Lecionando há mais de 20 anos tenho notado com preocupante frequência o transtorno que é, para determinados alunos, ouvir um não. Não é percepção isolada; a coordenadora do curso em que atuo também é diretora de uma unidade com mais de doze mil estudantes; ela reitera esse fato e narra, constantemente, os transtornos enfrentados por alguns jovens diante de um não.
Ter todo e qualquer desejo satisfeito é, certamente, cultura doméstica; reflexo de uma sociedade permissiva. Satisfazer os desejos da criança é consenso propagado por psicologia de almanaque ordinário, amplamente divulgado via superficiais programas de televisão. Nesses, temos overdose de direitos divulgados e quando um simples dever é mencionado, como por exemplo, estudar, vem a imposição da necessidade de “intensa motivação”. Não é raro ver reportagens sobre a necessidade de “motivação” para que as pessoas cumpram seus deveres na escola ou na vida profissional. Estudar é prioridade para conseguir um bom trabalho e este é fundamental para que o indivíduo viva bem.
O ato de comer, que é necessidade vital, também é decidido pelo pimpolho que escolhe entre frutas e hambúrgueres gordurosos, legumes e batatas fritas industrializadas. Parece que a obesidade infantil é um problema, mas os pais “não podem impor” bons hábitos à criança perante o risco de traumas e problemas similares.
Esse texto é simples; não se pretende tese de doutorado, mas exposição e discussão de ideias. O viver à vontade conduziu uma parcela considerável da moçada para um brutal hedonismo – o prazer como bem supremo – e, assim, convivemos com uma geração que tudo faz pela cotidiana diversão, pelo constante gozo; a aparência é valor supremo e o consumo é a grande meta; mesmo quando o “objeto” a ser consumido é outro ser humano.
Uma simples regra de educação básica – não use o telefone dentro da igreja – torna-se grande cavalo de batalha: afinal, o que é mais importante que a banalidade de um telefonema cujo conteúdo frequente é “já saí” ou “estou chegando”? Por conta de situações desse tipo há grandes atritos em sala de aula, em teatros, cinemas, hospitais… Não se pode dizer não aos aparelhinhos “da hora”.
O mínimo que ocorre quando se impõe um não é presenciar uma torrente de lágrimas. Minha cara diretora que o diga. É dizer não e o mundo acaba. E se há um lado que garante a ordem e as regras de uma instituição, resta chamar ajuda de quem sempre disse sim: e temos, na universidade, pais agindo como se as crianças – jovens maiores de idade – precisassem do socorro para defendê-las perante os terríveis monstros que dizem não. Não é exagero, nem eufemismo. É situação cotidiana presenciar, em plena universidade, pais e mães querendo burlar o sistema em função das vontades e dos prazeres dos pimpolhos.
A questão, às vezes, é maior. Caso da situação vivida pelo país onde uma senhora foi eleita pela maioria para governar todos nós. Como é que alguns entre os que perderam, e que nunca ouviram um não, vão conviver com essa realidade? Esperneiam, colocam defeitos absurdos nos adversários e na impossibilidade de chamar a mãe, estão chamando a polícia, os militares.
Qualquer menção a fatos históricos e muitos indivíduos usam um idiota “não é do meu tempo” para esconder o tamanho da ignorância. É bem provável que esses seres não tenham lá grandes informações sobre o que foi o regime militar. Talvez pensem que os homens armados chegarão tipo papai e mamãe, e “passarão a mão na cabeça”, atendendo às solicitações das crianças para pôr fim à democracia no país.
Chamar militar para derrubar presidente, e caso isso se concretize, será ATO DE FORÇA. Como nem todos aceitarão tal situação voltarão sessões de torturas, teremos covas lotadas de “desaparecidos”, as celas cheias de presos políticos e a mordaça, via censura, para todo aquele que tiver algo contrário a dizer. Militares sabem, como ninguém, dizer não. Para eles, a resposta ideal é o “- sim, senhor”.
Militares devem garantir segurança e ordem quando chamados. Jovens não devem ser usados como massa de manobra por aqueles que almejam unicamente o poder, não medindo meios para isso. Este é um bom momento para dizer não. NÃO! Não teremos militares derrubando um governante eleito democraticamente. Não teremos a força para atender às veleidades de gente que desconhece o que é respeitar a vontade do outro. Não separaremos o país via preconceitos imbecis e sim, SIM, aguardaremos as próximas eleições e, se queremos reverter a situação, está na hora de começar a trabalhar para isso.
Hoje volto ao trabalho após vencer uma pneumonia. Tento esquecer a doença; o dia amanheceu ensolarado e o vento, bastante suave, invadiu meu apartamento. Após a rotina matinal ganhei a rua, com saudade do meu Bexiga. Não fui “caminhando contra o vento”, pois com pneumonia não se brinca, nem caminhei “sem lenço, sem documento” já que, desde os tempos da Ditadura descobri que sem lenço, tudo bem, mas caminhar sem documento é temeroso.
A música de Caetano Veloso, “Alegria, alegria”, veio com o vento, com “o sol de quase dezembro”. Nas bancas, dois mineiros, movimentando o país. A senhora mineira venceu o senhor mineiro. A imprensa diz que a senhora venceu por pouco… Foram 3.459.963 pessoas que fizeram a diferença. Eu que não vou chamar 3 milhões de pessoas de pouco. Pela lei, bastava uma para a chamada maioria simples. Logo, 3 milhões é gente demais da conta, sô!
Como tomei para este dia uma frase atribuída ao Dalai Lama – NÃO PERMITA QUE O COMPORTAMENTO DOS OUTROS TIRE A SUA PAZ – deixei as pinimbas políticas para escanteio. O que me ajudou nessa postura, pasmem, foi saber das calçolas da Rainha Vitória via site Glamurama, comandado por Joyce Pascowitch. Alguém pagou R$ 24 mil, em um leilão, pelas peças íntimas da rainha.
O que será que o indivíduo fará com as calçolas da Rainha Vitória? Estarão limpas; foram usadas? Uma vez, em Buenos Aires, me deparei com uma camisa do Pelé, usada em embate contra o Boca Juniors em 11 de setembro de 1963; o jogo foi pela Copa dos Libertadores. O fato mudou tanto a minha vida quanto a possibilidade de encontrar, em outro museu, as calçolas da rainha inglesa…
O sol continua brilhante, o dia está lindo. Preparando minha volta às aulas percebo nitidamente o final do ano e fico mais certo do “quase dezembro”. Sinto “os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos…”
Mês melhor que dezembro é difícil. As pessoas ficam mais doces, delicadas, desejando coisas boas mutuamente; muitas outras sonham com Papai Noel e possíveis mimos natalinos. Sendo férias é mês de reencontro, reconciliações, celebrações de amor, amizade e fraternidade. Enquanto dezembro não vem, “eu vou”: com vontade de terminar bem o que comecei em janeiro; com o desejo de continuar, atravessar mais um ano e, seguir em frente que é o melhor destino pra todos nós. “Eu vou. Por que não? Por que não?”
Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
“A Menina Que Queria Ser Bandeirante” é a quinta história do projeto “Arte na Comunidade 2” e foi apresentada nas escolas, individualmente, por cada um dos atores do projeto. Para encerrar o projeto, nas quatro cidades, ocorreu uma mostra teatral com montagens feitas por artistas locais, grupos regionais e da capital, Belo Horizonte. Como anfitriões, os contadores do “Arte na Comunidade 2” subiram ao palco e, juntos, contaram para toda a comunidade as HISTÓRIAS DO PONTAL DE MINAS. Nesta, reviveram as histórias contadas por cada um, mas com a participação dos quatro atores. As imagens que ilustram este post são deste momento, quando nossos contadores apresentam a quinta história, d’A Menina Que Queria Ser Bandeirante.
Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a gentileza da citação da origem. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.
Vamos à história:
A Menina Que Queria Ser Bandeirante
Original de Valdo Resende
(VOLTA A MÚSICA INICAL AO TERMINAR A PRIMEIRA HISTÓRIA. O CONTADOR MEXE NOS LIVROS, POR ALGUNS SEGUNDOS E, EM SEGUIDA, RETIRA E ORDENA OS QUATRO OBJETOS IDENTIFICADORES DE CADA CIDADE SOBRE A MALA/BIBLIOTECA. NOMINA O OBJETO E REFERE A CIDADE, SEMPRE EM ORDEM ALFABÉTICA).
A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.
Canápolis! O abacaxi é, para milhares de pessoas, um delicioso símbolo da simpática cidade. Ituiutaba! Cidade tão pródiga, tão rica, que poderia ser lembrada por produzir arroz, cana de açúcar, leite. Escolhemos o leite, porque toda cidade tem um pouco de nossa mãe. Monte Alegre! Há farinha de mandioca em diferentes regiões, outros países… Em Monte Alegre de Minas ela é mais gostosa. Feita com o requinte dos quitutes que colocam Minas em destaque na culinária brasileira. Prata! A mais antiga cidade do pontal de Minas. Mãe de outros dezesseis municípios e, ainda assim, com a maior extensão territorial na região. A gente olha para esses achados arqueológicos e pensa em Minas, lembra o Triangulo Mineiro muito antes de o Brasil nascer.
Claudia, uma menina que nasceu por aqui há muitos anos, gostava de imaginar como eram as coisas, antes que os portugueses viessem para a região, antes que o progresso chegasse modificando e melhorando quase tudo. Com tanta cidade bonita por aqui, fica difícil imaginar o Triangulo como uma grande floresta habitada por índios caiapós, bororós. Mas era assim! Uma imensa floresta dominando o serrado e escondendo ouro, pedras preciosas e muitas outras riquezas.
A menina Claudia, loirinha, olhos claros, não tinha nenhum aspecto aventureiro. Era mais para mocinha de contos de fadas. Todavia, desde que ouviu falar sobre os bandeirantes, soube que seria um entre eles. A professora contou que as Entradas e Bandeiras eram como grandes cidades em movimento. Homens, mulheres, crianças, escravos e índios amigos, caminhando juntos com a missão de desbravar a terra e encontrar riquezas. A menina ficou imaginando como seria estar na comitiva de Fernão Dias Paes Leme, buscando esmeraldas. O bandeirante Fernão Dias saiu de São Paulo, rumo a Guaratinguetá e rumou para o centro de Minas Gerais. Achou turmalinas e pensou que fossem esmeraldas. “- Um grande herói!” Claudia disse em alto e bom som que seria uma bandeirante!
Os colegas da menina começaram a rir, a debochar. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela ignorou, pensando no ato que fez de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Bartolomeu Bueno da Silva passou por aqui, pelo Triangulo Mineiro, que na época já era conhecido como Sertão da Farinha Podre. Ele foi para Goiás, buscando ouro. Lá encontrou os bravos guerreiros Caiapós, que não entregariam seu território e suas riquezas sem luta. Foi então que ele ateou fogo em um pouco de aguardente, dizendo que era água, e que atearia fogo em todas as águas do território dos Caiapós. Os índios foram ludibriados e, crédulos, chamaram Bueno da Silva de diabo velho, na língua deles, o Anhanguera. A loirinha Claudia delirava com as histórias. Os amigos debochavam. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela dava de ombros, interessada em saber da história de sua terra, do nosso querido pontal de Minas.
Os primeiros habitantes de Minas Gerais foram os índios. Depois vieram os portugueses, mas antes desses, muito antes de chegarem com suas entradas e bandeiras, foram os africanos que habitaram várias regiões do estado. É! Escravos africanos que lutando por liberdade fugiram do homem branco e organizaram-se em quilombos. Um dos mais resistentes quilombos que a história guarda é a do Quilombo do Ambrósio, que existiu onde hoje é a cidade de Ibiá, próxima de Araxá.
Aliás, Araxá está entre os primeiros arraiais surgidos no Triangulo Mineiro. Depois veio Uberaba. Depois, o Prata. Antigo, antigo mesmo, é o Desemboque, que hoje é distrito de Sacramento. Desemboque era o nome que se dava ao Triangulo Mineiro, o grande espaço de terra entre o Rio Grande e o Rio Paranaíba. Depois é que chamaram essa região de Sertão da Farinha Podre. Claudia guardava cada detalhe dessa bela história na sua cabecinha de menina.
Desemboque era um centro por onde passavam as bandeiras, rumo ao chapadão mineiro e às terras de Goiás. Outra picada se fez por São Paulo, mas isso foi depois. Nessa primeiras bandeiras que alguns homens, rumando para o interior desconhecido, deixaram pendurados em árvores no mesmo município de Sacramento, alguns sacos de farinha para que, ao retornarem, houvesse alimento para todos. Quando voltaram, a farinha estava estragada. Começaram a chamar o território de Sertão da Farinha Podre e… Como se diz hoje em dia… Pegou!
A menina começou a esparramar para as amigas, para a família, que seria bandeirante. Que iria desbravar o Triangulo, Minas, o Brasil. O pai da menina não gostava daquilo. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! E as lutas, as guerras, ela tinha noção de como havia sido? Que os caiapós, dóceis em um momento, entraram em guerra logo depois, defendendo com garra seu território? Que outro bandeirante, aliando-se aos índios Bororós, arregimentou 500 guerreiros e só assim conseguiram derrotar os Caiapós, em triste carnificina? Ser bandeirante. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Isso não é coisa de menina!
Claudia pesquisou muito. Como nessa história não havia mulheres? Foi estudando (PEGA UM LIVRO, COMO SE LESSE) que ela descobriu algumas grandes mulheres. Uma tal Ana de Oliveira, natural de Vila Nova, atualmente Sergipe, participou da formação de duas bandeiras. Duas! E foi perto do Pontal, no interior de Goiás, que uma mulher bandeirante é lembrada como heroína: Maria Diaz Ferraz do Amaral é chamada de Heroína de Capivari, por lutar ao lado dos homens num confronto com os Caiapós. A menina Claudia delirava entusiasmada: “-Veja, papai! Só aqui temos duas grandes mulheres bandeirantes!” Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
O pai foi pedir ajuda na escola. Mesmo sabendo que as bandeiras são coisa do passado não gostava nada da ideia de ter uma filha bandeirante. Pediu ajuda e ambos, pai e orientadora educacional, resolveram falar com a menina, para fazê-la mudar de rumo. (COMO SE FOSSE O PAI, O CONTADOR MOSTRA-SE IRRITADO) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
A menina passou uns dias estudando, mergulhada nos livros. Quando parecia que havia esquecido os bandeirantes, a história da região, ela vinha com novidade: “- Papai, você sabia que foi um médico francês, Dr. Raymond Enric des Gennetes, residente em Uberaba, sabendo que a região estava entre dois imensos rios, o Rio Grande e o Rio Paranaíba e que esses sugeriam um triangulo agudo, propôs o triangulo para denominar a região?” O pai, já amuado por ter certeza que ela não mudaria de assunto, resmungou: “-Melhor Triangulo Mineiro que Sertão da Farinha Podre”. E ele voltou a falar com a orientadora. Tinham que fazer alguma coisa. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
Acontece que foi a menina Claudia quem marcou uma reunião com o pai, a orientadora, a professora, e todos os colegas. Ela já estava cansada de ser chamada de doida! Eles então acharam que ela havia pirado de vez. Marcar reunião? Que ideia! Que doida!
No dia marcado, a sala de aula toda lá, querendo saber. O pai querendo entender o que iria acontecer. E a menina Claudia, pedindo a palavra, começou a falar: “- Vocês todos sabem que entradas foram expedições mandadas pelo governo português e que bandeiras foram iniciativas privadas, certo? Entradas e bandeiras tinham objetivos similares.” A criançada começou a murmurar. Que ideia! Que doida! Agora virou professora. A menina Claudia respondeu; enérgica: “-Professora não, bandeirante!”. O pai colocou a mão na cabeça. Pobre menina! Ela continuou: “-Muitas bandeiras surgiram para aprisionar índios ou escravos africanos que haviam fugido de seus donos, não é mesmo? Outras surgiram movidas pelo desejo de encontrar metais e pedras preciosas. Em todas elas, havia sempre alguém com o desejo de encontrar remédios, plantas medicinais. Eu chamo essa pessoa de herborista! Eu vou ser bandeirante herborista!”
A classe calou-se. Os adultos também emudeceram enquanto a menina explicou que sabia que havia passado o tempo das bandeiras que formaram nossa região. Tinha também certeza que não há, por ali, índios e ou escravos em luta, mas um povo que precisa viver junto e em harmonia. Não só na região; em toda Minas Gerais, em todo o Brasil, há muito por descobrir sobre ervas medicinais. Nossas florestas grandiosas carecem de exploradores, de heróis bandeirantes que busquem alternativas de alimentos, de remédios em meio ao cerrado, ao chapadão, enfim, em todo o território brasileiro.
(O CONTADOR MUDA DE TOM, SOLENE, PARA ENCERRAR A HISTÓRIA) O tempo passou; a doutora Claudia tornou-se bandeirante respeitada, herborista de fama! Foi com ela que aprendi que os índios tupi-guarani chamavam pitanga de pyrang. E que essa frutinha colabora na prevenção do câncer. Ela também ensinou que os escravos africanos trouxeram a carqueja, bom para a digestão, para o fígado. Na escola, a doutora Claudia aprendeu a curar com agrião, guaco, alecrim, eucalipto, erva-cidreira, arnica… e continua, por aí, pesquisando nossa mata, na beira dos rios, buscando aprender a ajudar os outros através das nossas plantas. Uma bandeirante moderna! (CONCLUI COM ORGULHO E SATISFAÇÃO:) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
Mira Haar, Carlos Moreno, Patrícia Gasppar e Jonatan Harold
Boa música, bons intérpretes e “Florilégio II, Teatro Musical, Nas Ondas do Rádio”, prossegue carreira vitoriosa. Carlos Moreno, Mira Haar e Patrícia Gasppar revivem canções dos tempos áureos da Rádio Nacional, entre outras, e emocionam todas as gerações. Acompanhados por Jonatan Harold (que assina os arranjos e a direção musical) , o trio de atores-cantores apresenta aos mais jovens algumas entre as maiores criações do cancioneiro popular brasileiro; para outros, o espetáculo reaviva memórias, momentos especiais.
Já escrevi sobre uma volta do espetáculo (leia o texto aqui). Melhor ainda por, novamente, poder registrar e divulgar o retorno de um trabalho feito com talento e competência. Florilégio II, Teatro Musical, Nas Ondas do Rádio, com direção de Elias Andreato, está no Teatro Alfa, iniciando neste sábado, 11 de Outubro, e permanecendo em cartaz até 30 de novembro. Aos sábados e domingos, sempre às 20h.
Teatro Alfa: Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722 Santo Amaro, São Paulo. Fones/bilheteria: 5693 4000 e 0300 789 3377. Ingressos: Inteira R$ 40,00 e meia R$ 20,00.
Quarto dos cinco textos do projeto Arte na Comunidade 2 publicados neste blog, “O ataque dos Titanossauros” faz referências aos sítios arqueológicos do município do Prata, em Minas Gerais. A intérprete da história foi Lilia Pitta e as imagens são de THANERESSA LIMA e de arquivo pessoal. Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, peço a gentileza da citação da origem.
Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.
O Ataque dos Titanossauros
Original de Valdo Resende
(O CONTADOR ENTRA EMPURRANDO SUA MALA-BIBLIOTECA. ENQUANTO PREPARA O AMBIENTE PARA CONTAR SUAS HISTÓRIAS, ABRE A MALA PARA SI, PROCURANDO OCULTAR O INTERIOR DA MESMA. RETIRA UM BANQUINHO ANTES DE COMEÇAR A FALAR)
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
– Um banco! Tenham sempre um banquinho na bagagem. Eu que já andei por meio mundo já sei que o mundo não vai terminar em barranco. É… Já ouviram essa? Que todo preguiçoso gostaria que o mundo acabasse em barranco para poder viver sentado? Eu não sou preguiçoso. Acontece que eu fico cansado. Como o mundo não vai acabar em barranco eu optei por carregar um banco! (RETIRA DEMAIS OBJETOS DA MALA, APRESENTANDO-OS AO PÚBLICO)
Senhoras e senhores, meninas e meninos do Prata! Meu nome é Adélia Drummond Sabino De Andrade! Muito Prazer! Estou encantada e feliz com a presença de todos. Tenho orgulho em apresentar a todos vocês o meu maior tesouro: Minha biblioteca! (PEGA UM LIVRO) Não sou dona das riquezas do Egito, mas conheço todos os faraós, sei a função de cada pintura, cada pirâmide, cada templo! (PEGA OUTRO LIVRO) Também domino as vidas de gênios, de reis, de príncipes e rainhas das mil e uma noites. Domino a capacidade de imaginar e por isso vi passando, diante dos meus olhos, um por um dos quarenta ladrões de Ali Babá e sei reconhecer, de longe, um cavaleiro da corte do Rei Artur! (PEGA MAIS UM LIVRO)… Neste livro aqui é que aprendi sobre este simpático bichinho (FOLHEIA O LIVRO, ANTES DE PROSSEGUIR)…
Para todos os presentes nesta linda praça isto é um dinossauro. Simples assim. Mas, não é! Não é mesmo! Não é de jeito nenhum! Saibam que este bichinho, se encontrado por ai, vai medir até 15 metros de comprimento e pode pesar até 20 toneladas. Guardem esse nome: Titanossauro. Meu amigo, Benedito, nunca esqueceu o nome desse grande quadrúpede herbívoro. E eu vou contar a vocês porque meu caro Benedito, o Ditinho, nunca mais esqueceu tudo isso.
No topo da Serra Seio de Moça, o Morrinho, está a imagem de Nossa Senhora do Carmo (foto arquivo pessoal)
Benedito, o Ditinho, era um garoto que gostava de brincar ali na Praça Juscelino Kubitschek; aqui, no Prata. Um menino levado; como todo menino! Havia horas em que era bonzinho e desde sempre acreditou que Nossa Senhora do Carmo velava por ele. Foi a mãe do Ditinho que ensinou o menino a olhar ali, para o Morrinho, onde está a imagem da santa tomando conta de todo cidadão pratense. Ditinho habituou-se a olhar sempre na direção do Morrinho para… Contatar a santa! Pedia para a aula acabar logo, já que tinha papagaio pra soltar e o vento tava bom. Ditinho não pedia pra santa para ajudá-lo quando caçava passarinho. A mãe dele ralhava e ameaçava uma surra de vara se ele matasse o bichinho. Ditinho não se esquecia da mãe dizendo: “Olha aqui, Benedito! Deixe os passarinhos em paz. Já acabaram com muita mata, mudaram o ambiente com tanta lavoura e você… Você ainda quer matar os coitadinhos? É pecado! São Francisco não gosta. Nossa Senhora há de castigar!”
O menino deixava os passarinhos em paz. Saia com os amigos para buscar um bom pedaço de rio para tomar banho e houve uma época em que os meninos aproveitavam os passeios no campo para procurar pedra polida, pedra lascada. Tudo porque a avó de Ditinho, Dona Dinorá, muito simpática, contara aos meninos que a região tinha sido povoada por índios caiapós, que viveram por aqui muito antes da chegada dos bandeirantes. A avó Dona Dinorá ensinava e alimentava a imaginação dos meninos; a mãe do Ditinho ficava danada quando ele chegava dessas expedições, todo sujo, às vezes rasgado, com uma capanga cheia de pedras planejando mostrar para a professora. Essa vovó Dinorá, pensa a mãe; fazer o que, ralhava com o menino! Não precisava sujar tanta roupa!
“Olha aqui, Benedito! Eu vou fazer você lavar essas roupas imundas! Você acha que vai achar pedra lascada, Benedito! A terra já foi arada tantas vezes! Você fica pensando que é coisa antiga, parece coisa velha, mas é coisa mexida por gente que ainda tá viva!”
O menino não ligava. Sabia que as pedras que guardava eram material para paleontólogo, arqueólogo! Ditinho aprendeu com a avó Dinorá que no Prata haviam muitos dinossauros, que os ossos dos antigos bichos que viveram por aqui já haviam virado pedra.
Detalhe da Praça Juscelino Kubitschek, em Prata, Minas Gerais. (foto arquivo pessoal)
Um dia a avó de Ditinho, foi fazer um pic-nic com ele e os amiguinhos na Praça Juscelino Kubitschek, bem ao lado daquela escultura de dinossauro e começou a falar nos bichos, especificamente nos Titanossauros; aconteceu que nesse tal dia a imaginação do Ditinho já tinha saído da praça e levado o menino lá pra serra Seio de Moça, o Morrinho. Lá do alto, Ditinho via o cerrado povoado de dinossauros, titanossauros e todos os seus parentes! Imaginação é uma coisa muito boa. Leva a gente longe e nada melhor do que os livros para estimular nossos pensamentos. Mas, naquele dia, os doces e a conversa da avó Dinorá foi tão boa que Ditinho nem percebeu que todos esses animais viveram por aqui há 80 milhões de anos. Viveram, não vivem mais. Na cabeça do menino já havia imagens dos Titanossauros tomando das águas do Rio da Prata, comendo as folhas verdinhas das árvores banhadas pelo rio.
Depois de brincar e sonhar, voltando pra casa, Ditinho olhou na direção do Morrinho e pediu para a santa proteger a cidade. Vai que apareça um Titanossauro, com seus 18 metros de comprimento! 18 metros! Ficou matutando, matutando… Chegando em casa viu que a mãe estava com um vestido verde. O menino implorou para que ela trocasse de roupa. “– Mãe, vai que um dinossauro confunde a senhora com um monte de folhas! É um perigo!” A mãe ficou uma fera! “Olha aqui, Benedito! Vou te mostrar um monte de folhas! Estão no jardim. Você vai capinar o jardim para aprender a não confundir mãe com monte de folhas. Quero aquilo lá limpinho! Vai, Benedito!”.
O menino nem ligou para a bronca da mãe. Limpar jardim não é castigo. Mas quando estava fazendo a tarefa, tomou o maior susto. Viu um calango, enorme, uma lagartixa gigante que, de repente, poderia ser um filhote de dinossauro! O menino olhou para os lados com receio, desconfiado e para garantir a simpatia de uma possível mamãe dinossauro tratou de não matar o calango.
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima(Divulgação)
Anoiteceu e naquela noite Ditinho demorou a dormir, pensando nos Titanossauros do Prata. O sono pesou e o menino acabou adormecendo quando, pouco depois, acordou com barulhos estranhos (FAZ OS SONS QUE O GAROTO ESTARIA OUVINDO). Era um bicho tentando abrir a porta… arranhava, arranhava cada vez mais forte. Um terror. Ditinho não quis nem acender a luz, com tanto medo. Os barulhos na porta continuavam e a esses somaram grunhidos, grasnados, um som horroroso. “– Minha nossa senhora do Carmo”, rezava o menino.
De repente, do outro lado da janela, uns uivos, uns gemidos, uma lamentação enlouquecida ( FAZ O BARULHO). Ditinho, assustado com os movimentos na porta ficou mais aterrorizado ainda com mais esses sons que vinham da janela. Então aconteceu que o barulho do outro lado da janela aumentou ao mesmo tempo em que a porta, sendo forçada pelos arranhões pesados ameaçou ceder. Antes que o monstro entrasse no quarto ditinho entregou os pontos, aos berros: “- Mamãe! Socorro! Socorro Mamãe!” A mulher entrou no quarto e o menino pulou no pescoço dela, abraçando-a e buscando proteção. Tem um dinossauro ai, tem um dinossauro ai! Repetia aos soluços. Estava arranhando a porta. E tem umas coisas lá fora. E a mãe, entendendo tudo, falou carinhosamente.
“Olha aqui, Benedito! Os dinossauros morreram; não existem mais. A natureza é assim, vai se transformando e com ela o homem evolui. Os homens também transformam o mundo. As mudanças ocorrem, há perdas e ganhos, mas nessa caminhada o que prevalece é o bem do homem. Sumiram os grandes dinossauros, mas aprendemos a plantar grandes lavouras que nos alimentam e também aprendemos a construir barragens em rios; assim temos luz. Você precisa ler mais, estudar mais. Quanto aos barulhos, lá fora, são gemidos dos gatinhos, namorando. Eles namoram assim. E veja ai, o dinossauro nos seus pés!”
Ditinho, ainda com medo, encolheu-se, mas já todo sem graça. O cachorrinho, de nome Sheik, lambia alegremente os pés do menino, abanando o rabo alegre, já esquecido de ter sido deixado fora do quarto. Foi a única vez na história do Prata em que um cachorro foi confundido com um dinossauro. Naquela noite, a mãe continuou no quarto contando as histórias dos Titanossauros do Prata, que viveram há 40 milhões de anos. Eram as mesmas histórias da avó, Dona Dinorá; mas, o menino, ah, o menino ouvindo a voz doce da mãe, dormiu tranquilo. Boa noite, Benedito!
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima (divulgação).
(O CONTADOR AGRADECE E, FECHANDO SUA MALA, SAI DE CENA).