A peleja entre a inocência e a culpa

No dia em que o mundo reflete sobre a AIDS,  buscando alertar para os perigos da doença, publico o texto escrito por Vania Maria Lourenço Sanches; são reflexões feitas após leitura dos originais de “dois meninos – limbo”, meu primeiro romance.

A PELEJA ENTRE A INOCÊNCIA E A CULPA

 dois meninos vania

João tinha acabado de nascer. Dependia de todos para sua sobrevivência, porque não podia andar, nem comer sozinho, não falava – nada. João era um pedacinho de gente, bochechas rosadas, olhar cativante era, enfim, um bebe feliz. Ainda não precisava fazer escolhas, ainda não precisava fazer nada. Não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a vida. Essa vinha com uma certeza contagiante em cada sorriso, em cada som balbuciado, em cada carinha que derretia a todos que o via com o mais profundo amor. João tinha a vida pela frente, sonhos, projetos, esperança, um mundo para conhecer, uma vida para viver. João era só sorrisos e alegria. João simbolizava o que a vida tem de melhor – o novo, a oportunidade,
todas as possibilidades por vir.

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João, outro João, tinha acabado de receber a notícia, ia depender de todos para sua sobrevivência, porque não poderia lidar com aquela nova realidade sozinho, talvez não pudesse andar, talvez não pudesse comer, talvez sua comunicação com o mundo ficasse comprometida. Mas, o que mais afetava João era a dor da culpa por suas escolhas, agora não podia fazer mais nada – era fato consumado – o exame positivo, o fantasma tinha virado algoz e dali para adiante ele não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a morte. Essa vinha com uma certeza contundente em cada olhar vazio, em cada palavra não dita, em cada expressão de desespero que apunhalava a todos que o via. João tinha a morte pela frente, encarando, acuando, tirando-lhe a esperança, apagando seus sonhos, interrompendo seus projetos. João era só dor e desespero. João simbolizava o que o ser humano tem de pior – o preconceito, a incompreensão, o fim de todas as possibilidades.

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Um dia, por um desses momentos breves da vida, João encontrou João. João, o outro João, estava tão fragilizado que pensou não poder segurar João, que havia acabado de nascer, em seus braços; afinal ele era soro positivo e isso poderia macular aquela “alma pura”, ele se culpava tão ou mais que os outros, ele se punia tão ou mais que os outros que não admitia a possibilidade de qualquer contato com aquele pequeno ser tão limpo das maldades do mundo. Mas João na sua inocência apenas olhava para João e fazia carinhas, fazia barulhinhos, fazia gracinhas e não se importava de ficar no colo de João, porque, para João, eram apenas braços que ainda passavam amor, calor, ele não via a dor, ele não via a culpa, ele não via.

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João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro. Por um daqueles momentos breves da vida, esse João teve paz, sentiu que ainda havia esperança, esqueceu-se da culpa e acalentou o João que, em seus braços, adormeceu feliz. Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”. Fiquei pensando em tantos meninos por aí, pelejando entre a inocência e a culpa.

Vania Maria Lourenço Sanches

DOIS MENINOS – LIMBO

Este é o release oficial do lançamento do meu livro:

Dia 13 de dezembro, na Livraria Martins Fontes- Paulista, Sábado das 15h30min às 18h30min, no Espaço de Humanas, será o lançamento do livro “Dois Meninos – Limbo”, da Elipse, Arte e Afins, o romance de estreia de Valdo Resende. A partir das 15h30min ocorrerá uma sessão de autógrafos. O endereço é Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509.

CAPA OFICIAL baixa

O Romance

No mercado da arte, no Brasil, há duas vertentes distintas, presentes no romance “Dois Meninos – Limbo”; uma é a arte que frequenta críticas, resenhas de jornais e revistas especializadas, sendo mostrada nos museus e centros culturais. E há uma arte popular, comercializada em feiras públicas, ao ar livre e em galerias particulares onde há o escoamento desses trabalhos.

“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre um pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente escolhe elaborar uma produção popular, dentro das tradições acadêmicas que elegeram gêneros como a paisagem, o retrato e a natureza-morta como fontes para um trabalho pretensamente artístico, mas que visa fundamentalmente a sobrevivência através da comercialização dos resultados.

O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade,  as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

Com prefácio de Octavio Cariello, “Dois Meninos-Limbo” também é a primeira publicação da Elipse, Arte e Afins, com projeto gráfico do Estação Design. A concepção da capa é de Marise de Chirico.

SERVIÇO

Lançamento romance: Dois Meninos – Limbo

Data: 13 de dezembro de 2014

Horário: 15h30min às 18h30min

Preço: R$34:90

Local: Livraria Martins Fontes. Av. Paulista, 509 – São Paulo, SP telefone: 11 2167-9900 (próximo à Estação Brigadeiro do Metrô). Convênio com estacionamento: Rua Manoel da Nóbrega, 88 ou 95. Primeira hora R$7,00 nas compras acima de R$ 10,00.

SOBRE O AUTOR:

Valdo Resende

Mestre em Artes Visuais é mineiro de Uberaba. Lá começou a escrever para teatro e, radicado em São Paulo, continua com atividades teatrais e é professor universitário.

No blog https://valdoresende.com/ publica regularmente crônicas, contos, divulga eventos artísticos e, entre outros gêneros, a poesia.

Estreou na coletânea de contos Alterego, organizada por Octavio Cariello para a Terracota e, na área de marketing idealizou o livro “Um Profissional para 2020”, publicado pela B4Editores.

Palpite

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Esta data, 13 de dezembro, que anda rondando o blog, e minha página no Facebook, está relacionada com outras datas, de anos bem distantes… 1997 está entre eles. 2002, 1998, 1963… De repente, pensando em 1997, veio “Palpite”, uma boa lembrança. Não se trata de palpite de jogo do bicho e, sim, de uma música suave, bonita, grande sucesso na voz de Vanessa Rangel.

Tô com saudade de você
Debaixo do meu cobertor
E te arrancar suspiros
Fazer amor…

O sucesso é estranho; volta e meia percorre caminhos não convencionais, desmentindo alguns marqueteiros e publicitários que pensam que são deuses. Palpite, a música, teve uma divulgação extra através de novela da Rede Globo tornando-se uma das músicas mais populares de 1997, entrando com a novela também pelo ano de 1998.

Vanessa Rangel tornou-se, desde então, artista marcada por um único grande êxito: de vendas, de execução nos meios. Certo tipo de imprensa, cúmplice da fome capitalista, cobra sucessos, discos na parada, grandes vendagens, como se artista fosse telefone celular: com um novo adereço, um novo modelo por semana. A moça não repetiu o mesmo sucesso do primeiro disco e hoje atua em outra área.

A indústria precisa vender. O artista precisa produzir. Grande cilada contemporânea! Em outra área de criação, por exemplo, na pintura, não seria estúpido cobrar de Pablo Picasso um Guérnica por ano? Um Les Demoiselles d’Avignon por temporada? Nem por isso ele deixa de ser cultuado como um dos maiores artistas do século XX.

Eu sinto a falta de você
Me sinto só
E aí!
Será que você volta?

Penso que um PIXINGUINHA mais um CARINHOSO tá de bom tamanho. Para o ROBERTO CARLOS, junto com ERASMO, a posteridade já foi garantida com DETALHES e para quem tem bons ouvidos basta um COMO NOSSOS PAIS para perceber a grandiosidade da intérprete ELIS REGINA.

E aí! Será que você volta?
Tudo à minha volta
É triste
E aí!

Que artistas tenham outros sucessos, outros êxitos, uma grande carreira, tudo bem; agora, cobrar uma nova A BANDA, uma outra CONSTRUÇÃO ou outra grande criação de CHICO BUARQUE, é estupidez! Ele poderia ter parado lá em RODA VIVA ejá seria um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.

A pressão sobre um artista é grande, constante. Quando o cara deixa de vender conforme as metas estabelecidas pela indústria é bastante comum ouvir que tal artista está “acabado”.

Tô com saudade de você
Do nosso banho de chuva
Do calor na minha pele
Da língua tua…

A grande produção artística humana passa pela pré-história, Grécia, Egito, Roma, até nossos dias, com nomes e obras que aí estão e permanecerão para a posteridade. É raro, na história humana, um SHAKESPEARE ou um MICHELANGELO. É dessa tal grande arte humana que veio o conceito de “obra prima”; essa sintetiza o que o artista foi, sua estética, seu processo criativo.

Tô com saudade de você
Debaixo do meu cobertor
E te arrancar suspiros
Fazer amor

“Palpite” é uma música popular e como tal está circunscrita no tempo, no espaço. Passa longe de Beethoven, mas permanece na lembrança de muita gente. No meu caso, de vez em quando, voltará por mero acaso ou pelos tais “detalhes” citados na canção de Roberto e Erasmo Carlos. Então continuarei cantarolando VANESSA RANGEL.

Não importa se foi apenas um grande sucesso. Vou respeitar a compositora, a cantora agradável, pelos momentos de prazer que me propiciou e continuará me propiciando com esse eterno e delicioso PALPITE. Quanto ao dia 13, sobre o que vai rolar nesse 13 de dezembro, vou segurar um pouquinho; todavia, que tal um palpite?

Até!

A falta que faz um não

calvin-haroldo

Lecionando há mais de 20 anos tenho notado com preocupante frequência o transtorno que é, para determinados alunos, ouvir um não. Não é percepção isolada; a coordenadora do curso em que atuo também é diretora de uma unidade com mais de doze mil estudantes; ela reitera esse fato e narra, constantemente, os transtornos enfrentados por alguns jovens diante de um não.

Ter todo e qualquer desejo satisfeito é, certamente, cultura doméstica; reflexo de uma sociedade permissiva. Satisfazer os desejos da criança é consenso propagado por psicologia de almanaque ordinário, amplamente divulgado via superficiais programas de televisão. Nesses, temos overdose de direitos divulgados e quando um simples dever é mencionado, como por exemplo, estudar,  vem a imposição da necessidade de “intensa motivação”. Não é raro ver reportagens sobre a necessidade de “motivação” para que as pessoas cumpram seus deveres na escola ou na vida profissional. Estudar é prioridade para conseguir um bom trabalho e este é fundamental para que o indivíduo viva bem.

O ato de comer, que é necessidade vital, também é decidido pelo pimpolho que escolhe entre frutas e hambúrgueres gordurosos, legumes e batatas fritas industrializadas. Parece que a obesidade infantil é um problema, mas os pais “não podem impor” bons hábitos à criança perante o risco de traumas e problemas similares.

Esse texto é simples; não se pretende tese de doutorado, mas exposição e discussão de ideias. O viver à vontade conduziu uma parcela considerável da moçada para um brutal hedonismo – o prazer como bem supremo – e, assim, convivemos com uma geração que tudo faz pela cotidiana diversão, pelo constante gozo; a aparência é valor supremo e o consumo é a grande meta; mesmo quando o “objeto” a ser consumido é outro ser humano.

Uma simples regra de educação básica – não use o telefone dentro da igreja – torna-se grande cavalo de batalha: afinal, o que é mais importante que a banalidade de um telefonema cujo conteúdo frequente é “já saí” ou “estou chegando”? Por conta de situações desse tipo há grandes atritos em sala de aula, em teatros, cinemas, hospitais… Não se pode dizer não aos aparelhinhos “da hora”.

O mínimo que ocorre quando se impõe um não é presenciar uma torrente de lágrimas. Minha cara diretora que o diga. É dizer não e o mundo acaba. E se há um lado que garante a ordem e as regras de uma instituição, resta chamar ajuda de quem sempre disse sim: e temos, na universidade, pais agindo como se as crianças – jovens maiores de idade – precisassem do socorro para defendê-las perante os terríveis monstros que dizem não. Não é exagero, nem eufemismo. É situação cotidiana presenciar, em plena universidade, pais e mães querendo burlar o sistema em função das vontades e dos prazeres dos pimpolhos.

A questão, às vezes, é maior. Caso da situação vivida pelo país onde uma senhora foi eleita pela maioria para governar todos nós. Como é que alguns entre os que perderam, e que nunca ouviram um não, vão conviver com essa realidade? Esperneiam, colocam defeitos absurdos nos adversários e na impossibilidade de chamar a mãe, estão chamando a polícia, os militares.

Qualquer menção a fatos históricos e muitos indivíduos usam um idiota “não é do meu tempo” para esconder o tamanho da ignorância. É bem provável que esses seres não tenham lá grandes informações sobre o que foi o regime militar. Talvez pensem que os homens armados chegarão tipo papai e mamãe, e “passarão a mão na cabeça”, atendendo às solicitações das crianças para pôr fim à democracia no país.

Chamar militar para derrubar presidente, e caso isso se concretize, será ATO DE FORÇA.  Como nem todos aceitarão tal situação voltarão sessões de torturas, teremos covas lotadas de “desaparecidos”, as celas cheias de presos políticos e a mordaça, via censura, para todo aquele que tiver algo contrário a dizer. Militares sabem, como ninguém, dizer não. Para eles, a resposta ideal é o “- sim, senhor”.

não mafalda

Militares devem garantir segurança e ordem quando chamados. Jovens não devem ser usados como massa de manobra por aqueles que almejam unicamente o poder, não medindo meios para isso. Este é um bom momento para dizer não. NÃO! Não teremos militares derrubando um governante eleito democraticamente. Não teremos a força para atender às veleidades de gente que desconhece o que é respeitar a vontade do outro. Não separaremos o país via preconceitos imbecis e sim, SIM, aguardaremos as próximas eleições e, se queremos reverter a situação, está na hora de começar a trabalhar para isso.

Até mais!

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Quase dezembro e as calçolas da rainha

Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors
Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors

Hoje volto ao trabalho após vencer uma pneumonia. Tento esquecer a doença; o dia amanheceu ensolarado e o vento, bastante suave, invadiu meu apartamento. Após a rotina matinal ganhei a rua, com saudade do meu Bexiga. Não fui “caminhando contra o vento”, pois com pneumonia não se brinca, nem caminhei “sem lenço, sem documento” já que, desde os tempos da Ditadura descobri que sem lenço, tudo bem, mas caminhar sem documento é temeroso.

A música de Caetano Veloso, “Alegria, alegria”, veio com o vento, com “o sol de quase dezembro”. Nas bancas, dois mineiros, movimentando o país. A senhora mineira venceu o senhor mineiro. A imprensa diz que a senhora venceu por pouco… Foram 3.459.963 pessoas que fizeram a diferença. Eu que não vou chamar 3 milhões de pessoas de pouco. Pela lei, bastava uma para a chamada maioria simples. Logo, 3 milhões é gente demais da conta, sô!

Como tomei para este dia uma frase atribuída ao Dalai Lama – NÃO PERMITA QUE O COMPORTAMENTO DOS OUTROS TIRE A SUA PAZ – deixei as pinimbas políticas para escanteio. O que me ajudou nessa postura, pasmem, foi saber das calçolas da Rainha Vitória via site Glamurama, comandado por Joyce Pascowitch. Alguém pagou R$ 24 mil, em um leilão, pelas peças íntimas da rainha.

O que será que o indivíduo fará com as calçolas da Rainha Vitória? Estarão limpas; foram usadas? Uma vez, em Buenos Aires, me deparei com uma camisa do Pelé, usada em embate contra o Boca Juniors em 11 de setembro de 1963; o jogo foi pela Copa dos Libertadores. O fato mudou tanto a minha vida quanto a possibilidade de encontrar, em outro museu, as calçolas da rainha inglesa…

O sol continua brilhante, o dia está lindo. Preparando minha volta às aulas percebo nitidamente o final do ano e fico mais certo do “quase dezembro”. Sinto “os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos…”

Mês melhor que dezembro é difícil. As pessoas ficam mais doces, delicadas, desejando coisas boas mutuamente; muitas outras sonham com Papai Noel e possíveis mimos natalinos. Sendo férias é mês de reencontro, reconciliações, celebrações de amor, amizade e fraternidade. Enquanto dezembro não vem, “eu vou”: com vontade de terminar bem o que comecei em janeiro; com o desejo de continuar, atravessar mais um ano e, seguir em frente que é o melhor destino pra todos nós. “Eu vou. Por que não? Por que não?”

Até mais!

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