Meu Sonoro Passarinho

dirceu e marilia nelson cruz

Estive relendo momentos da vida do poeta Tomás Antonio Gonzaga e de sua Marília através da obra de Nelson Cruz (Dirceu e Marília) e recordei a Lira XXXVII de “Marília de Dirceu”. “Meu sonoro passarinho” é o primeiro verso, que guardei como título entre os poemas que prefiro.

Uma antiga novela de Ivani Ribeiro, Dez Vidas, tinha Gianfrancesco Guarnieri e Maria Isabel de Lizandra interpretando o casal romântico da Inconfidência Mineira. Guarnieri cantava e provavelmente era dele a melodia colocada sobre os versos do poeta. Talvez, algum dia, ache a canção por ai, registrada por algum bom cantor. Sem a melodia, fica o poema, belo por si.

ouro preto nelson cruz

Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento, 

Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício. 

Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,

Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica. 

Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte. 

Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela. 

Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos. 

O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa. 

Chega então ao seu ouvido,
Dize que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando.

A vida, geralmente pior que a poesia, separou o casal. Após o processo movido contra os Inconfidentes, a pena de Gonzaga foi o degredo, em Moçambique onde se casou com Juliana de Souza Mascarenhas. Já de Marília ficou o vazio de uma história perdida no tempo. Há até a dúvida se a musa foi a então jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas ou uma viúva, Maria Joaquina Anselma de Figueiredo. Acima da história, os poemas; belos e imortais.

Até mais!

Obs. As imagens acima são do livro de Nelson Cruz, editado pela Cosac Naify.

Testemunha falsa

Penso sobre a expressão “delação premiada”, recordo Cecília Meireles e tenho receios. Um bandido, tornado delator é melhor que o outro, o delatado? Nesses tempos difíceis, cheios de acusações, interrogatórios… O que pode dizer alguém para livrar a própria sorte do fim tenebroso? Do que alguém é capaz, já descoberto em seus crimes, na tentativa de ganhar menor tempo na prisão?

O Romanceiro da Inconfidência é uma das obras geniais da literatura brasileira. Todos os fatos ganham conotações riquíssimas na profunda poesia de Cecília Meireles. Gosto de todo o livro. Admiro cada poema, cada romance.

Vivemos tempos difíceis e temo, sobretudo, pela saúde do meu país, pela paz, pela garantia dos direitos constitucionais. Quero lembrar, neste momento, o “Romance XLIV ou da testemunha falsa”. Vale a pena ler e, sobretudo, refletir dentro da atual perspectiva.

Cecilia Meir

Romance XLIV ou da testemunha falsa

Cecília Meireles

Que importa quanto se diga?

Para livrar-me de algemas,

da sombra do calabouço,

dos escrivães e das penas,

do baraço e do pregão,

a meu pai acusaria.

Como vou pensar nos outros?

Não me aflijo por ninguém.

Que o remorso me persiga!

Suas tenazes secretas

não se comparam à roda,

 à brasa, às cordas, aos ferros,

aos repuxões dos cavalos

que, mais do que as Majestades,

ordenarão seus Ministros,

com tanto poder que têm.

Não creio que a alma padeça

tanto quanto o corpo aberto,

com chumbo e enxofre a correrem

pelas chagas, nem consiga

o inferno inventar mais dores

do que os terrenos decretos

que o trono augusto sustêm.

Não sei bem de que se trata:

mas sei como se castiga.

 Se querem que fale, falo;

e, mesmo sem ser preciso,

minto, suponho, asseguro…

É só saber que palavras

desejam de mim. – Se alguém

padecer, com tanta intriga,

que Deus desmanche os enredos

e o salve das consequências,

 se for possível: mas, antes,

 salvando-me a mim, também.

Talvez um dia se saibam

as verdades todas, puras.

Mas já serão coisas velhas,

muito do tempo passado…

Que me importa o que se diga

o que se diga, e de quem?

Por escrúpulos futuros,

não vou sofrer desde agora:

Quais são torpes? Quais, honrados?

As mentiras viram lenda.

E não é sempre a pureza

que se faz celebridade…

Há mais prêmios neste mundo

para o Mal que para o Bem.

Direi quanto me ordenarem:

o que soube e o que não soube…

Depois, de joelhos suplico

perdão para os meus pecados,

fecho meus olhos, esqueço..

– cai tudo em sombras, além…

Talvez Deus não me conforme.

Mas o Inferno ainda está longe,

 – e a Morte já chega à praça,

já range, na Ouvidoria,

nas letras dos depoimentos,

e em cartas do Reino vem…

 Vede como corre a tinta!

Assim correrá meu sangue…

Que os heróis chegam à glória

só depois de degolados.

Antes, recebem apenas

ou compaixão ou desdém.

Direi quanto for preciso,

 tudo quanto me inocente…

Que alma tenho? Tenho corpo!

E o medo agarrou-me o peito…

E o medo me envolve e obriga…

– Todo coberto de medo,

 juro, minto, afirmo, assino.

Condeno. (Mas estou salvo!)

Para mim, só é verdade

 aquilo que me convém.

Nota:

O Romanceiro da Inconfidência foi lançado em 1953. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

Sejam bem-vindos ao mundo novo!

NOVO MUNDO

Quando Zuckerberg e seus amigos criaram o Facebook estariam pensando em protestos e manifestações como estas que estamos vivenciando? É incontestável a idéia de que a internet muda a vida das pessoas e, definitivamente, as redes sociais são um marco na vida das populações. Bem-vindos ao mundo onde revoluções são organizadas sem que se saia de casa.

Essa nova realidade há que ser pensada por todos os lados e já ouso alguns esboços para futuros aprofundamentos:

– A imprensa deixa de ser a única porta-voz dos acontecimentos. Todo cidadão capaz de escrever, fotografar e que está conectado ao universo virtual pode falar por si mesmo. A imprensa perde credibilidade quando diz uma coisa e as imagens captadas pelo cidadão comum denunciam outra situação.

– Os governantes, mesmo em “Paris”, não têm o direito de dizer que “não foram informados dos acontecimentos”. As aparências não enganam quando a notícia tem a velocidade da Internet e se São Paulo perder a Exposição Universal (que é o que governador e prefeito foram tentar conseguir) por conta do que agora ocorre, é bom lembrar que nossa cidade tornou-se uma das maiores e melhores cidades pra se viver, sem que tenha tido aqui exposições universais ou copas do mundo.

– A polícia terá que usar com menor freqüência o velho argumento de que “vamos averiguar e apurar os fatos”. As imagens são candentes, em alta resolução e ganham o mundo instantaneamente, tanto quanto os depoimentos verbais. Os superiores terão que agir com honestidade ou evidenciarão cumplicidade com atos violentos.

– A população começa a perceber a força das redes sociais, embora tateie no uso eficaz. Governo e órgãos de segurança (Atentem para a expressão “segurança” e não “repressão”) carecem de observar as redes não com a intenção de reprimir, diluir ou acabar com os movimentos, mas para participarem com a população na busca de soluções compatíveis com os interesses reais dos indivíduos e suas respectivas comunidades.

– Uma verdade perturbadora: as redes mostram o fim da idéia que o brasileiro é bonzinho, um “ser cordial”. O ódio sobra em expressões que pedem violência, justificam atos violentos. A ditadura fez uma montanha de filhinhos prontos a exercer a dita cuja sobre os demais.

Bem-vindos ao mundo novo!

Nessa madrugada lembrei-me dos Inconfidentes mineiros. Ditos inconfidentes pelos poderosos da época, revolucionários reverenciados pela história. Pensei no quanto demorou em que um grupo fosse formado, em como foram difíceis as comunicações para agendar reuniões. Quantas horas, ou mesmo dias, passaram sem que se soubesse o real destino do amigo na masmorra ou já no desterro. Penso em Marília, pobre Marília, sem notícias do seu volúvel Dirceu, já em outro leito em terras africanas.

Ainda pensando em Minas me vi criança, em 31 de março de 1964, com a lembrança da energia elétrica cortada e da expressão preocupada de meus pais. Sem o rádio, único meio ágil de então, restava esperar o jornal que, já então duvidoso, anos depois, em 1968, chegaria totalmente censurado.

Vendo agora a rapidez de toda a sorte de manifestações, a força das palavras, a inegável verdade das imagens, as notícias tortas, os pedidos de paz, as agressões dos intolerantes – tudo isso em um curto espaço de tempo, ALGUNS MINUTOS, ALGUMAS HORAS – dou graças a Deus por estar vivo e dou graças à vida por me permitir viver tamanha revolução.

Há muito que pensar, muito para refletir. Fico imaginando os desvairados do passado que queimaram livros, proibiram pronunciamentos através de cortes aos jornais, aos programas de rádio e TV. Será que tem algum celerado pensando em reprimir as redes sociais? Será que algum estúpido pensa em tirar do ar a telefonia celular, a própria internet?

O passado nos mostra que pouco adiantou censurar, prender, torturar, queimar, matar; e isso quando levávamos meses para receber notícias. O mundo caminhou independentemente da tirania e crueldade de alguns. Agora, é bom que TODOS OS LADOS fiquem atentos: caminhamos com velocidade maior que a dos braços descendo o cassetete, que os jornais e telejornais moldados pelo interesse de seus donos. Sobretudo as ações de grupos, de comunidades inteiras, são agora extremamente mais rápidas que o voto. Sejamos responsáveis.

Bom final de semana para todos.

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