Poleiro de pato é no chão

Imagem criada com IA

Um sururu sempre rolava naquele boteco da Lapa. O grupo de frequentadores era quase fixo, amigos e conhecidos não se importando com o final de costumeiros bate-bocas, às vezes levado às vias de fato. Juvêncio, chegado a buscar remédio na cachaça, tinha por hábito desabafar com quem estivesse a seu lado. Belmiro, sempre que percebia tal situação, passava por ele e sussurrava: “Pato!” Pronto, estava iniciada a peleja.

Juvêncio se achava todo pimpão, poderoso. “Pato é a mãe!”. Em seus devaneios traçava a mulherada do pedaço. Quando no espelho, via-se como galã de cinema. Gostava de fazer pose de cantor de tango; às vezes de boxeador ou, ainda, de bom moço, romântico. Dobrando os braços para ressaltar os músculos, estufando o peitoral, via-se sobretudo como um belo e garboso galo. Ele morava na Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro, no andar de cima de um sobrado, bem ao lado do boteco frequentado por sambistas, por homens em busca de mulheres e estas em busca de amores, fregueses e patos.

“Essa gente de samba!”, dizia Juvêncio com desprezo. A indisposição vinha principalmente por conta de Belmiro, um afamado compositor, sujeito elegante e refinado em seus ternos de linho branco. Alardeando ter borogodó e ser do balacobaco, pagava bebida para todo mundo quando tinha samba gravado por Araci de Almeida ou Carmen Miranda. Contam que teve uma paixão por Dalva de Oliveira e, por tudo isso, Juvêncio se perguntava o que um cara cheio das coisas faria naquele boteco de samba? O fato é que Belmiro o chamava de Pato. E ele odiava ser chamado de Pato, assim como detestava lembrar quando surgiu o apelido.

Juvêncio viera de São João do Meriti para trabalhar no comércio da Lapa quando conheceu Aurora. Mulher de quadril bamboleante e seios empinados, a moça deixou-se namorar pelo jovem que pensou ter encontrado nela um grande amor. Após meses da aparente paixão, a moça não deu a mínima por ter sido flagrada com um marinheiro de passagem pelo Rio de Janeiro. Trocou o amor de Juvêncio por vidros de perfume contrabandeado. Sobraria para ele lembrar a situação sempre que ouvisse a marchinha carnavalesca que, ironicamente, poderia ser encarada como profecia: “Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Aurora. Veja só que bom que era…”

O abandono de Aurora rendeu. Juvêncio bêbado, chorando no balcão, lamentando o fato. Em um desses dias de chororô, rolava uma roda de samba e Belmiro puxou uma marchinha, famosa na voz de Chico Alves, sendo acompanhado pelos animados participantes da roda.

Ai, ai, ai, o galo é que está com a razão
Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão…

Juvêncio achou que aquilo era para ele, ali, no chão dos abandonados. Um pato! Mesmo alcoolizado, o rapaz chamou o compositor pra briga. O segurança empurrou-os pra rua. Mais falação que briga, antes que a contenda estragasse a noite foram separados pela turma. Motivo da briga veio à tona, foi inevitável associar o sujeito ao apelido. Pato. Juvêncio tratou de bolar um jeito de calar a boca do bar.

Disposto a ir à luta, redescobriu-se vaidoso ao fazer a barba, cortar o cabelo. No espelho voltou a ver o galo que achava que era, aprumando-se para nova conquista. Sabia atrair uma mulher e, assim, a morena Aurora foi substituída por uma ruiva de idade indefinida, moradora do Rio Comprido, que trabalhava como copeira em Copacabana. Ele logo descobriu que a nova namorada fazia jus ao mito de que mulher ruiva tem um fogo só comparado à cor do cabelo. Após noites de intensa atividade, ele pensou ser já momento de levá-la ao boteco, mostrar para aqueles sambistas o galo em ação.

Gilda, a ruiva, tinha lá seu jeito de ser, sua forma de levar a vida. Não é por ser copeira que não filosofava. Cada namorado era sempre o um, o que o “um” não sabia é que havia o dois, o três, o quatro… Namorando um rapaz em cada esquina, se entregava com paixão e chegado o momento cantarolava para todos eles:

...Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor a ilusão do amor

Quando o casal entrou no Boteco, foi recebido efusivamente por Belmiro que, em andanças por Copacabana, já havia ido até ao Rio Comprido conhecer os lençóis de Gilda. Com desenvoltura, a moça saudou o encontro e, aproveitando a situação, esclareceu para Juvêncio sua forma de encarar a vida, o amor. Mostrando desenvoltura e afinação, juntou-se aos instrumentistas e cantou “Nada Além”, a música que tinha por filosofia de vida.

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão.

Naquela mesma noite, enquanto Gilda mostrava seus talentos aos sambistas da Lapa, Juvêncio bebia e, atônito, conhecia a liberdade da moça que, em momento de descanso da cantoria, segredou a ele gostar de fazer a dois, a três. O que ele achava de fazer uma brincadeira, ela, ele e o rapaz do cavaquinho, por quem ela revelou nascente tesão? Ele fugiu, escandalizado, deixando-a no bar.

Semanas depois, encheu a cara em estabelecimento vizinho para tomar coragem de voltar ao bar. Foi recebido por conhecidos e por Belmiro, que lembrou a ele o que já era sabido: poleiro de pato é no chão. Nesse dia não houve briga; o abandonado muito bêbado preferiu chorar as mágoas no ombro do inimigo. Destino triste esse que só colocava mulheres traiçoeiras na vida daquele cidadão. Será que era castigo por ele ter abandonado Amélia?

Muito jovem, Juvêncio segredou a Belmiro, ele queria conhecer os prazeres da vida. Amélia, jovem e bonita vizinha, facilitou a primeira experiência. Entusiasmado com os prazeres da convivência doméstica ele saiu da casa dos pais e foi morar com a moça.  De repente a libido acabou e ele, já se sentindo galo, queria mais. Tinha toda a vida e a cidade grande diante de si. Deixou a pacata São João do Meriti e veio para o Rio de Janeiro para, sabia agora, ser traído por uma, dividido com muitos pela outra.

…Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher…

Depois daquele desabafo não falou mais com Belmiro. Quando bêbado se lamentava com quem estivesse a seu lado no balcão. Sóbrio voltava ao espelho e, aprumado, saia pra vida, para buscar novos amores. A lista cresceu. Na roda de samba virou piada. Tantas namoradas sem segurar nenhuma? Volta e meia corneado ou simplesmente abandonado, amigavelmente dispensado, violentamente trocado… Belmiro sentenciava: – não é galo, é pato!

Uma noite Amélia reapareceu radiante. Madura ganhara formas fartas, bem proporcionadas. Portava joias, sapatos e bolsa de couro legítimo e a roupa era coisa para gente de fino trato. O boteco estranhou aquela grã-fina sempre de braço dado com um sujeito que só podia ser doutor. Terno bem cortado, cabelo engomado, disposto a beber e comer do bom e do melhor.  Ninguém entendeu o que fazia o casal passeando pela Lapa. O boteco era bom, mas a desconfiança cresceu quando Amélia voltou usando decotes ousados, fendas de saia que revelavam coxas perfeitas e, novidade para o local, calças compridas, apertadas, evidenciando a generosidade do tempo e da natureza.

Juvêncio conseguiu guardar por várias semanas ser aquela a Amélia de São João do Meriti, que ele conhecera e abandonara na juventude. Em dado momento ela começou a chegar sozinha no local, o companheiro aparecendo mais tarde. Ele notou que ela lhe lançava olhares, esboçava sorrisos. Ele, certo de que decotes e pernas de fora eram pra si, tomou coragem e foi atrás de uma alcoviteira a quem pagou para levar um bilhete marcando dia e hora para um encontro. Cansado de tantas aventuras mal sucedidas iria reconquistar Amélia.

Não demorou para que ela respondesse detalhando dia, hora e local. A porta estaria aberta. Não carecia de chamar a atenção dos vizinhos do mesmo andar. Ele caprichou diante do espelho, vestiu o melhor terno e, perfumado, o cabelo engomado, reconheceu-se o galo de outrora, do primeiro amor.

No local combinado, foi direto ao quarto. Na penumbra encontrou a antiga namorada nos braços de um homem. Amélia disse apenas, “meu filho, que se há de fazer?”. Ela acendeu a luz e ele reconheceu Belmiro, gargalhando com a situação. E ela, golpe de misericórdia, afastou os lençóis e nua pediu ao amante: Como é mesmo a música, querido? Belmiro acentuou cada palavra, para deleite de Amélia e desespero de Juvêncio: “… Pois diz ele que o terreiro é pro galo vadiar. Pato se quiser poleiro, peça à pata pra arranjar. Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão”.

Depois dessa última noite Juvêncio nunca mais foi visto na Lapa.

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Nota do autor:

Em meados de 2008, um site chamado Papolog foi pioneiro nos blogs de músicos no Brasil. Uma das maneiras de apresentar compositores da primeira metade do século XX ao público da Internet foi criar histórias onde, através da FICÇÃO, contextualizávamos as músicas e seus criadores. Assim, pessoas históricas citadas contextualizam o tema. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Dezenas de contos foram criados com a mesma finalidade. O destaque do conto acima é para as músicas do múltiplo Mário Lago. Compositor, ator e, entre outras atividades, advogado que encantou todos nós, Mário pode ser visto em novelas nos canais por assinatura. Nascido em 1911 e falecido em 2002, foi autor das canções citadas no conto acima, relacionadas a seguir e disponíveis na rede.

Aurora (Mário Lago e Roberto Roberti)

Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)

Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)

Poleiro de Pato é no chão (Mário Lago e Rubens Soares)

Mário Lago, o “número um” na Mancha Verde

Mário Lago
“Não guardo frios rancores, pois entre os seus mil amores, eu sou o número 1”

Os outros são grandes, mas Mário Lago é o “número um”. Entre todos os artistas homenageados no desfile das escolas de samba de São Paulo no carnaval deste ano, a Mancha Verde vem com uma fera, “Mário Lago, o homem do século XX”. Um nome fundamental na cultura popular brasileira que passou pela música, pelo teatro, o rádio, o cinema, a televisão e deixou, de quebra, algumas criações literárias que são fundamentais para a memória brasileira.

Na televisão Mário Lago foi ator de novelas memoráveis como “O Casarão” e “Dancing Days”, tendo sido premiado nas duas produções da Rede Globo. Também foi ator em um dos marcos da cinematografia nacional: “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Entre grandes sucessos radiofônicos, foi narrador da novela “O Direito de Nascer”, mega sucesso da Rádio Nacional, em 1951. Foi o primeiro autor a colocar o samba nos palcos do nosso teatro; foi no teatro que conheceu Carmen Miranda e esta, gravando “Aurora”, tornou Mário Lago um compositor mundialmente conhecido.

Além da música “Aurora”, Mario Lago está no repertório dos maiores intérpretes brasileiros com canções sempre lembradas e que, tudo indica, permanecerão por muito tempo na boca do povo: “Ai, que saudades da Amélia”, “Número Um”, “Nada além”, “Atire a primeira pedra…” são resultado de uma carreira vitoriosa, ao lado de parceiros notáveis como Custódio Mesquita, Ataulfo Alves e Benedito Lacerda.

Tenho uma enorme simpatia para com Mário Lago. Lembro-me dele em cena, com o ar de sabedoria que o tempo deu ao homem e ao artista. A vida desse homem é permeada por lutas políticas; entre essas, brigou como poucos pela classe artística. Entre as consequências de uma personalidade tão forte estão algumas passagens pela prisão, além de perseguição política. Gosto do humor desse compositor, para quem escrevi um post anterior, com o título de uma de suas músicas divertidas: “Poleiro de pato é no chão”.

Um desfile tendo Mário Lago como tema oferece mil possibilidades. A Mancha Verde está com um samba feito por oito compositores:  Turko, Maradona, Didi, Ferracini, Fabiano Sorriso, Jorginho, Paulinho Miranda e Tucuruvi Mancha. O intérprete é Freddy Viana. No samba de enredo a escola tenta uma síntese da vida desse artista multimídia, tão grande quanto o carnaval, que pode ser ouvido integralmente aqui. Tomara que a escola faça um carnaval vitorioso, tornando-se uma “Mancha Verde” na história de Mário Lago.

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Até mais!

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Rainha do Radio

Todo chifre tem seu lado bom!

Rainha do Radio

Que o diga Hillary Clinton! De Primeira Dama traída tornou-se  Secretária de Estado dos Estados Unidos. A história do presidente com a estagiária ficou no tempo e quem faz história agora é a esposa traída. Na separação do casal Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, o Brasil ganhou a grande cantora em carreira solo, brilhando muito mais, para desespero de um enciumado Herivelto.

Tudo acabado entre nós

Já não há mais nada

Tudo acabado entre nós

Hoje de madrugada… 

Começou, na Rede Globo, a minissérie sobre a vida de HERIVELTO MARTINS e DALVA DE OLIVEIRA. Diversos sites noticiaram e, provavelmente baseados em release da emissora, escreveram que “Encantado pela jovem, Herivelto fez dela sua grande criação.” Balela! Não foi o compositor quem deu a voz, o ritmo e o carisma daquela que foi considerada por Villa Lobos como a maior cantora do Brasil.

Adriana Esteves e Fabio Assunção

HERIVELTO MARTINS criou grandes composições, inesquecíveis na voz de DALVA e propiciou à cantora, com suas traições públicas, um pano de fundo para uma vida dramática, levada para o disco e as emissoras de rádio e tv. DALVA DE OLIVEIRA, para usar uma expressão da época, pouca usada ultimamente, era a fossa em pessoa. Se uma parte da imprensa, aliada ao compositor, retratava uma DALVA com tintas pesadas, o público admirava e amava a cantora, tornando-a Rainha do Rádio, quando já em carreira solo.

…Com franqueza

Só não tendo coração

Fazer tal judiação

Você tá mangando d’eu

Kalu… 

Gosto de ouvir DALVA DE OLIVEIRA; nela, por exemplo, há um sotaque paulista perdido (ela era natural de Rio Claro) e um jeito de cantar que fez escola; sua melhor aluna tem sido MARIA BETHÂNIA. Esse jeito é feito de interpretações arrebatadoras, sinceras. Sem receio de expor paixões, DALVA cantava a própria alma. Escorada em composições impecáveis, imprimia verdade às mesmas. A imprensa tratava de confirmar os amores sofridos, imortalizados pela cantora.

A minha dor é enorme

Mas eu sei que não dorme

Quem vela por nós.

Há um Deus, sim

Há um Deus!

E este Deus lá do céu

Há de ouvir minha voz

Se eles estão me traindo… 

A escolha de Adriana Esteves para o papel de DALVA DE OLIVEIRA tem o mérito, inicial, de evidenciar o quanto a cantora foi bonita. Eu a conheci, pela TV, já no final da carreira quando, após um acidente automobilístico, DALVA ficou com uma cicatriz em pleno rosto; some-se a isso as alterações provocadas pelo excesso de álcool e a cantora, muito simpática, não me parecia bonita. É vendo as imagens reproduzidas por Adriana Esteves, que fica evidente o que o tempo comprometeu.

rainha do rádio coroação
Adriana Esteves como Dalva, A Rainha do Rádio

Rainha do Radio
Dalva na revista mais importante da música

Uma minissérie totalmente brasileira é o que começamos a ver nesta segunda. Significa que teremos muitos “barracos”, muito dramalhão mexicano, muita “dor de cotovelo”. Espero que a emissora não deixe de destacar os números musicais. O que vale em tudo o isso, o que realmente merece ficar para a história, é o extraordinário talento e a grande capacidade artística desses dois seres humanos. HERIVELTO, fruto de uma época, é o retrato do macho brasileiro com direito a escapadas, que entre uma aventura e outra, encontra um grande amor. DALVA DE OLIVEIRA, longe de ser submissa – e aqui vai mais um aspecto da vida dessa grande mulher – dá o troco e vai à forra. História boa de ver, gente boa pra gente admirar.

Este amor quase tragédia

Que me fez um grande mal

Felizmente essa comédia

Vai chegando ao seu final

Já paguei todos os pecados meus

O meu pranto já caiu demais

Só lhe peço, pelo amor de Deus

Deixe-me viver em paz… 

Até!

Notas Musicais:

Tudo Acabado – J. Piedade e Oswaldo Martins

Kalu – Humberto Teixeira

Há um Deus – Lupicínio Rodrigues

Fim de Comédia – Ataulfo Alves

(publicado originalmente no Papolog)