Um Cordel Sobre o Natal

Recebi do meu amigo Giovanni, faz tempo, o vídeo abaixo, com um bonito cordel sobre o natal. Manifestação brasileiríssima, o texto é de Euriano Sales. Vale a pena ver, refletir, e assim, singelamente aguardar e contribuir para um Natal cheio de paz.

Até mais!

Diplomatas em cordel

No final do ano fui presenteado por Cadu Blanco com alguns folhetos de literatura de cordel. Quando um professor ganha um presente desse tipo – algo genuinamente representativo da cultura brasileira – pensa: “- nem tudo está perdido!”. Muito bom saber que um jovem universitário paulistano tem interesse por essas manifestações e, entre nós, fico feliz quando sou identificado como apreciador dessas formas artísticas.

Folheto de Cordel
Diplomatas brasileiros como tema para a poesia de cordel

Quem já visitou uma feira nordestina, dessas bem típicas, pode ter tido a sorte de ver, bem de perto a ação de um poeta de cordel. O sujeito apregoa loas sobre seu homenageado da hora, declama partes do texto, estimulando o público a comprar o folheto de cordel.

Um registro dessa ação, em outra forma artística, pode ser vista na peça teatral “O Pagador de Promessas”, também levada ao cinema e, portanto, disponível em vídeo. Na peça, Dedé Cospe-Rima é um personagem, criado por Dias Gomes, que transita pelos arredores da Igreja. Como bom poeta-comerciante, expressão do teatrólogo, Dedé vende o “ABC da Mulata Esmeralda” e outro folheto, notadamente bem humorado: “O que o cego Jeremias viu na Lua”.

Fui presenteado com cinco biografias. Uma do cordelista Chico de Assis, “Augusto Frederico Shmidt – um autêntico brasileiro”. As quatro restantes de Crispiniano Neto: “Rui Barbosa”, “Alexandre de Gusmão, Gênio e Herói Brasileiro”, “Barão do Rio Branco” e “Gilberto Amado”. Para quem conhece um pouquinho sobre essas personalidades históricas brasileiras, sabe que elas estão ligadas ao universo da diplomacia nacional. Daí não estranhar que esses folhetos tenham sido publicados pela Fundação Alexandre de Gusmão que é ligada ao Ministério das Relações Exteriores.

Dois exemplos da poesia de cordel

Impossível não pensar que seria óbvio que os folhetos fossem publicados pelo Ministério da Cultura ou da Educação? Bom, o Ministério das Relações Exteriores está envolvido com, por exemplo, dois grandes e próximos eventos: A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Eu espero, sinceramente, que seja para os eventos esportivos, seja para outros, como a Feira Internacional do Livro de Frankfurt (em outubro deste ano), o Ministério das Relações Exteriores inclua entre os brindes, os mimos que fará aos nossos convidados, ou àqueles que nos receberão na Alemanha, um kit com os folhetos de cordel.

Na América do Norte não sei, mas tenho certeza que os europeus reencontrarão uma velha fórmula, já que o cordel tem origem lá, no Renascimento, tendo se popularizado a partir do surgimento da impressão por tipos móveis. As histórias contadas e cantadas em versos populares sempre encantaram o mundo e, quem sabe, esta não seja uma ótima oportunidade para a popularização do cordel brasileiro?

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Boa semana para todos!

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Caminito Valdo Resende

A proibição aos artistas de rua

Uma manchete de jornal pode provocar alguns equívocos; por exemplo, no último dia 30 de novembro foi publicado que “SP TEM A MENOR TAXA DE DESEMPREGO EM 20 ANOS, SEGUNDO DIEESE”. Que ótimo, pensaria o ingênuo cidadão, até que lendo todo o texto, a informação seja numericamente esclarecida: na região metropolitana de São Paulo o contingente de desempregados foi estimado em 1,06 milhão de pessoas.

Outra notícia do ano passado, que continua repetindo e repercutindo nas redes sociais: “ARTISTAS DE RUA SÃO EXPULSOS DA PAULISTA”. São jovens músicos, instrumentistas e  “performers” variados. Nesta última categoria estão malabaristas, bailarinos e estátuas-vivas.

A proibição aos artistas de rua veio a partir de uma tal “Operação Delegada”. Nesta, policiais militares trabalham na folga para a prefeitura, coibindo o comércio ambulante irregular. As autoridades disseram ao Jornal da Tarde que “quando há qualquer tipo de exploração comercial, caracteriza-se um evento e há a necessidade de autorização da Prefeitura, que é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”.

Se a Prefeitura “é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”, porque não o faz?  Precisaríamos de um plebiscito para isso? Quanto tempo seria necessário para redigir um documento que permita a artistas trabalharem nas ruas, bastando para isso um cadastro na Secretaria de Cultura do município?

O prefeito desta cidade esteve muito ocupado criando um novo partido político e um artista de rua não garante milhares de votos; então, é mais fácil coibir do que regularizar e permitir que um desempregado possa garantir seu sustento. As proibições são mais ágeis que as soluções e assim temos conflitos imensos, como aqueles recentes ocorridos na região da Rua 25 de Março.

Caminito Valdo Resende
No Caminito quase dancei um tango!

O que falta a essas “autoridades” é uma visão mais ampla do que a arte pode fazer com um determinado local. Artistas caracterizam espaços urbanos e valorizam estes para além das fronteiras do próprio país. É de conhecimento mundial o quanto um artista valoriza uma região.

Na “Piazza Navona”, em Roma, músicos eruditos caminham pela antiga praça. Com um sinal gentil pedem licença e quando obtida, aproximam-se das mesas dos bares, colocadas no passeio público e tocam Vivaldi, Mozart ou outro grande autor.

O “Caminito” é atração imperdível em Buenos Aires com seus dançarinos e músicos de tango. Cantam, tocam e dançam para os turistas nas esquinas, convivendo harmoniosamente com os profissionais que exercem a mesma atividade nos bares e restaurantes locais.

Piazza Navona Valdo Resende
Walcenis, de boina preta, tomando sorvete na Piazza Navona

Tenho um amigo que vai anualmente para “Colônia”, na Alemanha, para trabalhar como estátua-viva. Ele fica em frente à famosa catedral da cidade e nesses últimos anos nunca foi coagido pelas autoridades alemãs. E é bom citar que ele tem visto apenas como turista.

Tratar artistas de rua como mero “comércio ambulante” é lamentável. É desconhecer uma tradição milenar que legou-nos poetas, menestréis, saltimbancos que enriqueceram a cultura humana com o fruto de um trabalho árduo.

Tenho um imenso respeito pelos artistas de rua. Pelos nossos cantadores nordestinos, nossos poetas de cordel; artistas que têm um extraordinário domínio de seu ofício, este quase sempre aprendido via tradição familiar. São improvisadores incríveis e, notável ainda, em um país ainda marcado pelo analfabetismo, improvisam em versos!

Outro dia, passando pela Praça da Sé, parei para ouvir por alguns minutos um rapaz com um violão, interpretando Raul Seixas. A música suavizando o caos de veículos motorizados, religiosos pregando aos borbotões. Em outro momento, na mesma região, um grupo típico nordestino  – zabumba, acordeom e triangulo – animava alguns transeuntes que dançavam, como se o calçadão fosse um belo salão de festas.

O que me conforta é saber que o atual prefeito irá passar, será esquecido da mesma forma que não nos lembramos dos artistas de rua. Só que estes permanecerão. É a história que nos permite afirmar isto. A tenebrosa Idade Média não acabou com os menestréis e a indústria do entretenimento não acabou com a arte de rua. Seria bom que as autoridades e os responsáveis pela “Operação Delegada” refletissem sobre essas questões.

Bom final de semana!