Diplomatas em cordel

No final do ano fui presenteado por Cadu Blanco com alguns folhetos de literatura de cordel. Quando um professor ganha um presente desse tipo – algo genuinamente representativo da cultura brasileira – pensa: “- nem tudo está perdido!”. Muito bom saber que um jovem universitário paulistano tem interesse por essas manifestações e, entre nós, fico feliz quando sou identificado como apreciador dessas formas artísticas.

Folheto de Cordel
Diplomatas brasileiros como tema para a poesia de cordel

Quem já visitou uma feira nordestina, dessas bem típicas, pode ter tido a sorte de ver, bem de perto a ação de um poeta de cordel. O sujeito apregoa loas sobre seu homenageado da hora, declama partes do texto, estimulando o público a comprar o folheto de cordel.

Um registro dessa ação, em outra forma artística, pode ser vista na peça teatral “O Pagador de Promessas”, também levada ao cinema e, portanto, disponível em vídeo. Na peça, Dedé Cospe-Rima é um personagem, criado por Dias Gomes, que transita pelos arredores da Igreja. Como bom poeta-comerciante, expressão do teatrólogo, Dedé vende o “ABC da Mulata Esmeralda” e outro folheto, notadamente bem humorado: “O que o cego Jeremias viu na Lua”.

Fui presenteado com cinco biografias. Uma do cordelista Chico de Assis, “Augusto Frederico Shmidt – um autêntico brasileiro”. As quatro restantes de Crispiniano Neto: “Rui Barbosa”, “Alexandre de Gusmão, Gênio e Herói Brasileiro”, “Barão do Rio Branco” e “Gilberto Amado”. Para quem conhece um pouquinho sobre essas personalidades históricas brasileiras, sabe que elas estão ligadas ao universo da diplomacia nacional. Daí não estranhar que esses folhetos tenham sido publicados pela Fundação Alexandre de Gusmão que é ligada ao Ministério das Relações Exteriores.

Dois exemplos da poesia de cordel

Impossível não pensar que seria óbvio que os folhetos fossem publicados pelo Ministério da Cultura ou da Educação? Bom, o Ministério das Relações Exteriores está envolvido com, por exemplo, dois grandes e próximos eventos: A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Eu espero, sinceramente, que seja para os eventos esportivos, seja para outros, como a Feira Internacional do Livro de Frankfurt (em outubro deste ano), o Ministério das Relações Exteriores inclua entre os brindes, os mimos que fará aos nossos convidados, ou àqueles que nos receberão na Alemanha, um kit com os folhetos de cordel.

Na América do Norte não sei, mas tenho certeza que os europeus reencontrarão uma velha fórmula, já que o cordel tem origem lá, no Renascimento, tendo se popularizado a partir do surgimento da impressão por tipos móveis. As histórias contadas e cantadas em versos populares sempre encantaram o mundo e, quem sabe, esta não seja uma ótima oportunidade para a popularização do cordel brasileiro?

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Boa semana para todos!

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8 comentários Adicione o seu

  1. Se a literatura dos cordéis em sua maioria falassem disso ou tivessem repasse de caixa 2 com toda certeza seria divulgada, mas pra variar estamos no país do carnaval, do futebol e da corrupção. Hipócrita eu não sou amo o carnaval e o futebol então nem se fala, só que viver disso durantes anos o fio é muita hipocrisia parabéns pelo belo presente.

  2. Valeu lembrar o cordel bro! Como gosto demais, comprei alguns agora no Recife. Vale a pena também conferir o trabalho do Valdir Teles, organizador das finais de cordel no Ceará. Tenho um CD de uma dessas finais e vou emprestar pra vc. Bjs.

  3. É uma pena que poucos conheçam estes textos que são primorosos na essência. Excelente ideia de divulgá-las através dos brindes, mas infelizmente acho que a famosa caipirinha ainda vá fazer sucesso – mais do mesmo… é a pura criatividade que vivemos hoje… bjs

  4. Patricia disse:

    Morei 2 anos em Recife e o cordel por la é representado de todas as formas,É lindo,ver o poeta declamando o cordel,tão criativo, lúdico e envolvente…não tem como não parar para prestar atenção numa manifestação de arte tão original.O cordel esta impresso nos livretos,nas xilogravuras.Me deu saudades de ve-las representadas nas feirinhas livres de Pernambuco,no Paço Alfandega .E o povo nordestino,valoriza muito as manifestaçoes culturais,todas as casas sempre tem uma xilogravura ou um livrinho de cordel,sobre as revistas!
    Nas feirinhas livres no Paço Alfandega ,o interesse dessa arte.Podemos nos manisfestar nas redes sociais e quem sabe essa brilhante ideia de divulgar o que temos de melhor no Brasil,chegue ate os organizadores dos eventos.Bjos

  5. Patricia disse:

    Nas feirinhas livres no Paço Alfandega,o interesse dessa arte é evidente nos gringos que adoram as manifestações calorosas,mesmo alguns não entendo nada,mas valorizam ate mais do que nós brasileiros,basta perguntar para um adolescente se ele conhece algum cordel…teremos a resposta como tive aqui em casa.Conheço a novela cordel encantado”.Lamentavel a geração do meu filho,rsrsrsr

  6. Walcenis disse:

    “Ai! Se sêsse!…
    Autor: Zé da Luz

    Se um dia nós se gostasse;
    Se um dia nós se queresse;
    Se nós dois se impariásse,
    Se juntinho nós dois vivesse!
    Se juntinho nós dois morasse
    Se juntinho nós dois drumisse;
    Se juntinho nós dois morresse!
    Se pro céu nós assubisse?…”

  7. Walcenis disse:

    Que presentaço! Vamos compartilhar.

  8. Adalberto disse:

    O início da nossa literatura deveria ser de Cordel. Além de divertido é interessante.

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