É dureza, João!

Paulo Freire e Oswaldo Cruz, ministros de Lula…

O resultado das eleições está aí e, ainda hoje, ouvi dizer que o Lula deu a Amazônia de presente para a França e, por isso, deverá cair antes de assumir a presidência. Não sei se o indivíduo leu, ou ouviu dizer. A “informação” não tem respaldo na imprensa nacional e meu caro interlocutor não deve atinar para o significado de um pedido de cidadania feito por parte da prole do atual mandatário. Esse pedido sim, está no noticiário.

Pareceu papo de maluco: eu mandei uma das piadas do momento, a da nomeação de Paulo Freire para o ministério da Educação e, sem surpresa, notei que o jovem rapaz não tem noção de quem seja o ilustre finado. A maluquice continuou ao chegar em casa e lendo o relato de uma mineira (logo de Minas!) que planeja ir para Portugal por indignação pela eleição de Lula. A jornalista assinalou, em oito notas de rodapé, os equívocos e a informação falsa estacionada na cabeça da minha conterrânea.

Não consigo precisar o início exato da polarização já que, entre possíveis exemplos, a síndrome do medo do comunismo antecede ao PT. E nem é certo que ela irá terminar algum dia. O que é passível de punição legal será reprimido, mas alguns ódios deverão sobreviver no obscuro de alguns humanos. O que me aflige e, com certeza também a outros, é antever como sairemos dessa situação em que novas identidades vieram à tona, quando foram reveladas algumas características nada agradáveis de parte da nossa gente.

Legislar com dureza sobre problemas como xenofobia, misoginia ou homofobia, entre outros, não esconderá o fato de que há pessoas entre nós com um grau de preconceitos muito superiores ao que “tínhamos conhecimento”, nos fazendo questionar a lenda do brasileiro cordial.  Nada esconderá que há entre nós um grau de endurecimento tão grande que os 688 mil mortos pela COVID não pesaram no resultado das eleições, mesmo após a CPI que escancarou os problemas derivados da atual gestão em relação à pandemia.

No Brasil, a ciência é colocada em xeque, o que é mais um exemplo dos grandes problemas que temos: um país com cidadãos acima da ciência. Por outro viés, a religião majoritária atende aos dois lados da polarização, evidenciando-se um Deus brasileiríssimo que atende interesses conforme o intérprete, ou mandante! Sobre ciência e religião não cabe penalizar, mas educar. E assim, a gente chega em uma das ironias nacionais: a culpa é da educação. Sendo esta uma abstração humana, culpa-se quem nela atua: o educador!

Enquanto professor constatei uma batalha senão perdida, com certeza desigual. Para cinquenta minutos, no máximo duas horas de exposição e discussão de ideias, mesmo “ganhando” na argumentação, perdia no desiquilíbrio provocado pelo tempo. O raciocínio é matemático: uma semana tem 168 horas! Um ano, 8.760. No meio de todo esse tempo, em algum momento do curso, um exemplo, eu provava ao aluno a superioridade das letras de Chico Buarque de Holanda. Uma horinha, alguns versos logo esquecidos nas milhares de horas em que a indústria impunha ao mesmo aluno as cervejas e dores de corno ordinárias de certos setores da produção musical brasileira.

A solução de tudo estaria no tripé básico, ciência, religião e educação, que deveria somar-se à instituição que fundamenta nossa sociedade: a família. Sabendo que grande número de famílias estão divididas (isso até no alto escalão, se confirmado os tabefes na atual primeira-dama), como é que sairemos dessa? “É dureza, João!”

O telefonema de um velho amigo me tirou desse enrosco. Não que eu quisesse solucionar a coisa. O que não dá é ficar nessa agonia maluca, dessa gente que pensa que o Lula vai nomear Oswaldo Cruz para um ministério… E do amigo veio a “solução”, alertando-me que só nos resta apelar para a sabedoria popular:

“Se não tem conserto, consertado está”.

“Só a morte não tem solução”.

“No fim, dá tudo certo!”.

Quanto a mim, fico com Adoniran Barbosa no título e no final deste texto:

“Deus dá o frio conforme o cobertor”, portanto… “Paciência, Iracema. Paciência!”.

.,.,.,.,.,.,.,

“É dureza, João”, está na letra de Torresmo à milanesa. “Deus dá o frio…” é da Saudosa Maloca e “Iracema” é da própria, aquela que “travessou contramão”. Tudinho do Adoniran Barbosa.

Arte para denunciar a 72ª vez sem água

O semiárido nordestino enfrenta sua 72ª estiagem. Em 512 anos de Brasil é como se houvesse seca de cinco em cinco anos. A atual, por exemplo, já se sabe que viria desde 2010. Mais uma vez sem água e sem soluções eficazes.

As delicadas figuras de Mestre Vitalino

O governo anunciou investimento de R$ 2,7 bilhões em ações de combate (Quanto desse dinheiro irá para bolsos privilegiados?) e, em caráter emergencial, as famílias das regiões afetadas receberão “Bolsa Estiagem” (R$ 400,00) além de medidas de ocasião que, em si, não resolverão o problema, já que certamente teremos a 73ª.

Uma das edições de O Quinze, de Rachel de Queiroz

Imagine-se passando pela 72ª estiagem. Não a primeira, nem a décima, mas a septuagésima segunda, quando durante longo tempo não cai do céu uma única gota de água. Raquel de Queiroz imaginou-se em uma seca, em “O Quinze”. Escreveu em 1930 sobre os problemas de seus conterrâneos com bastante conhecimento de causa, já que seus familiares tiveram que sair do Ceará por conta de terrível seca.

Vidas Secas, o filme

Por gentileza, atentem para os números. Raquel escreveu em 1930, sobre 1915. No cinema, 30 anos depois, precisamente em 1963, o cineasta Nelson Pereira dos Santos legou-os um clássico, estrelado por Átila Iório e Maria Ribeiro: “Vidas Secas”. O filme, premiadíssimo, foi baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos, também escrito na década de 1930, publicado em 1938.

Vou insistir nas datas, para enfatizar o quanto já foi dito, denunciado, refletido sobre os problemas do semiárido, sem que tenham surgido programas eficientes para solucionar a vida na região. Candido Portinari fez “Os retirantes” em 1944. O artista paulista pintou uma série de telas tornando o horrendo belo. Fome, miséria e morte expostas em museus distantes da região e das soluções possíveis para os habitantes do semiárido.

O horrendo tornado belo nos Retirantes, de Portinari.

Seca e fome também é tema em “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto publicado em 1955. Um sucesso literário grandioso, tão grande quanto no teatro, direção de Silnei Siqueira, musicado por Chico Buarque de Holanda, em 1965. Não bastasse, ainda veio a minissérie televisiva, na década de 1980.

É irônico constatar que, além de políticos e coronéis, também os artistas faturam alto com a seca. Só o pequeno dono de terra, o sertanejo é quem realmente sofre. Uma grande maioria saiu buscando vida melhor. Os fenômenos migratórios já foram calamidade, fazendo crescer os cinturões de miséria das grandes metrópoles. Maria Bethânia ficou nacionalmente conhecida cantando “Carcará” e dizendo números assombrosos entre um verso e outro da música de João do Vale e José Candido:

…Carcará é malvado, é valentão

É a águia de lá do meu sertão

Os burrego novinho num pode andá

Ele puxa no bico inté matá

1950. Mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus Estados natais. 10% da população do Ceará emigrou; 13% do Piauí;15% da Bahia; 17% de Alagoas!

Carcará…

Emoção e tristeza em forma de música: Asa Branca, do Rei do Baião

O “Carcará” e a “Asa Branca” voaram longe. Luis Gonzaga cantou sua música, feita em parceria com Humberto Teixeira, emocionando várias gerações. A gravação original é de 1947. E para citar dois outros grandes artistas nordestinos, lembro “Seara Vermelha”, de Jorge Amado, publicado em 1946, que já foi traduzido para 26 outros idiomas. Junto com o escritor baiano, concluo com as figuras de Mestre Vitalino (Vitalino Pereira da Silva) que abriram as imagens deste post. Trabalho modelado em barro, com delicadeza e sensibilidade, evidenciando diferentes aspectos da vida do nosso povo, inclusive os retirantes…

Bela herança artística; pequenos exemplos dessa imensa herança. Todavia, uma triste realidade que teima em persistir. Será que teremos soluções encaminhadas antes da 73ª estiagem?

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Até mais!

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Chico Buarque, o terceiro

Tendo como medida minha amiga Fafá, devo afirmar que Chico Buarque é um caso sério. Não faz tanto tempo; estive com Fafá em uma entrevista coletiva com Chico (Só Chico; faz de conta que somos íntimos!), Edu Lobo e Lenine. Acho que ela não viu quase nada além dos olhos do Chico, a roupa, os movimentos, as palavras ditas pelo cantor e compositor. Lá pelas tantas, sem se agüentar, soltava pérolas do tipo: – Chico! Olha eu aqui! Chico!

Venha ouvir sem mais demora

A nossa música

Que estou roubando de outro compositor

E já retoco os versos com maior talento

Dou um polimento e exponho na televisão

O nosso amor…

(Rubato – Jorge Helder e Chico Buarque) 

Hoje, certamente, Fafá está choramingando pelos cantos. Não conseguiu ingressos para ver o Chico. Ela e milhões de outras mulheres. Mais fieis que Penélope. Passa o tempo, Chico longe, escrevendo livros ou jogando futebol, envolvido em múltiplas tarefas e relegando shows para planos secundários. Não importa. Ele anuncia a volta e os ingressos se esgotam com uma rapidez que deixa a colorida Restart em preto e branco de inveja.

O caso sério Chico faz poucos shows. Esse é o problema para a mulherada. Os empresários… Bom, como a casa fica lotada, vendem até uma cadeira com visão parcial por 120,00 reais! (Só se vê metade do Chico? O perfil direito ou o esquerdo? O cara vai ficar paradinho, como sempre, mas se resolver andar pelo palco, a visão é zero?). Desconheço qualquer reclamação quanto a esse tipo de venda de cadeira “torta”. As moças que conseguiram ingressos não reclamam; o cara abre a boca e, para elas, ele é sempre o “terceiro”:

…O terceiro me chegou

Como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada

Também nada perguntou

Mal sei como ele se chama

Mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama…

(Terezinha – Chico Buarque)

Se esse Chico conseguisse atingir metade das camas das moçoilas interessadas, teríamos mais “Buarques” que “Silvas” na lista telefônica. E o que sobraria para os outros? Para todos os outros caras, restaria e resta difamar o cidadão: ele está cheio de rugas, só joga futebol porque é dono do time e não escreve tão bem quanto compõe. Ah, e o Caetano é melhor cantor que ele. E enquanto ficamos com os cotovelos em carne viva, o carioca entra no palco ganhando paulistas, mineiras, baianas, paranaenses…

 Pensou que eu não vinha mais, pensou

Cansou de esperar por mim

Acenda o refletor

Apure o tamborim

Aqui é o meu lugar

Eu vim

(De volta ao samba – Chico Buarque)

O cidadão sabe das coisas de tal forma que, afirmam, conhece e traduz em versos a alma feminina. Melhor que discutir a relação, o cara fala por elas! Por isso coleciona namoradas; na praia, em bares, shows. Discreto, cavalheiro, faz pouco alarde e muito de vez em quando é flagrado; quando ocorre é com super gatas. Rival desse porte a gente chama para perto. Melhor aliar-se que lutar contra o dito cujo.

Quem tiver o ingresso, ou saco e tempo para ir ver a entrada do povo, verá quantos marmanjos presentes. Entre os vários motivos, a maioria vai porque Chico é mesmo bom. O melhor do Brasil. Chico Buarque faz cair por terra a história de música preferida. Só da lista divulgada para o show em cartaz, tenho pelo menos oito. E que ninguém venha me chamar de indeciso.  A única coisa que posso afirmar é que, entre minhas preferidas há “todo o sentimento”

Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu

(Todo o sentimento – Cristóvão Bastos e Chico Buarque)

Encantado é uma boa palavra para definir o compositor Chico Buarque. Comecei o texto na hora em que anunciaram a passagem de som. Agora, noite alta, vejo a primeira matéria e o Uol informa que a apresentação do cara rola sob gritos da platéia: “Lindo! Lindo! Lindo!”. E fica aquela sensação de que o cara leva todas!

Fazer o que! Minha geração cresceu e amadureceu sabendo que cada namorada, amiga, mãe, parente e conhecida, todas elas, estão ali, doidinhas e prontinhas para uma entrega total e irrestrita ao compositor. Depois de cada show, elas voltam parcialmente satisfeitas, se é que me entendem… E resta-nos utilizar versos do próprio Chico para receber nossas queridas:

Se você crê em Deus

Encaminhe pros céus

Uma prece

E agradeça ao Senhor

Você tem o amor

Que merece.

(Sob Medida – Chico Buarque)

 

Até!

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Nota: As canções citadas acima estão no repertório do show.

13 milhões de Marias… Uma é “A” Bethânia

Tai uma pesquisa interessante: os nomes mais utilizados no país. A empresa ProScore utilizou 165 milhões de CPF’s de todo o Brasil. Infelizmente foram divulgados apenas os 50 primeiros nomes da lista. E penso que deve custar uma grana saber quantos “Valdos” tem por ai. Continuarei com a ilusão de que sou quase único; conheci outros dois ao longo da vida. O avesso desse sentimento é uma estranha sensação de solidão.

Se eu me chamasse Francisco, teria mais de dois milhões de xarás. Entre eles o Buarque de Holanda. E se eu fosse Raimundo, do vasto mundo que é rima, mas não é solução, teria a companhia de oitocentos mil outros Raimundos. E pensar que o Carlos que eu mais admiro, o Drummond de Andrade do “Raimundo vasto mundo”, tem mais de um milhão e trezentos mil outros “Carlos”…

Como não tenho os dados completos da pesquisa não sei se consideraram, por exemplo, os nomes duplos. Exemplo: o mais de um milhão de “Carlos” é nome simples, ou vem depois do Roberto, o rei Carlos. Pois se Carlos tem tudo isso e Roberto tem 480 mil, foi considerado o nome isolado ou há algum levantamento específico para nomes duplos?

Normalmente anunciamos nosso nome com orgulho, satisfação. Pessoas que não gostam do próprio nome, socialmente, já saem perdendo. Ficam inibidas nas apresentações: “- Prazer, meu nome é Tegucigalpa, mas prefiro que me chamem Teguinha.” A gente contém a sensação de estranhamento. Antes de continuar esclareço que curto muito o nome Tegucigalpa, a capital de Honduras. Não querendo aumentar a insatisfação de quem tem nome estranho, optei por Tegucigalpa: é diferente e, simultaneamente indica alguns absurdos que certos pais cometem ao batizar os filhos.

A vida me ensinou que a busca de nomes diferentes decorre, entre outras coisas, por preconceito. Por exemplo, o de que Benedita é nome de empregada, Jarbas é motorista e por ai vai. Os pais, buscando fugir do comum, acabam “cometendo” algumas “Tegucigalpas” no batismo dos filhos. Bobagem. Quem faz o nome é a pessoa. Ele, no máximo, indica gênero e a gente sabe a diferença primordial entre Antonia e Antonio.

Nomes também indicam a origem; posso estar enganado, mas a maioria dos Raimundos levantados na pesquisa são do Norte, Nordeste do país. Por conta principalmente de São Raimundo Nonato, o santo que também é nome da querida cidade em que estive, por várias vezes, no Piauí. Santos cristãos predominam no ranking, indicando a força que esses ainda têm entre nós. E se o Cristo se fez carne e habitou entre nós através de uma mulher, não é de se estranhar que em um país cristão tenhamos treze milhões de Marias.

Imagine treze milhões de Marias falando ao mesmo tempo! (rsrsr) Tudo bem… Trabalhando, cuidando dos filhos, lecionando, costurando, dirigindo empresas… Muitas Marias. E com tantas, fica difícil para qualquer brasileiro não ter uma Maria na própria vida. Minha primeira Maria, a querida avó. Depois as primas, uma namorada, duas grandes amigas, as colegas de trabalho…

Tantas Marias e ao mesmo tempo, tão especiais e únicas. Recordo entrevistas em que Chico Buarque diz “a Maria isso” ou a “Maria faz aquilo”. Todos nós sabemos que é a Bethânia. E ele, que é íntimo tem o direito de nominá-la assim, simplesmente Maria. Para o mundo é Maria Bethânia. E não dá pra falar dessa Maria Bethânia sem lembrar outra, Maria da Graça, que chamamos Gal. Já li que ela é chamada “Gracinha”,  mas desconheço quem a chame Maria.

Essas duas Marias, a Bethânia e a Gal, vieram depois da Abelim (esse nome deve ser raro!). Abelim Maria da Cunha, que o Brasil conhece como Ângela Maria. Junto com as baianas, veio a mineira Alcina, Maria também. E, mais recente, a Maria Gadú e a Maria Rita. Essas “Marias” dão bem a dimensão da certeza do quanto a pessoa faz o nome. E torna-o distinto, único. “Ângela Maria Alcina Bethânia Gadú Graça Rita”. Mesmo nome para mulheres tão singulares, tornadas únicas por aquilo que são: grandes cantoras!

“Rodando a minha saia

Eu comando os ventos

Quem vem a minha praia quer ver

A força que se espalha

De alguns movimentos

Que sei desfazer e refazer…”

Os fãs de Maria, a Bethânia, sabem que é ela quem canta “Nossos Momentos”, dos versos acima da canção de Caetano Veloso. Mas bem que são versos que remetem a todas as nossas Marias, famosas ou não, cantoras, atrizes, bailarinas, donas de casa, as Marias do Brasil.

Gostei muito de saber dessa pesquisa. Principalmente por saber que o Brasil é fruto de Maria(s), José(s), Antônio(s), João(s), Francisco(s)… Gente que carrega nome de santo e que um dia, com a ajuda de Deus, fará deste um país melhor.

(Clique aqui para ver matéria com a relação dos cinqüenta nomes mais utilizados)

Até sexta!