A “Pietá”, de Michelangelo, recebe o Cristo da cruz

A “Pietá” é um dos temas mais comoventes da iconografia cristã. Supostamente é o momento em que Maria recebe Jesus, retirado da cruz por intervenção de José de Arimatéia. O Novo Testamento registra a ação de Arimatéia, mas não o momento em que Maria recebe o corpo do filho. Todavia, é um tema presente nas imagens cristãs. Michelangelo, entre 1497 e 1500 criou a “Pietá” mais famosa e, certamente, uma das mais lindas, que está na Basílica do Vaticano, em Roma.

Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni ficou para a eternidade como Michelangelo, um dos nomes que sintetizam o Renascimento. Escultor de obras extraordinárias como a “Pietá” e o “Túmulo de Júlio II”, o artista ainda deixou obras máximas na pintura como os afrescos do teto da Capela Sistina e o “Juízo Final”, o grande afresco do altar da mesma capela. E se alguém acha pouco, Michelangelo ainda foi um arquiteto que, entre outras obras, legou-nos o Palazzo Farnese e a Praça do Capitólio, em Roma.

Em Florença, onde estudou com Domenico Ghirlandaio, Michelangelo deixou outros trabalhos que fizeram dele, desde jovem, um dos nomes mais influentes de todo o Renascimento Italiano. Protegido pela poderosa família Medici, nobres fiorentinos, Michelangelo esculpiu o “Davi” e um conjunto fabuloso, a sacristia da Igreja de San Lorenzo, que inclui quatro grandes esculturas sobre os túmulos de membros da família. Os nobres italianos desse período garantem o céu enterrando-se no interior das igrejas.

Voltando a “Pietá”, vale ressaltar alguns aspectos do gênio de Michelangelo. Além da maestria no panejamento (maneira em que esculpe as vestes das personagens) há o esmero na reprodução da mão do Cristo, revelando domínio técnico e científico (também presente em outros detalhes, como na mão de “Davi” que faço questão de colocar, pela admirável técnica de um mestre maior). Há mais! Observe a imagem e perceba que unindo as extremidades, o conjunto escultórico está dentro de um triangulo. Para obter maior harmonia, Michelangelo usou proporções diferenciadas: Maria é representada maior que o Filho. Assim, ela consegue acomodá-lo em seu colo, tornando-o simplesmente isso: o Filho.

A escultura tem 1,74m de altura e 1,95 de largura. É a única escultura assinada por Michelangelo. Isto ocorreu quando o artista soube que a autoria da obra estava sendo dada a outro escultor. Além desta, Michelangelo esculpiu outras imagens com o tema “Pietá”. A Pietá da Palestrina, e a Pietá do Museu dell’Opera Del Duomo, estão em Florença. Há uma terceira,a Pietá Rondanini, em Milão.

No dia em que, por todo o canto, estão colocando o Cristo na cruz, preferi lembrar esse momento, de quando ele é retirado. A obra de Michelangelo lembra, com singela grandiosidade, o momento trágico em que uma mãe recebe o corpo torturado do filho inocente. O artista deixou Maria com expressões limpas, que sugerem a dor extrema de quem nada pode fazer e que lembra a resignada mulher que apóia e acompanha o filho.

Algumas circunstâncias presentes no noticiário são sinais de que o sacrifício de Cristo valeu a pena, mas que ainda há muito por fazer. E esse é o sentido de lembrar a paixão, morte e ressurreição do Filho de Deus. Precisamos fazer muito para evitar todo o tipo de males que sobram por aí. Dos mais terríveis, porque atentam contra a vida humana, a outros, que visam destruir bens preciosos.

A “Pietá”, lá em Roma, vive protegida por vidro a prova de bala. Em 1972 a escultura foi agredida a marteladas por um australiano de origem húngara, Lazlo Toth, que desferiu vários golpes, principalmente no rosto de Maria. Consta que os trabalhos de restauração foram conduzidos por um brasileiro, Deoclécio Redig de Campos. Paraense, era diretor dos museus vaticanos; um motivo de orgulho para todos nós.

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Boa páscoa para todos.

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Diplomatas em cordel

No final do ano fui presenteado por Cadu Blanco com alguns folhetos de literatura de cordel. Quando um professor ganha um presente desse tipo – algo genuinamente representativo da cultura brasileira – pensa: “- nem tudo está perdido!”. Muito bom saber que um jovem universitário paulistano tem interesse por essas manifestações e, entre nós, fico feliz quando sou identificado como apreciador dessas formas artísticas.

Folheto de Cordel
Diplomatas brasileiros como tema para a poesia de cordel

Quem já visitou uma feira nordestina, dessas bem típicas, pode ter tido a sorte de ver, bem de perto a ação de um poeta de cordel. O sujeito apregoa loas sobre seu homenageado da hora, declama partes do texto, estimulando o público a comprar o folheto de cordel.

Um registro dessa ação, em outra forma artística, pode ser vista na peça teatral “O Pagador de Promessas”, também levada ao cinema e, portanto, disponível em vídeo. Na peça, Dedé Cospe-Rima é um personagem, criado por Dias Gomes, que transita pelos arredores da Igreja. Como bom poeta-comerciante, expressão do teatrólogo, Dedé vende o “ABC da Mulata Esmeralda” e outro folheto, notadamente bem humorado: “O que o cego Jeremias viu na Lua”.

Fui presenteado com cinco biografias. Uma do cordelista Chico de Assis, “Augusto Frederico Shmidt – um autêntico brasileiro”. As quatro restantes de Crispiniano Neto: “Rui Barbosa”, “Alexandre de Gusmão, Gênio e Herói Brasileiro”, “Barão do Rio Branco” e “Gilberto Amado”. Para quem conhece um pouquinho sobre essas personalidades históricas brasileiras, sabe que elas estão ligadas ao universo da diplomacia nacional. Daí não estranhar que esses folhetos tenham sido publicados pela Fundação Alexandre de Gusmão que é ligada ao Ministério das Relações Exteriores.

Dois exemplos da poesia de cordel

Impossível não pensar que seria óbvio que os folhetos fossem publicados pelo Ministério da Cultura ou da Educação? Bom, o Ministério das Relações Exteriores está envolvido com, por exemplo, dois grandes e próximos eventos: A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Eu espero, sinceramente, que seja para os eventos esportivos, seja para outros, como a Feira Internacional do Livro de Frankfurt (em outubro deste ano), o Ministério das Relações Exteriores inclua entre os brindes, os mimos que fará aos nossos convidados, ou àqueles que nos receberão na Alemanha, um kit com os folhetos de cordel.

Na América do Norte não sei, mas tenho certeza que os europeus reencontrarão uma velha fórmula, já que o cordel tem origem lá, no Renascimento, tendo se popularizado a partir do surgimento da impressão por tipos móveis. As histórias contadas e cantadas em versos populares sempre encantaram o mundo e, quem sabe, esta não seja uma ótima oportunidade para a popularização do cordel brasileiro?

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Boa semana para todos!

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A arte evolui, Roberto canta “Emoções”

A pintura em Lascaux, França, atingiu níveis admiráveis de sofisticação.

Mudanças! A pedra foi um primeiro suporte para a expressão humana; as pinturas rupestres são registros desse momento. O homem insatisfeito, já que pintar ou grafar pedra não é coisa fácil, usou outros suportes: pele, papiro e o papel, até chegar à tela que recebe o que escrevo; em outra tela você, leitor, recebe minha mensagem.

Movimento! A arte começou lá nas esculturas pré-históricas e mais uma vez o ser humano, por mero deleite ou por resposta às próprias inquietações, esculpiu pedra, madeira, mármore, bronze e soube captar formas, criar outras. Justamente porque aprendemos a dominar formas e a inseri-las no espaço é que somos capazes de construir foguetes, transatlânticos.

Botticelli, a primavera. A técnica utilizada nesta é a têmpera sobre madeira.

Transformações! A pintura rudimentar surgida nos primeiros tempos evoluiu; no Paleolítico atingiu níveis admiráveis de sofisticação. Nela também ocorreu, e ainda ocorre, a busca pelo melhor material, pelo suporte mais adequado. A importância de um determinado material para a evolução da expressão humana pode ser exemplificada no Renascimento pelos avanços da pintura, tanto em técnica quanto em materiais.

Todo esse preâmbulo para sinalizar que o ano está acabando e que o grande barato de viver é seguir em frente.  Temos uma série de rituais para todos os dezembros. E rituais são fundamentais para sinalizar a passagem desses momentos. Mas, convenhamos, algumas mudanças são saudáveis, necessárias, bem-vindas. E pequenas alterações em “rituais eternos” vão transformando esses costumes, atualizando-os, colocando-os em sintonia com o que vivemos e sentimos. Agora, vamos matutar; como essas mudanças são difíceis!

Para algumas pessoas é impossível não rolar um peru (!); crianças ganharão presentes, adolescentes encherão a cara, namorados trocarão cartões melosos, uns perfumados, outros sonoros… Roberto Carlos, imutável, vai cantar “emoções” por aí. Teremos “Emoções em alto mar”, “Emoções em Jerusalém”, “Emoções sertanejas”, “Emoções na tv ou no aparelho de som”… A televisão reprisará filmes e alguns personagens, como Assis Valente, voltarão ao destaque.

Podemos disfarçar, mas certas "emoções" são sempre as mesmas.

Sem entrar em questões religiosas, apenas enfatizando o final de um ciclo iniciado em janeiro passado: o que há realmente para comemorar? Seja no natal ou no ano novo. E sem embarcar nas realizações alheias, tipo “fomos campeões no sambódromo”. Também que fique bem claro que não penso em grandes acontecimentos; bastam pequenas atitudes, tipo não ficar berrando na beira do palco para o Roberto Carlos cantar “Emoções”; ou plantar um pé de jabuticaba, rabiscar uma poesia ou, sei lá, tentar combinar o tal peru natalino com cuscuz e tapioca.

Listar ações e atitudes, fazer um balanço de final de ano pode parecer burocrático demais. Todavia, penso que é fundamental sentir que algo novo foi feito, criado, para que a palavra evolução tenha mais peso que a palavra velhice. Quando criamos alguma coisa e fazemos disso um hábito, basta terminar essa coisa para começarmos a pensar na próxima. E o tempo deixa de ser aquele que passa para ser aquele tornado sempre insuficiente para tudo o que almejamos.

Eu não canto “Emoções”. Nada contra o autor e sua canção. Penso é na necessidade de sempre se colocar um pouco de arte na vida. Estudando o que já foi feito, experimentando fazer alguma coisa, descobrindo outro tanto. Não cantar “Emoções” para poder vivê-las!  A arte evolui e podemos ir com ela; no mínimo tentar. O que não é válido é sentir o tempo como peso, como perda.  Não dá medo pensar em passar a vida prostrado frente à tv, vendo Roberto Carlos cantar “Emoções”? Lembrar o que “chorei”, “sorri”, “senti”, o que “eu vivi”… tudo passado!

Toca pra frente. Vamos viver!