ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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A Achiropita de dentro

Agosto é tempo de festa no Bexiga. Aqui na Bela Vista a Achiropita é local de peregrinação e de visita obrigatória. Há quem busca as delícias da festa feita pela colônia italiana, com todos os quitutes que São Paulo herdou e, em vários itens, até mesmo superou os pratos da culinária dos antepassados. Há outros que buscam um encontro com Nossa Senhora da Achiropita, padroeira do bairro, mãe de todos nós. Moro próximo da igreja da Rua 13 de Maio e mais perto ainda da basílica de Nossa Senhora do Carmo. Nada como a mãe de Cristo para garantir a paz em nossas ruas e casas. Nesse aspecto, o velho Bexiga vai muito bem.

Durante a festa, que acontece em todos os finais de semana de Agosto, é difícil entrar na igreja, sempre lotada, e muito difícil ter calma e tranquilidade para observar a arquitetura, com seus arcos romanos, o teto que remete ao barroco, com uma planta cheia de sinuosidades, ou os detalhes da nave central abrigando os nichos com as imagens dos santos venerados pelos fieis. Assim, a  ideia neste post é mostrar um pouco da igreja para quem ainda não teve a oportunidade de visitá-la.

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Em dias de agosto, a Rua 13 de Maio só fica tranquila assim, como nas imagens acima, antes do início da festa. O ambiente fica mais alegre por conta da música italiana. Predominam as canções antigas, folclóricas, e os grandes sucessos da década de 1960, quando Gigliola Cinquetti e Gianni Morandi eram os maiores ídolos, junto com Rita Pavone, Mina, Pepino di Capri e tantos outros. Deixe as canções do lado de fora e entre, a Achiropita nos aguarda.

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A iluminação da nave é difusa, propiciando a penumbra tranquila que nos conduz ao silêncio e à contemplação. As pinturas no teto têm como função propiciar a união entre o céu e a terra. Através da igreja somos levados a contemplar o bem que Deus propiciará aos eleitos. Para não ficar viajando, é tradição fazer o fiel lembrar o motivo de estar ali, com várias frases escritas no teto, nos induzindo à oração. Ou seja, não viaje; reze!

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Festa da achiropita 2012

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Só mesmo em horas tranquilas para que possamos nos aproximar do altar principal e observar, nas capelas laterais, as belas pinturas com temas bíblicos. A Ceia de Emaús e o Batismo de Cristo estão entre os temas presentes. A disposição das pinturas, as molduras com temas geométricos orientais sugerem tapeçarias que valem a visita pela beleza e, principalmente, para que possamos olhar maiores detalhes da técnica utilizada. Na foto maior, percebam que a berlinda central está vazia. Na época da festa, a imagem principal vem para baixo, ficando mais próxima dos fiéis que oferecem flores e preces.

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Achiropita significa “não pintada por mãos humanas”. Diz a história que em uma gruta, na Calábria, em tempos remotos, a própria Virgem Maria teria pintado a imagem em um templo construído pelo Imperador Maurício. Os detalhes da história da santa podem ser conhecidos clicando aqui. A imagem acima, venerada pelos habitantes do bairro da Bela Vista foi baseada em cópia da pintura original, que está na Calábria.

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Fotos by Valdo Resende

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Antes de sair da igreja é bom dar mais uma olhada, de outro ângulo. Quando entramos não temos a mesma visão dos vitrais que estão nas portas principais. É com a luz que vem da rua que as pinturas ganham vida. E, manda o hábito, que aqueles que visitam a Igreja devem registrar a presença e levar um pouco da visita para todos. Resolvi reforçar o hábito. Não escrevi sobre fogaças, pizzas, polentas… Minha contribuição é esta: Um pouco da Achiropita vista de dentro. Que a santa abençoe a todos nós!

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Boa semana para todos

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Dezesseis quilômetros e um contêiner

Imagine que alguém te tira da tua casa e te coloca dezesseis quilômetros além. Por exemplo, seria como se me tirassem da Bela Vista, aqui em São Paulo, e me levassem para morar em Artur Alvim, na Zona Leste. Esses dezesseis quilômetros são a distância média entre o Maracanã e Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

O velho prédio e, ao fundo, parte do Maracanã
O velho prédio e, ao fundo, parte do Maracanã

(Veja outras fotos do local clicando aqui.)

Na capital fluminense estão desalojando os índios da chamada aldeia maracanã e colocando-os, provisoriamente, em contêineres (grifo meu), em algum lugar de Jacarepaguá.  A recepção no tal local não poderia ser das melhores:  “Os índios chegaram por volta das 11h. Uma hora depois uma forte chuva alagou o local. Usando rodos, eles tentavam retirar a água acumulada.” (Veja notícia completa aqui)

Coloco-me no lugar dessa gente e sinto o quanto seria ruim ficar distante de vizinhos, amigos, de todo um ambiente ao qual estou acostumado, tendo aqui adquirido inúmeros hábitos. E tudo por tramoias financeiras, especulação imobiliária e, o que é pior, pode ser um mero capricho de alguém. A Aldeia Maracanã (antigo Museu do Índio) cede lugar aos interesses em relação à Copa do Mundo. Fala-se em área de mobilidade exigida pela FIFA e na construção de um Museu Olímpico.

Seria muita ironia demolir um museu para construir outro. Para ser um museu olímpico careceríamos de maiores vitórias no certame que justificassem tal construção. E nem penso que seja o local ideal para um “Museu da Copa” pelo simples fato de que não se constroem monumentos para lembrar derrotas; afinal, sem mágoas, mas foi no Maracanã que perdemos a primeira Copa em terras tupiniquins.

“Área de mobilidade” é uma expressão bem mais interessante junto aos especuladores imobiliários. Mobilidade, no Rio de Janeiro, é um problema tão antigo quanto a famosa Avenida Brasil, que dá acesso à cidade com rara facilidade de trânsito aos que nela trafegam. Portanto, ter um espaço junto ao famoso estádio acrescido de “área de mobilidade” torna muito mais caro qualquer imóvel da região.

Pessoas mais cordatas dirão que é um caso para a justiça. No nosso país a justiça facilita muito a vida de quem tem poder, de quem tem dinheiro. De todas as ironias, a mais cruel é tratar índios como invasores, já que eles tomaram posse do local. Historicamente invadimos esta terra, matamos milhares de índios, escravizamos outro tanto, empurramos muitos para mata adentro e como somos bonzinhos, cristãos, criamos posteriormente a FUNAI para defender os interesses dessa gente. Agora, por conta da Copa do Mundo, qual o problema em desalojar algumas famílias e colocá-las em contêineres? O que são dezesseis quilômetros se considerarmos 513 anos de massacres?

Não sou militante das causas indígenas. Sou um cidadão brasileiro instalado em apartamento próprio, espaçoso e arejado. Penso no barulho da chuva caindo sobre um contêiner de zinco, tanto quanto receio o famoso sol carioca beirando aos 40 graus e, como é outono, posso esperar madrugadas geladas no terreno lamacento de Jacarepaguá. Isso é parte do meu triste Brasil.

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Uma semana de paz para todos.

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São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.

Catalonha para a páscoa!

Dany, personagem de Michael Quoist, dá algumas cenouras de presente para a irmã, no domingo de páscoa. Li o livro na adolescência (faz tempo!) e achei o presente estranhíssimo. O cenário do livro é o Havre, a cidade portuária francesa; o autor pouco escreve sobre as reações da garota ao ganhar o presente do irmão.

Temos por ai uma montanha de ovos de páscoa; disponíveis, de todos os tipos, por diferentes preços. É comum ouvir gente lamentando pelos preços, ou reclamando dos quilos que virão com o consumo de chocolate. Pensei nisso logo depois de receber um presente. Eu ganhei um pote com catalonha. Prontinha, temperadinha e com uns “tecos” de bacon, deixando a receita mais deliciosa.

Recebi a catalonha (da família do almeirão, conhecida por alguns como radicchio!) feliz da vida, como o meu primeiro presente de páscoa. De quebra, veio um delicioso doce de banana caseiro que nem esperei voltar para casa e iniciei o “ataque”.

Catalonha e doce caseiro de banana! E recordei a história de Dany e da irmã. Quem me presenteou, o fez com a consciência de estar me oferecendo algo de que realmente gosto. E é bom refletir que catalonha não é algo fácil de ser feito; tem que ser folha fresquinha, muito bem lavada. Depois tem que ferver a verdura para tirar o amargo e então, só ai, fazer a receita. Ou seja, alguém dispensou parte do precioso tempo para preparar uma salada e, desta, reservou um bocado para me presentear.

Estamos próximos da páscoa. É um absurdo o que o comércio faz com os preços das coisas. De um lado tem a publicidade reforçando o hábito, lembrando o costume e fazendo a boca de muita gente ficar cheia de água, com as imagens do delicioso chocolate. Há aqueles que não têm problemas financeiros e adquirem caixas e mais caixas de ovos de todos os tamanhos. Há outros, que aguardam o preço baixo com a proximidade do domingo. E há pessoas que, graças a Deus, presenteiam os amigos com algo que eles gostam muito, pouco se preocupando com o “costume”, a obrigação do presente de ocasião. Acelga,almeirão, alface, couve, agrião… Catalonha para a Páscoa! Ninguém é obrigado a seguir o que a propaganda sugere.

Bom, resta contar o “destino” da catalonha: moro no Bixiga e embora noite avançada, ainda encontrei pão fresquinho na padaria (Vantagens da Bela Vista!). Em casa, despejei o conteúdo do pote em um prato, aqueci e comi com pão. E enquanto comia, deliciado, fiquei pensando na Páscoa, nos amigos, na possibilidade de, ao invés de presentear com o óbvio, buscar fazer o outro feliz. Depois da catalonha, “matei” o doce de banana, pensando sempre que a melhor idéia é fazer o outro feliz.

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Até!

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Obs. Quem me presenteou é muito discreta. Respeito isso.

Mocidade Alegre é a campeã

Salve Jorge Amado! Parabéns, Mocidade Alegre

É fundamental não esquecer que carnaval é uma brincadeira. Perdendo esse caráter o carnaval torna-se algo, no mínimo, chato. Gostaria de refletir, começando por esclarecer que o concurso do Diário de São Paulo não tem nenhuma relação com o outro, promovido pela Liga Independente das Escolas de Samba. Na manhã de terça, muito antes da apuração do concurso oficial, o prêmio dado pelo jornal já apontava como campeã a Mocidade Alegre.

Sobre os fatos ocorridos na tarde dessa terça-feira, no Sambódromo, desejo que os culpados pela baderna e pela desordem sejam processados e que a justiça determine o que fazer com eles. Mas, acima de tudo, desejo que a Liga Independente das Escolas de Samba reveja seus métodos e critérios. E que cada sambista faça uma profunda e honesta reflexão sobre a própria postura dentro do carnaval.

Um aspecto: O que significa nota mínima oito? Todo estudante passa anos estudando para prestar um vestibular e nem por isso chega ao concurso com a nota mínima oito. Não seria justo que todo abnegado trabalhador brasileiro chegasse aos concursos municipais, estaduais ou federais com esse mesmo patamar? Oitenta por cento! Que psicólogos e estudiosos do ser humano esclareçam o que me parece ser incapacidade de submeter-se a julgamento público.

Como professor, verifico com frequência aquele comportamento paternalista que não aceita a nota baixa do filho, espelho e reflexo do próprio umbigo. Normalmente, o sambista – “pai” da comunidade – vem com o discurso de que o povo sofre e dá um duro danado para fazer o carnaval, que o esforço merece ser recompensado, como se as comunidades não entrassem no carnaval por vontade própria. Reconhecer esforço é uma coisa, dar nota para resultado insatisfatório é outra.

Há sempre alguém pronto para discutir a nota baixa, e nenhuma escola – até onde eu saiba – questionou algum dez recebido. Seria interessante ver alguém de dedo em riste, com toda a raiva do mundo, indagando: – Dê-me um motivo para esta nota dez, seu filho da mãe? A razão passa distante desses emocionados questionadores.

Muitas pessoas ficam irritadas quando contrariadas. Outras ficam violentas. A maioria é levada por uma emoção irracional. Todos nós temos justificativas para os próprios erros, mas nem por isso deixamos de sofrer as consequências das nossas ações, das nossas escolhas. Com uma ação coletiva – o trabalho de uma escola de samba – não é diferente. Vi todas as escolas e lamentei tudo o que me levou a excluir uma por uma. Com uma escola foi diferente. Justifiquei minha escolha, assinei e assim está publicado no Diário de São Paulo:

“A Mocidade Alegre apresentou um conjunto de alegorias que ilustram, complementam, esclarecem e enriquecem o enredo. O acabamento foi impecável e a utilização de materiais diversos transformou os carros em pequenas obras de arte. A coerência com o afro e a Bahia é o principal trunfo da escola, fazendo-a merecer o prêmio”.

A Mocidade Alegre avança para levar o campeonato

Meu afeto daria prêmios para as escolas onde amigos desfilaram. Adoro a Bela Vista, mas, sobretudo adoro o samba, adoro o carnaval, e reafirmando meu respeito e admiração por todas as agremiações que desfilaram no sambódromo, neste ano, as melhores alegorias estiveram na Mocidade Alegre. Junto com essas, toda uma série de outros fatores que me deram a certeza de ter tido o prazer de presenciar o desfile da melhor escola deste ano.

Mocidade Alegre, a melhor do carnaval de 2012!

Até mais.

Maria Dalmácia e Tueris Fustado, flores paulistanas

Morar na Avenida Paulista, no começo da década de 1980, tinha certo charme. Mesmo que este tal charme (segundo uma definição de quando eu era adolescente, charme é aquilo que tem as mulheres de seios grandes!) seja indefinível ou algo que esteja, ainda que tardiamente, no inconsciente coletivo.  Para quem era novo na cidade e não distinguia bairros, subúrbio, cidades satélites, a possibilidade de residir na Avenida Paulista era o máximo!

O Baronesa de Arari, as árvores do Trianon, em frente ao MASP

Pelas tramas do destino iríamos morar no Edifício Baronesa de Arari. Tudo de bom! O prédio fica na Avenida Paulista, esquina com a Rua Peixoto Gomide, com todo um lado voltado para o Parque Trianon e, de quebra, do outro lado da avenida está o MASP, o Museu de Arte de São Paulo. E isso é só um pequeno aspecto da geografia da região.

No Baronesa de Arari morou a lendária atriz Cacilda Becker com o marido, o também ator Walmor Chagas. Consta que lá foi o lar de Sérgio Cardoso, outro ator que entrou para a história do teatro nacional. Não bastasse essa trindade de semideuses do teatro, estão no histórico do edifício o pianista Pedrinho Mattar e Elke Maravilha; esta dando um toque pop ao ambiente.

Lógico que não tínhamos idéia dessas coisas. Assim como não sabíamos que o Baronesa de Arari foi o primeiro edifício residencial da avenida, e que herdou o nome de distinta nobre, D. Maria Dalmácia, da estirpe de indivíduos raros, os  ditos “paulistanos quatrocentões”. Pepê, minha amiga, conseguira alugar um apartamento com três quartos; com ela e outros dois amigos, dividiríamos a moradia na “ala nobre” do edifício, já que a outra, com quitinetes, era o “lado popular” do local.

Lados e cores distintas. Na parte clara, os apartamentos menores.

Quatro amigos somando forças; algo tipo “a força do proletariado” unida para morar bem na capital paulista. Nossa origem modesta ficou bem definida na chegada. Embora com destino à “ala nobre” subimos a Rua Augusta com um monte de cacarecos sobre um caminhão, onde Giba e eu ríamos muito, misturados a caixas, sacos e móveis. Na cabine, ao lado do motorista, as distintas damas. A Rua Augusta ainda era, para este que vos escreve, aquela das lojas para ricos e dos boys daquele rock tupiniquim de Hervé Cordovil:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora

Botei a turma toda do passeio pra fora

Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina

Parei a quatro dedos da vitrine

Hi, hi, Johnny…

Subimos lentamente com o velho caminhão. Mais pau de arara impossível! Não posso afirmar pelos outros, mas eu estava feliz. Já conhecia a avenida (quem passa por aqui sabe que a Paulista foi meu primeiro endereço na cidade) e voltar era muito bom. E não para uma pensão, mas para um apartamento enorme, espaçoso e, dito Baronesa, definitivamente um local nobre.

A decadência da aristocracia é uma coisa tão antiga que só eu não havia percebido que o fim já havia chegado inclusive naquele endereço da Avenida Paulista. Foi só descarregar a mobília, e levar para o elevador de serviço, para ouvir de uma moradora: – “Se eu fosse vocês não subiria por aí não; esse elevador caiu na semana passada!”.

Pronto. O edifício visto segundos antes como um castelo, virou cortiço. O grande cortiço, um “joga-chave”, pardieiro, uma favela vertical… Com muitos problemas exteriores e, interiormente, embora confortável, havia um problema tenebroso no apartamento. Um vazamento do banheiro do andar superior obrigava-nos a usar guarda-chuva em toda e qualquer utilização do vaso sanitário. Sem direito a reclamações, já que um processo em andamento ameaçava a interdição do prédio, o que ocorreu posteriormente.

Ficamos lá por um bom tempo, com várias configurações de moradores, permanecendo sempre juntos Beth, Pepe e Eu. No final do contrato já tínhamos a companhia de Claudio e fomos morar na Vila Mariana onde um monte de outras coisas foi acrescentado às nossas vidas.

Poderia contar outras histórias do Baronesa de Arari. Deixa para outra oportunidade. Há um livro sobre o edifício (José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas) e, neste momento, outros amigos moram por lá. Por enquanto, termino com uma dúvida: teria D. Maria Dalmácia, a Baronesa de Arari, conhecido Tueris Fustado, a menina que “desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa”?

Tueris Fustado é personagem que dá titulo ao romance de Octavio Cariello, Tueris, que será lançado no próximo dia 11, sábado, das 17h30 às 21h30 no Espaço Terracota. Avenida Lins de Vasconcelos, 1886. Reitero convite para o lançamento. Como o Martinelli, o Sampaio Moreira ou o Baronesa de Arari, o Tueris também é local de grandes histórias.

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Até mais!

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Em tempo, o Baronesa de Arari está firme e forte, longe de ser o local ruim que um dia foi. Os nomes de amigos, aqui citados com certa sutileza só serão revelados pelos próprios, caso queiram, nos comentários (o que me deixaria muito feliz).