Aniversário

(Os versos abaixo são do poema “Aniversário” – Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma…

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…

Atrás: (esquerda para direita) Hugo, Albino, José (filho), Felisbino, Laura, Ulisses, Isaura.  Meio: (Esquerda para direita, de pé) Valdonei, Waldênia, Walcenis, Dilma. Sentados: Olinda, Maria, José, Manoel. Os menores: Luiz Roberto (no colo), Walderez, Valdo, José Luiz
Atrás: (esquerda para direita) Hugo, Albino, José (filho), Felisbino, Laura, Ulisses, Isaura.
Meio: (Esquerda para direita, de pé) Valdonei, Waldênia, Walcenis, Dilma.
Sentados: Olinda, Maria, José, Manoel.
Os menores: Luiz Roberto (no colo), Walderez, Valdo, José Luiz

Que me perdoem os outros, pois há outros, mas quando entendi o conceito de “família” eu vivia com todos esses ai dessa preciosa foto. Haviam os parentes mais próximos, outros mais distantes. Ainda outros nasceram depois, ampliando o grupo. Mas foi por aí, nesse TEMPO, que entendi esses conceitos fundamentais da vida: pai, mãe, irmãos, avô, avó, tio, tia, primos. Só mesmo Fernando Pessoa para sintetizar o que sentimos em frase curta e extremamente verdadeira: “Eu era feliz e ninguém estava morto.” Agora sou feliz e reverencio todos os meus familiares.

Até mais!

Viagem ao Brasil

HANS 1
Ao centro, Staden com as pernas amarradas.

Pura magia literária! Estamos no século XVI. O extenso litoral brasileiro é totalmente dominado pela mata atlântica e nele habitam diferentes grupos indígenas; aos milhares. São guerreiros e lutam bravamente contra os invasores europeus. Um branco consegue escapar vivo, sem ser devorado por antropófagos selvagens; é Hans Staden, o autor da narrativa das duas viagens que fez ao Brasil.

Ao longo de muito tempo li resenhas, resumos,  vi o filme ( produção de 1999) de Luiz Alberto Pereira e li pequenos trechos de “Duas Viagens ao Brasil” cujo título original, de 1557, é imenso:  “Descrição verdadeira de um país de selvagens nus, ferozes e canibais, situado no Novo Mundo América, desconhecido na terra de Hessen antes e depois do nascimento de Cristo, até que, há dois anos, Hans Staden, de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, o conheceu e agora a dá a luz pela segunda vez, diligentemente aumentada e melhorada”.

O livro é um dos primeiros sucessos de venda que se tem notícia, tendo sido publicado em diversos países e em diversos idiomas. A imensidão americana era novidade misteriosa e descrições farsescas e fantasiosas de viagens eram comuns. A viagem de Hans Staden foi real e o autor preocupa-se em dar veracidade ao relato. A grande atração do livro é ter sido o autor preso pelos índios Tupinambás que tinham por hábito, literalmente, assar os inimigos e devorá-los em cerimônias singulares. O grande valor literário está em que este é um dos primeiros relatos consideráveis de como era o Brasil em 1500.

O Guarujá era apenas a ilha de Santo Amaro e nela foi construído um forte. Deste Hans Staden foi artilheiro e saindo do mesmo em expedição de caça foi aprisionado pelos Tupinambás, inimigos dos portugueses, mas amigos dos franceses. Essa amizade com franceses denota o quanto a costa brasileira era frequentada por navios de diferentes procedências, principalmente das potências marítimas do período. Foi só pela ameaça de outros navegadores que Portugueses resolveram tomar posse definitiva das novas terras, criando a primeira vila, São Vicente, vizinha à ilha de Santo Amaro no hoje litoral paulista.

As descrições de Staden tornam a viagem emocionante; sabemos como eram as casas dos Tupinambás, temos noções precisas de como caçavam, como adoravam seus deuses… Situações que pareceriam absurdas ao observador comum ganham outro sentido na narrativa do autor alemão: as mulheres “ao catarem os piolhos uma de outra, vão os comendo. Perguntei-lhes muitas vezes porque assim faziam, e me responderam: – São nossos inimigos que nos comem a cabeça, e por isso nos vingamos deles”.

hans 3
Abaixo, detalhes do esquartejamento de um Carijó, executado pelos Tupinambás.

Nos pequenos detalhes há descobertas intrigantes. Os Tupinambás comem apenas inimigos. O autor nada diz sobre matar e comer mulheres ou crianças. Os índios vingavam-se do inimigo devorando o corpo do mesmo. Resta saber por que não fizeram o mesmo com o alemão. Há discussões intensas por aí.  No livro o autor quer fazer crer o leitor em sucessivas interferências divinas livrando-o da morte. Alguns críticos afirmam que nossos índios não se alimentavam de covardes e que as intensas orações de Staden, pedindo auxilio aos céus, podem ter sido interpretadas como fraqueza.

Gostei e recomendo a viagem (Obrigado, Waldenia, pelo presente!). A edição que ganhei é da editora Martin Claret e, além do texto integral, conta com reproduções das ilustrações originais que, por si, constituem-se em outro imenso atrativo.

Sorte nossa que Hans Staden não tenha se tornado refeição para os Tupinambás. Ganhamos não o herói, nem o abençoado por Deus que o texto quer induzir, mas sim, um retrato precioso de nosso país. O Brasil que temos não começou na atual gestão, nem na gestão da oposição. Fomos uma grande terra, povoada por vários grupos humanos. De repente, vieram invasores europeus e tudo mudou; chegamos aos dias atuais. No entanto, quanto mais desvendarmos o passado maiores possibilidades teremos de entender o presente e, quem sabe, possamos até pensar em um futuro melhor.

Até mais!

Parabéns, Bibi Ferreira!

Sinto-me privilegiado em ter visto Bibi Ferreira no palco fazendo Joana, Piaf, Amália… Joana é a Medeia, de Eurípedes. Adaptação de Chico Buarque e Ruy Guerra da tragédia grega para o morro carioca. As outras duas mulheres interpretadas por Bibi são reais. Edith Piaf, a maior cantora francesa, também compositora, foi primorosamente revivida por Bibi. Depois foi a vez da fadista portuguesa Amália Rodrigues. Além da interpretação é notável a semelhança física das duas grandes artistas.

Hoje é aniversário de Bibi. 93 anos de puro talento e grande energia. Penso que o melhor presente para essa grande artista é lembrar suas obras. Por isso, deixe três vídeos e meu abraço e o meu carinho para a atriz, diretora e cantora Bibi Ferreira. Que Deus a proteja sempre!

1, 2 ou 10 de junho, não importa. Importa reverenciar Bibi Ferreira.

até mais!

Denise Fraga emociona com Galileu Galilei

Denise Fraga é Galileu (foto/Divulgação)
Denise Fraga é Galileu (foto/Divulgação)

Galileu Galilei, de Bertolt Brecht é um ótimo motivo para ir ao teatro.  “A peça narra parte da biografia do cientista italiano que conseguiu provar que a Terra girava em torno do Sol, mas foi obrigado a negar publicamente a sua descoberta para não ser queimado na fogueira da Santa Inquisição.”

Entre as qualidades do teatro de Brecht está o “distanciamento”, recurso utilizado pelo dramaturgo para enfatizar o fazer teatral. Este aspecto cai como luva na montagem dirigida por Cibele Forjaz, tendo Denise Fraga como Galileu. “– Ela faz um homem?”, perguntou-me o aluno. Faz e faz bem! É teatro! Encanta o entrar e sair do personagem com recursos materiais simples que reforçam o talento de Denise Fraga e de seus colegas de cena; entre esses, impossível não citar Ary França.

Tornar-se publicamente covarde é doloroso e é o que ocorre com Galileu. A atriz revela motivos de escolher a peça e, no programa de apresentação do espetáculo, propõe indagações que permeiam nosso cotidiano “Quem de nós não teve que negar o óbvio para seguir adiante? A quantos absurdos costumamos nos submeter com cara de paisagem? E o que fazer para, nesta areia movediça, achar brechas para pequenas revoluções que nos mantenham minimamente em dia com os nossos ideias?”.

O Galileu de Brecht é um homem comum. Tão comum quanto Denise Fraga aparenta ser. Notável como este trabalho permite ao espectador ir além da imagem da menina simples, simpática, a comediante leve para encontrar uma atriz inspirada, mulher forte, consciente do ofício e da função social deste. Galileu Galilei, a montagem, é peça atual, inserida no cotidiano de tantos brasileiros comuns que engolem sapos e, contra a maré, buscam transformar esse mesmo cotidiano.

Denise Fraga emociona. A montagem de Cibele Forjaz cria um momento raro de tensão silenciosa; um tempo mínimo, mas suficiente para permitir ao público o identificar-se com o personagem. Galileu não é herói e nós, como ele, enfrentamos “inquisições” contemporâneas. No exílio o personagem real escreveu um livro que é seu grande legado. Resta saber o que faremos de nossas vidas.

Programem-se! Galileu Galilei está no TUCA. Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes, São Paulo – SP, 05014-001 (11) 3670-8455.

Até mais!

Quintana pra seguir em frente

Fazer o que, se a vida me ensinou a gostar de poesia? Ave, Mario Quintana! Obrigado pelo socorro na hora certa:

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Até mais!

Meu Sonoro Passarinho

dirceu e marilia nelson cruz

Estive relendo momentos da vida do poeta Tomás Antonio Gonzaga e de sua Marília através da obra de Nelson Cruz (Dirceu e Marília) e recordei a Lira XXXVII de “Marília de Dirceu”. “Meu sonoro passarinho” é o primeiro verso, que guardei como título entre os poemas que prefiro.

Uma antiga novela de Ivani Ribeiro, Dez Vidas, tinha Gianfrancesco Guarnieri e Maria Isabel de Lizandra interpretando o casal romântico da Inconfidência Mineira. Guarnieri cantava e provavelmente era dele a melodia colocada sobre os versos do poeta. Talvez, algum dia, ache a canção por ai, registrada por algum bom cantor. Sem a melodia, fica o poema, belo por si.

ouro preto nelson cruz

Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento, 

Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício. 

Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,

Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica. 

Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte. 

Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela. 

Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos. 

O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa. 

Chega então ao seu ouvido,
Dize que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando.

A vida, geralmente pior que a poesia, separou o casal. Após o processo movido contra os Inconfidentes, a pena de Gonzaga foi o degredo, em Moçambique onde se casou com Juliana de Souza Mascarenhas. Já de Marília ficou o vazio de uma história perdida no tempo. Há até a dúvida se a musa foi a então jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas ou uma viúva, Maria Joaquina Anselma de Figueiredo. Acima da história, os poemas; belos e imortais.

Até mais!

Obs. As imagens acima são do livro de Nelson Cruz, editado pela Cosac Naify.