Sabiá, um Sonho Impossível

sabia sonho impossível

Duas canções, um nome: Chico Buarque. Desde quando conheci “A Banda” que Chico passou a ser minha referência de letrista na música brasileira. Essas duas canções, Sabiá e Sonho Impossível, estão comigo dualisticamente. Tentarei voltar… nunca deixarei de sonhar.  Talvez eu volte, pode não ser um sonho impossível. Melhor que falar, ouvir.

Sabiá, na voz inesquecível de Clara Nunes!

Sonho Impossível, na primeira gravação de Maria Bethânia.

 

Até mais!

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Nota:

Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores, compositores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar. As duas canções acima são: Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim) e Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972)

 

Claudio Barros expõe em Campinas

claudio barros convite

Feliz e orgulhoso em poder divulgar o trabalho de Claudio Barros, artista cuja trajetória acompanho desde quando ele chegou de Ouro Preto, onde havia iniciado carreira profissional. Artista plástico carioca radicado em São Paulo, Claudio trabalha com xilogravuras, têmpera acrílica e desenhos à óleo sobre papel.

Começa hoje, 19 de março, a exposição CLAUDIO BARROS, PINTURAS, DESENHOS E GRAVURAS no Espaço Cultural do TRT, localizado na Rua Barão de Jaguara, 901, 1º andar, Campinas – SP.

O texto abaixo, sobre o artista e a exposição, foi escrito especialmente para a apresentação/divulgação do evento. Vale a pena conhecer.

A AMBIGUIDADE ENTRE O ESPAÇO E A MATÉRIA NA PINTURA DE CLÁUDIO BARROS

claudio barros pintura 1

Olhando lá para trás na carreira longa do pintor Claudio Barros, entrevemos um namoro inicial com Matisse, com o cubismo – na sua veia mais colorida – e com o Robert Delaunay pré-abstrato. A explosão de cores, a estrutura compositiva que desafia as leis da perspectiva em obras como “O sonho” e “Viaduto ”, ambas de 1989, são provas desse interesse inicial do artista. 

Se, ao contrário, observamos os seus ciclos de pinturas mais recentes, como as séries “Jardim e portão” (2006-2008) e “Plantas (coloquei esse nome, pois falta um título para a ‘série’)” (2010), vemos que as primeiras “paixões” foram aparentemente abandonadas, mas sem deixar de fornecer as sementes que brotariam numa obra original e autônoma. Vemos que as cores intensas – herança do fauvismo através dos mestres citados – deram lugar a cores tênues e em harmonia entre elas, ao invés dos fortes contrastes iniciais; e, ainda, que a fragmentação espacial foi substituída por planos mais amplos. Permanece, porém, do antigo “namoro”, a interpenetração dos vários planos espaciais – realizada, entre outros recursos, através da densidade da matéria pictórica. Por exemplo: as linhas, nas telas de “Jardim e portão”, sugerem a profundidade espacial, que, entretanto, é desmentida pela própria, densa matéria das tintas na superfície do quadro; e, em “Plantas”, ramos, folhas e flores parecem incrustados no muro que lhes serve de fundo, num inesperado efeito “marchetaria”. 

As obras de Claudio Barros são construídas a partir dessa ambiguidade; e, dessa forma, os mais simples e humildes temas figurativos – um canto de quintal, um portão de ferro, uma planta ao longo de um muro – transcendem o seu caráter casual para abraçar uma reflexão sobre a natureza da própria linguagem visual. São elevados de simples descrição a afirmação do artista às voltas com a sua linguagem, com uma expressão independente de qualquer referência temática externa.

Entre os diálogos iniciais com os mestres da arte moderna e esses ciclos mais recentes, flertando ocasionalmente com a pintura abstrata e matérica e sempre tendo como fio condutor a ambiguidade entre espaço e matéria, Claudio Barros dá provas de uma criatividade e de uma curiosidade inesgotáveis.

Roberto Carvalho de Magalhães
Prof. de História da Arte e Ciência dos Museus
Università Internazionale dell’Arte (Florença, Itália)

 

Ouvir Elis Regina

Elis Regina. 70 anos hoje. Sem lero-lero, é preciso ouvir sempre.  Do repertório impecável escolhi uma que é o meu mais profundo desejo. Um lugar para encontrar amigos, ouvir meus discos, ler livros e… nada mais. Ave, Elis!

 

Até mais!

Romeu e Julieta

Conheci Shakespeare via Romeu e Julieta. A tragédia foi filmada por Franco Zeffirelli em 1968 teve um brutal sucesso. Meu tio Ulysses levou toda a sobrinhada ao cinema, mês de dezembro, para ver o filme que fazia sucesso. Criança, não sabia de tragédia, de Verona, de Shakespeare. O filme é digno da peça e é de uma beleza arrebatadora. Pouco tempo depois tinha, na cabeceira da minha cama, um imenso pôster de Olivia Hussey.

Minha geração foi privilegiada por muitas coisas. Entre elas por conhecer o teatro de Shakespeare via Zeffirelli. Segue um pequeno trecho da cena V, com fotos do filme em questão, quando Romeu encontra Julieta e tem ali o início do grande amor e da tragédia que encanta multidões.

Romeu e Julieta, Cena V

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Romeu e Julieta, Encontro dos dois amantes

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Romeu e Julieta, diálogo das mãos

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Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli

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Romeu e Julieta, de Shakespeare

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Romeu e Julieta, 1968

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Leonard Whiting e Olivia Hussey

Boa semana!

Nota:

Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

Testemunha falsa

Penso sobre a expressão “delação premiada”, recordo Cecília Meireles e tenho receios. Um bandido, tornado delator é melhor que o outro, o delatado? Nesses tempos difíceis, cheios de acusações, interrogatórios… O que pode dizer alguém para livrar a própria sorte do fim tenebroso? Do que alguém é capaz, já descoberto em seus crimes, na tentativa de ganhar menor tempo na prisão?

O Romanceiro da Inconfidência é uma das obras geniais da literatura brasileira. Todos os fatos ganham conotações riquíssimas na profunda poesia de Cecília Meireles. Gosto de todo o livro. Admiro cada poema, cada romance.

Vivemos tempos difíceis e temo, sobretudo, pela saúde do meu país, pela paz, pela garantia dos direitos constitucionais. Quero lembrar, neste momento, o “Romance XLIV ou da testemunha falsa”. Vale a pena ler e, sobretudo, refletir dentro da atual perspectiva.

Cecilia Meir

Romance XLIV ou da testemunha falsa

Cecília Meireles

Que importa quanto se diga?

Para livrar-me de algemas,

da sombra do calabouço,

dos escrivães e das penas,

do baraço e do pregão,

a meu pai acusaria.

Como vou pensar nos outros?

Não me aflijo por ninguém.

Que o remorso me persiga!

Suas tenazes secretas

não se comparam à roda,

 à brasa, às cordas, aos ferros,

aos repuxões dos cavalos

que, mais do que as Majestades,

ordenarão seus Ministros,

com tanto poder que têm.

Não creio que a alma padeça

tanto quanto o corpo aberto,

com chumbo e enxofre a correrem

pelas chagas, nem consiga

o inferno inventar mais dores

do que os terrenos decretos

que o trono augusto sustêm.

Não sei bem de que se trata:

mas sei como se castiga.

 Se querem que fale, falo;

e, mesmo sem ser preciso,

minto, suponho, asseguro…

É só saber que palavras

desejam de mim. – Se alguém

padecer, com tanta intriga,

que Deus desmanche os enredos

e o salve das consequências,

 se for possível: mas, antes,

 salvando-me a mim, também.

Talvez um dia se saibam

as verdades todas, puras.

Mas já serão coisas velhas,

muito do tempo passado…

Que me importa o que se diga

o que se diga, e de quem?

Por escrúpulos futuros,

não vou sofrer desde agora:

Quais são torpes? Quais, honrados?

As mentiras viram lenda.

E não é sempre a pureza

que se faz celebridade…

Há mais prêmios neste mundo

para o Mal que para o Bem.

Direi quanto me ordenarem:

o que soube e o que não soube…

Depois, de joelhos suplico

perdão para os meus pecados,

fecho meus olhos, esqueço..

– cai tudo em sombras, além…

Talvez Deus não me conforme.

Mas o Inferno ainda está longe,

 – e a Morte já chega à praça,

já range, na Ouvidoria,

nas letras dos depoimentos,

e em cartas do Reino vem…

 Vede como corre a tinta!

Assim correrá meu sangue…

Que os heróis chegam à glória

só depois de degolados.

Antes, recebem apenas

ou compaixão ou desdém.

Direi quanto for preciso,

 tudo quanto me inocente…

Que alma tenho? Tenho corpo!

E o medo agarrou-me o peito…

E o medo me envolve e obriga…

– Todo coberto de medo,

 juro, minto, afirmo, assino.

Condeno. (Mas estou salvo!)

Para mim, só é verdade

 aquilo que me convém.

Nota:

O Romanceiro da Inconfidência foi lançado em 1953. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

O encontro marcado

Fernando Sabino
Fernando Sabino

Principal romance de Fernando Sabino (1923-2004), “O Encontro Marcado” foi, durante muito tempo um dos meus livros de cabeceira. Tomei como determinação de vida uma frase contida no texto que encerra a primeira parte do livro:

“Não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei”

Perguntas do tipo “o que é que os outros vão pensar?” sempre me deixaram irritado e pautar minha vida pela vontade alheia nunca foi o ideal. Revoltado com os desatinos capitalistas tomava como norte as palavras de Eduardo Marciano, a personagem de Sabino:

Também tenho o meu preço, mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos — hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus.

… meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve…

Eu era jovem demais para recear partir e quando saí de casa tinha prazer e alegria em vir embora, achando que tudo podia ser suave e sem cobranças.

…ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas…

Descobri, ao longo da vida e de muitas perdas, o real peso da frase que encerra a primeira parte do romance. Agora, que o tempo cobra cada segundo, penso em Fernando Sabino, n’O Encontro Marcado, e no que ainda pode ocorrer, mesmo sabendo que:

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

Até mais!

Nota:

O Encontro Marcado foi lançado em 1956. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

“Cântico Negro”

José Régio (1901-1969) é um dos grandes poetas portugueses. Admiro os versos profundos, provocadores, teatrais, escritos com liberdade. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que admiro e que norteiam minha vida, o modo como encaro o mundo. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

Nota:

“Cântico Negro” está no livro “Poemas de Deus e do Diabo”, publicado originalmente em 1925.