Meu cotidiano de Pedro

A janela escancara um dia ensolarado e, preso, observo a rua tímida, como diria Chico Buarque. Sem Construção, o que emerge do escaninho de canções é Pedro Pedreiro, aquele penseiro esperando o trem.

Vejo uma moça andando lentamente, meio a esmo, segurando um cigarro e, na mão esquerda, uma máscara carregada pela alça. Dois mascarados, homens, não procuram namorados como diz outra antiga canção, esperam passageiros. Talvez esperem o Pedro que, cansado de esperar, resolva tomar um táxi.

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa

Um tempo de espera esse 2020. Ingênuo, cheguei a pensar que seriam 15, 30 dias. E os dias, semanas, meses… Tento entender as pessoas que entregam a vida à própria sorte e saem, procuram trabalho, amigos, vão a festas, reuniões. Isto porque, na real, vem aquela coisa do Pedro, de esperar a morte, ou esperar o dia de voltar pro Norte. Mas, que Norte é esse?

Norte real, geográfico, não tenho. Quero ficar por aqui mesmo. Voltaria pra terra que chamei de minha, mas meus pais já não estão lá. Trago-os nas lembranças, no coração, em orações cotidianas. Norte profissional tá lento, feito Maria Fumaça tentando sobreviver em tempo de trem bala. É a pandemia, me consolo. De Norte afetivo vou bem, obrigado, e nesse “quesito” me distancio desse Pedro Buarque de Holanda. Só nesse!

Esqueço momentaneamente as mazelas desse nosso mundo pra divagar na durabilidade e atualidade de Chico Buarque de Holanda. Penso sair da janela e pegar um monte de CDs. Uma overdose do compositor pode acalentar o coração. Acalentar me lembra Acalanto, um acalanto nada bom:

Dorm’inha pequena

Não vale a pena despertar

Eu vou sair por aí afora

Atrás da aurora

Mais serena…

Ah, está tudo muito difícil, mas a gente tem o Chico Buarque. E Elis, Bethânia, Nara, todas pra cantar as músicas do cara. Esse Cara que não é dele, é do Caetano. Ambos nos consomem com seus olhinhos infantis, como olhos de um bandido. Só que, tchau, Caetano, não estou para o que der e vier. Estou esperando! Como o Pedro:

Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
… o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando a festa
Esperando a sorte…

Talvez minha única diferença desse Pedro Pedreiro é ter ouvido Chico desde a infância e, portanto, sei disso:

Pedro não sabe, mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar

E assim sigo, teimoso, atrás de um sonho, mesmo que impossível. Segurando o desespero da falta de vacina, do excesso de ignorância, do desconforto da máscara que me faz encarar, por qualquer lugar que vá, a morte, a doença, o fim. Reluto, insisto e sonho. Quero voltar atrás.

Ser Pedro Pedreiro, pobre e nada mais

Paro de escrever e vou ali, feito Januária ou Carolina, olhando o mundo pela janela. Esperando o trem, um trem de mineiro

Que já vem, que já vem, que já vem ….

Do meu tempo… É o escambau!

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Já aconteceu de eu falar em Bethânia e o indivíduo rebater com um “não é do meu tempo”. Outros já lamentaram os dias atuais afirmando que “no tempo deles” era melhor.  Também já tentaram insultar-me gritando que meu tempo passou. Bom, pra todos esses cabe o alerta de Exupéry, via Pequeno Príncipe: a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Eu prefiro esbravejar (É o escambau!) e propor refletir a respeito.

Vivemos momentos preciosos de revisão de comportamentos, posturas, hábitos. Se o mundo evolui que não seja apenas na maquinaria, na cibernética, nas fórmulas para obtenção de lucro. Junto com cada inovação esperam-se também novas atitudes, aprimoramento de modos e maneiras. E penso ser esta ideia o motor para incendiar a população perante o assédio sexual, ou para gritar contra os preconceitos de gênero, lutar por melhores condições de trabalho, continuar batalhando contra o racismo, combatendo pela liberdade religiosa e muito mais.

“O mundo tá ficando chato” é a frase reticente que pondera situações advindas desses novos anseios, assim como também serve para justificar a insistência de outros na manutenção do sistema – hábitos – vigentes. Alguns humoristas nada são sem os chavões preconceituosos; muitos homens nada têm a dizer além de elogios chulos; muitos de nós ficamos embaraçados ante a possível liberdade do outro de ser o que é (A delícia, disse Caetano!); alguns de nossos líderes burilam leis, criam normas, estabelecem regras a serviço da classe dominante e, entre o muito mais do parágrafo acima estão os religiosos combatendo a outra religião por insegurança, ou pior, para manter o obscurantismo e assegurar ganhos monetários.

O mundo está interessante! “- Como sempre”, diria minha querida avó. Entre avanços e retrocessos rolarão muitas pinimbas, perdas e ganhos. Vivo o tempo de todo aquele que ultrapassa a idade adulta a caminho da velhice, e enfrento conflitos internos e externos nessa nova situação. Rejeito, por exemplo, a expressão “Terceira idade” indicando velhice, pois concordo com Ariano Suassuna, para quem terceira idade é para fruta – verde, madura e podre. “Melhor idade” então é o escambau! Nem passado, nem futuro, o melhor é pra ser vivido em toda a vida. E tenho ímpetos assassinos quando o sujeito diz bobagens do tipo “não é do meu tempo”.

É comum encontrar indivíduos que escondem a própria ignorância usando esse “tempo” como desculpa. Também é fato que a maioria de nós já afirmou, entre possíveis variantes, que “na minha época não era assim”. Penso ser saudável que situações pesadas, embaraçosas, mereçam um eufemismo; é mais delicado lamentar não ser tal coisa do nosso tempo que esbravejar diante de ação ou fato estúpido. O que não dá é usar tal expressão para excluir os indivíduos, no caso os mais velhos.

Qual é a idade para usar uma cor, viver um relacionamento, mudar de emprego, empreender uma luta? Qual é o momento para ouvir uma canção, dançar outra, conhecer o novo? Quais são as possibilidades de aceitação mútua, o novo aceitando o estabelecido e o velho abrindo-se para o novo? O que há de real em ser velho, quando há coisas boas e ruins em todas as fases da vida?

O tempo é abstração humana e enquanto o indivíduo for capaz de entender essa abstração ele estará dentro dela, do tempo. Que ninguém use o tempo para excluir ninguém. Entre o que há para brigar, e muito, é pelo respeito ao outro – os mais novos, os jovens, os adultos, os velhos. Todos dentro do tempo em que – você que leu até aqui irá concordar comigo – estamos vivos!

Até mais.

Balanço Particular

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Era pra ter sido um ano Inhotim

Com as graças de Ouro Preto

Abençoando o já distante Janeiro.

E havia a família, os amigos, amores.

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Império da Casa Verde em São Paulo,

Estação Primeira no Rio

Bethânia carimbando 2016: “Intenso!”

Viva o mês de Fevereiro!

E desvelamos Queluz, Cruzeiro, Lavrinhas.

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Águas coercitivas de Março

Levaram Lula para a ribalta.

Quem foi que ateou fogos,

Naquela manhã da 23 de Maio,

Aplaudindo o ato já cheio de artifícios?

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Começa no de cá da Mantiqueira

Arte na Comunidade, em Abril.

Como já foi verde o tal vale!

E notícias de crise,

E de altas vendas do Corolla…

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Maio de poucas flores

Mês de muitas panelas

Até ser a eleita afastada.

Não foi por Cauby emudecido

Que emudeceram panelas…

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Aniversário, faço dia 18.

Comigo Bethânia, Chico Buarque,

Wanderléa, Erasmo, Paul McCartney…

Dane-se o mundo!

Junho é para celebrar!

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Piraquaras flaviajantes

Baronesas já distantes

Salvador entre os ensaios de Julho!

Dia 30 lá em Campos do Jordão

A crise come chocolates caros…

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Último dia de Agosto

Dilma Rousseff perde o posto

Ficando visível o desgosto

Por um país maldisposto

E cheio de ódio exposto.

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Que teria acontecido à Baby Jane?

Eva e Nicette no palco; Sonia Braga em Aquarius

A arte dando rumos, indicando formas;

Setembro, a despeito de tudo,

Recebeu a primavera.

mamae-e-gugu

Outubro eu queria esquecer

Apagar, deletar, destruir.

Apenas isso!

Mas ainda há família,

Há os amigos, grandes amores…

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Muito trabalho em Novembro

Fez da vida o mal amainar.

Provas , novos projetos

Exames, velhos afetos

Viver a vida ou o que fazer…

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Wanderléa no Teatro

Conrado Sardinha na lembrança

Levando-me a escrever este texto!

Sigo assim em Dezembro: teimosamente!

Mesmo que vaga a esperança.

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Valdo Resende/Dezembro 2016

13 milhões de Marias… Uma é “A” Bethânia

Tai uma pesquisa interessante: os nomes mais utilizados no país. A empresa ProScore utilizou 165 milhões de CPF’s de todo o Brasil. Infelizmente foram divulgados apenas os 50 primeiros nomes da lista. E penso que deve custar uma grana saber quantos “Valdos” tem por ai. Continuarei com a ilusão de que sou quase único; conheci outros dois ao longo da vida. O avesso desse sentimento é uma estranha sensação de solidão.

Se eu me chamasse Francisco, teria mais de dois milhões de xarás. Entre eles o Buarque de Holanda. E se eu fosse Raimundo, do vasto mundo que é rima, mas não é solução, teria a companhia de oitocentos mil outros Raimundos. E pensar que o Carlos que eu mais admiro, o Drummond de Andrade do “Raimundo vasto mundo”, tem mais de um milhão e trezentos mil outros “Carlos”…

Como não tenho os dados completos da pesquisa não sei se consideraram, por exemplo, os nomes duplos. Exemplo: o mais de um milhão de “Carlos” é nome simples, ou vem depois do Roberto, o rei Carlos. Pois se Carlos tem tudo isso e Roberto tem 480 mil, foi considerado o nome isolado ou há algum levantamento específico para nomes duplos?

Normalmente anunciamos nosso nome com orgulho, satisfação. Pessoas que não gostam do próprio nome, socialmente, já saem perdendo. Ficam inibidas nas apresentações: “- Prazer, meu nome é Tegucigalpa, mas prefiro que me chamem Teguinha.” A gente contém a sensação de estranhamento. Antes de continuar esclareço que curto muito o nome Tegucigalpa, a capital de Honduras. Não querendo aumentar a insatisfação de quem tem nome estranho, optei por Tegucigalpa: é diferente e, simultaneamente indica alguns absurdos que certos pais cometem ao batizar os filhos.

A vida me ensinou que a busca de nomes diferentes decorre, entre outras coisas, por preconceito. Por exemplo, o de que Benedita é nome de empregada, Jarbas é motorista e por ai vai. Os pais, buscando fugir do comum, acabam “cometendo” algumas “Tegucigalpas” no batismo dos filhos. Bobagem. Quem faz o nome é a pessoa. Ele, no máximo, indica gênero e a gente sabe a diferença primordial entre Antonia e Antonio.

Nomes também indicam a origem; posso estar enganado, mas a maioria dos Raimundos levantados na pesquisa são do Norte, Nordeste do país. Por conta principalmente de São Raimundo Nonato, o santo que também é nome da querida cidade em que estive, por várias vezes, no Piauí. Santos cristãos predominam no ranking, indicando a força que esses ainda têm entre nós. E se o Cristo se fez carne e habitou entre nós através de uma mulher, não é de se estranhar que em um país cristão tenhamos treze milhões de Marias.

Imagine treze milhões de Marias falando ao mesmo tempo! (rsrsr) Tudo bem… Trabalhando, cuidando dos filhos, lecionando, costurando, dirigindo empresas… Muitas Marias. E com tantas, fica difícil para qualquer brasileiro não ter uma Maria na própria vida. Minha primeira Maria, a querida avó. Depois as primas, uma namorada, duas grandes amigas, as colegas de trabalho…

Tantas Marias e ao mesmo tempo, tão especiais e únicas. Recordo entrevistas em que Chico Buarque diz “a Maria isso” ou a “Maria faz aquilo”. Todos nós sabemos que é a Bethânia. E ele, que é íntimo tem o direito de nominá-la assim, simplesmente Maria. Para o mundo é Maria Bethânia. E não dá pra falar dessa Maria Bethânia sem lembrar outra, Maria da Graça, que chamamos Gal. Já li que ela é chamada “Gracinha”,  mas desconheço quem a chame Maria.

Essas duas Marias, a Bethânia e a Gal, vieram depois da Abelim (esse nome deve ser raro!). Abelim Maria da Cunha, que o Brasil conhece como Ângela Maria. Junto com as baianas, veio a mineira Alcina, Maria também. E, mais recente, a Maria Gadú e a Maria Rita. Essas “Marias” dão bem a dimensão da certeza do quanto a pessoa faz o nome. E torna-o distinto, único. “Ângela Maria Alcina Bethânia Gadú Graça Rita”. Mesmo nome para mulheres tão singulares, tornadas únicas por aquilo que são: grandes cantoras!

“Rodando a minha saia

Eu comando os ventos

Quem vem a minha praia quer ver

A força que se espalha

De alguns movimentos

Que sei desfazer e refazer…”

Os fãs de Maria, a Bethânia, sabem que é ela quem canta “Nossos Momentos”, dos versos acima da canção de Caetano Veloso. Mas bem que são versos que remetem a todas as nossas Marias, famosas ou não, cantoras, atrizes, bailarinas, donas de casa, as Marias do Brasil.

Gostei muito de saber dessa pesquisa. Principalmente por saber que o Brasil é fruto de Maria(s), José(s), Antônio(s), João(s), Francisco(s)… Gente que carrega nome de santo e que um dia, com a ajuda de Deus, fará deste um país melhor.

(Clique aqui para ver matéria com a relação dos cinqüenta nomes mais utilizados)

Até sexta!

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