Ary Barroso e o Dia Do Samba

ary barroso

Dizem que o samba nasceu na Bahia e se desenvolveu no terreiro da Tia Ciata, no Rio de Janeiro. Depois ganhou meio mundo! No próximo dia 2, segunda-feira, será comemorado o Dia Nacional do Samba. Dois lugares no Brasil costumam comemorar legal esse dia: a Bahia e o Rio de Janeiro. Nos demais estados a data passa quase esquecida. É engraçado perceber que, por exemplo, o “Dia das Bruxas” faz mais adeptos que o dia do samba. Resolvi lembrar com uma semana de antecedência, para reverenciar o samba dentro dos conformes.

Penso que Minas Gerais, por exemplo, deveria comemorar o Dia do Samba com maior pompa. Pelo menos na cidade de Ubá,onde nasceu ARY BARROSO. Para que não sabe, o Dia Nacional do Samba surgiu para comemorar a data em que, pela primeira vez, ARY BARROSO visitou Salvador. Uma justa homenagem ao grande compositor brasileiro.

Na Baixa do Sapateiro eu encontrei um dia

A morena mais frajola da Bahia

Pedi um beijo, não deu

Um abraço, sorriu

Pedi-lhe a mão não quis dar, fugiu!”

ARY compôs NA BAIXA DO SAPATEIRO sem conhecer Salvador. Eu não sabia desse fato quando, na capital baiana, fiz questão de conhecer o local. Pode ser que, no momento em que a música foi criada, aquele tenha sido um lugar bonito. Quando estive lá era um lugar bem feio, principalmente pelo fato de que outros locais, como a Praia de Itapuã ou o Pelourinho, continuam lindos.

As pessoas encantam-se quando alguém escreve sobre algo que não conhece fisicamente, pessoalmente. Uma das grandes qualidades de qualquer criador é saber colocar-se em situação; um pouco de pesquisa, vivência, experiências similares e imaginação. Bem antes de CHICO BUARQUE, nosso compositor de “alma feminina” por excelência, ARY já havia criado músicas extraordinárias, colocando-se no feminino:

Encontrei o meu pedaço na avenida

De camisa amarela

Cantando a Florisbela, a Florisbela

Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia

Exibiu-me um sorriso de ironia

E desapareceu no turbilhão da galeria…”

Em CAMISA AMARELA temos não só a perspectiva feminina, como um retrato de época da mulher brasileira, submissa e passiva ante o comportamento do homem. Os sambas de ARY BARROSO abordam diversas situações; é triste em NA BATUCADA DA VIDA, alegre em COMO VAES VOCÊ e, hoje, seria politicamente incorreto, como em BONECA DE PICHE.

Da cor do azeviche, da jabuticaba

Boneca de Piche, é tu que me acaba…”

ARY é sempre sambista; da melhor qualidade. Sabe brincar, como poucos com nossa língua, quando aborda situações dúbias, carregadas de humor e sugestões subentendidas:

-Eu dei!

-O que foi que você deu, meu bem!

-Eu dei!

-Guarde um pouco para mim também…”

Também, em se tratando de ARY BARROSO, fala-se muito do Ufanismo, o samba exaltação.Uma característica marcante do trabalho do compositor, carregando nos superlativos para falar do país ou, da Bahia. Para os baianos, além de NA BAIXA DO SAPATEIRO, ARY criou outros clássicos: “OS QUINDINS DE IAIÁ” e “NO TABULEIRO DA BAIANA”.

Uma das marcas musicais brasileiras perante o mundo, AQUARELA DO BRASIL é “irmã” do Hino Nacional. É a referência marcante quando nosso país é citado. E que referência! No universo do compositor, o Brasil é “mulato inzoneiro” cheio de “morenas sestrosas”. Para cantar tal país é preciso tirar “a mãe preta do cerrado” e botar “o rei congo no congado”. Um Brasil moreno!

Ah! Ouve essas fontes murmurantes

Onde eu mato a minha sede

E onde a lua vem brincar

Ah, esse Brasil lindo e trigueiro

É o meu Brasil brasileiro

Terra de samba e pandeiro…”

Para terminar essa simples, mas sincera, homenagem ao COMPOSITOR e ao SAMBA, escolhi os seguintes versos:

Foi num samba

De gente bamba

Ô,gente bamba!

Que eu te conheci, faceira…”

Com esses versos recordo sempre dos BAMBAS DO FABRÍCIO, uma escola de samba, lá de Uberaba, que me ensinou a gostar do batuque. Eu era criança e eles ensaiavam bem perto da minha casa. Uma passista, FÁTIMA, era a maior sensação. Que moça faceira!(Por onde andará? Se alguém tiver notícias…) É para essa sambista de minha infância, que vai também minha homenagem. Muito antes de ARY BARROSO, foi FÁTIMA a dona do meu samba.

O Dia do Samba vem aí. Vamos comemorar. Aqui, neste blog, pretendo que seja a semana do samba. Com Ary Barroso e outros grandes sambistas do nosso país.

Isto aqui ô ô
É um pouquinho de Brasil, Iaiá
Deste Brasil que canta e é feliz
Feliz, feliz
É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não

Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dar
Olha só o remelexo que ela sabe dar
Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dar
Morena boa que me faz penar
Bota a sandália de prata
E vem pro samba sambar

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Até!

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Notas Musicais:

Na Baixa do Sapateiro – Ary Barroso

Camisa Amarela – Ary Barroso

Boneca de Piche – Ary Barroso e Luis Iglésias

Eu dei! – Ary Barroso

Aquarela do Brasil – Ary Barroso

Faceira– Ary Barroso

Sandália de Prata – Ary Barroso

Francis Hime para maneirar esse frio denso

francis hime

Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Modesto…

Espero um setembro com altíssimo astral. Depois de tanto frio neste agosto, com sua cota de desgosto, quero mais é que este inverno fique para a história e de lá não volte tão cedo. No meio da tarde gelada foi a música de Francis Hime que deixou essa quarta-feira melhor.

Mas Deus quem me dera eu fosse um sábio que cala
E diante da dor e da desilusão não se abala
Mas pobre de mim que não sei nem de mim…

Se há razões para falar sobre o pianista Francis Hime nesta quarta-feira? Há, pois estou cansado de tanta coisa pesada. Assassinatos de um lado, diplomatas escondendo senadores de outro, um desabamento que expõe a corrupção de fiscais que não embargam obras, um apagão deixando bem claro que os investimentos não devem ficar restritos aos estádios… Estou cansado e pedindo que um “caro amigo” fale por mim:

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta…

Francis Hime é parceiro de Chico Buarque em músicas memoráveis e o Chico já disse, em vídeo para a posteridade, que aprendeu com o Francis. De ambos, um chorinho como “caros amigos” ou uma canção de amor desesperado, como “atrás da porta” são só dois exemplos de excelência musical.

E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta…

Para quem acha que dois é pouco, três é demais, quatro extrapola, pode contar mais e mais. Com tanta precária mesmice em composições que ganham espaços em rádio e TV, os parceiros Francis e Chico provam desde sempre que qualidade se prova e comprova, mesmo se “trocando em miúdos”…

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago…

Há que se ter alguém que faça letras como Chico Buarque; todavia é a melodia e o ritmo criados por Francis Hime que nos permite cantar e dançar sobre os “paralelepípedos” da cidade, nas incontáveis manifestações desses nossos dias.

Vai passar
Nessa avenida um samba
popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar…

Não vai passar. Está passando. A cidade é viva e nossos meninos carecem de médicos negros, brancos, índios, mulatos… Eita inverno difícil, em que cada saída, cada tentativa de solução vem acompanhada com o gelo da indiferença. A música de Francis continua atual, denunciando desde há muito o que ainda nem sonha ser solucionado.

No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta…

Queria escrever mais sobre Francis Hime. As composições dizem por ele, para nós e por todos nós. Comecei a tarde ouvindo canções para amenizar este tempo tão denso, tão conturbado e se eu pensava em maneirar o Francis Hime, em parceria ímpar com o poeta Manuel Bandeira, deu-me uma lição para enfrentar o “desencanto” dessa noite que se anuncia gelada:

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto

Meu caro Francis; há motivos pra risos e prantos. Há o frio sem aquecedores em um apagão que pode chegar aqui; há perguntas que mesmo respondidas não acalmarão aqueles que perderam seus entes… Há muita coisa! Até novela e mais futebol, um pouco de sol prometido para amanhã; logo ali, já vem setembro, para mandar o frio embora e, quem sabe, trazer tempos mais amenos.

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Até!

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Notas Musicais: as canções citadas são respectivamente: Amor Barato – Francis Hime e Chico Buarque / Choro Rasgado – Francis Hime e Olivia Hime / Meu caro amigo – Francis Hime e Chico Buarque / Atrás da Porta – Francis Hime e Chico Buarque / Trocando em Miúdos – Francis Hime e Chico Buarque / Vai Passar – Francis Hime e Chico Buarque / Pivete – Francis Hime e Chico Buarque / Desencanto – Francis Hime e Manuel Bandeira.

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Parem tudo! É o natalício do Chico.

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Quase tudo bem. Um pouco tenso… Sem desconsiderar a realidade peço licença para lembrar que hoje, dia 19, é o dia do natalício do Chico Buarque de Holanda. É bom relembrar razões para homenagear o maior compositor brasileiro. Por aqui já implicaram com a palavra natalício… Bom, não quero saber quantos anos tem a figura, mas lembrar que foi neste dia que ele nasceu. E que ele criou temas para movimentos, passeatas, rebeliões e todos os afetos possíveis.

O CHICO é bom pra recordar grandes amigos! Ouço CHICO BUARQUE e vários seres muito amados emergem em meus pensamentos. Tenho a imensa sorte de ter muitas pessoas pra enviar um “Meu Caro Amigo”, mas nessa noite, a ausência de pessoas que amo cabe nesse “Desencontro”.

A sua lembrança me dói tanto

Eu canto pra ver se espanto esse mal

Mas só sei dizer

Um verso banal…

Volta e meia acontece uma discussão se há poesia em letras de música. Por mais que se afirme que letra de música não é poesia, tem aí o CHICO, com algumas letras provocando inveja aos poetas todos… E se alguns versos do Chico Buarque não forem poesia, pobre poesia que assim sai perdendo um refinado poeta.

Não chore ainda não

Que eu tenho um violão

E nós vamos cantar

Felicidade aqui

Pode passar e ouvir

E se ela for de samba

Há de querer ficar…

Para os mais novos uma informação legal; Chico canta a mulherada em letras memoráveis: “A Rita”, “Carolina”, “Januária”, a “Ana de Amsterdã” e várias outras. E quando o compositor coloca-se no lugar da mulher, compondo no feminino, deixa muito claro o quanto conhece da alma da mulher (talvez por isso ganhe todas!).  Pra não ficar aqui incensando o malandro vou mostrar abaixo como o indivíduo sabe ser corno (e com que classe!):

O meu samba se marcava na cadência dos seus passos

O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços

Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão

Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão…

Na conturbada história do nosso país, de uma “Roda Viva” implacável a inexorável “Construção” Chico Buarque ensina que tudo “Vai Passar”, “Apesar de Você” e do “Cálice”que, vez em quando, nos é imposto. Algumas letras de Chico soam sempre atuais, seja abordando questões sociais, ou a situação política. Eu fico emocionado, sempre, com “O Meu Guri”, ou com “Gente Humilde”, mas a que mais curto, desse CHICO político, é “Rosa dos Ventos”:

E na gente deu o hábito

De caminhar pelas trevas

De murmurar entre as pregas

De tirar leite das pedras

De ver o tempo correr

Mas, sob o sono dos séculos

Amanheceu o espetáculo…

Tem o Chico autor e compositor do teatro. Lá da peça “Roda Viva” ou só musicando a grande poesia de João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”. Há também o Chico que sofreu grande prejuízo quando a censura proibiu “Calabar”. Também imprescindível registrar uma grande parceria com Paulo Pontes, além da célebre interpretação de Bibi Ferreira para “Gota D’Água”. De todas as peças do Chico dramaturgo, ou de outras, para as quais escreveu canções, tenho um carinho imenso pela “Os Saltimbancos”; todavia é da “Ópera do Malandro” a música que escolho como representativa desse senhor CHICO teatral:

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu…

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Tem o CHICO do cinema, o CHICO dos grandes balés… Eu fico imaginando “Dona Flor e Seus Dois Maridos” sem a trilha de CHICO, na voz de SIMONE. O filme não seria o mesmo. Assim como citei um exemplo, do cinema, lembro outro, do balé “O Grande Circo Místico” que, além de “Beatriz”, tem a graciosa e divertida “Ciranda da Bailarina” na memorável parceria com Edu Lobo:

Não livra ninguém

Todo mundo tem remela

Quando acorda às seis da matina

Teve escarlatina

Ou tem febre amarela

Só a bailarina que não tem…

A primeira vez que estive bem próximo desse senhor foi numa noite, em São Bernardo do Campo, no Sindicato dos Metalúrgicos quando, penso,  a maioria dos presentes não imaginava um Lula presidente. E CHICO esteve lá, dando força ao Movimento dos Trabalhadores.

Entre seus pares, a elegância de CHICO é sempre elogiada. Esteve sempre distante de pinimbas e muito próximo de compositores, para criar grandes canções. Também é encontrado emprestando sua voz para os discos de diferentes cantores. Homenageou com brilho os músicos do Brasil, em “Paratodos”. Eita,moço fino!

Viva Erasmo, Ben, Roberto

Gil, Hermeto, palmas para

Todos os instrumentistas

Salve Edu, Bituca, Nara

Gal, Bethânia, Rita, Clara

Evoé, jovens à vista…

CHICO BUARQUE é o único compositor que ao escolher uma música lamento por outra, que fica de fora. Mas está na hora de parar. Vou lembrar mais duas razões que somam a inúmeras outras, levando-me a admirá-lo. A primeira, a incrível capacidade de colocar palavras “impensáveis” em uma letra musical; além de grande ousadia, a coisa sai perfeita, seja em “cada paralelepípedo da velha cidade”, ou na fabulosa “assentamento”, que remete a Guimarães Rosa:

Quando eu morrer

Cansado de guerra

Morro de bem

Com a minha terra:

Cana, caqui

Inhame, abóbora

Onde só vento se semeava outrora

Amplidão, nação, sertão sem fim

Ó Manuel, Miguilim

Vamos embora.

Perdoem o palavrão, mas um cara que coloca inhame, abóbora, em uma letra, e essa fica linda, merece:- Ô, filho de uma puta!Vai ser bom assim no inferno!

A segunda, para concluir. Nos meus delírios, ante algumas perdas, é uma canção de CHICO, em parceria com Cristóvão Bastos, que me acalenta a alma, me enche de esperança. Creio na vida além da morte e, para aqueles amados que se foram canto sempre:

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu.

Sem tristezas. Vamos preparar uma festa neste dia 19, nem que seja um singelo e particular brinde. É aniversário de CHICO BUARQUE. O cara que escreve livros, compõe para teatro, cinema; canta amores, grandes dores, alegrias, faz galhofas, é o dono da bola no seu Politheama e tem a admiração de todos os grandes compositores contemporâneos, suas canções gravadas pelos maiores intérpretes brasileiros.

Ave, Chico! Meu compositor preferido e mais querido, você bem que podia ter nascido no dia 18…

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Até!

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“Notas Musicais” :

as músicas citadas, respectivamente, são:

Desencontro – Chico Buarque e Toquinho

Olé, Olá – Chico Buarque

Quem te viu, Quem Te Vê – Chico Buarque

Rosa-dos-ventos – Chico Buarque

Pedaço de Mim – Chico Buarque

Ciranda da Bailarina – Edu Lobo e Chico Buarque

Paratodos – Chico Buarque

Assentamento – Chico Buarque

Todo o Sentimento – Cristóvão Bastos e Chico Buarque

 

Animações para um aniversário.

Quando vi as capas de discos no site “Animated Albums” fiquei fissurado na ideia de ter a brincadeira com algumas capas de discos brasileiros. Estava no Papolog e Paulo Simões me ofereceu como presente algumas capas com animações simples, puro divertimento. Um presente para não ser esquecido e permanecer online. Vamos aos gifs:

Começando com os olhos do Chico Buarque? “Olhos nos olhos – verdes, amarelos, vermelhos – Quero ver o que você diz! Quero ver como suporta me ver tão feliz!”

Chico Buarque_FINAL

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E se é pra brincar com olhares, Adoniran me traduziu: “De tanto levar flechada do teu olhar, meu peito parece até sabe o que?…

Adoniran Barbosa_FINAL

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E depois de Adoniran, que compôs “Bom dia, Tristeza” junto com Vinícius de Moraes, música imortalizada na voz de Maysa vejamos os inesquecíveis e expressivos olhos da cantora.  “Se todos fossem iguais a Maysa, que maravilha viver…”

maysa_final

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“Batidas na porta da frente, é o tempo! Eu bebo um pouquinho…” pra aguentar todas as fortes emoções que Nana Caymmi propicia. É barra!

Nana_FINAL

 .

Pra aguentar a saudade de tudo, apelo pro Carcará, aquele que “pega, mata e come”.  E vou seguindo, levando a vida com lembranças de Nara, Zé Keti e João de Vale. Somos todos de “Opinião”.

Nara

 .

E se é pra lembrar, com reverência e respeito, vamos sempre colocar acima, onde merecem! Tom Jobim e Elis Regina.

elis e tom

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Mas aniversário é dia festa! E “você precisa saber da piscina, da margarina, da gasolina” com toda a trupe da Tropicália.

Tropicalia

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Brincar um pouquinho no doce encontro de Caetano Veloso e Gal Costa…

gal e caetano

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E deixar cair uma lágrima, pura emoção, como Maria Bethânia, afinal, amanhã é o dia do nosso aniversário. Gosto de comemorar meu natalício pensando que em algum lugar há uma festa pelos aniversários de Bethânia, Paul McCartney e, sendo assim, não escreverei por aqui. Vou bebemorar!

Maria Bethania

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 Obrigado ao Paulo Simões, pelo trabalho legal e divertido.

Até mais!

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Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Miss Suéter, a garota solitária que tem lábios de mel

85 anos de Angela Maria

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Fascínio tenho eu por falsas louras

Ai, a negra lingerie

Com sardas, sobrancelha feita a lápis

E perfume da Coty…

Neste dia 13 de maio uma grande estrela que não foi miss suéter nem garota solitária, completa 85 anos. Lábios de mel, provavelmente ela tem; a garganta é de ouro. Ela não foi “miss”, mas foi rainha. É rainha. A Rainha do Rádio, Angela Maria.

…Fica comigo

Velha amiga e companheira

Vou cantá-la a vida inteira

Pra lembrar do que passou.

Angela Maira nasceu em Macaé, RJ, em 13 de maio de 1928. Com mais de 60 anos de carreira, é reconhecida pelo Guinness Book como recordista mundial de gravações de disco, 115. Foi rainha do rádio em 1954 e forma com Elis Regina e Dalva de Oliveira o trio das maiores cantoras brasileiras, com domínio vocal e uma capacidade de cantar que extrapola o comum. Afinação, potência e extensão são qualidades ímpares dessas mulheres.

Números e títulos não criam ídolos; músicas sim! E sucessos e canções que permanecem na memória de um país é o que conta. E isso, músicas de sucesso que permeiam a lembrança popular, Angela Maria tem aos montes.

Meu amor quando me beija

Vejo o mundo revirar

Vejo o céu aqui na terra

E a terra no ar…

Dominando toda a década de 1950 e emplacando êxitos nas décadas posteriores, Angela Maria esteve e está presente na vida de milhões de brasileiros, na manifestação do gosto musical de diferentes gerações. Angela Maria continua cantando como cantava quando meu tio e padrinho de batismo era fã da cantora. Tinha os discos e revistas sobre ela. Foi em criança que eu conheci e guardei algumas das canções preferidas do meu padrinho Nino.

Hoje não te quero mais

Eu preciso de paz

Já cansei de sofrer

Vives na rua jogado

És um fósforo queimado

Atirado no chão…

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Apelidada SAPOTI pelo então presidente Getúlio Vargas, Angela é a maior expressão do samba-canção, e dela se aproximaram cantoras como Maysa e Nora Ney, entre muitas outras que nunca obtiveram tanta popularidade como ela. A Sapoti também é lembrada por um comportamento impecável, uma elegância profissional excepcional. Não se tem notícias de pinimbas históricas envolvendo a cantora; o que ficou são os registros de uma carreira brilhante.

Tem certos dias em que eu penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Porque parece que acontece de repente

Como desejo de eu viver sem me notar…

Angela Maria já disse que quer ser lembrada por “Gente Humilde”, cujos versos estão acima. Todavia, muita gente lembra-se dela por “Babalu”, “Vida de Bailarina”, “Cinderela”, “Tango Pra Teresa” ou pela graciosa “Garota solitária”:

Esta noite eu chorei tanto

Sozinha sem um bem

Por amor todo mundo chora

Um amor todo mundo tem

Eu, porém, vivo sozinha

Muito triste sem ninguém…

Uma canção interpretada originalmente por ANGELA MARIA é sempre lembrada, no dia das mães. Aquela canção que diz “ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar” e fala do filho que (santo deus!) lembra “o avental todo sujo de ovo” pra rimar no final que gostaria de “começar tudo, tudo de novo”. As mães, aquelas que valem mais “que o céu, a terra e o mar” gostam. Na última semana a música foi lembrada em um seriado da Rede Globo, Louco por elas.

Lúcida e atuante, Angela Maria apresentou-se recentemente no Rio de Janeiro, em noite de gala, com um repertório baseado em grandes sucessos de uma carreira fonográfica iniciada em 1951 e que, em 2012 teve os principais sucessos registrados em DVD, lançado pela gravadora Lua Music, denominado Estrela da Canção Popular.

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As canções de Angela Maria estão ai. As emissoras de rádio tocam quase nada e raramente ela aparece em TV. Aliás, ela prefere churrascarias, restaurantes populares, onde pode sentir melhor a presença do público. Por aqui quero prestar uma homenagem sincera para essa extraordinária mulher. Cantora de lábios de mel, garota não muito solitária, mas sempre a minha miss suéter.

Guardarei para sempre

Seu retrato de miss com cetro e coroa

Com a dedicatória

Que ela, em letra miúda, insistiu em fazer

“-Pra que os olhos relembrem

Quando o teu coração infiel esquecer…”

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Até!

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Notas Musicais:

Todas as canções citadas são do repertório de ANGELA MARIA e estão identificadas na ordem em que aparecem no texto.

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

Balada Triste – Dalton Vogeler e Esdras P. da Silva

Lábios de Mel – Waldir Rocha

Fósforo Queimado – Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego

Gente Humilde – Garoto, Vinícius de Moraes, Chico Buarque

Babalu – Margarita Lecuona

Vida de Bailarina – Cholocate e Américo Seixas

Cinderela – Adelino Moreira

Tango Pra Teresa – Jair Amorim e Evaldo Gouveia

Garota solitária – Adelino Moreira

Mamãe – Herivelto Martins e David Nasser

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

Clara Nunes, sempre!

Clara Nunes

30 anos sem Clara Nunes! Na próxima terça-feira lembramos aquela que está entre as maiores sambistas brasileiras, mineiríssima Clara das Gerais, falecida em 02 de abril de 1983. Uma morte ingrata para uma jovem com apenas 40 anos de vida, que colhia os frutos de uma carreira de imenso e merecido sucesso.

Algumas faces dessa cantora inesquecível: Quando a gente pensa em  forró, quem se lembra de Clara Nunes em “Feira de Mangaio”, “Viola de Penedo”, com a mais pura e esfuziante alegria nordestina? A brasilidade da cantora atravessa regiões e ela manda bem no forró do mestre Sivuca.

“Fumo de rolo, arreio e cangalha

Eu tenho pra vender, quem quer comprar

Bolo de milho, broa e cocada

Eu tenho pra vender, quem quer comprar…”

Se for para lembrar alguém que gravou grandes poetas, aparece o nome de Clara Nunes em canções como “Tu que me deste o teu cuidado” (Manuel Bandeira) e “Ai,quem me dera” (Vinícius de Moraes)? Esta canção do grande mestre tem poucos registros; quem conhece a gravação de Clara Nunes entende a dificuldade em sobrepujar a interpretação da cantora.

“Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais…

Creio que algo irá ser dito sobre os grandes sambas, os sucessos estrondosos. Quero, aqui, enfatizar a cantora de diferentes “Brasis”. Em rodas de capoeira, por exemplo, encontramos invariavelmente muitos marmanjos suados, desafinados, mas com muita ginga. Dá para imaginar, no meio dos caras, a voz límpida e afinada de Clara Nunes em “Fuzuê”?

“Eh, fuzuê

Parede de barro

Não vai me prender…”

Entrando no que há de mais representativo em Minas Gerais, a cantora da terra entrou de sola na obra de Guimarães Rosa, dá para somar a voz de Clara Nunes e um falar todo sertanejo em “Sagarana”?

“… quem quiser que cante outra

Mas à moda dos gerais

Buriti: rei das veredas

Guimarães: buritizais!”

É fácil pensar em Clara Nunes  entre as maiores cantoras desse país. Dona de uma enorme extensão vocal, ela soube usar esse potencial com um repertório caracterizado pela grande diversidade. Nos discos de Clara Nunes tem fado e rancho; tem jongo, valsa, bolero e… Samba!

Os sambas cantados por Clara Nunes são antológicos. Para voltar às raízes africanas ela foi além da Bahia; foi para Angola, assumindo contas, pulseiras, turbantes e gingado, muito balanço e força rítmica.

Admiro seu jeito mineiro de ser feminista. Criou seu teatro, para ter e propiciar um lugar de trabalho e gostava de ser independente. Teve um olhar atento para compositoras como d. Ivone lara, assim como realizou gravações memoráveis com Clementina De Jesus, juntas homenageando a Menininha Do Gantois.

Pra registrar preferências, tenho duas paixões na voz de Clara Nunes: “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque) e “Basta um dia” (da peça Gota D’Água, Chico Buarque e Ruy Guerra). Todas as outras que me perdoem, mas nessas, só ouço a grande cantora mineira.

30 anos sem Clara Nunes. Ficaram os vários discos e a voz inesquecível que Alcione chama de volta, como ninguém:

“Clara

Abre o pano do passado

Tira a preta do serrado

Põe Rei Congo no Gongá

Anda

Canta o samba verdadeiro

Faz o que mandou o mineiro,

Ó mineira!”

Clara Nunes é para ser lembrada; sempre!

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Até!

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Notas Musicais:

Feira de Mangaio – Glorinha Gadelha / Sivuca

Ai, quem me dera! – Vinícius de Moraes

Fuzuê – Romildo S. Bastos/ Toninho

Sagarana – João de Aquino/Paulo César Pinheiro.

Mineira– João Nogueira/Paulo César Pinheiro.