Virada Cultural, o congestionamento de shows

Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal
Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal

Revitalizar o centro velho de São Paulo é tarefa para gigantes. Hoje, no começo da tarde, passando pela Avenida Senador Queiroz tive a impressão de que a região estava sendo tomada pela triste turba dos viciados em crack. Ocorre que recentemente presenciei outros grupos similares na Praça Clóvis, bem ao lado da Praça da Sé, e também nas imediações da Praça Júlio Prestes, onde ficará o palco principal da Virada Cultural.

Durante 24 horas ocorrerão mais de mil shows na Virada Cultural 2013. Mil! Nos demais 364 dias do ano tudo fica como sempre e a maioria das pessoas fogem da região. Obviamente que não seria viável ter shows todos os dias; mas se os shows ocorressem semanalmente, seriam mais de cinqüenta; mensalmente, seriam mais de 80 shows. Todavia, haveria real interesse em revitalizar a região? Poderiam, por exemplo, melhorar a limpeza das ruas durante todo o ano; para aqueles que, como eu, passam diariamente por lá, já seria uma ação admirável.

A Virada Cultural, nos atuais moldes, faz um grande alarde. A ideia veio de Paris e, lógico, como continuamos colonizados, não há o que discutir. Os franceses sabem tudo…  Assim, temos um evento que é quantitativamente impressionante. Mais de mil shows em dezenas de palcos espalhados por vários pontos do centro velho. Para dar uma ideia aos que não moram em Sampa optei por montar uma listinha do que eu gostaria de ver:

No Palco da Praça Júlio Prestes:

18h (sábado) – Daniela Mercury e Zimbo Trio
21h (sábado) – Gal Costa
6h (domingo) – Elza Soares e Gaby Amarantos

No Palco do Theatro Municipal, onde os shows reproduzirão discos completos:

21h (sábado) – Fagner: “Manera Fru-Fru Manera” (1973)
3h (domingo) – Ângela Rô Rô: “Ângela Rô Rô” (1979)
6h (domingo) – Walter Franco: “Revólver” (1975)
9h (domingo) – Wanderléa: “Wanderléa… Maravilhosa” (1972)
12h (domingo) – Jorge Mautner: “Jorge Mautner” (1974)
15h (domingo) – Eumir Deodato: “Deodato 2” (1973)

No Palco do Largo do Arouche:

17h (domingo) – Fafá de Belém

Observando a pequena relação só tenho de optar entre Gal Costa e Fagner. No mais seria necessário apenas ter saúde para uma maratona de vinte e quatro horas de shows. E antes que alguém me chame de velho devo afirmar que a Virada Cultural é ótima para quem consome quantidade. Acontece que gosto de música; prefiro ouvir e não gosto de cantar enquanto meus artistas queridos estão cantando. Adoro ouvi-los e a possibilidade de dormir, por exemplo, durante o show de Jorge Mautner é, no mínimo, constrangedora.

Há tantos outros que gostaria de ver! Ano passado passei por vários lugares. Sempre lamentando, como agora, o que não teria condições de ver e me perguntando, como hoje, porque não podemos ter 50 shows por semana. Com cinco dezenas de shows semanais haveria a possibilidade de um mesmo tanto de estilos, de formas expressivas. A Virada Cultural repete, infelizmente, o que nos faz sofrer durante todo o tempo: é só mais um dia de congestionamento em São Paulo. Um imenso congestionamento de shows.

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Boa diversão e bom final de semana para todos!

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Miss Suéter, a garota solitária que tem lábios de mel

85 anos de Angela Maria

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Fascínio tenho eu por falsas louras

Ai, a negra lingerie

Com sardas, sobrancelha feita a lápis

E perfume da Coty…

Neste dia 13 de maio uma grande estrela que não foi miss suéter nem garota solitária, completa 85 anos. Lábios de mel, provavelmente ela tem; a garganta é de ouro. Ela não foi “miss”, mas foi rainha. É rainha. A Rainha do Rádio, Angela Maria.

…Fica comigo

Velha amiga e companheira

Vou cantá-la a vida inteira

Pra lembrar do que passou.

Angela Maira nasceu em Macaé, RJ, em 13 de maio de 1928. Com mais de 60 anos de carreira, é reconhecida pelo Guinness Book como recordista mundial de gravações de disco, 115. Foi rainha do rádio em 1954 e forma com Elis Regina e Dalva de Oliveira o trio das maiores cantoras brasileiras, com domínio vocal e uma capacidade de cantar que extrapola o comum. Afinação, potência e extensão são qualidades ímpares dessas mulheres.

Números e títulos não criam ídolos; músicas sim! E sucessos e canções que permanecem na memória de um país é o que conta. E isso, músicas de sucesso que permeiam a lembrança popular, Angela Maria tem aos montes.

Meu amor quando me beija

Vejo o mundo revirar

Vejo o céu aqui na terra

E a terra no ar…

Dominando toda a década de 1950 e emplacando êxitos nas décadas posteriores, Angela Maria esteve e está presente na vida de milhões de brasileiros, na manifestação do gosto musical de diferentes gerações. Angela Maria continua cantando como cantava quando meu tio e padrinho de batismo era fã da cantora. Tinha os discos e revistas sobre ela. Foi em criança que eu conheci e guardei algumas das canções preferidas do meu padrinho Nino.

Hoje não te quero mais

Eu preciso de paz

Já cansei de sofrer

Vives na rua jogado

És um fósforo queimado

Atirado no chão…

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Apelidada SAPOTI pelo então presidente Getúlio Vargas, Angela é a maior expressão do samba-canção, e dela se aproximaram cantoras como Maysa e Nora Ney, entre muitas outras que nunca obtiveram tanta popularidade como ela. A Sapoti também é lembrada por um comportamento impecável, uma elegância profissional excepcional. Não se tem notícias de pinimbas históricas envolvendo a cantora; o que ficou são os registros de uma carreira brilhante.

Tem certos dias em que eu penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Porque parece que acontece de repente

Como desejo de eu viver sem me notar…

Angela Maria já disse que quer ser lembrada por “Gente Humilde”, cujos versos estão acima. Todavia, muita gente lembra-se dela por “Babalu”, “Vida de Bailarina”, “Cinderela”, “Tango Pra Teresa” ou pela graciosa “Garota solitária”:

Esta noite eu chorei tanto

Sozinha sem um bem

Por amor todo mundo chora

Um amor todo mundo tem

Eu, porém, vivo sozinha

Muito triste sem ninguém…

Uma canção interpretada originalmente por ANGELA MARIA é sempre lembrada, no dia das mães. Aquela canção que diz “ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar” e fala do filho que (santo deus!) lembra “o avental todo sujo de ovo” pra rimar no final que gostaria de “começar tudo, tudo de novo”. As mães, aquelas que valem mais “que o céu, a terra e o mar” gostam. Na última semana a música foi lembrada em um seriado da Rede Globo, Louco por elas.

Lúcida e atuante, Angela Maria apresentou-se recentemente no Rio de Janeiro, em noite de gala, com um repertório baseado em grandes sucessos de uma carreira fonográfica iniciada em 1951 e que, em 2012 teve os principais sucessos registrados em DVD, lançado pela gravadora Lua Music, denominado Estrela da Canção Popular.

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As canções de Angela Maria estão ai. As emissoras de rádio tocam quase nada e raramente ela aparece em TV. Aliás, ela prefere churrascarias, restaurantes populares, onde pode sentir melhor a presença do público. Por aqui quero prestar uma homenagem sincera para essa extraordinária mulher. Cantora de lábios de mel, garota não muito solitária, mas sempre a minha miss suéter.

Guardarei para sempre

Seu retrato de miss com cetro e coroa

Com a dedicatória

Que ela, em letra miúda, insistiu em fazer

“-Pra que os olhos relembrem

Quando o teu coração infiel esquecer…”

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Até!

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Notas Musicais:

Todas as canções citadas são do repertório de ANGELA MARIA e estão identificadas na ordem em que aparecem no texto.

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

Balada Triste – Dalton Vogeler e Esdras P. da Silva

Lábios de Mel – Waldir Rocha

Fósforo Queimado – Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego

Gente Humilde – Garoto, Vinícius de Moraes, Chico Buarque

Babalu – Margarita Lecuona

Vida de Bailarina – Cholocate e Américo Seixas

Cinderela – Adelino Moreira

Tango Pra Teresa – Jair Amorim e Evaldo Gouveia

Garota solitária – Adelino Moreira

Mamãe – Herivelto Martins e David Nasser

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

A mão sobre minha fronte

Laura Vinagreiro Resende

Lá onde o céu é azul

Alem do Rio Grande

Uma luz tênue de vela

Roga aos céus, apela

Alguém!

Esse alguém é minha mãe; sempre pronta e disposta a rezar por todos nós. Ladainhas, terços, rosários… Antes, mais jovem, mamãe acendia velas para todos os santos. Sempre por nós; os filhos, os netos e, também, os irmãos dela, os sobrinhos, os primos, as tias…

Sempre confiei nas orações de minha mãe. Acredito que Deus ouve todas as mães, principalmente quando elas não pedem por si, mas pelo bem de todos os seus.

Além do Rio Grande fica Minas Gerais, Uberaba, onde minha mãe pede a intercessão de Nossa Senhora da Abadia, a proteção da Medalha Milagrosa. Santo Antônio ajuda-a a achar coisas; São José traz chuvas. Todos os santos e santos permeiam a vida de minha mãe que, às vezes, cochila um pouquinho entre uma reza e outra. Para quem pede tanto, alguns minutos de descanso são mais que merecidos.

Longe de si minha luta

Acima de mim seu afeto

Une espaço e tempo

Retém cada momento;

Alguém!

Nossa mãe nos deu asas; aquelas invencíveis, denominadas conhecimento. Fomos além até do que ela pode entender e adquirimos um vocabulário, às vezes, inatingível para seus conhecimentos. Não importa; ela conhece as coisas do gostar, do querer bem.

Mamãe fala com os que já foram como se estivessem ouvindo-a. Não, ela não é médium; papai, meus avós, meu irmão e tantos outros permanecem vivos no coração de minha mãe; na fala cotidiana de uma longa vida que desconhece as medidas de tempo. Estas medidas que são meras abstrações, distantes da realidade da alma. Da alma de todas as mães.

Livre, acho eu, liberta:

Acuada, talvez, pelo amor

Uma mulher pequena

Rindo-me, serena

Alguém!

Dona Laura, a nossa mãe, tratou de viver a vida como achou que devia. Foi longe para os parâmetros de meus avôs sem jamais deixar-se distante deles. Gosto de saber das lutas que teve e sou grato pelas batalhas que venceu principalmente por garantir a todos nós, seus filhos, uma vida melhor.

Aqui, sozinho neste momento e em tantos outros, sinto falta da mão de minha mãe sobre minha fronte. Nada neste mundo me acalma tanto, me propicia sono tranqüilo e momentos de intensa paz. Sempre que próximo, em toda e qualquer instância recebo de minha mãe o afago supremo, o remédio eficaz; o calor de sua mão sobre minha testa, fazendo-me fechar os olhos, em paz..

Os versos acima são de uma música, denominada Leréia  que fiz para minha mãe. Quero registrá-los aqui, desejando que mães e filhos possam ter um dia cheio de carinho e, sobretudo, afeto. Esse imenso afeto que, junto com meus irmãos, tenho por Laura, a minha mãe.

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Até!

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Este texto não é de Clarice Lispector

Clarice Lispector
Clarice Lispector

Determinados nomes, tudo indica, garantem a qualidade de textos da mesma forma que boas marcas estabelecem credibilidade para produtos ou serviços. O sujeito escreve uma asneira e para obter a fé das pessoas tasca um Carlos Drummond de Andrade, uma Clarice Lispector como autores. Este texto não é de Clarice Lispector; nem de Mário Quintana, nem de Fernando Pessoa, Luis Fernando Veríssimo ou outro grande escritor. É meu; assumo os riscos e responsabilidades!

Clarice Lispector é vítima constante de pessoas que nunca leram um romance ou um conto escrito por ela. Há alguém que publica uma bobagem piegas e alguém que compartilha. Uma conhecida defendeu o direito de compartilhar por achar “bonito”. Ok, mas além da questão estética, há a ética! Aquela “coisa” que nos leva a fazer o que é correto.

Há quem não dê importância ao fato. Que mal há em dizer que tal texto seja de Mário, Fernando ou Carlos? Demonstram de cara a total incapacidade em perceber a distinção entre um e outro. Se não valorizam o trabalho artístico, compreendem o que seja arte? Sempre me pergunto se essas pessoas são capazes de criar alguma coisa – um texto, um poema, uma canção, um quadro. É muito fácil “palpitar” sobre o que outros fazem; mais fácil copiar e alterar aquilo que foi criado após intenso trabalho.

Quem atribui autoria de baboseiras à Clarice Lispector sabe, por exemplo, que ela trabalhava com uma máquina de escrever no colo enquanto cuidava do primeiro filho? Que isso passou a ser mania e que ela tinha o hábito de acordar as três, quatro horas da manhã?  Que anotava todas as idéias para depois organizá-las em seus textos? Que para sobreviver, além de escrever livros, escrevia também para jornais e fazia traduções? Será que conseguem perceber a importância desses fatos naquilo que foi criado – escrito – por ela?

Direito autoral é uma questão delicada que vai além da questão financeira. Somos “autores” quando preparamos uma simples refeição e sabemos que uma pitada de sal dada por outrem pode desandar tudo. Somos criadores da composição que resulta no que chamamos de nosso visual e não permitimos que mudem nosso “estilo”.  Não costumamos admitir que alguém altere a decoração de nossa sala, nosso quarto… No entanto, quando a criação é do outro nos permitimos toda a sorte de opiniões, sugestões e até alterações não solicitadas.

Quando o assunto é dinheiro, tudo se torna mais delicado. As pessoas param o trabalho, feito relógios, quando terminam o expediente. Também não admitem trabalhar uma hora que seja sem a devida remuneração. Há aquelas que cobram por conselhos e até mesmo pela companhia de alguns minutos. Adoram ostentar marcas e não titubeiam em pagar por elas, mesmo com a consciência de que pagam um “valor simbólico” – calças jeans são todas do mesmo tecido; paga-se a marca. Quando questionadas sobre o valor de poemas e canções discutem, ponderam; algumas acham exagero pagar por uma poesia mesmo admitindo total incapacidade de criar alguns versos até para o ser amado.

Há vários casos de processos de pessoas reivindicando direitos autorais. Há um, envolvendo o nome de Clarice Lispector (Conheça clicando aqui) de um poema que, na internet, foi divulgado como sendo dela. Atualmente há, na novela Malhação, uma personagem que fala todo tipo de coisa sempre começando por algo do tipo “- Já dizia Clarice Lispector”. A personagem repete o comportamento verificado nas redes sociais e associa alguns absurdos ao nome da escritora. Não sei se há algum acordo entre a Rede Globo e os herdeiros de Clarice Lispector. Não é de se esperar que uma TV aberta e comercial tenha algum compromisso com a formação do cidadão; resta lamentar.

Infelizmente tenho a certeza de que meu texto não mudará em nada o hábito das tais pessoas que usam o nome de um grande escritor indevidamente. Gostaria, porém, que elas pensassem sobre as dificuldades de quem escreve; de quem lida com a língua, com uma linguagem.  Todo indivíduo tem a noção da dureza do próprio trabalho; do quanto é difícil, complicado, árduo. E é por isso que, incoerentemente, concluo este texto citando Clarice:

“A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.”

Creiam-me todos; esse período nada fácil é de Clarice Lispector. Está em “A Paixão Segundo G.H.”, romance publicado pela Editora do Autor, no Rio de Janeiro, em 1964.

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Até mais!

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Adeus, terror! Tchau, agonia! Vou tocar caxirola.

Caxirola do Brown
Criador e criatura. A caxirola de Brown!

O cardápio da violência é vastíssimo! A dentista que teve o corpo incendiado; neonazistas acusados de agredirem um nordestino; uma jornalista estuprada; o julgamento do goleiro, o julgamento do cúmplice; outro jogador de futebol encrencado em uma favela; o bicheiro detido embriagado… A noite de domingo avança com os programas televisivos tornando espetáculo a violência e a barbárie. Boa noite, terror, é o “show da vida”!

Amanhã, como tenho feito nas últimas semanas antes de ir para o trabalho, evitarei os jornais matutinos que “repercutem” os crimes do final de semana. Prefiro sair sem saber as condições do trânsito, as previsões do tempo. Pelo menos não começo o meu dia com receio de caminhar pelas ruas e praças da cidade; afinal, parece que o terror, os crimes, as ações violentas não tem solução.

Em muitos crimes há sempre a presença de um menor que costuma assumir a culpa; então temos certeza de que logo esse ser estará novamente caminhando pela cidade. Provavelmente ao lado do político sabidamente corrupto, condenado, mas caminhando com vários seguranças que garantem a integridade física do cidadão. O menor e o político serão abençoados por algum religioso, desses que cumprindo pena por crimes horrorosos, encontraram um deus conveniente que propicia formas mais amenas para quem assassinou os próprios pais ou a namorada. Bom dia, agonia!

Mundo terrível esse nosso, onde o terror a agonia tem sido estrelas cotidianas. Nem adianta dizer que é coisa do Brasil, já que em Roma um cidadão feriu três inocentes tentando, conforme noticiado, atingir um político; nos EUA continuam as investigações sobre as razões pelo atentado de Boston e uma surpreendente notícia: 6 milhões de desempregados na Espanha. A taxa de desemprego no país subiu para 27,2%, segundo dados oficiais.

A Espanha, é fato mais que conhecido, sediou a Copa do Mundo de 1982 e é a atual campeã do mundo, título obtido em 2010 na África do Sul. No top-20 dos maiores salários de jogadores, a Espanha comparece com cinco representantes que juntos, recebem a fabulosa quantia de 104,2 milhões de euros por ano (veja toda a lista aqui). A FIFA alardeia progresso e crescimento para os países que sediaram o evento esportivo. Para a Espanha, a gente já sabe: deu certíssimo para o futebol e para os principais atletas; para o povo, sobra o pau nos embates com a polícia nas manifestações de gente desesperada pela falta de trabalho.

Aqui na terrinha, todos os crimes e problemas não ofuscam inaugurações e outros preparativos para os eventos esportivos. Grande estrela, o estádio Maracanã está prontinho e recebeu os operários em jogo comemorativo. Único fato destoante foi uma vaia que Fernanda Abreu levou da torcida do Flamengo, ao cantar o hino nacional na abertura do evento vestindo uma camisa do Vasco. “Que deselegante” diria a apresentadora da Rede Globo.

Em Salvador, dois problemas: A Tribuna da Bahia denunciou a proibição da FIFA, impedindo os baianos de comemorarem o São João (Imaginem o nordeste sem festas juninas!); o fato não diminuiu o brilho da inauguração do Estádio Fonte Nova. Como tem sido hábito, o Vitória derrotou o Bahia. A torcida do azul, vermelho e branco encheu o campo de Caxirolas (Imaginem isso acontecendo durante a Copa! Que escândalo O ministro Aldo Rebelo ficou indignado!).

Dilma gostou da Caxirola;  quem sabe ela não toque na abertura da Copa?
Dilma gostou da Caxirola; quem sabe ela não toque na abertura da Copa?

A caxirola, é bom saber, é um instrumento criado pelo retumbante Carlinhos Brown. O músico, percussionista impar, criou um “treco” baseado no “caxixi”, o popular chocalho. A intenção é dar continuidade ao iniciado na África do Sul, com a vuvuzela, segundo Brown, uma maneira da torcida ter sua “voz” (gritar estimulando o time não é usar a voz?). O inventor ainda garantiu que é possível tocar o hino nacional com o instrumento.

Pronto, a vida ficou melhor. Até este texto ficou mais leve. Preocupações com crimes hediondos, corrupção política e outras mazelas para que? O lance é ver programas esportivos; e nos jornais, revistas e sites, fazer o mesmo. E é provável que o mais importante que um cidadão brasileiro possa fazer seja um curso para tocar caxirola. Não dá, no país do samba e da bossa nova, passar vergonha na frente dos gringos por não tocar o tal instrumento. Isto sim, um grande crime. Portanto, Adeus, terror! Tchau, agonia! Vou fazer cursinho para tocar caxirola.

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Boa semana para todos!

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Recolher outro livro… Qual o problema, Roberto Carlos?

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Pela segunda vez o “Rei” tenta tirar um livro de circulação. Em 2007 ele conseguiu que a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo, fosse recolhida das livrarias. Agora, os advogados contratados por RC tentam o mesmo com outro livro, “Jovem Guarda: moda, música e juventude”, de Maíra Zimmermann, da editora Estação das Letras e Cores.

As alegações são as mesmas de sempre: “fatos de foro íntimo e pessoal do cantor”. Acontece que o livro de Maíra Zimmermann é uma obra acadêmica; ou seja, é “resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida pela autora no programa de mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac”. Sendo obra acadêmica é uma pesquisa detalhada, exposta com detalhes nas 529 notas de rodapé, documentada em fontes e referências bibliográficas que ocupam mais de 10 páginas.

Será que RC chegou a ver o tal livro? Será que consegue perceber a diferença entre um trabalho de mestrado e uma revista ordinária de fofocas? O problema seria dinheiro?

Alguns números: A editora informa ter colocado mil exemplares à venda. Comprei um exemplar hoje (e se bater alguém na minha porta, pedindo de volta, só entrego com ordem de juiz!) por 48,00 reais. Assim, mantendo esse preço e vendendo toda a tiragem, a editora receberá 48.000,00. Se o contrato foi na base de 10% para o autor, Maíra Zimmermann poderá receber a fortuna de 4.800,00 reais.

Do processo que moveu contra Paulo César de Araújo, segundo este, RC alegou estar perdendo dinheiro, já que “fãs deixariam de comprar o CD para comprar a biografia. Ele pediu multa de 500.000 reais por dia em que o livro seguisse circulando e pediria uma indenização ao final do processo, que foi encerrado com o recolhimento das 11.000 cópias ainda disponíveis do livro”.

Já foi notificado que RC fez contrato com a editora Leya, que publicará uma “biografia autorizada” e que o projeto inclui filme sobre a vida do cantor. É um direito dele, sem dúvida, mas essa história de biografia autorizada… Certamente o livro não dirá que RC gravou “Quero que vá tudo para o inferno”, já que o cidadão não fala a palavra inferno, nem permite que outro cantor grave a música. Seria isso?

Roberto Carlos, como todo ser humano, tem direitos autorais e concordo que administre seus bens, seus segredos e fatos pessoais conforme suas convicções. Todavia, a Jovem Guarda não é propriedade dele. Se alguns artistas desse período influenciaram as pessoas através do modo de vestir, de cortar ou deixar crescer o cabelo, de usar adereços, de expressarem-se através de gestos e expressões peculiares, enfim, se fizeram história, essa história é de toda uma nação, não de um indivíduo. E é disso que trata o livro “Jovem Guarda: Moda, música e juventude”.

Não vi nada publicado na imprensa sobre a quarta capa do livro de Maíra Zimmermann conter texto assinado por Wanderléa. Sim, a “maninha do rei” colaborou com o livro e diz, entre outras coisas, que “Seu conteúdo vem me trazer a dimensão da minha atuação nesse contexto”; mais além, a cantora afirma: “nossa participação foi válida, acrescentando valores de troca, experiência e referência para tantas vidas”. Que pena que RC queira tirar de circulação algo, segundo Wanderléa, “tão minucioso e verdadeiro”.

Só para completar: o livro cita muita gente; só para ficar na esfera de cantores notáveis no período: Wanderley Cardoso, Martinha, Celly Campello, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Vanusa, Rosemary, Ari Sanches, George Freedman, Os Incríveis e dezenas de outros que, junto com Roberto Carlos, fizeram a história que também é a história de milhões de brasileiros.

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Até mais!

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Para não esquecer Cleyde Yaconis

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Acabo de reler um depoimento de Cleyde Yaconis ao jornalista Vilmar Ledesma. Está no livro Dama Discreta, publicado pela Imprensa Oficial do Estado na coleção Aplauso. Preferi aguardar um pouco para lembrar e homenagear a atriz. Cada admirador terá uma lembrança peculiar; aqui registro algumas lembranças e indico livros onde a memória de Cleyde está preservada.

Minhas lembranças de Cleyde Yaconis são fundamentalmente televisivas; recordo sua presença forte em A Muralha (1968), a novela de Ivani Ribeiro que foi um marco na extinta TV Excelsior. Ela contracenava com um time de mulheres talentosas como Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Nicete Bruno. A saga dos bandeirantes conquistando espaço ficou na memória de muita gente.

Na TV Tupi Cleyde Yaconis interpretou mulheres sofisticadas, elegantes, fortes; gosto de lembrá-la misteriosa, pilotando uma motocicleta ou, em outro momento, insinuante e perigosa, tipo heroína de filme noir, ao lado de Raul Cortez. O tempo deixa dúvidas sobre nomes de autores, títulos das novelas. O sorriso largo da atriz, a voz doce que, de repente ficava cortante, um jeito único em imprimir sensações através da expressão facial; isso tudo ficou bem guardado.

Na TV Globo, uma estranha coincidência: Cleyde Yaconis está na reprise de Rainha da Sucata, diariamente pelo Canal Viva. Por alguma razão ocorrida na época (1990) a atriz foi afastada da novela e enquanto fora, a personagem de Glória Menezes diz que ela está em Buenos Aires. O fato coincidiu com a morte da atriz, aos 89 anos, no último dia 15. De qualquer forma, é através das reprises e dos registros da Rede Globo que poderemos rever alguns interessantes trabalhos da atriz. No último, na novela “Passione”, de Silvio de Abreu, Cleyde mostrou sua força, ganhando o público ao fazer par romântico com Elias Gleiser, seu amante na novela. O casal de velhinhos deixou claro para o grande público que o amor não tem idade, nem a safadeza!

Não tive, infelizmente, muitas oportunidades para ver a atriz no seu local de trabalho preferido, o teatro; todavia, guardo alguns bons momentos, principalmente quando ela interpretou Simone de Beauvoir em “A Cerimônia do Adeus”. Nesta ela foi dirigida por Ulysses Cruz e, graças ao mesmo, pude presenciar alguns ensaios. Cleyde esteve ao lado de Antônio Abujamra, Laura Cardoso e Marcos Frotta, na peça escrita por Mauro Rasi.

Não cabe aqui, escrever em demasia. Os livros de história estão aí, contando a vida de Cacilda Becker, a irmã de Cleyde Yáconis que é personagem marcante do nosso teatro. É impossível pensar o teatro deste país sem Cacilda, Cleyde, o Teatro Brasileiro de Comédia. Há pouco faleceu Walmor Chagas, que foi marido de Cacilda. Perdemos, em curto espaço, dois nomes importantes da nossa história. Dois artistas singulares pela elegância, pela discrição. Talvez, a melhor homenagem que posso prestar a esses artistas é registrar e indicar obras que imortalizam suas vidas e seus trabalhos; então, vamos nessa:

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Bom final de semana para todos!

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