Vila Maria é Emoção no Carnaval

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Ala das Baianas da Vila Maria. União do sagrado e do profano.

A história comprova: O que fica de um bom carnaval é a velha e intensa emoção diante da musa, da alegoria, da fantasia engraçada… Para uma escola de samba vencer o campeonato é exigido muito mais.  Tudo começa com um belo e bom enredo a soma de todas as alas, todos os quesitos, todos os detalhes atingindo o coração do público leva à vitória, independendo de resultados oficiais. Assim, sem receios, sem titubear: vou guardar o carnaval de 2017 como aquele em que, pela primeira vez, fiquei intensamente emocionado por uma escola, a Unidos de Vila Maria.

“Aparecida – A Rainha do Brasil; 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro” foi o enredo que uniu com rara competência o sagrado e o profano. O carnavalesco Sidney França estreou celebrando o jubileu dos 300 anos da aparição da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Os pescadores encontrando a santa foi mote para subir imensa escultura na abertura do desfile que, ainda, teve como destaque a ala das baianas vestidas tal qual a Santa e terminando com chave de ouro ao colocar réplica da basílica transformada em alegoria.

Aos teus pés vou me curvar

Senhora de Aparecida

A prece de amor que nos uniu

Salve a Rainha do Brasil

O samba de Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto contou linearmente o enredo proposto. Saltando da história para os hábitos atuais, a Vila Maria mostrou que é possível tratar de temas aparentemente impensáveis dentro da tradição carnavalesca.

A primeira noite do carnaval de São Paulo teve Elba Ramalho na abertura. A cantora foi  carregada feito santa por um grupo de rapazes da Tom Maior, o que conota lembranças nada agradáveis de senhorias incapazes de andar com as próprias pernas… A Mocidade Alegre veio correta, sem conseguir empolgar a plateia. Depois da Vila Maria, a emoção continuou com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé que, com o enredo “Mãe-África conta a sua história: do berço sagrada da humanidade à terra abençoada do grande Zimbabwe” fez um carnaval para vencer o campeonato no grupo especial.

Que me perdoem as outras, já vou para o segundo dia, direto para a Unidos do Peruche. A segunda escola que passou pelo sambódromo, no sábado, cantou Salvador “Cidade da Bahia, Caldeirão de Raças, Cultura, Fé e Alegria”. A comissão de frente lembrou grandes ícones da cidade: atores representando Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, entre outros, Jorge Amado e Raul Seixas, abriram o desfile da escola, dançando com leveza e graça.

A riqueza de detalhes é o maior trunfo da Império da Casa Verde. A campeã de 2016 veio íntegra, luxuosa, com alas inteiras fantasiadas com o maior capricho e, notável, a maquiagem dos foliões. É comum ver gente desfilando com cara amarelada, piorada pela iluminação exagerada. Ao fazer da maquiagem complemento da fantasia, Jorge Freitas garante bons pontos para a escola.

De repente a lembrança de Gonzagão emociona até corações endurecidos. A emoção volta a imperar com a escola Dragões da Real que homenageou “Asa Branca”, a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Triste por si, Asa Branca conta a história, infelizmente atual, dos problemas decorrentes da seca, mas a história aposta na esperança, em “samba em forma de oração”… “Que eu voltarei, viu, pro meu sertão”.

Fonte inesgotável para bons sambas, o nordeste e, especificamente a Bahia, propicia mais emoção no carnaval. É a Vai-Vai com “No Xirê do Anhembi, A oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”.  Há muito que a Vai-Vai não fazia um desfile tão intenso, com fantasias de rara beleza, da primeira à última ala. Se for a campeã, será título merecido para a escola da Bela Vista.

Outras agremiações passaram pelo Anhembi mostrando sua força. A Rosas de Ouro provou publicamente seu carisma, mantendo a plateia cativa, aguardando essa que foi a última escola a desfilar no grupo especial para um “banquete de alegria”.  O enredo da roseira diz, em determinado momento, “não importa a religião, Salve Cosme e Damião”. Salve! Quem irá negar saudação aos santos, a Nossa Senhora Aparecida, à Mãe Menininha do Gantois? O melhor do carnaval continua sendo a capacidade de fazer sorrir e, tocados profundamente, até mesmo chorar.

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A Basílica na Avenida. O inusitado que emociona.

A Liga das Escolas de Samba de São Paulo buscou neste 2017 uma formação diferenciada para os jurados. Todos os apaixonados por carnaval estão ansiosos, aguardando os resultados para saber o que se passou na cabeça do grupo de juízes formado por gente de fora da cidade, que foi para a cabine via sorteio, após concurso acirrado. Que venha a campeã! A vitória importa para todos os que lutaram para fazer a grande festa. Para quem ama o carnaval, importa que a festa continue grande e bela.

Eu aposto e desejo que a campeã seja a Vila Maria. Ficarei contente se for a Vai-Vai, a Tatuapé, a Peruche… O júri pode decidir por outra, sem problemas. Como todo júri é soberano, fazer o que? Júri nenhum manda no coração da gente. O meu coração, em 2017, é todinho da Vila Maria.

Até mais.

Braguinha, Pra Cantar no Carnaval

braguinha

Em tempos de sambas de enredo longos, complicados, nada melhor do que lembrar as marchas que, entra ano e sai ano, são a alegria dos foliões. Compositores, carnavalescos e dirigentes de escolas de samba deveriam atentar para o carnaval de rua voltando com tudo até em São Paulo. Sempre com alegria e músicas que encantam e alegram a festa.

Um bom carnaval carece de gente bamba e entre os bambas há um compositor dos bons: JOÃO DE BARRO, o BRAGUINHA (CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA – 1907/2006). Quem nunca cantou uma marchinha carnavalesca de Braguinha?

“Yes, nós temos bananas

Bananas pra dar e vender

Bananas, menina, têm vitamina

Banana engorda e faz crescer…”(1)

Descomplicado. Próximo de tudo o que é popular. Este é BRAGUINHA. Nada de grandes malabarismos temáticos; sem pretensões de sociólogo ou antropólogo. É carnaval, é alegria, uma brincadeira para todo cidadão.

“Ô balancê, balancê

Quero dançar com você

Entra na roda, morena, pra ver

O balancê, balancê…” (2)

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Gal Costa e Carmen Miranda, intérpretes de Balancê.

A música de BRAGUINHA é marota, essa palavra meio esquecida em tempos difíceis como o nosso. O compositor encanta pela simplicidade, por uma sensualidade suave, brejeira, que permite o galanteio (atitude também meio perdida nas baladas contemporâneas) com a elegância do indivíduo de bem com a vida.

“Lourinha! Lourinha!

Dos olhos claros de cristal

Desta vez em vez da moreninha

Serás a rainha do meu carnaval…” (3)

Nossos carnavalescos (os “donos” dos temas das escolas, cujas sugestões são transformadas em sambas de enredo) adoram situações exóticas, diferentes, levando as nossas escolas a grandes viagens. BRAGUINHA, sempre descomplicado, mas com uma eficiência invejável, levou-nos para a Martinica, imortalizando uma tal Chiquita (4) e transportou-nos para as Touradas em Madri com aventura e  muito humor. Sem muito lero-lero.

“… Eu conheci uma espanhola

Natural da Catalunha

Queria que eu tocasse castanhola

Que pegasse touro à unha…” (5)

Poucos e eficientes versos, música inspirada e a alegria está garantida. PIRATA DA PERNA DE PAU (6) e PIRULITO (7) estão entre as composições de BRAGUINHA, ainda presentes nos carnavais atuais, onde o povo canta e dança sem a busca desesperada do primeiro lugar dos integrantes de escolas de samba.

É bom frisar que gosto muito de escola de samba. Quando não estou na arquibancada, nem na “passarela”, fico horas frente à TV vendo os desfiles (e me irritando com as transmissões mal feitas!). Sinto falta de bons sambas-enredos. Hoje em dia, via de regra, os sambas de enredo são cantados apenas por integrantes das escolas e raramente vão além do carnaval. Raras exceções, os sambas das grandes escolas são músicas “consumidas” e logo substituídas pelo tema do próximo ano.

Acredito que um caminho para o carnaval é beber nos grandes mestres. Música simples, com letras brejeiras, alegres, como as de BRAGUINHA e seus parceiros, destaque especial para Alberto Ribeiro e Noel Rosa.

O bom de carnaval é a brincadeira, é cantar e dançar ao som de uma boa música. Que tal pesquisar, lembrar e cantar nossos grandes mestres? João de Barro, o Braguinha, é o autor de Carinhoso (com Pixinguinha), fez a versão de Luzes da Ribalta (Charles Chaplin) totalizando cerca de 400 músicas gravadas. Assim, sem mais, vamos concluindo este post com uma das mais belas músicas do carnaval brasileiro:

A estrela Dalva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor… (8)

Até!

Notas :

(1) Yes, nós temos bananas – João de Barro/Alberto Ribeiro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(2 )Balancê – João de Barro/Alberto Ribeiro (1937. Gravação original de CARMEN MIRANDA, sucesso também no carnaval de 1980 na voz de GAL COSTA).

(3)Linda Lourinha – João de Barro.(1934. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

(4) Chiquita Bacana – João de Barro/Alberto Ribeiro (1949. Gravação original de EMILINHA BORBA).

(5) Touradas em Madri – João de Barro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(6) Pirata da Perna de Pau – João de Barro (1947. Gravação original de NUNO ROLAND).

(7) Pirulito – João de Barro/Alberto Ribeiro (1939. Gravação original de NILTON PAZ e EMILINHA BORBA).

(8) Pastorinhas – João de Barro/Noel Rosa (1938. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

Intertexto Paulistano

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Uma banana Basquiat

Para Sonia Kavantan!

Uma banda sinfônica é desmantelada pelo Governo do Estado de São Paulo. Faltam recursos! Parece que há planejamento e aprovação de orçamento de um ano para outro; a tal banda estaria dentro desse orçamento, mas por falta de recursos (E o planejamento?) foram todos demitidos. Li nos jornais que os músicos serão chamados quando houver apresentação com patrocínio. Quem buscará essa grana?

Várias atividades artísticas dependem de patrocínio para que possam sobreviver.  Há um mundo interessado em baixos custos e altos lucros. Bandas sinfônicas, por exemplo, não são exemplos aceitáveis para tal mercado. Esse aspecto – alto custo – na formação de um artista e na manutenção de grupos de música, de dança e similares é tão discutível quanto os lucros advindos de tal atividade. O que é indiscutível e mesmo impensável é o mundo sem música; boa música.

Grosso modo toda forma de arte tem aspectos eruditos e populares; nessas acepções estão formas com maior potencial para comercialização, afluência de público e consequente retorno para quem banca a formação, e o trabalho, de artistas que obtêm respostas rápidas e vantajosas para produtores e patrocinadores. Óbvio, algumas formas artísticas recebem grandes somas de investimentos e outras ficam na dependência de recursos advindos de instituições públicas ou privadas, sendo que nessas últimas, o dinheiro tem vindo atrelado aos possíveis benefícios fiscais oferecidos pelo Estado.

É pela popularidade, e “facilidade” (entre aspas, pois não pretendo diminuir o trabalho de ninguém), que algumas formas recebem grossas somas de dinheiro privado e outras ficam dependendo da verba de orçamentos que são passíveis de “vontade política”, ou seja, o cidadão no poder direciona as verbas conforme os próprios interesses. Um angu de caroço, já que o artista que recebe grana submete-se ao “objetivo de marketing” do patrocinador enquanto o outro, sem grana, mas patrocinado pelo Estado, vive a insegurança das mudanças de poder.

Quem pode negar a necessidade de uma banda sinfônica? Não é porque a ideologia dominante prega rápido retorno financeiro e máquina enxuta que comunidades inteiras deverão desprezar os benefícios de uma ou outra atividade artística; o conflito é praticamente inevitável e as discussões e debates devem ser exercício constante. Algumas questões não devem ser deixadas ao esquecimento: um artista, no exemplo o músico, não se define ao acaso, mas pelo estudo e aquisição de técnica que demanda, além de tempo, grana para a aquisição de instrumentos, pagamento de professores e de todo um conjunto de profissionais que viabilizarão todo o trabalho: da formação do artista aos recitais do mesmo.

Uma imprensa duvidosa empreendeu, em tempos recentes, ataques a artistas que buscaram patrocínio via Leis de Incentivo Fiscal. Entre os vários casos lembro Maria Bethânia e Claudia Leite e, bom notar, independentemente do certo ou errado da tentativa de ação de cada artista, nenhum jornal criticou as empresas que patrocinam, já que são potenciais anunciantes. Usaram sua máquina para denegrir uma ação (site, no caso de Bethânia, show no caso de Claudia Leite) e uma forma de concretizá-la (o patrocínio obtido via Lei). Precisamos estudar as Leis de Incentivo.

A produção cultural, quando pensamos em arte, tem finalidades bem definidas. Há uma função pedagógica e há uma função expressiva. Ao escolher o que produzir – nisto está implícito o como – cooperamos no tipo de sociedade que queremos; nos benefícios que desejamos para todos os envolvidos; e é por questões tais como essas que a ética deve permear a ação de artistas e produtores. É necessário refletir sobre o papel dos produtores culturais, de patrocinadores.

A discussão é ampla e o debate deve ser contínuo. O que é imediato é a necessidade de pensar e refletir sobre as mudanças na educação e os rumos culturais possíveis advindas de atitudes como o desmantelamento de uma banda sinfônica. O que não dá é deixar passar em branco as ações de governos – municipais, estaduais e federais – que colocam em risco o futuro de todos nós. Não se trata de pensar exclusivamente em uma categoria profissional, mas no que cada forma artística representa e em tudo o que pode decorrer da supressão de ambientes em que atuam tais artistas.

Hoje, um amigo lembrou Bertolt Brecht, pois em duas esferas de São Paulo, municipal e estadual, estamos vendo as ações de indivíduos com princípios – ideologia – similares. Um Intertexto (o poema de Brecht). Um Intertexto paulistano. É preciso ficar atento! Sem alimentar neuras, mas ficar atento. Se preciso ir à luta.

“Primeiro, mandaram a Virada Cultural para a periferia,

Mas não me importei com isso

Eu não trabalho nela.

Em seguida proibiram pichações, pintaram grafites…

Mas não importei com isso

Eu também não era grafiteiro

Depois acabaram com a banda… (*)”

.

Até mais.

(*) Conheça o poema de Brecht: 

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

(Bertolt Brecht)

Na caligrafia, um jeito de Ser.

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A inconfundível letra que revela as características do ser amado

E por alguma razão abrimos aquelas caixas antigas que guardam segredos, lembranças e recordações de muito, muito tempo. Papeis amarelecidos e fotos esmaecidas exalam cheiros peculiares de pós muito finos acumulados em gavetas ou armários quase sempre fechados.

Abrir uma caixa, folhear o velho álbum é como retomar contato com o antigo proprietário de tais objetos. Há a certeza, por parte de quem mexe, de estar tocando em algo anteriormente manuseado por outra pessoa. Uma inegável energia decorrente da percepção do outro através do objeto.

Fotos de família, velhos convites de casamento agora tornados lembranças, cartões de páscoa, de natal, ano novo… Pequenos tesouros que reativam a memória e que trazem, mesmo que momentaneamente, os acontecimentos de outrora.

Tais objetos nos levam a atitudes de respeito, reverência, carinho. Um alento para uma saudade e um estar junto no tempo retratado pela imagem, relatado pela carta.

“Caro amigo Vadico” começa o texto. Poderia ser com outra tipologia, em caixa alta ou caixa baixa, para usar expressão de diagramadores. Com todas as possibilidades de composição gráfica, nada é tão forte quanto perceber que esta é a letra de Noel Rosa e que tal bilhete foi escrito por ele.

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O Poeta da Vila em bilhete ao grande amigo.

Guardo objetos que foram de meus falecidos pais, avós, meu irmão. Guardo fotos, cartões, peças de cerâmica e outros “cacarecos”. Nada é tão forte quanto reconhecer a caligrafia de cada um desses seres tão amados. Ali, na caligrafia, um jeito de ser, de estar no mundo, de levar a vida. E o discurso, típico, único, completando informações sobre quem escreve.

Perdem-se, nesses tempos de textos virtuais, algumas fortes possibilidades de reconhecimento do emissor da mensagem. Estamos constantemente cheios de dúvidas se tal texto é real, se foi ou não escrito por quem supostamente assina. E nossas belas maquininhas manuais, cheias de “emotions” padronizados escondem, certamente, peculiaridades da personalidade daquele que escreve.

Afirmo para quem interessar possa que adoro meu teclado e a tela onde elaboro este texto. Todavia, não nego a força do manuscrito, a beleza única da caligrafia do ser amado. Dela sinto nostalgia e perante as saudações cotidianas dos grupos virtuais bate um pouco de indiferença ao pré-fabricado, à cópia da cópia da cópia… Um simples “eu te amo” com a letra de quem amamos, vale mais que todas as luxuosas reproduções gráficas pelo simples e inequívoco fato: inegável autoria.

Até mais!

Grafite e simulacro de faxina

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Há funções e funções para a pichação…

Ando frequentemente pelas ruas de São Paulo. Deixei de dirigir e passei a usar transporte público, além de ser beneficiado pela carona de amigos muito gentis. Ao abandonar o carro redescobri a paisagem paulistana. Percebi a beleza da arquitetura da cidade – evidenciada por lei que limitou a utilização de placas e similares – que nos permite ver a passagem do tempo que vai do Pátio do Colégio, passa pelo Edifício Sampaio Moreira até chegar aos grandes blocos de vidro de construções mais recentes.

Foi caminhando pelas ruas de São Paulo que percebi a grande quantidade de flores que há pelas ruas da capital. Em 2015, durante vários meses publiquei diariamente fotos de flores dos jardins e, principalmente, das ruas da cidade. Constatei na época que “a dura poesia concreta de tuas esquinas” é suavizada criteriosamente pelos responsáveis pelo ajardinamento da cidade, já que – é fato! –nossas ruas estão arborizadas de tal forma que nos permite usufruir da beleza das flores durante todo o ano.

Desde as minhas primeiras viagens nos trens metropolitanos – estou lembrando final dos anos de 1970 e começo da década de 1980 – que descobri os incríveis trabalhos de inúmeros artistas, na época anônimos, quebrando a monotonia de muros descoloridos, prédios abandonados, suavizando a dura viagem de quem leva cinquenta minutos e até mais para chegar ao destino. Depois o mundo descobriu nossos artistas de rua, valorizando devidamente gente como Eduardo Kobra e OSGEMEOS (Gustavo e Otávio Pandolfo). Se fossem apenas esses… Há muitos outros entre nossos artistas e não posso deixar de citar Eduardo Saretta, Carlos Dias, Zéh Palito, Paulo Ito e tantos mais.

Pelas ruas da cidade há manifestações diversas e categorias distintas em duas grandes e notórias vertentes: o grafite e a pichação. Antes de qualquer coisa é bom salientar que o ato de grafar todo e qualquer tipo de superfície remonta à pré-história. O homem pintou cavernas na Europa e paredões no Piauí e não se contentou em criar objetos; desde os primórdios inseriu grafismos diversos nos mesmos registrando manifestações místicas, estéticas ou criando símbolos de poder. Penso que essas manifestações culturais sinalizam estarmos diante de algo que merece estudos e discussões aprofundadas, muito além do mero gosto pessoal.

De repente vem um sujeito enfeitado de faxineiro. Sob o discutível mote “cidade linda” o sujeito esconde moradores atrás de tapumes, alardeia vassouras em espaços já limpos, promete escovas de dente – e não dentistas – para outros e… decide apagar grafites em espaços da cidade. A imprensa enfatizou o “repúdio” do faxineiro aos pichadores enquanto o mesmo apagava desenhos da Avenida 23 de Maio.

Grafites e pichações costumam carregar na expressão, aqui entendida como ênfase nos sentimentos do artista, tal como descrito por Emil Nolde ao criar as obras “Ceia” e “Pentecostes”. Apresentam críticas, denúncias, manifestam descontentamento. Estão longe das pinturas de guardanapos aprendidos em estúdios das ligas das senhoras católicas. Os grafites quebram o discurso comprometido das grandes empresas de comunicação e propiciam reflexão, questionamento, denotando e conotando a realidade em que vivemos.

Há, é certo e sem pedir licença, garotos que picham diferentes superfícies urbanas. Reforço a ideia do quanto é inato ao ser humano o expressar-se e pergunto: quais são as possibilidades de expressão artística dentro de nossas escolas? Quais as possibilidades de manifestação de adolescentes e pré-adolescentes em nossas cidades? Devo pedir ao opressor licença para gritar meu descontentamento?

Por trás das ações do simulacro de faxineiro (longe de mim, ofender profissão tão nobre! O rascunho e a depreciação são tão somente para o sujeito em questão) está uma firme determinação em impedir manifestações contrárias a seus desmandos e às sujeiras de si e de seus correligionários no governo do Estado. Se o sujeito tivesse estudado um pouquinho mais de história saberia da inutilidade de seus atos. Quem pode calar o homem? Quem pode emudecer o poeta? Quem pode impedir o artista de expor suas inquietações ao mundo?

Houve um papa que cobriu as pinturas de Michelangelo. Outrora queimaram livros em praça pública. O Impressionismo ganhou notoriedade no Salão dos Excluídos. Graças aos céus, o que ficou foi Michelangelo, Shakespeare, Monet e milhares de outros artistas, de todas as áreas, sobrevivendo acima e além das mesquinharias dos mandantes de cada tempo. O tempo de faxina vai passar e o rascunho de faxineiro irá para o limbo merecido. Enquanto isso não ocorre haverá resistência. E se o dito cujo resolver apagar posts escreverei cartas ou qualquer outro meio que manifeste meus pensamentos.

Até!

Balanço Particular

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Era pra ter sido um ano Inhotim

Com as graças de Ouro Preto

Abençoando o já distante Janeiro.

E havia a família, os amigos, amores.

.

Império da Casa Verde em São Paulo,

Estação Primeira no Rio

Bethânia carimbando 2016: “Intenso!”

Viva o mês de Fevereiro!

E desvelamos Queluz, Cruzeiro, Lavrinhas.

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Águas coercitivas de Março

Levaram Lula para a ribalta.

Quem foi que ateou fogos,

Naquela manhã da 23 de Maio,

Aplaudindo o ato já cheio de artifícios?

.

Começa no de cá da Mantiqueira

Arte na Comunidade, em Abril.

Como já foi verde o tal vale!

E notícias de crise,

E de altas vendas do Corolla…

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Maio de poucas flores

Mês de muitas panelas

Até ser a eleita afastada.

Não foi por Cauby emudecido

Que emudeceram panelas…

.

Aniversário, faço dia 18.

Comigo Bethânia, Chico Buarque,

Wanderléa, Erasmo, Paul McCartney…

Dane-se o mundo!

Junho é para celebrar!

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Piraquaras flaviajantes

Baronesas já distantes

Salvador entre os ensaios de Julho!

Dia 30 lá em Campos do Jordão

A crise come chocolates caros…

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Último dia de Agosto

Dilma Rousseff perde o posto

Ficando visível o desgosto

Por um país maldisposto

E cheio de ódio exposto.

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Que teria acontecido à Baby Jane?

Eva e Nicette no palco; Sonia Braga em Aquarius

A arte dando rumos, indicando formas;

Setembro, a despeito de tudo,

Recebeu a primavera.

mamae-e-gugu

Outubro eu queria esquecer

Apagar, deletar, destruir.

Apenas isso!

Mas ainda há família,

Há os amigos, grandes amores…

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Muito trabalho em Novembro

Fez da vida o mal amainar.

Provas , novos projetos

Exames, velhos afetos

Viver a vida ou o que fazer…

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Wanderléa no Teatro

Conrado Sardinha na lembrança

Levando-me a escrever este texto!

Sigo assim em Dezembro: teimosamente!

Mesmo que vaga a esperança.

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Valdo Resende/Dezembro 2016

A última loja e um engenheiro

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“Convite Para Ouvir Maysa” Derradeira aquisição.

Os cartazes anunciavam liquidação total; tudo com 50% de desconto! A loja chamando a atenção de poucos consumidores e o fim, melancólico, provocou-me angústia, desalento. Na Avenida Paulista, quase esquina com a Avenida Brigadeiro Luis Antonio, ocorre os momentos finais de uma loja de discos. Não posso precisar a quanto tempo era a única, posto que os tais produtos, além da solitária portinhola, só são encontrados em seções também decadentes de grandes lojas.

Mudanças são inevitáveis. Sem que eu percebesse as máquinas de escrever desapareceram do mercado e, da mesma forma, os discos 78rpm foram embora, assim como os Compactos, os Compactos Duplos, os LPs…  Todavia, a lojinha da Paulista estava ali, guerreira, enfrentando com galhardia as possibilidades do ciberespaço. Eu compro CDs como quem comprava, um dia, os discos de vinil. Tenho quase certeza que após “desaparecerem” das lojas voltarão como objetos Cult, caríssimos, como são agora os velhos conhecidos LPs. A constatação dos últimos dias da loja me deixou triste; mais uma perda entre as tantas deste ano e o medo de vir a me sentir mais deslocado, envelhecido… “- Meu tempo passou?”.

Final da tarde, a lembrança do fim da loja estava presente sobre a mesa, com a caixa de discos de Maysa adquirida no local. Fui em frente (isso significou ir ao “sacolão”, supermercado, açougue…) e eis que reencontro antigo porteiro que trabalhou durante muitos anos no condomínio em que moro. Aquele papo de final de ano, mais a soma de quem não se vê há tempos e constatamos que já se foram mais de dez anos que ele foi trabalhar em outro lugar.

O rapaz (dou-me o direito de preservar a identidade) era curioso e vivia consertando coisas. Orgulhava-se de mexer em rádios, telefones, chuveiros e tudo quanto é coisa, sempre se apresentando como vitorioso ao mostrar o objeto funcionando por suas artimanhas artesanais. Um pai de família, aqui era porteiro no período noturno e, durante o dia, somava outro trabalho para garantir melhor vida para os filhos.

Nosso porteiro tinha umas coisas típicas das pessoas simples. Por exemplo, ele acreditava piamente que a ligação dele excluiria um desafeto BBB. Eu voltava da faculdade e ele, com a expressão mais séria do mundo me dizia: “- Sr. Valdo, hoje tiro o fulano. Ele vai ver se amanhã está ou não no olho da rua. Acabou!” No dia seguinte, antes de abrir a porta me dizia, por entre vidraças: “- Eu não disse! Botei ele pra fora.” Um dia retruquei: “- Não foi só você” E ele, com a alegria daqueles que descobrem pontos comuns em amigos: “- Então o senhor também votou?”.

No açougue ele foi atendido antes, comprando dois tipos de carne, visivelmente feliz. Continuando o papo perguntei das crianças; dez anos passados, seriam dois jovens. “- Pois então, Sr. Valdo, meu menino tá chegando de Campinas. Estuda na Unicamp. Está fazendo engenharia. Uma dessas engenharias em que ele poderá trabalhar em quase tudo!” As carnes eram pra comemorar a chegada do moço, com um jantar mais caprichado. “– Que maravilha, meu amigo, na Unicamp!” E ele, orgulhoso: “-Pois então! Não teve pra playboy. Meu menino foi lá e conseguiu. A gente dá um duro lascado pra manter ele longe, mas vai valer a pena”.

Mudanças no mundo tais como o desaparecimento das lojas de CDs. Mudanças no nosso país onde, por múltiplas razões, o garoto humilde consegue vaga em uma universidade de ponta, entre as melhores do país. Eu poderia continuar o papo e ir além, assinalando mudanças políticas e sociais que permitiram tal fato. Bobagem. Seria invadir a vida de alguém que só estava interessado em comemorar a volta do filho com um jantarzinho caprichado.

Adeus loja de CD da Paulista. Boa sorte, futuro engenheiro, filho do meu amigo! A vida segue. Cacarecos vão e voltam, ou são definitivamente substituídos. O melhor de tudo, em um país tão desigual quanto o nosso, é ver que devagar e sempre haverá alguém subvertendo o destino – ou o sistema – para trilhar oportunidades de melhores chances.

Até mais!