Poleiro de pato é no chão

Imagem criada com IA

Um sururu sempre rolava naquele boteco da Lapa. O grupo de frequentadores era quase fixo, amigos e conhecidos não se importando com o final de costumeiros bate-bocas, às vezes levado às vias de fato. Juvêncio, chegado a buscar remédio na cachaça, tinha por hábito desabafar com quem estivesse a seu lado. Belmiro, sempre que percebia tal situação, passava por ele e sussurrava: “Pato!” Pronto, estava iniciada a peleja.

Juvêncio se achava todo pimpão, poderoso. “Pato é a mãe!”. Em seus devaneios traçava a mulherada do pedaço. Quando no espelho, via-se como galã de cinema. Gostava de fazer pose de cantor de tango; às vezes de boxeador ou, ainda, de bom moço, romântico. Dobrando os braços para ressaltar os músculos, estufando o peitoral, via-se sobretudo como um belo e garboso galo. Ele morava na Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro, no andar de cima de um sobrado, bem ao lado do boteco frequentado por sambistas, por homens em busca de mulheres e estas em busca de amores, fregueses e patos.

“Essa gente de samba!”, dizia Juvêncio com desprezo. A indisposição vinha principalmente por conta de Belmiro, um afamado compositor, sujeito elegante e refinado em seus ternos de linho branco. Alardeando ter borogodó e ser do balacobaco, pagava bebida para todo mundo quando tinha samba gravado por Araci de Almeida ou Carmen Miranda. Contam que teve uma paixão por Dalva de Oliveira e, por tudo isso, Juvêncio se perguntava o que um cara cheio das coisas faria naquele boteco de samba? O fato é que Belmiro o chamava de Pato. E ele odiava ser chamado de Pato, assim como detestava lembrar quando surgiu o apelido.

Juvêncio viera de São João do Meriti para trabalhar no comércio da Lapa quando conheceu Aurora. Mulher de quadril bamboleante e seios empinados, a moça deixou-se namorar pelo jovem que pensou ter encontrado nela um grande amor. Após meses da aparente paixão, a moça não deu a mínima por ter sido flagrada com um marinheiro de passagem pelo Rio de Janeiro. Trocou o amor de Juvêncio por vidros de perfume contrabandeado. Sobraria para ele lembrar a situação sempre que ouvisse a marchinha carnavalesca que, ironicamente, poderia ser encarada como profecia: “Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Aurora. Veja só que bom que era…”

O abandono de Aurora rendeu. Juvêncio bêbado, chorando no balcão, lamentando o fato. Em um desses dias de chororô, rolava uma roda de samba e Belmiro puxou uma marchinha, famosa na voz de Chico Alves, sendo acompanhado pelos animados participantes da roda.

Ai, ai, ai, o galo é que está com a razão
Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão…

Juvêncio achou que aquilo era para ele, ali, no chão dos abandonados. Um pato! Mesmo alcoolizado, o rapaz chamou o compositor pra briga. O segurança empurrou-os pra rua. Mais falação que briga, antes que a contenda estragasse a noite foram separados pela turma. Motivo da briga veio à tona, foi inevitável associar o sujeito ao apelido. Pato. Juvêncio tratou de bolar um jeito de calar a boca do bar.

Disposto a ir à luta, redescobriu-se vaidoso ao fazer a barba, cortar o cabelo. No espelho voltou a ver o galo que achava que era, aprumando-se para nova conquista. Sabia atrair uma mulher e, assim, a morena Aurora foi substituída por uma ruiva de idade indefinida, moradora do Rio Comprido, que trabalhava como copeira em Copacabana. Ele logo descobriu que a nova namorada fazia jus ao mito de que mulher ruiva tem um fogo só comparado à cor do cabelo. Após noites de intensa atividade, ele pensou ser já momento de levá-la ao boteco, mostrar para aqueles sambistas o galo em ação.

Gilda, a ruiva, tinha lá seu jeito de ser, sua forma de levar a vida. Não é por ser copeira que não filosofava. Cada namorado era sempre o um, o que o “um” não sabia é que havia o dois, o três, o quatro… Namorando um rapaz em cada esquina, se entregava com paixão e chegado o momento cantarolava para todos eles:

...Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor a ilusão do amor

Quando o casal entrou no Boteco, foi recebido efusivamente por Belmiro que, em andanças por Copacabana, já havia ido até ao Rio Comprido conhecer os lençóis de Gilda. Com desenvoltura, a moça saudou o encontro e, aproveitando a situação, esclareceu para Juvêncio sua forma de encarar a vida, o amor. Mostrando desenvoltura e afinação, juntou-se aos instrumentistas e cantou “Nada Além”, a música que tinha por filosofia de vida.

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão.

Naquela mesma noite, enquanto Gilda mostrava seus talentos aos sambistas da Lapa, Juvêncio bebia e, atônito, conhecia a liberdade da moça que, em momento de descanso da cantoria, segredou a ele gostar de fazer a dois, a três. O que ele achava de fazer uma brincadeira, ela, ele e o rapaz do cavaquinho, por quem ela revelou nascente tesão? Ele fugiu, escandalizado, deixando-a no bar.

Semanas depois, encheu a cara em estabelecimento vizinho para tomar coragem de voltar ao bar. Foi recebido por conhecidos e por Belmiro, que lembrou a ele o que já era sabido: poleiro de pato é no chão. Nesse dia não houve briga; o abandonado muito bêbado preferiu chorar as mágoas no ombro do inimigo. Destino triste esse que só colocava mulheres traiçoeiras na vida daquele cidadão. Será que era castigo por ele ter abandonado Amélia?

Muito jovem, Juvêncio segredou a Belmiro, ele queria conhecer os prazeres da vida. Amélia, jovem e bonita vizinha, facilitou a primeira experiência. Entusiasmado com os prazeres da convivência doméstica ele saiu da casa dos pais e foi morar com a moça.  De repente a libido acabou e ele, já se sentindo galo, queria mais. Tinha toda a vida e a cidade grande diante de si. Deixou a pacata São João do Meriti e veio para o Rio de Janeiro para, sabia agora, ser traído por uma, dividido com muitos pela outra.

…Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher…

Depois daquele desabafo não falou mais com Belmiro. Quando bêbado se lamentava com quem estivesse a seu lado no balcão. Sóbrio voltava ao espelho e, aprumado, saia pra vida, para buscar novos amores. A lista cresceu. Na roda de samba virou piada. Tantas namoradas sem segurar nenhuma? Volta e meia corneado ou simplesmente abandonado, amigavelmente dispensado, violentamente trocado… Belmiro sentenciava: – não é galo, é pato!

Uma noite Amélia reapareceu radiante. Madura ganhara formas fartas, bem proporcionadas. Portava joias, sapatos e bolsa de couro legítimo e a roupa era coisa para gente de fino trato. O boteco estranhou aquela grã-fina sempre de braço dado com um sujeito que só podia ser doutor. Terno bem cortado, cabelo engomado, disposto a beber e comer do bom e do melhor.  Ninguém entendeu o que fazia o casal passeando pela Lapa. O boteco era bom, mas a desconfiança cresceu quando Amélia voltou usando decotes ousados, fendas de saia que revelavam coxas perfeitas e, novidade para o local, calças compridas, apertadas, evidenciando a generosidade do tempo e da natureza.

Juvêncio conseguiu guardar por várias semanas ser aquela a Amélia de São João do Meriti, que ele conhecera e abandonara na juventude. Em dado momento ela começou a chegar sozinha no local, o companheiro aparecendo mais tarde. Ele notou que ela lhe lançava olhares, esboçava sorrisos. Ele, certo de que decotes e pernas de fora eram pra si, tomou coragem e foi atrás de uma alcoviteira a quem pagou para levar um bilhete marcando dia e hora para um encontro. Cansado de tantas aventuras mal sucedidas iria reconquistar Amélia.

Não demorou para que ela respondesse detalhando dia, hora e local. A porta estaria aberta. Não carecia de chamar a atenção dos vizinhos do mesmo andar. Ele caprichou diante do espelho, vestiu o melhor terno e, perfumado, o cabelo engomado, reconheceu-se o galo de outrora, do primeiro amor.

No local combinado, foi direto ao quarto. Na penumbra encontrou a antiga namorada nos braços de um homem. Amélia disse apenas, “meu filho, que se há de fazer?”. Ela acendeu a luz e ele reconheceu Belmiro, gargalhando com a situação. E ela, golpe de misericórdia, afastou os lençóis e nua pediu ao amante: Como é mesmo a música, querido? Belmiro acentuou cada palavra, para deleite de Amélia e desespero de Juvêncio: “… Pois diz ele que o terreiro é pro galo vadiar. Pato se quiser poleiro, peça à pata pra arranjar. Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão”.

Depois dessa última noite Juvêncio nunca mais foi visto na Lapa.

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Nota do autor:

Em meados de 2008, um site chamado Papolog foi pioneiro nos blogs de músicos no Brasil. Uma das maneiras de apresentar compositores da primeira metade do século XX ao público da Internet foi criar histórias onde, através da FICÇÃO, contextualizávamos as músicas e seus criadores. Assim, pessoas históricas citadas contextualizam o tema. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Dezenas de contos foram criados com a mesma finalidade. O destaque do conto acima é para as músicas do múltiplo Mário Lago. Compositor, ator e, entre outras atividades, advogado que encantou todos nós, Mário pode ser visto em novelas nos canais por assinatura. Nascido em 1911 e falecido em 2002, foi autor das canções citadas no conto acima, relacionadas a seguir e disponíveis na rede.

Aurora (Mário Lago e Roberto Roberti)

Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)

Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)

Poleiro de Pato é no chão (Mário Lago e Rubens Soares)

Outros versos para uma velha canção

Cantei no Pará… em O casamento do Pará com o Maranhão.

A letra de um samba de 1930, autoria de Vicente Paiva e Anibal Cruz tem esses versos na música gravada por Carmen Miranda: “Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…”. Numa tacada são quatro citações de quatro regiões brasileiras que, penso, deveriam estar entre possíveis destinos de todos nós. Longe de um ufanismo fora de hora, a questão mesmo é a beleza e a diversidade ambiental da nossa terra que, infelizmente, valorizamos pouco, conhecemos menos ainda e, talvez por isso, mal cuidamos. Essa introdução se justifica no fato de a Amazônia estar em foco neste momento.

Em Belém, a capital do Pará, se discute na Cúpula da Amazônia os problemas e o futuro da região visada pelo mundo inteiro. Uma mega floresta, imensos recursos hídricos, outro tanto de possibilidades em extração mineral, uma rica fauna… E, da maior importância, a presença dos donos da terra, os povos originários em constante ameaça pela ganância dos ditos civilizados. Há que se cuidar da Amazônia! Para além das nossas fronteiras, toda a Amazônia. E para o desenvolvimento sustentável da região é preciso considerar a estrutura necessária para que seus 50 milhões de habitantes tenham uma vida digna.

Quando penso na Amazônia me vem outras regiões, outros ecossistemas. Penso nos Pampas gaúchos, no Pantanal mato-grossense, na Caatinga nordestina, no Cerrado do centro-oeste e, guardando milhares de quilômetros da nossa costa, a diversa paisagem litorânea da Mata Atlântica, além das nossas belíssimas praias. Tanta riqueza merece pelo menos uma visitinha ao longo da vida.  O planeta é maravilhoso e é lícito querer conhecer o deserto do Saara, as montanhas do Himalaia, descer o Danúbio, caminhar pela Muralha da China. Mas, seria possível incluir nos roteiros de futuras férias esse Brasil, rico e diverso? Antes que ele acabe.

Parece exagero afirmar o risco do fim. Mas não é. Uma cidade como São Paulo, para exemplificar, não conta com um único córrego despoluído. Esses mesmos córregos que contribuíram para poluir os principais rios que cortam a capital, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí. As margens plácidas do Ipiranga, cantadas cotidianamente em nosso hino, ficaram na história. E assim como o riacho histórico, carece cuidar para que no futuro não estejam somente na história nossa fauna e flora. Se o caro leitor acha que estou exagerando solicito ao distinto que enumere quantos pés de pau-brasil já teve oportunidade de ver? Poderia colocar nessa solicitação também alguns outros “pés”: Jequitibá-branco, Ipê, Araucária, Mogno… Já perdemos tanta coisa!

Nossa diversidade sofre por ações de gente ignorante e inconsequente, algo que herdamos de quando o país foi invadido pelos portugueses. O desmatamento desenfreado começou com a exploração do pau-brasil, assim como a monocultura que empobrece a terra teve início com os canaviais do período colonial. A exploração mineral, desde o ouro encontrado em Minas Gerais, segue rumo a outros países que enriquecem seus cofres e, por exemplo, com o ferro, importam o minério para nos vender produtos industrializados. Hoje sofremos o avanço indiscriminado do tal Agro que repete erros já conhecidos. Se as pessoas buscassem o motivo de a China não plantar soja descobriria que o cultivo indiscriminado não paga o prejuízo que temos e teremos por conta da água potável necessária para tal cultivo. Quanto ao desmatamento e às queimadas, o calor vigente responde já sobre as consequências que, a ciência alerta, irão piorar.

Para tudo há conserto, diziam nossos avós. Sai caro! Além do que já foi gasto para despoluir o Tietê, o governo de São Paulo promete investir R$ 5,6 bilhões para despoluir o rio. Essa promessa vem de outros governos e nada nos garante que será cumprida. Assim, deve levar algumas décadas para que paulistanos possam voltar a pescar, navegar e nadar em seus rios. Quanto nos custaria recuperar a Mata Atlântica? E se for necessário recuperar o Cerrado, o Pantanal, a floresta Amazônica? Haja imposto para tanto! E resta saber se haverá vida e saúde para isso.

“Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…” são os versos da canção e sugiro outros mais: nos deliciarmos com as cachaças das montanhas de Minas, o sol de Ipanema e, se a gente fizer tudo direitinho com nosso país, poderemos até caminhar novamente sob a garoa paulistana. Mais, muito mais! Dançar com as prendas do sul e sambar o samba de roda do recôncavo baiano. Comer arroz com pequi em Goiás, arroz de cuxá ouvindo os tambores de crioula do Maranhão, arroz de carreteiro no Pantanal… Arrematar tudo com uma caldeirada de tucunaré com a paçoca de Tocantins. E para que toda essa possível festa tenha razão de ser é necessário que cada região esteja bem cuidada, inteira, nos propiciando o que há de melhor.

Nas próximas férias, que tal programar conhecer ou visitar uma das nossas reservas ambientais? Enquanto as férias não chegam, que tal nos mantermos alertas para agir em prol da diversidade brasileira? Um apoio necessário para que esse país “lindo e trigueiro” continue sendo abençoado por Deus.

E lá se foi Astrud!

Às vezes é bom parar e fazer uma indagação básica sobre os reais motivos de certas coisas como, por exemplo, o Brasil pouco conhecer Astrud Gilberto, a cantora falecida aos 83 anos lá longe, nos EUA, em 5 de junho passado. É bem verdade que as velhas gerações sabem que ela foi casada com João Gilberto. Os apaixonados por Bossa Nova sabem que é dela a voz da primeira gravação da música Garota de Ipanema em inglês. Um estrondo mundial! Mas, parece que fica nisso.

Baiana de nascimento, Astrud Gilberto continuou com o sobrenome do marido famoso, após poucos anos de casamento. Um marido “legal” que excluiu o nome da moça nos créditos do disco de 1964 que tornou a canção, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ,a segunda música mais gravada do mundo. Astrud puxou a onda e ganhou o Grammy Award lá, debaixo do nariz das americanas. Não foi o primeiro, nem o único. A carreira de Astrud tinha tudo para ficar no primeiro disco, já que para Stan Getz, o cara que a acompanha em Garota de Ipanema, ela era apenas uma dona de casa… Não se sabe bem o que uma dona de casa estaria fazendo dentro de um estúdio, exceto para ser vítima de machismo. Já a cantora, seguiu em frente.

Dos dezenove álbuns que compõem a discografia da cantora, fora as participações como convidada em faixas de outros discos, pouquíssimo se ouviu dela no Brasil. Se foi difícil na era do disco físico, pelo menos agora podemos ter acesso a doce voz da cantora e compositora brasileira. Vale a pena ouvir. E vale a pena se perguntar: por que temos a mania de não valorizar nossos artistas, principalmente os que fazem sucesso no exterior? Aconteceu com Carmen Miranda, mas também é algo que acontece com Joyce Moreno, que canta mais no Japão do que aqui, na terrinha. O Trio Esperança, aquele da Jovem Guarda, gravou CDs incríveis na França e, por aqui, ninguém conhece esse trabalho. E por vamos nós e vão nossos artistas.

O triste é sermos levados pela indústria, impondo-nos gente medíocre, músicas de gosto para lá de duvidoso, mas com apelo fácil e, portanto, atingindo o público.  Um grande “sucesso” musical passa primeiro pelo pagamento de grana para que o “artista” apareça na televisão, sem mais nem menos, com espaço para apresentar duas, três, ou mais canções. Esses mesmos, que compram sucessos em “fábricas” onde um reduzido vocabulário incita ao álcool enquanto lamenta dores de corno. As cervejas adoram e patrocinam. Para que pensar, se beber é mais fácil?

Certamente essa gente de sucesso das grandes festas e feiras não é responsável pela nossa desatenção para com artistas nacionais que fazem carreira no estrangeiro. Com certeza não é problema que pare o país. Todavia, seria bom a gente se perguntar os motivos de idolatrarmos tanto os estrangeiros e, quando um dos nossos faz sucesso por lá, por aqui nem os iguais – aqui, estou explicitando os baianos – costumam aplaudir. Uma questão incômoda. Cantores e compositores baianos aclamam com justiça João Gilberto, mas colocam outros, como Astrud, num estranho limbo.

Lá se foi Astrud! Longe do Brasil. Aclamada pela mídia de todo o planeta, que fez questão de lembrar que a moça recebeu míseros 120,00 dólares pela gravação de Girl from Ipanema. O mínimo que o sindicato americano permitia a um profissional do setor. Todavia permanecerá lembrada pela primeira canção e por outras, como Fly me to the moon, Berimbau, A Certain Sadness, Ponteio e, entre dezenas de gravações competentes, uma deliciosa versão de A Banda, de Chico Buarque (Parade, na versão cantada pela cantora). Insisto: Vale a pena ouvir!

Noites de Ets e de outras visitas

Detalhe de Hector and Andromache de G. de Chirico

Não foi a primeira vez que se teve notícia desse tipo de acontecimento. Toda vez que o resultado político desagrada certo tipo de gente os Ets aparecem. É só procurar que os relatos são inúmeros e as aparições de luzes em movimento nos céus do Rio Grande do Sul não foram as primeiras. Voando a noite sobre Porto Alegre, por dias consecutivos pilotos em serviço informaram comandos terrestres sobre diversas aparições de objetos luminosos não identificados.

Tia Ademilde soube pelo grupo do Zap, mistura de família, vizinhança, vendedoras de perfumes e oportunistas de várias possibilidades, entre essas as políticas. “Os Ets chegaram. Não deixarão Lula assumir. Estamos salvos!” A notícia veio acompanhada de relatos de visitas anteriores durante eleições americanas, guerras provocadas por europeus e outros tais. Junto aos assuntos veio um, tenebroso: Vieram para destruir o planeta. Até Nostradamus previu!”. O fim do mundo bateu fundo para a tia. Nem Lula nem ela veriam 2023!

Próxima dos 70, corpinho de 50, Ademilde tem se ressentido com a vida. Viu chegar a idade cuidando de pais, irmãos, sobrinhos, amigos e foi uma luta insana por liberdade de ir e vir, namorar, ser feliz. Quando se viu em condições de mandar seu mundinho às favas veio a pandemia. Mais dois anos de reclusão quando viu-se morando só, os últimos dependentes levados pela doença que, dizia o grupo do zap, era invenção da televisão. O que a fez aguentar o tranco foi o lero-lero da conversinha virtual cotidiana através do que mantinha contato com dezenas de pessoas. Entre essas um viúvo que Ademilde, tomando coragem em noite triste, chamou para uma conversa por vídeo. O papo terminou em safadezas inconfessáveis, mas permitidas para gente adulta.

Se o mundo estava para ser dizimado por Ets, só restava à tia aproveitar. Tomou três doses de conhaque para tomar coragem e chamou Lázaro, o viúvo, indo direto ao ponto: “Se o mundo vai ser destruído pelos Ets é melhor a gente aproveitar. Venha! Estou te esperando”. Lazinho estava mais para calmaria do que para noites calientes. Tentou argumentar com Ademilde, lembrando a música de Assis Valente sobre o fim do mundo na voz de Carmen Miranda.  Aquilo não seria a “conversa mole” da canção? A tia, ansiosa, gaguejou ao argumentar usando Nostradamus e, convicta, brincou com um “nostransamos” antes de morrer. “Venha logo!”

Lazinho passou na farmácia e, mediante o preço do Viagra, desgraçou o governo por “armar” seletivamente a masculinidade necessitada do estimulante. Somente militar carece do estimulante? Absurdo! Escondeu o preço do prazer de Ademilde e engoliu o comprimido antes de tocar a campainha, sendo recebido com o que a tia podia mostrar, um enorme decote e saia muito curta. A mulher notou o olhar de aprovação do convidado e mentalmente agradeceu à Hebe Camargo, de quem aprendeu uma velha máxima: só mostre o que está bonito! Ofereceu um drink para o convidado.

Foi o primeiro encontro presencial entre o casal. O viúvo, não tão alcoolizado quanto a anfitriã, observou a casa, elogiou a decoração, perguntou sobre fotografias expostas. Ele precisava de um tempinho para que o comprimido fizesse efeito e pediu licença para dar uma olhada em um dos grupos do zap parecendo chamá-lo. Era uma gravação com mensagem de um amigo petista do viúvo, preocupado em desfazer mentiras circulantes: “-Lazaro, tudo bem? Você não caiu nessa de disco voador em Porto Alegre, né! São reflexos de luzes em satélites. Deu no jornal. Nada vai acontecer com Ets”.

Acreditei nessa conversa mole

De que o mundo iria se acabar

E fui tratando de me despedir

Fui tratando bem depressa

de aproveitar…

O casal ouviu a notícia feito balde de água fria. Não tinham mais motivos para possíveis safadezas de fim de mundo. A Tia Ademilde não se conteve: “Malditos Ets! Não servem para merda nenhuma”. Lazinho sentiu o efeito do remédio movimentar suas calças e a situação o excitou mais ainda. “Como assim, não servem, Ademildinha! Veja, olha aqui como estou!”. E os dois embarcaram na galáxia do prazer, um fazendo ao outro ver estrelas, discos voadores, satélites, Ets…

Dia seguinte, antes mesmo que fizessem promessas de mais noites de fim de mundo veio outro desmentido do desmentido pelo mesmo grupo. O mundo não iria acabar, mas estava garantida uma troca de corpos. Lula não iria assumir! Os Ets colocariam outro no corpo do presidente eleito. Ademilde, feliz e satisfeita, gostou dessa ideia de entrar no corpo, colocar coisas no corpo, trocar, compartilhar, ser feliz. Marcou com Lázaro futuros e sigilosos rounds, pois perante os amigos do grupo de zap ela insistia em manter o que chamam de decoro, recato. Afinal, são todas pessoas de bem. Família!

Tem sido assim desde então. A tia não entrou nessa de enviar código Morse para Ets com celular ligado sobre o cocuruto. Prefere chamar Lazinho para papos além do Zap. O último dilema do grupo virtual veio com a Copa do Mundo e as viagens luxuosas ao Catar de alguns enquanto outros enfrentam tempestades e banheiros químicos entupidos. Ademilde e Lazinho, sem remorsos, permanecem quentinhos. Seja no recôndito do lar, via vídeo, seja presencialmente, sob as cobertas. Vivem noites felizes e cheias de ação.

Uma Estreia em Sapopemba

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Dia 12 próximo vamos estrear UM PRESENTE PARA RAMIRO em Sapopemba. São Paulo é uma cidade imensa e, por exemplo, só estive uma única vez em Jaçanã, nunca estive no bairro Cangaíba e o Grajaú continua sendo, na minha cabeça, citação de canção interpretada por Carmen Miranda. Não conheço o Sapopemba e lá vou eu, certamente “com a roupa encharcada, a alma repleta de chão”.

Eu estava com 26 anos quando Milton Nascimento gravou Nos Bailes da Vida, a belíssima canção feita em parceria com Fernando Brant. Tateando profissionalmente eu tinha um imenso desejo: seguir firme no propósito de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.  Havia começado assim, lá em Uberaba, com o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, quando comecei a fazer teatro. Meu primeiro palco foram mesas encostadas umas nas outras e, tempos depois, percorríamos os bairros da cidade no Circo do Povo.  Depois vim para Santo André, no ABC, e o destino quis que meu primeiro trabalho fosse em palco e plateia improvisados na Vila Luzita.

Minha trajetória teatral tem estreias incomuns se considerarmos a carreira de autores e diretores nacionais. Sapopemba entra no capítulo em que já se encontram outras localidades.

Castanhal, no Pará, fica a 68 quilômetros da capital, Belém. E foi lá a estreia de VAI QUE É BOM, O CASAMENTO DO PARÁ COM O MARANHÃO, peça que fez extensa temporada em cidades dos dois estados do título.

Prata, no Pontal do Triângulo Mineiro, foi a cidade que recebeu a estreia de “O ATAQUE DOS TITANOSSAUROS”, abrindo a série de estreias do Arte Na Comunidade 2, com textos que escrevi, dirigindo montagens também em Canápolis, Ituiutaba e Monte Alegre de Minas.

Do litoral guardo com carinho um local aparentemente inusitado, a Casa de Frontaria Azulejada, onde estreamos “NENÊ CAMBUQUIRA, UM MINEIRO EM SANTOS” e depois fomos para praças públicas e escolas dos municípios de Praia Grande, Guarujá, São Vicente, Cubatão e, claro, a própria Santos. Em cada cidade uma estreia, um espetáculo diferente.

Pará, Maranhão, Minas Gerais, Baixada Santista, Vale do Paraíba… Sempre com Sonia Kavantan! Em projetos como o Arte na Comunidade há uma viagem preliminar, onde fazemos reconhecimento básico dos locais onde poderão ocorrer nossas apresentações. Com Sonia já estive em uma pequena cidade onde, sem restaurante, viajamos 50 quilômetros para um simples almoço. De outra feita, recordo a estradinha entre a linha de trem e o Rio Paraíba, uma ponte sobre o rio e, no outro lado, um salão onde encerraríamos o nosso trabalho na região. As estreias, no Vale do Paraíba, ocorreram em salas de aula das cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz.

São muitos os teatros na região central da cidade e na Bela Vista, onde moro, há quantidade suficiente para que alguns entusiastas a chamem de Broadway Paulistana. Tendo já me apresentado na vizinhança, nunca estreei no Bixiga. Sabe-se lá o que nos reserva o futuro, por enquanto nosso destino é a Fábrica de Cultura de Sapopemba (R. Augustin Luberti, 300 – Fazenda da Juta, São Paulo – SP).

Sonia Kavantan, ao que tudo indica, não pensa em parar e muito menos eu. Para onde iremos da próxima vez? Deixa a resposta para depois. Toda nossa energia agora vai para Sapopemba! Para lá irão Rogério Barsan e Conrado Sardinha, com quem já dividimos outras praças e palcos e, também, Roberto Arduin, Neusa de Souza e Isadora Petrin, novos companheiros de jornada. Em Sapopemba cantaremos canções de Flávio Monteiro, que começou conosco trabalhando uma canção de Milton Nascimento, esse Milton que não me sai da cabeça à cada Sapopemba da minha vida: “Se foi assim, assim será, cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar”.

Até mais!

SERVIÇO:

“Um Presente Para Ramiro” será apresentado na Fábrica de Cultura  Sapopemba, dia 12 de outubro, às 16h30. ““Ramiro, ao completar 12 anos, aprende , com a ajuda da família, que para realizar os desejos e necessidades é necessário organização e planejamento. Com muito humor e com ajuda da imaginação e da tecnologia o garoto viaja no tempo e tem um aniversário bem diferente”. Classificação livre. Entrada Franca. 290 ingressos serão distribuidos gratuitamente uma hora antes do evento. Patrocinado pela Visa, “Um Presente Para Ramiro” é uma realização da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

Braguinha, Pra Cantar no Carnaval

braguinha

Em tempos de sambas de enredo longos, complicados, nada melhor do que lembrar as marchas que, entra ano e sai ano, são a alegria dos foliões. Compositores, carnavalescos e dirigentes de escolas de samba deveriam atentar para o carnaval de rua voltando com tudo até em São Paulo. Sempre com alegria e músicas que encantam e alegram a festa.

Um bom carnaval carece de gente bamba e entre os bambas há um compositor dos bons: JOÃO DE BARRO, o BRAGUINHA (CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA – 1907/2006). Quem nunca cantou uma marchinha carnavalesca de Braguinha?

“Yes, nós temos bananas

Bananas pra dar e vender

Bananas, menina, têm vitamina

Banana engorda e faz crescer…”(1)

Descomplicado. Próximo de tudo o que é popular. Este é BRAGUINHA. Nada de grandes malabarismos temáticos; sem pretensões de sociólogo ou antropólogo. É carnaval, é alegria, uma brincadeira para todo cidadão.

“Ô balancê, balancê

Quero dançar com você

Entra na roda, morena, pra ver

O balancê, balancê…” (2)

gal-e-carmen
Gal Costa e Carmen Miranda, intérpretes de Balancê.

A música de BRAGUINHA é marota, essa palavra meio esquecida em tempos difíceis como o nosso. O compositor encanta pela simplicidade, por uma sensualidade suave, brejeira, que permite o galanteio (atitude também meio perdida nas baladas contemporâneas) com a elegância do indivíduo de bem com a vida.

“Lourinha! Lourinha!

Dos olhos claros de cristal

Desta vez em vez da moreninha

Serás a rainha do meu carnaval…” (3)

Nossos carnavalescos (os “donos” dos temas das escolas, cujas sugestões são transformadas em sambas de enredo) adoram situações exóticas, diferentes, levando as nossas escolas a grandes viagens. BRAGUINHA, sempre descomplicado, mas com uma eficiência invejável, levou-nos para a Martinica, imortalizando uma tal Chiquita (4) e transportou-nos para as Touradas em Madri com aventura e  muito humor. Sem muito lero-lero.

“… Eu conheci uma espanhola

Natural da Catalunha

Queria que eu tocasse castanhola

Que pegasse touro à unha…” (5)

Poucos e eficientes versos, música inspirada e a alegria está garantida. PIRATA DA PERNA DE PAU (6) e PIRULITO (7) estão entre as composições de BRAGUINHA, ainda presentes nos carnavais atuais, onde o povo canta e dança sem a busca desesperada do primeiro lugar dos integrantes de escolas de samba.

É bom frisar que gosto muito de escola de samba. Quando não estou na arquibancada, nem na “passarela”, fico horas frente à TV vendo os desfiles (e me irritando com as transmissões mal feitas!). Sinto falta de bons sambas-enredos. Hoje em dia, via de regra, os sambas de enredo são cantados apenas por integrantes das escolas e raramente vão além do carnaval. Raras exceções, os sambas das grandes escolas são músicas “consumidas” e logo substituídas pelo tema do próximo ano.

Acredito que um caminho para o carnaval é beber nos grandes mestres. Música simples, com letras brejeiras, alegres, como as de BRAGUINHA e seus parceiros, destaque especial para Alberto Ribeiro e Noel Rosa.

O bom de carnaval é a brincadeira, é cantar e dançar ao som de uma boa música. Que tal pesquisar, lembrar e cantar nossos grandes mestres? João de Barro, o Braguinha, é o autor de Carinhoso (com Pixinguinha), fez a versão de Luzes da Ribalta (Charles Chaplin) totalizando cerca de 400 músicas gravadas. Assim, sem mais, vamos concluindo este post com uma das mais belas músicas do carnaval brasileiro:

A estrela Dalva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor… (8)

Até!

Notas :

(1) Yes, nós temos bananas – João de Barro/Alberto Ribeiro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(2 )Balancê – João de Barro/Alberto Ribeiro (1937. Gravação original de CARMEN MIRANDA, sucesso também no carnaval de 1980 na voz de GAL COSTA).

(3)Linda Lourinha – João de Barro.(1934. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

(4) Chiquita Bacana – João de Barro/Alberto Ribeiro (1949. Gravação original de EMILINHA BORBA).

(5) Touradas em Madri – João de Barro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(6) Pirata da Perna de Pau – João de Barro (1947. Gravação original de NUNO ROLAND).

(7) Pirulito – João de Barro/Alberto Ribeiro (1939. Gravação original de NILTON PAZ e EMILINHA BORBA).

(8) Pastorinhas – João de Barro/Noel Rosa (1938. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

Mário Lago, o “número um” na Mancha Verde

Mário Lago
“Não guardo frios rancores, pois entre os seus mil amores, eu sou o número 1”

Os outros são grandes, mas Mário Lago é o “número um”. Entre todos os artistas homenageados no desfile das escolas de samba de São Paulo no carnaval deste ano, a Mancha Verde vem com uma fera, “Mário Lago, o homem do século XX”. Um nome fundamental na cultura popular brasileira que passou pela música, pelo teatro, o rádio, o cinema, a televisão e deixou, de quebra, algumas criações literárias que são fundamentais para a memória brasileira.

Na televisão Mário Lago foi ator de novelas memoráveis como “O Casarão” e “Dancing Days”, tendo sido premiado nas duas produções da Rede Globo. Também foi ator em um dos marcos da cinematografia nacional: “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Entre grandes sucessos radiofônicos, foi narrador da novela “O Direito de Nascer”, mega sucesso da Rádio Nacional, em 1951. Foi o primeiro autor a colocar o samba nos palcos do nosso teatro; foi no teatro que conheceu Carmen Miranda e esta, gravando “Aurora”, tornou Mário Lago um compositor mundialmente conhecido.

Além da música “Aurora”, Mario Lago está no repertório dos maiores intérpretes brasileiros com canções sempre lembradas e que, tudo indica, permanecerão por muito tempo na boca do povo: “Ai, que saudades da Amélia”, “Número Um”, “Nada além”, “Atire a primeira pedra…” são resultado de uma carreira vitoriosa, ao lado de parceiros notáveis como Custódio Mesquita, Ataulfo Alves e Benedito Lacerda.

Tenho uma enorme simpatia para com Mário Lago. Lembro-me dele em cena, com o ar de sabedoria que o tempo deu ao homem e ao artista. A vida desse homem é permeada por lutas políticas; entre essas, brigou como poucos pela classe artística. Entre as consequências de uma personalidade tão forte estão algumas passagens pela prisão, além de perseguição política. Gosto do humor desse compositor, para quem escrevi um post anterior, com o título de uma de suas músicas divertidas: “Poleiro de pato é no chão”.

Um desfile tendo Mário Lago como tema oferece mil possibilidades. A Mancha Verde está com um samba feito por oito compositores:  Turko, Maradona, Didi, Ferracini, Fabiano Sorriso, Jorginho, Paulinho Miranda e Tucuruvi Mancha. O intérprete é Freddy Viana. No samba de enredo a escola tenta uma síntese da vida desse artista multimídia, tão grande quanto o carnaval, que pode ser ouvido integralmente aqui. Tomara que a escola faça um carnaval vitorioso, tornando-se uma “Mancha Verde” na história de Mário Lago.

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Até mais!

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