Sete canções para celebrar Milton Nascimento

26 de outubro. Milton Nascimento completa 70 anos. Minas Gerais comemora, o Brasil reverencia o compositor e cantor. Ganhei de Maria Elza Sigrist, uma amiga encantadora que reside em Campinas, interior de São Paulo, o primeiro disco de Milton Nascimento.

No sertão da minha terra

Fazenda é o camarada que ao chão se deu

Fez a obrigação com força

Parece até que tudo ali é seu…

Milton, carioca de nascimento, é de uma mineirice única, encontrando paralelo só em Ary Barroso, quando este compõe sobre a Bahia. Uma Minas Gerais nostálgica, religiosa, montanhosa, maneira, e outras tantas características da terrinha estão na obra do compositor que, criança, foi viver em Três Pontas, no interior mineiro.

Longe, longe ouço essa voz

Que o tempo não vai levar…

Com uma dose de culpa diante de outras, escolhi sete canções para lembrar neste momento festivo, do aniversário do Bituca (eu até que gostaria de chamá-lo assim!). Sete canções para comemorar os 70 anos de Milton Nascimento; músicas que, se ouvidas 70 x 7, ainda assim não cansam ninguém.

A partir dos anos de 1960 tornou-se comum a presença de compositores-cantores na música brasileira. Foi um meio de que esses artistas tivessem maior reconhecimento e, consequentemente, grana. Esse fato justifica um período de ascensão de grandes cantoras e a escassez de intérpretes masculinos. Os compositores não conseguem dizer não para as meninas, mas guardam para si as composições que poderiam acontecer na voz de um marmanjo.

Lá vinha o bonde no sobe-desce ladeira

E o motorneiro parava a orquestra um minuto

Para me contar casos da campanha da Itália

E de um tiro que ele…

“Saudade dos aviões da Panair”, a música dos versos acima, é uma rara exceção onde a interpretação de alguém é melhor que a de Milton. Esse alguém é Elis Regina; por outro lado, Milton Nascimento, apenas como intérprete e com sua belíssima e inconfundível voz, estabeleceu parcerias  memoráveis com artistas como Mercedes Sosa,  Gilberto Gil,  e criou grandes clássicos ao cantar com, por exemplo, Chico Buarque.

O que será, que será?

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e provas

Que andam combinando no…

No já lendário Clube da Esquina, Milton Nascimento capitaneou toda uma geração de compositores mineiros que lá, das terras de Minas, enviaram canções únicas para Lennon, McCartney, via trens azuis e outros mais. Com Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Flávio Venturini, Márcio Borges, Toninho Horta e o genial Wagner Tiso, aprendemos a identificar uma música mineira distinta, com qualidades tão peculiares que  tornaram essas canções universais.

Coração americano

Acordei de um sonho estranho

Um gosto vidro e corte

Um sabor de chocolate…

Gosto, sobretudo, daquelas gravações em que Milton Nascimento consegue trazer Minas Gerais para onde quer que estejamos. A melodia doce, os batuques que remetem às congadas, a suavidade das toadas e quase sempre as vozes em coro, que mineiro, todo mineiro, não gosta de cantar sozinho.

Adeus, adeus, toma adeus

Que eu já vou embora

Eu morava no fundo d´agua

Não sei quando eu voltarei

Eu sou canoeiro.

Milton Nascimento está longe de nos dizer adeus. Desejamos outros 70 anos ao compositor que já garantiu presença em nosso imaginário pelos séculos que virão. Milton é Minas, é Gerais, é Brasil.

Quero terminar lembrando uma canção que foi um marco na minha trajetória pessoal; quando o cantor Milton Nascimento, com interpretação única, ajudou-me a segurar a barra, a nortear minha vida.

…Nada a temer senão o correr da luta

Nada a fazer senão esquecer o medo

Abrir o peito à força, numa procura

Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai…

Obrigado, Milton! Tantas canções cujos versos não estão aqui! “Travessia”, “Canção da América”, “Nos bailes da vida”, “Encontros e despedidas”… Ficaria aqui, escrevendo até esgotar, mas vamos embora; festejar os 70 anos de Milton Nascimento.

.

Feliz aniversário!

.

Notas musicais:

Na ordem em que aparecem no post, as canções e seus autores:

Morro Velho – Milton Nascimento

Sentinela – Milton Nascimento e Fernando Brant

Saudade dos aviões da Panair (Conversando no bar) – Milton Nascimento e Fernando Brant

O que será, que será (À Flor da Terra) – Chico Buarque

San Vicente – Milton Nascimento e Fernando Brant

Beira-mar – (Folclore do Vale do Jequitinhonha) Adaptação Frei Chico e Lira Marques

Caçador de Mim – Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá

valdoresende.com

As crianças da minha casa

Gosto muito de ver as pessoas em foto quando crianças. Essa brincadeira no Facebook tem um aspecto ótimo. Não importa quem seja o indivíduo; ele é o resultado de uma criança com olhos vívidos, ar inocente, alegria pura, semblante que é só esperança.

Wander Daniel, meu irmão caçula.

Há crianças que evidenciam surpresa perante a vida e, sobre esta, lançam uma fé inabalável, a crença em um futuro bom. São imagens que provocam alegria, despertam ternura e encantamento.

Em 2008 escrevi, no Papolog, sobre o dia das crianças e destaquei minhas irmãs. Resolvi resgatar e completar a família.

Tudo começou com duas crianças…

Mamãe Laura, Papai Bino. As histórias contadas revelam seriedade só em fotos!

Laura, que é paulista de Pioneiros, cresceu em diferentes casas, sempre próximas da linha da antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Em uma delas, em Araguari, a menina Laura encontrou o menino Bino (Para o registro, Felisbino), que havia nascido em Estrela do Sul, Minas Gerais.

Laura e Bino, já casados, tornaram-se os pais de seis crianças. E foi assim que escrevi sobre toda essa meninada:

.

PRA NINAR TODA GENTE!

.

Ando pensando nesse dia das crianças faz tempo! E, graças a Deus, crianças não faltam por aí. Lá em casa, por exemplo, tem três meninas. Cada uma com suas particularidades, com seu jeitinho, suas manias.

“Se lembra da fogueira

Se lembra dos balões

Se lembra dos luares dos sertões

A roupa no varal

Feriado nacional

E as estrelas salpicadas nas canções…”

As meninas lá de casa sempre foram bem sapecas. Como todas meninas, brincam com suas bonecas: bonecas de pano, de papelão, de louça, de plástico. Meu pai do céu, quantas bonecas! Ensaios infindos para uma possível maternidade. Se a gente dá um cascudo nas bonecas (todas têm nome próprio!) elas choram como se tivesse sido nelas. Mas elas gostam mesmo é de brincar.

Waldenia, mãe de duas meninas, um menino e uma neta menina.

“Eu levo a vida cantando

Hi, Lili, hi, Lili, hi lo

Por isso sempre contente estou

O que passou, passou…”

Meninas são meio esquisitas. Gostam de mandar a gente guardar as coisas, arrumar o quarto, botar os livros no lugar. Parecem mães! Quando menos se espera, lá vem elas usando batom, salto alto, a maquiagem da mãe. Pintam a boca! Colocam fitas no cabelo, colares, pulseiras, brincos e ficam em frente ao espelho… Bobas!

“Menininha do meu coração

Eu só quero você a três palmos do chão

Menininha não cresça mais não

Fique pequinininha na minha canção

Senhoria levada, batendo palminhas

Fingindo assustada do Bicho-papão…”

Não demorei em descobrir que um tal de brincar de casinha, vestir roupa de mãe, fazer comidinha, era um ensaio pra vida. Quase num piscar de olho, as meninas lá de casa deixaram as matinês pelas sessões de cinema do começo da noite. Todas enfeitadinhas, eufóricas, ansiosas, pra encontrar sabe-se lá quem, pois elas sempre… Cochichando!

“Olha as minhas meninas

As minhas meninas

Pra onde é que elas vão

Se já saem sozinhas

As notas da minha canção…”

E quando eu comecei a perceber o mundo direito, as meninas lá de casa já tinham suas meninas e meninos. E eu virei tio, meus dois irmãos viraram pais. Não me lembro de ter brincado de ser pai! Muito menos meus irmãos. O mais velho foi o primeiro a ter sua menina, lá pros lados onde escolheu morar. E, como se fosse um sonho rápido, foi a vez dele de tomar conta da sua menina.

Waldonei, pai de um menino e uma menina.

“Eu te vejo sair por aí

Te avisei que acidade era um vão

– Dá tua mão

– Olha pra mim

– Não faz assim

– Não vai lá não…”

Caraca; meus irmãos encheram a casa de meninos e meninas. E a gente querendo agradar todo mundo, beijar todo mundo, abraçar, guardar do mal do mundo. É uma tensão total se uma menininha cai, se um menino se machuca, se um briga com outro. Os meninos, pra variar, têm que maneirar… – Cuidado, ela é menininha!

Walcenis, um pouco mãe de todos nós.

Foi com minha mãe que começou essa história de “meninas”; ela se refere assim às minhas tias, tios. Em casa temos três meninas. Vieram depois outras meninas, filhas das meninas lá de casa que, por sua vez, tiveram meninos e meninas, ufa!. Ainda tenho o meu irmão caçula, que nos deu menino e meninas; e tenho o outro, que não está mais por aqui, mas que nos deixou uma menina e um menino.

“Mas o tempo é como um rio

Que caminha para o mar

Passa, como passa o passarinho

Passa o vento e o desespero

Passa como passa a agonia

Passa a noite, passa o dia

Mesmo o dia derradeiro…”

Fica repetitiva essa meninada, mas é puro carinho! Sei que estou aí, pelo mundo. Aprendi lá na adolescência a distinguir menina de namorada. Das meninas a gente fica amigo! De algumas, a gente vira um quase irmão. As três meninas, cujas fotos estão aqui no post, são minhas irmãs de pai e mãe. Tenho muitas outras, irmãs na vida.

Este dia das crianças quero dedicar aos meninos e meninas que encontrei por todo o tempo. Acho que a vida seria bem melhor se a gente tratasse as meninas e os meninos como irmãos. E, recordando bem seriamente como é ser irmão, é fácil tratar os outros com maior delicadeza, sendo duro só quando necessário; muito necessário!

Walderez, mãe de um casal, avó de uma menina e de um menino.

O mundo está hiper cheio de meninos e meninas. De todas as idades, credos, cores. Pode-se resolver essa data facilmente, dando um brinquedo bobo, fazendo um passeio qualquer. Afinal, essa data, ao que parece, surgiu foi para incrementar o comércio. Fazer o que… ela está aí! O jeito é encarar.

Esse blog, tudo indica, não é frequentado por crianças. Mas as pessoas que passam por aqui tem irmãos, irmãs… Meninos e meninas. Por isso, para as próximas noites quero dizer pra meninada da minha vida, que vou imaginar essa canção, com todo o meu carinho, para toda a “criançada”!

“É tão tarde, amanhã já vem

Todos dormem, a noite também

Só eu velo por você meu bem

Dorme anjo, o boi pega neném…

Boi, boi, boi

Boi da cara preta

Pega essa menina

Que tem medo de careta!”

(quase fim)

.

Essa foi a história que ainda é. Vamos por aí, ao lado de tantas outras crianças que foram netos, bisnetos das duas primeiras, Laura e Bino. Abaixo, concluo este com a imagem do menino que escreve este blog .

Até!

Notas Musicais:

Maninha – Chico Buarque

Lili – Deutsch/ kaper – Versão: Haroldo Barbosa

Menininha –Vinicius de Moraes / Toquinho

As minhas meninas – Chico Buarque

As vitrines – Chico Buarque

O tempo e o rio– Capinam / Edu Lobo

Acalanto – Dorival Caymmi

A agulha do palheiro

Em 2011 foram publicados 58.192 títulos no Brasil. Desse total, 20.405 foram feitos em primeira edição. Esse mercado tem crescido e, no próximo ano, estarei atento aos novos números, sabendo que nosso livro, “Um profissional para2020”, estará entre os milhares de livros disponibilizados para o brasileiro.

Não é nada fácil estar entre vinte mil, disputando espaço na preferência de milhões de brasileiros. A tiragem inicial de um livro, no Brasil, é sempre pequena; entre um, dois mil exemplares. Então tudo fica menor ainda, ínfimo, tal qual agulha no palheiro, ou como as sementes e as idéias. E nisso, na pequenez e grandeza de uma semente ou de uma idéia que está a razão do trabalho, da ação.

A semente do livro contemporâneo surgiu lá atrás, na Alemanha, quando Gutenberg criou a imprensa moderna. De lá pra cá, muitas novas idéias forjaram livros belíssimos; outros inventores e criadores, alguns ainda entre nós, possibilitaram o “livro luz”, com a técnica que permite que você, leitor, leia este post ou a Bíblia, ou mesmo, entre milhões de possibilidades, versos de Cecília Meireles.

…As verdades e as quimeras.

Outras leis, outras pessoas.

Novo mundo que começa.

Nova raça. Outro destino…

E as idéias.

Os livros digitais estão aí e talvez, em 2020, sejam publicados em maior número que os livros impressos. Transitando entre duas eras distintas estou, ansiosamente, aguardando o exemplar em papel e, deixando para depois o livro eletrônico, o e-book. Importa-me a forma, já que necessito dela; sobretudo, importam-me as idéias. De todos os autores que gentilmente aceitaram uma primeira idéia: delinear possibilidades para o futuro profissional, o estudante de agora.

No momento nosso país esta recebendo promessas de ações que modificarão o planeta, o país, a cidade. O tal horário eleitoral é um celeiro de idéias; algumas são mirabolantes; há candidatos a prefeito que não separam as esferas de poder e prometem coisas que estão em esferas acima, onde transitam governadores e presidentes. Plantam idéias e buscam, no grande palheiro eleitoral, um único voto para somar aos tantos necessários em uma eleição.

Nesta semana chega o resultado de um trabalho iniciado há muito tempo; diferentes idéias que foram ganhando espaço, tornadas esboço de uma forma que, em nosso livro, estão fixadas, mas não fechadas. É muito bom estar em um trabalho que não promete, mas que planta; que não determina, mas que aponta, sugere. Uma semente para germinar entre outras idéias, outras sementes, colaborando nas decisões imediatas ou futuras de nossos leitores.

Comecei com os números altíssimos do mercado editorial brasileiro porque é salutar, neste momento, ter a perspectiva correta do que estamos fazendo, do espaço que ocupamos. Somos a agulha do palheiro. Nada me impede de ficar imaginando nosso “Um profissional para 2020” entre os milhares de outros livros disponíveis. Por isso fico sonhando com terrenos férteis para nossas sementes, com mentes livres onde nossas idéias sejam discutidas, refletidas, e só depois acatadas. E assim, só assim, vamos em frente!

.

Boa semana para todos!

.

Notas:

– Os versos de Cecília Meireles são do Romance XXI ou das Idéias.

Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

.

Até!

.

Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

.

Magro, primeiras lembranças

Semana de perdas lamentáveis. Para o rock, com a morte de Celso Blues Boy, para a MPB, a morte de Magro (Antonio José Waghabi Filho), líder do grupo vocal MPB4.

Chico Buarque com o MPB4, Roda Viva para a eternidade.

Todo apreciador de música brasileira não digere bem a música Roda Viva, de Chico Buarque, quando não interpretada por ele e pelos “meninos” do MPB4. Desde a primeira audição, no antigo Festival da TV Record, os quatro integrantes do MPB4 ficaram definitivamente associados ao compositor e a um repertório de altíssima qualidade. Com Magro estiveram Dalmo, Miltinho e Aquiles. A afinação impecável, os arranjos inteligentes e sofisticados.

Há uma infinidade de canções que serão eternamente associadas ao grupo. “Amigo é pra essas coisas”, certamente, é a mais tocada e cantada por boêmios, em mesas de bar e boates, de todo o país. Os rapazes do MPB4 colocam doçura e virilidade em uma canção que poderia ser alçada à categoria de hino da amizade.

Magro (Antonio José Waghabi Filho)

Adeus.
Toma mais um…
Já amolei bastante.
De jeito algum…
Muito obrigado amigo.
Não tem de que.
Por você ter me ouvido.
Amigo é pra essas coisas…
É.
Toma um Cabral.
Tua amizade basta.
Pode faltar.
O apreço não tem preço.
Eu vivo ao Deus-dará!

Além do repertório de carreira, que inclui músicas extraordinárias como “De frente pro crime” (João Bosco e Aldir Blanc), ou “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil), quero recordar outros momentos do grupo, como por exemplo, a participação na peça “Os Saltimbancos”, quando Ruy interpretou o cachorro e Magro, o Burro; os dois formaram, no musical infantil, um quarteto com a gata, interpretada por Nara Leão e a galinha, por Miúcha. Também é inesquecível os encontros do MPB4 com o Quarteto em Cy; os quatro rapazes e as quatro meninas deixaram uma gravação memorável e uma interpretação imbatível para o “Cio da Terra” (Milton Nascimento e Chico Buarque). Para concluir esse pequeno inventário de lembranças, a “Antologia”, uma série em que o grupo resgata e registra a história da nossa música.

Nossa música fica mais pobre, desfalcada, com a morte do guitarrista e do cantor. Pouco acompanhei a história de Celso Blues Boy, embora tenha conhecimento do que ele fez para a música brasileira. Do outro lado, sinto a morte de Magro como a de um velho amigo, com uma amizade que começou lá nos anos 60, quando bastava um microfone para cinco pessoas. Sim, um único microfone para o MPB4 e Chico Buarque. E o Brasil ganhou uma “Roda Viva” inesquecível. Pequenos detalhes que tornam um momento especial, que não deve ser esquecido. Primeiras lembranças quando ouvimos um nome, quando lamentamos uma perda.

Magro, Ruy, Aquiles e Miltinho. A formação original.

Para detalhes sobre a morte do cantor, veja aqui.

Até mais!

Notas:

Amigo é pra essas coisas (Sílvio da Silva Junior e Aldir Blanc)

Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

.

Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

.

A cartomante estava certa

.

Para meu amigo Fernando Brengel.

.

Na última segunda-feira revi Zuzu Angel, o filme dirigido por Sergio Rezende que narra a história da estilista carioca. O filho de Zuzu foi preso e morto pela repressão no período da ditadura militar. A mulher empreende uma busca ingrata pelo filho, em um ambiente hostil onde os donos do poder arrogam-se o direito de não responder, de mentir. Quando informada que o filho morreu torturado na prisão, Zuzu passa a reivindicar o corpo do filho; acaba sendo morta em um acidente provocado por agentes da repressão.

Uma canção de Chico Buarque sintetizou a trajetória de Zuzu em música denominada “Angélica”. Ao mesmo tempo em que Chico evidencia o aspecto angelical da mulher, que lamenta a tenebrosa perda, também se esquiva da censura que proibiu a imprensa de publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…

A nossa história está carregada de mandos e desmandos de gente poderosa. Podemos dizer que os militares são filhos dos coronéis do passado, que tudo resolviam pela força, pelas armas. De maneira leve, quase lúdica, esses coronéis estão lembrados, presentes em Dona Flor, interpretados por atores notáveis como Antonio Fagundes e José Wilker.

A crença no poder assentado pela força ainda é bastante presente entre nós. Em uma simples relação de um casal há resquícios de militares, de coronéis, quando o sujeito, com uma inflexão peculiar, refere-se à companheira como “minha mulher”. A expressão determina quem manda, indica uma pretensa superioridade.

O problema sai da esfera individual quando tememos alguém por conta da quantidade de dinheiro ou pela posição que esse ocupa na sociedade. A tendência à submissão pelo medo, pela ignorância, é um triste fato constante na história da nossa gente. Da mesma época de “Angélica” há outra música, de Ivan Lins e Victor Martins, que parece incitar-nos à submissão:

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos…

Temos origem portuguesa e há sempre um fado pairando sobre nossas cabeças. A tristeza, a amargura e a descrença ameaçam nosso cotidiano. Tendemos a acreditar que o país não tem jeito, que nada mudará, que as coisas permanecerão como sempre foram. Uma atitude de esperança soa como ingenuidade. A felicidade é coisa de “jogo do contente” e para evitar repetir Pollyana seguimos, cinicamente, ignorando que é possível mudar. No entanto…

A música de Ivan Lins e Victor Martins chama-se “Cartomante”, longe de pregar a submissão, funcionou como profecia que, aos poucos, tornou-se realidade.

… Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada.

O Mensalão começou. Não sei quem está certo. Não sei quem é inocente ou culpado; todavia, o país que foi de coronéis de nome e militares de carreira vem evoluindo e, dentro da legalidade, botando ordem na casa. O mais importante nesse julgamento, que toma conta do noticiário, é o cacife dos réus. O STF – Supremo Tribunal Federal – ignora profissões, cargos políticos em um avanço democrático notável. São 38 réus entre deputados federais, ministros e secretários. A lista ainda conta com um publicitário, um tesoureiro e um diretor de marketing. O prefeito de Uberaba está entre os réus; na época dos acontecimentos agora em julgamento ele era Ministro dos Transportes.

Ivan, Chico e Vandré, nos discos em que estão as canções aqui citadas.

Que ótimo viver em um país onde um figurão é julgado publicamente. Infelizmente há a possibilidade de tudo terminar em pizza. Também é fato que bons pratos não são esquecidos. O Mensalão não é fato isolado e a história está aí, registrando a derrocada de outros que após julgamentos tiveram a carreira pública encerrada. A semana que começou com a triste história de Zuzu Angel termina com um alento, uma esperança de um país melhor. Dá até vontade de voltar no tempo, lembrar Geraldo Vandré e cantar “Pra não dizer que não falei das flores”…

Os amores na mente, as flores no chão

A certeza na frente, a história na mão

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Aprendendo e ensinando uma nova lição…

.

Bom final de semana.

.