Brasil 2014

salvador_dali_a_persistencia_da_memoria

Depois do carnaval

Depois do verão

Depois da copa do mundo

Depois das eleições

Depois… Depois…

Antes.

O que há pra antes?

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Até!

Ao vencedor, as batatas… Quentíssimas!

Sexta-feira, indo para São Caetano do Sul, nas imediações da Avenida Delamare, eu e meu amigo Robinho presenciamos três assaltantes dando coronhadas em um carro. O assalto não foi concretizado, pois não quebraram os vidros e o motorista acelerou logo que possível. Antes de entrarmos na Avenida Goiás, em outro semáforo, conversamos com o motorista. Aí que descobrimos ser uma senhora e esta relatou-nos, apavorada, que era a terceira vez que ocorria aquilo com ela.

Fato corriqueiro, um assalto parece banal; três é coisa de gente azarada. Para quem concorda que isso é “fato corriqueiro” tem mais violência, muito mais: clique “UM” para saber de quatro pessoas mortas; clique “DOIS” para saber detalhes sobre onze assassinatos; clique “ TRÊS” para chacina com 20 pessoas mortas. Violência urbana: uma batata quentíssima para o prefeito eleito em São Paulo no dia de hoje.

Domingo, enquanto fechavam as urnas, e as pesquisas já apontavam o vencedor, uma tempestade colocava a cidade em atenção, o que oficialmente significa: “órgãos públicos municipais, como a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, a CET e as subprefeituras direcionam as equipes para os pontos mais críticos da cidade. Essa ação é feita para evitar que motoristas entrem em vias alagadas…”.

A notícia acima é da Folha de São Paulo e está completinha aqui. O trecho foi destacado por mim, para lembrar que chuvas são sinônimos de alagamentos na capital paulista. Uma batata quente, encharcada, e cheia de barro para o novo prefeito.

Seria ótimo se fossem apenas duas batatas; mas há quantidade suficiente para muitos purês: As batatas da educação, da saúde, dos transportes, da habitação… Para cada secretaria municipal um batatal em altíssima temperatura. Com tanta batata indigesta vale refletir sobre quais os reais motivos para o sorriso do vencedor.

Poder é algo que atrai, seduz, deslumbra. Junto com poder vem o dinheiro que, entre outras coisas, paga plástica para o poderoso ficar atraente, ter maior facilidade de seduzir e, quem sabe, deslumbrar! Ainda há o fato de que o poder obtido em disputa vem com o sabor de possibilitar, “elegantemente”, que se tripudie sobre a derrota alheia…

A expressão “Ao vencedor as batatas” tem origem, é bom lembrar, em Machado de Assis, no romance “Quincas Borba”. Surge no exemplo do filósofo Quincas como conclusão da história de duas tribos, famintas ante um campo de batatas que entram em guerra, já que as batatas são suficientes apenas para uma delas. A tribo vencedora, renovando as energias com as tais batatas, poderá ir além, percorrer o caminho até chegar a um campo onde há grande quantidade de… Batatas. Simplificando: os vencedores podem desfrutar das batatas.

Uma cidade rica e poderosa justifica a ênfase com que tantos políticos lutem pelo direito de temporariamente conduzi-la; talvez por isso ignorem a grande e variada quantidade das doloridas batatas quentes. Atentem para o “temporariamente conduzi-la”! Quem quiser permanecer no poder há que saber esfriar batatas, e não mentir, dizendo que estão frias quando na realidade queimam vidas.

O calor da vitória traz sorrisos. E assim ocorre em todas as cidades onde, finalmente, termina o processo eleitoral de 2012. O momento é de aproveitar as saborosas batatas da vitória e, sem delongas, entrar no processo de transição para começarem a trabalhar. Fora dos comitês, em São Paulo, há pessoas sendo mortas aos montes; há tantos problemas na cidade que o mínimo que se pode dizer ao vencedor é: – Segure essa batata, senhor prefeito; do contrário, na próxima eleição, será o senhor a sair com as mãos abanando. Sem poder, sem dinheiro, sem batatas.

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Boa semana para todos.

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A delicada arte da escolha

Nas vésperas de uma eleição é assustador ler o título no UOL: “A dois dias da votação, 2.830 candidatos podem ter eleição anulada com base na Lei da Ficha Limpa.”

Fernando Sabino, o escritor mineiro, escreveu que “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.” Nas atuais eleições, o perigo não é escolher um, entre os 2.830 que aguardam decisão judicial, mas escolher um entre os milhares de outros corruptos que, por enquanto, livres do braço da justiça, ainda estão com a ficha limpa.

Não vivemos com nostalgia de escolhas políticas. Vivemos com receios, já que é raro o político de caráter íntegro. E também cumulamos frustrações perante escolhas de candidatos que, no poder, mostraram a face corrupta, a indiferença aos reais problemas da sociedade, a falta de cumprimento de promessas, além de evidentes crimes em ações que nossa justiça, filha predileta da preguiça, demora a julgar.

Um número considerável de brasileiros tende a menosprezar uma eleição. Cansados e desiludidos com as atitudes de muitos políticos, e com a lerdeza da justiça, preferem o desdém, o descaso. A vida é lenta na esfera política e exageradamente rápida nos efeitos da ação dos políticos sobre a população. Assim, é compreensível o desalento, o desânimo de muitos dos nossos irmãos brasileiros.

É delicada a nossa responsabilidade nesse momento de escolha. Temos que esquecer os aparentes cordeiros, a fé dos falsos profetas; precisamos ignorar aspectos físicos, já que beleza é totalmente dispensável, voz bonita também. A excelente fluência verbal é arma poderosa de enganadores. Sobretudo temos que tomar cuidado com alianças e apadrinhamentos. Tão velha quanto a sociedade humana, as alianças são mero jogo de interesses particulares ou de pequenos grupos. Quem escolher?

Não há como negar que avançamos. Por mais que apareçam subterfúgios, por mais atrasos que imponham à justiça, estamos avançando. Esta é a história. De triste herança, nossos coronéis políticos estão em extinção; a população, cada vez mais, exige honestidade, transparência, respeito. Um processo lento, mas inexoravelmente destinado a avançar.

Não tenho a ilusão de ver o mundo sonhado por muitos, mas compartilho da fé na construção via pequenos passos. O passo deste final de semana é votar com a certeza da coisa certa; rezando para que não tenhamos os olhos desviados pelos falsos brilhantes políticos, nossa inteligência entorpecida pelo discurso enganador. Vamos em frente, colocar nosso voto de confiança em um mundo mais digno. Lembrando, mais uma vez, o genial Fernando Sabino, vamos em frente, com esse pensamento na cabeça:

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

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Bom final de semana!

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Notas: as citações de Fernando Sabino são do romance “O Encontro Marcado”.

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