Cecília, como se fosse agora

romanceiro 1

De tudo o que Cecília Meireles escreveu tenho especial apreço pelo “Romanceiro da Inconfidência”.  Tipo livro de cabeceira. Pela beleza dos versos, pela história da nossa terra, pelo que aprendo sempre… A aguda percepção de Cecília foi além do fato, do tempo, para entrar na alma dos homens e, talvez por isso, seja perturbadoramente atual. Exemplo? Os versos abaixo, da “Fala Inicial”:

Ó meio-dia confuso,

ó vinte-e-um de abril sinistro,

 que intrigas de ouro e de sonho

houve em tua formação?

Quem ordena, julga e pune?

Quem é culpado e inocente?

Choramos esse mistério,

esse esquema sobre-humano,

a força, o jogo, o acidente

da indizível conjunção

que ordena vidas e mundos

em polos inexoráveis

de ruína e de exaltação

Ó silenciosas vertentes

por onde se precipitam

inexplicáveis torrentes

por eterna escuridão!

E assim caminhamos para mais um 21 de abril. Nesses tempos sombrios, de podridão exposta, de vergonha no lixo, resta-nos esperar e – mesmo que pareça absurdo – aguardar por dias melhores.

Até mais.

Do meu tempo… É o escambau!

tempo.jpg

Já aconteceu de eu falar em Bethânia e o indivíduo rebater com um “não é do meu tempo”. Outros já lamentaram os dias atuais afirmando que “no tempo deles” era melhor.  Também já tentaram insultar-me gritando que meu tempo passou. Bom, pra todos esses cabe o alerta de Exupéry, via Pequeno Príncipe: a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Eu prefiro esbravejar (É o escambau!) e propor refletir a respeito.

Vivemos momentos preciosos de revisão de comportamentos, posturas, hábitos. Se o mundo evolui que não seja apenas na maquinaria, na cibernética, nas fórmulas para obtenção de lucro. Junto com cada inovação esperam-se também novas atitudes, aprimoramento de modos e maneiras. E penso ser esta ideia o motor para incendiar a população perante o assédio sexual, ou para gritar contra os preconceitos de gênero, lutar por melhores condições de trabalho, continuar batalhando contra o racismo, combatendo pela liberdade religiosa e muito mais.

“O mundo tá ficando chato” é a frase reticente que pondera situações advindas desses novos anseios, assim como também serve para justificar a insistência de outros na manutenção do sistema – hábitos – vigentes. Alguns humoristas nada são sem os chavões preconceituosos; muitos homens nada têm a dizer além de elogios chulos; muitos de nós ficamos embaraçados ante a possível liberdade do outro de ser o que é (A delícia, disse Caetano!); alguns de nossos líderes burilam leis, criam normas, estabelecem regras a serviço da classe dominante e, entre o muito mais do parágrafo acima estão os religiosos combatendo a outra religião por insegurança, ou pior, para manter o obscurantismo e assegurar ganhos monetários.

O mundo está interessante! “- Como sempre”, diria minha querida avó. Entre avanços e retrocessos rolarão muitas pinimbas, perdas e ganhos. Vivo o tempo de todo aquele que ultrapassa a idade adulta a caminho da velhice, e enfrento conflitos internos e externos nessa nova situação. Rejeito, por exemplo, a expressão “Terceira idade” indicando velhice, pois concordo com Ariano Suassuna, para quem terceira idade é para fruta – verde, madura e podre. “Melhor idade” então é o escambau! Nem passado, nem futuro, o melhor é pra ser vivido em toda a vida. E tenho ímpetos assassinos quando o sujeito diz bobagens do tipo “não é do meu tempo”.

É comum encontrar indivíduos que escondem a própria ignorância usando esse “tempo” como desculpa. Também é fato que a maioria de nós já afirmou, entre possíveis variantes, que “na minha época não era assim”. Penso ser saudável que situações pesadas, embaraçosas, mereçam um eufemismo; é mais delicado lamentar não ser tal coisa do nosso tempo que esbravejar diante de ação ou fato estúpido. O que não dá é usar tal expressão para excluir os indivíduos, no caso os mais velhos.

Qual é a idade para usar uma cor, viver um relacionamento, mudar de emprego, empreender uma luta? Qual é o momento para ouvir uma canção, dançar outra, conhecer o novo? Quais são as possibilidades de aceitação mútua, o novo aceitando o estabelecido e o velho abrindo-se para o novo? O que há de real em ser velho, quando há coisas boas e ruins em todas as fases da vida?

O tempo é abstração humana e enquanto o indivíduo for capaz de entender essa abstração ele estará dentro dela, do tempo. Que ninguém use o tempo para excluir ninguém. Entre o que há para brigar, e muito, é pelo respeito ao outro – os mais novos, os jovens, os adultos, os velhos. Todos dentro do tempo em que – você que leu até aqui irá concordar comigo – estamos vivos!

Até mais.

VANDRÉ, PRA NÃO ESQUECER QUE TIVEMOS DITADURA.

geraldo vandré

Vim de longe, vou mais longe
Quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta pra junto a gente cobrar
No dia que já vem vindo que esse mundo vai virar…(1)

Há muita coisa por ser revelada desse triste período da nossa história… 1964! E quem está interessado em dizer que a “ditadura foi boa para o país” só pode querer minimizar culpas, receando cobranças sobre responsabilidades ou… demonstrar imensa ignorância e desconhecimento da história.

Recordo-me vagamente desse distante 1964. Depois soube de conhecidos presos, um tio de outro vizinho desaparecido e a irmã de uma grande amiga, escondida dentro de casa. Mas eu era criança e certamente aproveitei bem aqueles dias.

Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando, e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar… (2)

Seria bom perguntar para milhares de famílias cujos parentes, filhos, foram torturados, mortos, o que eles acham dessa tal “ditabranda”.

Prepare o seu coração
Pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão,
Eu venho lá do sertão,
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…(3)

A vida de Geraldo Vandré, após a ditadura, já virou folclore. É certo que foi exilado e saiu daqui para o Chile, e de lá também teve que sair, indo para a Argélia, a República Federal da Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária, Itália, França… Mas Geraldo Vandré também foi intérprete, grande intérprete.

Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar… (4)

O compositor, enquanto porta-voz de sua gente, cabra-macho da Paraíba, não teve medo de chamar para a briga quando sentiu necessidade.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos, de armas nas mãos
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão… (5)

Deixando-nos um convite irrecusável:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer… (6)

Geraldo Vandré, provocando, fazendo acender a luz da incerteza, da desconfiança, abriu caminho para o conhecimento do que estava realmente ocorrendo.

Vida que não tem valor
Homem que não sabe dar
Deus que se descuide dele
Jeito a gente ajeita
Dele se acabar.
Fica mal com Deus… (7)

História pra ser vivida, pra ser lembrada. Tivemos uma ditadura. Conheçamos as consequências disto para que possamos tomar todas as medidas necessárias para que não se repita.

Até!

Nota – As músicas citadas acima são:
1 – Arueira –Geraldo Vandré
2 – Porta Estandarte – Geraldo Vandré e Fernando Lona
3 – Disparada– Geraldo Vandré e Théo de Barros
4 – Samba em Prelúdio – Baden Powell e Vinícius de Moraes
5 e 6 – Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores – Geraldo Vandré
7 – Fica Mal Com Deus – Geraldo Vandré

Palavras do Juca

juca chaves

A situação do Brasil vai muito mal
Qualquer ladrão é patente nacional…
Porém, ladrão… isso tem pra todo o lado!
Caixinha, obrigado!(1)
.

Política confusa, ninguém chega a conclusão
Um lado diz que sim, e o outro diz que não… (2)
.
…Aqui não há problemas, pra que tanta confusão?
O povo passa fome, mas o Brasil é campeão! (Foi, Juca, foi!) (3)
.
Enquanto a nossa imprensa decadente
Se ocupa com farrinhas de garoto
Deveria zelar por essa gente inocente
Que marcha cada vez mais para o esgoto
Deveria apontar os criminosos
Que arruinando a prole ta maltrapilha
Da massa arranca impostos clamorosos, tão custosos
Pra verba dos cartórios em Brasília, que maravilha! (4)
.
Enquanto os empresários, operários da cobiça
Investem lá no norte, no norte da Suiça
Democracia é isto, é trabalhar contente
Pro caviar do nosso presidente… (5)

.

(e como nem tudo é só tristeza, Juca também fala de amor)
.
Eu quero uma mulher
Que seja diferente
De todas que eu já tive
De todas tão iguais
Que seja minha amiga,
Amante e confidente
A cúmplice de tudo
que eu fizer a mais… (
.
Na alameda da poesia
Chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar? (7)
.
(1) Caixinha, obrigado!; (2) e (3) A Situação; (4) Crítica das Críticas; (5) Honestidade; (6) A Cúmplice; (7) Por Quem Sonha Ana Maria; TODAS DE JUCA CHAVES.

UBERABA, DE CÓRREGOS E RIACHOS INDOMÁVEIS

Minha querida cidade carece de atentar para o próprio nome. “Água brilhante”, “água clara”, “águas cristalinas” Yberaba! Água! Isto é Uberaba. A história da cidade está ligada ao Córrego das Lages e a história registra, por entre suas colinas existiam várias nascentes. Os mais velhos recordam córregos pelas, hoje, principais avenidas da cidade.

Lá pelas tantas – eu era adolescente – resolveram cobrir os córregos da cidade. Tentaram domar os córregos em nome de um duvidoso progresso, garantindo privilégios para carros e outros veículos e…  Ganhamos enchentes de “brinde”. Passaram-se os anos e recordo histórias de minha irmã em cima de balcão de estabelecimento comercial aguardando final de enchente, as águas escorrendo via Leopoldino de Oliveira, retomando o caminho do córrego escondido.

Recentemente uma obra gigantesca tentou solucionar os problemas das obras anteriores e ainda alardeou novidades, aproveitamentos… Muito tempo em que a cidade ficou caótica, o trânsito todo modificado pelos canteiros de obras que, com certeza, custaram milhões, muitos milhões!

Nesse último final de semana, veio a chuva, a chuva de São José! As imagens são terríveis!

enchente em Uberaba

enchente em Uberaba 2

Ao longo de muitos anos vários uberabenses gostaram da ideia de cobrir córregos e cobriram seus quintais. Quantos quintais e jardins impermeabilizados? Sem ter como escoar, sem ter por onde correr receio que as catástrofes continuarão.

E os estragos são imensos. E fico me perguntando: quanto tempo vai levar para que os dirigentes da cidade aprendam que com água não se brinca. Seria bom que eles lembrassem a velha canção de Padre Zezinho, cheia de verdades perenes:

… Água pequena desceu, cantarolou

Rochedo a interrompeu, ela o cavou

Homem tentou impedir, ela cresceu

Homem temeu sucumbir, água venceu

Nuvem choveu lá no céu, água subiu

Desceu fazendo escarcéu, tornou-se um rio

Homem tentou impedir, ele cresceu

Homem deixou água ir, luz acendeu…

O ser humano gaba-se de domar a natureza. E os resultados estão aí. No entanto, uma certeza nós, uberabenses, temos. Nossos córregos são indomáveis. Eles até desaparecem sobre o asfalto e trafegamos feitos donos da geografia. Vez em quando a grande mãe resolve nos lembrar do nosso real tamanho, das nossas reais condições e… Seguem seu curso. Quem sabe, algum dia, aprendamos a lição.

Até mais!

Nota: O nome da canção do Padre Zezinho é “O riacho é como a gente” e pode ser ouvida abaixo:

E a banda passa!

chico e nara e jair
Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque, em 1965

Nunca pensei em ver “A Banda” passar. Aquela mesma, “A Banda”, do Chico Buarque que prefiro na voz de Nara Leão e que, invadindo a infância, permaneceu no cantinho de meus grandes afetos. Há como não gostar de “A Banda”? E se de repente… E não é que a banda passou de novo! A história veio bonita e meio torta, bem torta mesmo; mas, quem tá preocupado com linha reta?

Eu não “estava à toa na vida” e sim, tomando banho. Aos poucos a música, de longe, foi se aproximando, se aproximando. Logo recordei ser o primeiro sábado após o carnaval, quando sai aqui pelas ruas do bairro um simpático bloco conhecido como “Enterro dos Ossos”, fechando as festas de Momo na Bela Vista. Meu amor, não me chamou! Mas me avisou que a banda subia a nossa rua vinda lá dos lados da Rua Martiniano de Carvalho em direção à Brigadeiro Luis Antonio.

“Despedi-me da dor” e ainda molhado, enrolado em toalha de banho, fui pra janela ver a banda passar. Estávamos todos lá: o “homem sério” abandonou o caixa e saiu para a rua e, nesta, “o faroleiro” empunhava copo de cerveja como troféu. Várias namoradas, de todas as formas, de todas as idades estavam acompanhando a banda ou paradas, no passeio, “para ver, ouvir e dar passagem”.

O bloco “Enterro dos Ossos” é cheio das manhas. Tem lá sua porta-estandarte, seu abre-alas – uma charanga toda colorida e enfeitada – e músicos que formam uma suave e deliciosa banda. Esta enche nossas ruas de velhas canções de outros carnavais. Pura nostalgia! Grandes marchinhas, marotas e sempre, sempre “cantando coisas de amor”.

Eu não estava pensando em Chico Buarque! Nem em Nara, nem na música que venceu o Festival de Música Popular Brasileira de 1965, empatando com “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada por Jair Rodrigues. Nem mesmo pensava em fim de carnaval. Era apenas sábado e no domingo, dia 5, Daniela Mercury tomaria a cidade com seu Trio Elétrico e aí sim, eu iria fazer o meu “enterro dos ossos”. Foi então que…

Filmei a passagem do bloco pela minha rua para mostrar via redes sociais aos amigos e familiares. Quis registrar o contraste do “meu” quarteirão vazio e, a partir da esquina, a rua tomada pelo bloco. Lamento não ter o registro ideal, mas, caro leitor, observe no vídeo abaixo que há um pequeno edifício à esquerda em frente do qual o bloco está parado. E parou porque no segundo andar, no terraço, uma simpática velhinha dançava e acenava aos foliões. Como não lembrar que “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou”?

Hoje é domingo; no outro, com Daniela Mercury, dancei pouco e tomei um banho de chuva de mais de duas horas. Esta noite está silenciosa e as ruas do Bexiga estão sossegadas. Essas mesmas ruas cheias de momentos como aquele em que, vendo a senhorinha dançando no terraço, dei-me conta e exclamei: “- Foi isso que o Chico Buarque viu!” e transformou em canção, e povoou o coração de milhares de brasileiros com lembranças de bandas que cantam coisas de amor.

Tempos bicudos. Tais como aqueles que vieram após o golpe militar. Recordo que, na época, havia murmúrios que condenavam a nostalgia de Chico por “fugir” da realidade com uma “velha” marchinha. Cinquenta anos depois, vendo “O Enterro dos Ossos” e a Bela Vista em festa veio-me a certeza de que é este o Brasil que é nosso; alegre, leve, suave, o país que “tomou seu lugar depois que a banda passou”.

A banda ou o bando que tomou o país em 1964 passou; outro bando que está por aí, impedindo o país de cantar, também terá seu fim. Paramos para brincar carnaval, mas já voltamos. Estamos aqui, atentos, prontos para continuar. E lutaremos por um país melhor porque também amamos bandas, blocos, carnaval, e belas senhorinhas cantando nos terraços.

Até mais!

Curso de Produção Cultural e Captação

Sonia Kavantan já realizou dezenas de cursos contribuindo na formação de produtores culturais de todo o Brasil. Nos dias 17,18 e 19 de março – um final de semana – ela ministrará o curso em São Paulo. Neste post uma breve síntese do CURSO DE PRODUÇÃO CULTURAL E CAPTAÇÃO.  Maiores detalhes no site http://www.kavantan.com.br/cursos.

Conheço Sonia e já fizemos muitos trabalhos juntos; para quem ainda não conhece, veja abaixo:

facilitadora

Entre os vários trabalhos que fizemos juntos está o Arte na Comunidade que, em sua primeira versão, visitou os estados do Pará e Maranhão, com a peça O Casamento do Pará com o Maranhão. A imagem da peça sobre abaixo, sobre os aspectos práticos da produção cultural é do cartaz da peça, que fez longa temporada na região amazônica.

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Para concluir esse breve post, a síntese do programa do curso, cujo conteúdo é fundamental para todo profissional que trabalha com teatro, exposições de arte, eventos musicais, cinema e outras atividades correlatas.

programa

Uma indicação para os leitores deste blog. Entrem em contato e saibam todos os detalhes com o pessoal da Kavantan & Associados.

Até mais!