo. O que nunca deixei. Foi o que, sem planejar, preparou-me para o trabalho que mais gosto: Escrever. Funciona como companhia, como terapia… Portanto, reiterando Fagundes, coopere na formação do hábito da leitura em filhos, sobrinhos… Deixe que leiam gibis, ou HQs.
Próximo dia 15, feriado de Corpus Christi, estarei com o romance “dois meninos – limbo”, na Feira Cultural LGBT, no Vale do Anhangabaú. Organizado pelo também escritor Fabrício Viana, o 2º Bate-papo com Autores/Editoras de Literatura LGBT terá início às 10h da manhã e irá até às 22h.
Na Feira Cultural LGBT estarão presentes Alice Reis, Aline Stivaletti, Fábio Carvalho, Fabrício Viana, Karina Dias, Léa Carvalho, Malu Santos, Manuela Neves, Occello Oliver, Paula Curi, Silvano Sulzart e eu, Valdo Resende. Uma oportunidade para conhecer escritores e a produção dos mesmos.
“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre um pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente, escolhe elaborar uma produção popular, visando fundamentalmente sobreviver com seu trabalho. Ao encontrar um crítico de arte dá-se o conflito pessoal e profissional.
O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade, as profundas mudanças e exigências impostas à todos. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.
Contamos com a presença de todos.
Até lá!
Serviço:
Literatura LGBT: 2º Bate-papo com Autores/Editoras
Dia 15/06 – Quinta-feira (feriado)
Das 10h as 22h.
Local: Vale do Anhangabaú em São Paulo
Entrada gratuita
Link do evento: http://paradasp.org.br/literaturalgbt2017