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Já aconteceu de eu falar em Bethânia e o indivíduo rebater com um “não é do meu tempo”. Outros já lamentaram os dias atuais afirmando que “no tempo deles” era melhor.  Também já tentaram insultar-me gritando que meu tempo passou. Bom, pra todos esses cabe o alerta de Exupéry, via Pequeno Príncipe: a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Eu prefiro esbravejar (É o escambau!) e propor refletir a respeito.

Vivemos momentos preciosos de revisão de comportamentos, posturas, hábitos. Se o mundo evolui que não seja apenas na maquinaria, na cibernética, nas fórmulas para obtenção de lucro. Junto com cada inovação esperam-se também novas atitudes, aprimoramento de modos e maneiras. E penso ser esta ideia o motor para incendiar a população perante o assédio sexual, ou para gritar contra os preconceitos de gênero, lutar por melhores condições de trabalho, continuar batalhando contra o racismo, combatendo pela liberdade religiosa e muito mais.

“O mundo tá ficando chato” é a frase reticente que pondera situações advindas desses novos anseios, assim como também serve para justificar a insistência de outros na manutenção do sistema – hábitos – vigentes. Alguns humoristas nada são sem os chavões preconceituosos; muitos homens nada têm a dizer além de elogios chulos; muitos de nós ficamos embaraçados ante a possível liberdade do outro de ser o que é (A delícia, disse Caetano!); alguns de nossos líderes burilam leis, criam normas, estabelecem regras a serviço da classe dominante e, entre o muito mais do parágrafo acima estão os religiosos combatendo a outra religião por insegurança, ou pior, para manter o obscurantismo e assegurar ganhos monetários.

O mundo está interessante! “- Como sempre”, diria minha querida avó. Entre avanços e retrocessos rolarão muitas pinimbas, perdas e ganhos. Vivo o tempo de todo aquele que ultrapassa a idade adulta a caminho da velhice, e enfrento conflitos internos e externos nessa nova situação. Rejeito, por exemplo, a expressão “Terceira idade” indicando velhice, pois concordo com Ariano Suassuna, para quem terceira idade é para fruta – verde, madura e podre. “Melhor idade” então é o escambau! Nem passado, nem futuro, o melhor é pra ser vivido em toda a vida. E tenho ímpetos assassinos quando o sujeito diz bobagens do tipo “não é do meu tempo”.

É comum encontrar indivíduos que escondem a própria ignorância usando esse “tempo” como desculpa. Também é fato que a maioria de nós já afirmou, entre possíveis variantes, que “na minha época não era assim”. Penso ser saudável que situações pesadas, embaraçosas, mereçam um eufemismo; é mais delicado lamentar não ser tal coisa do nosso tempo que esbravejar diante de ação ou fato estúpido. O que não dá é usar tal expressão para excluir os indivíduos, no caso os mais velhos.

Qual é a idade para usar uma cor, viver um relacionamento, mudar de emprego, empreender uma luta? Qual é o momento para ouvir uma canção, dançar outra, conhecer o novo? Quais são as possibilidades de aceitação mútua, o novo aceitando o estabelecido e o velho abrindo-se para o novo? O que há de real em ser velho, quando há coisas boas e ruins em todas as fases da vida?

O tempo é abstração humana e enquanto o indivíduo for capaz de entender essa abstração ele estará dentro dela, do tempo. Que ninguém use o tempo para excluir ninguém. Entre o que há para brigar, e muito, é pelo respeito ao outro – os mais novos, os jovens, os adultos, os velhos. Todos dentro do tempo em que – você que leu até aqui irá concordar comigo – estamos vivos!

Até mais.