Manhã na Rua 7 de abril. Até quando?

7 de abril
Rua 7 de Abril, tranquilamente abandonada.

O centro da cidade de São Paulo aparenta ter momentos de tranquilidade. Principalmente no chamado “centro velho” onde ainda há ruas e avenidas que indicam calma e sossego se o olhar for distraído ou condescendente. Combinei de encontrar um amigo na Rua 7 de abril, numa das manhãs da semana que passou. Sobrou indignação após a permanência momentânea em uma das ruas centrais da cidade mais rica da América do Sul.

Não conheci os momentos de glória da Rua 7 de Abril quando nela estava a sede dos Diários Associados e, dentro dessa, o MASP, Museu de Arte de São Paulo, hoje com o acréscimo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Uma homenagem ao dono dos Diários Associados, responsável pela implantação da televisão no Brasil. Pois foi ali, na mesma sede, em 1950, que foram ao ar as primeiras imagens da TV TUPI, mudando a partir de então a comunicação no país e os hábitos dos brasileiros.

Pela Rua 7 de abril, nos anos de 1950, certamente passaram os maiores magnatas da cidade, em determinado momento portando obras de arte para “doação” ao MASP. Os parênteses na doação estão aí para assinalar histórias que insinuam ameaças, chantagens, troca de influências e sabe lá o que mais, dentro da teia de poder manipulada por Chateaubriand que, como todo grande homem da comunicação do país tinha ligação com a Presidência da República, no caso de Chatô, Getúlio Vargas.

Conheci a 7 de Abril já no final dos anos de 1970 e por lá estive inúmeras vezes nos anos seguintes, frequentando outra sede, da companhia de telefones. Lá era um dos locais ideais para fazer interurbanos (para as crianças de agora, chamadas telefônicas para outros municípios) em cabines que garantiam o mínimo de conforto, segurança e privacidade. Nos últimos anos ainda fui lá visitando um amigo em loja de serviços de reprografia com ênfase no popular “xerox”.

Voltar na semana passada foi triste, melancólico. Transformada em calçadão, com pequenas ilhas de convivência criadas com bancos de madeira e floreiras, a rua evidencia descaso da administração municipal pela quantidade de sujeira no ambiente. Lixeiras sobrecarregas são visitadas por infelizes e, uma atitude estranha: quando em duplas, o primeiro sujeito olha, mexe, procura algo antes de seguir caminho enquanto o outro faz o mesmo, checando ou procurando algo diferente do primeiro.

Usuário constante, o vendedor ambulante vem com um saco cheio de lixo sem conseguir descarregar os resíduos. Um ou outro transeunte joga um papel, ou qualquer outro objeto de pequeno porte na lixeira, o que me alegra pelo gesto educado e civilizado. Isso não se pode dizer de fumantes, os responsáveis por quantidade absurda de bitucas que, em próxima chuva, colaborarão para as enchentes na cidade.

Aguardei meu colega ao lado de duas agências bancárias e, em frente a essas, pude observar três lojas absolutamente iguais de capas para aparelhos celulares. Diante da loja central um casal de policiais, ciclistas, a bermuda fazendo parte do uniforme. O rapaz mantinha-se alheio enquanto a colega, por mais de vinte e cinco minutos, falou sem cessar ao telefone. Ambos ignoraram o sujeito que veio até a mim oferecendo maconha, para usar ou vender. Agradeci como aprendido em casa, educadamente, e o pseudo traficante se foi (levava mais para aviãozinho). Indignado passei a cronometrar o tempo da policial ao telefone e reitero, mais de vinte e cinco minutos!

Em contraponto à comunicativa policial, é raro ver alguém com o celular em mãos. E notei isso graças ao aviso de uma vizinha, sentada próxima, quando peguei meu aparelho para ver se já havia algum recado de quem eu esperava: “- Senhor, guarde seu telefone. Cuidado com assaltos. Se quiser usar, entre em alguma loja!” Foi o que fiz um pouco mais tarde quando o aparelho tocou anunciando a chegada do amigo ao encontro marcado.

Deixei a Rua 7 de Abril. Voltando para casa pude notar e confirmar que algumas ruas do meu bairro estão no mesmo diapasão. Ainda no caminho, passando pela Rua Major Diogo, vi mais uma vez a sede do TBC – TEATRO BRASILEIRO DE COMÉDIA, tão abandonado quanto a Rua 7 de Abril. Ah, São Paulo, cidade amada! Ah, conterrâneos, nascidos ou vindos de outros locais, como eu! Quando aprenderemos a escolher melhor nossos administradores? Quando exigiremos com veemência que não deixem a cidade imersa em sujeira e abandono?

Até mais.

Os Impressionistas em São Paulo

Muito bom morar em uma cidade como São Paulo: a cidade que recebe Caravaggio no MASP também expõe 85 quadros impressionistas, vindos diretamente de Paris. A mostra, denominada Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay está no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade.

“Impression soleil levant” (1872) o quadro de Monet que dá nome ao movimento

O Impressionismo é apaixonante e pede aprofundamentos diferenciados conforme o artista, a obra. Monet é um artista peculiar, próximo e distante de Cezanne. Gauguin, presente na história de vida de Van Gogh tem particularidades próprias que o tornam totalmente diferente do amigo. Renoir deixou pinturas memoráveis, feitas ao ar livre, enquanto Degas pintou o interior de teatros, o palco visto de dentro.

A grande exposição em São Paulo pode ser vista pelo jovem estudioso de arte, sequioso de ver de perto aquilo que conhece por reproduções gráficas. Também pode ser apreciada por aquele cidadão que nunca estudou arte e nem sabe o motivo de um movimento ser dito impressionista. As obras falam por si, conquistam pela qualidade técnica, pelas diferentes acepções de beleza formando, no todo, um grande tratado estético.

O Impressionismo: Diferentes formas de olhar, de perceber e captar o objeto.

O Impressionismo encerra um momento peculiar da arte no final do século XIX, sendo antecedente fundamental de toda a pintura do século XX. Uma fase que implica em quebra de padrões tradicionais, abandono de convenções em favor da liberdade de expressão e de pesquisa formal. Muitos fatores contribuíram para as mudanças que explodem com o Impressionismo. A busca por captar um instante, uma impressão observada propiciará manifestações individuais e há, nesse curto período de tempo, grandes e profundas divisões.

A exposição no CCBB apresenta três gerações distintas do movimento francês; os impressionistas, como Manet, Monet, Renoir e Cézanne; os pós-impressionistas, como Van Gogh e Gauguin, e os Nabis (profetas), com obras de artistas como Pierre Bonnard e Edouard Vuillard. Estão dispostos em quatro andares do Centro Cultural e carecem, basicamente, de mais do que uma hora de apreciação, mais que uma única visita para contato eficaz. Duas justificativas básicas:

O trabalho de Paul Cézanne busca captar formas, de sintetizá-las, expressá-las por ângulos diversos. Ele é antecedente direto da grande arte que faria de Pablo Picasso um dos maiores gênios da pintura no século XX. Não é com um olhar “de quem passeia pelo shopping” que esse artista será percebido em sua totalidade. Cézanne merece um olhar reflexivo, um tempo que é investimento para que possamos entender melhor o Cubismo de Braque e Picasso.

Cézanne – ‘Rochers près des grottes audessus de Château-Noir’ 1904.

Claude Monet é o impressionista por excelência. Sua obra é síntese do movimento. Nela, percebemos que o artista impressionista realiza uma “operação primária”, justapondo pinceladas em complexa tarefa de misturas de cores “puras”. Essas misturas resultam em novas cores conforme a intenção e necessidade do artista em captar um local, uma situação, um personagem. A obra se completa com outra operação, esta a cargo do espectador.  Ao observar a mistura ótica, dos fragmentos elaborados pelo artista, o espectador completa o resultado visualizando a imagem proposta. Esse é o grande diferencial da arte impressionista: o receptor participa da obra finalizando-a através da observação.

Tal qual no filme famoso, gostaria de ser vigia do CCBB. Poderia ver sozinho e tranquilamente esses 85 trabalhos. E da distância que quisesse. Porque os quadros impressionistas têm essa característica: devem ser vistos de uma distância razoável; três vezes a medida maior do quadro, dizem os especialistas. Assim, se um quadro tiver 1m de largura, o ideal é observá-lo a 3m de distância. Com tanta gente nos corredores do CCBB, terá muita sorte quem conseguir ver as telas conforme ensinam os nossos mestres.

Fico empolgado com esse tema; também com a oportunidade de contar com um evento que é de grande estímulo para que conheçamos mais, pesquisemos mais. A riqueza impressionista é imensa; é o grande ponto de partida para outros momentos, fortes, intensos e encantadores. Deixei de citar alguns fatos históricos, alguns artistas. Outras oportunidades virão; por enquanto importa ver, rever, descobrir, conhecer através das telas o que nos emociona, o que provoca admiração.

.

Bom final de semana!

.

Anote: Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay; Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, Centro. De 4 de agosto a 7 de outubro. De terça-feira a domingo, das 10h às 22h. Entrada: Gratuita.

.

Caravaggio chegou!

Estão em Roma alguns dos principais trabalhos de Caravaggio. Na penumbra de igrejas, sob uma irritante vigilância de padres que não ficam contentes com apreciadores de arte. Então, a melhor maneira para observar “A conversão de São Paulo” ou “A crucificação de São Pedro”, por exemplo, é fingir-se de fervoroso católico visitando a Igreja de Santa Maria Del Popolo. Todo mundo representa; o teatrinho compensa. Caravaggio é um dos maiores artistas do Barroco italiano.

A conversão de São Paulo, sob estrita vigilância dos padres da Igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. De lá, não sai fácil.

Em São Paulo, na exposição que começa hoje no MASP e que irá até setembro, ninguém precisará rezar. E não será por falta de obras sacras, já que estarão expostas obras como o “São Francisco em meditação” e o “São Jerônimo que escreve”, dois bons exemplos da técnica, da perícia e da capacidade expressiva do pintor italiano. Além de trabalhos do artista há outros, cuja autoria não é comprovada, e ainda uma terceira categoria de obras, feitas por admiradores do artista e por isso denominados “caravaggescos”. O nome da exposição: “Caravaggio e seus seguidores”.

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) viveu pouco, mas intensamente. A vida conturbada é motivo de curiosidade para muitos e é comum perceber o interesse de jovens, encantados com as transgressões do pintor. Entre as ações rebeldes de Caravaggio há o fato de ter usado como modelo, para pintar a Virgem Maria, uma prostituta chamada Lena, amante do pintor. Não só dissoluto, Caravaggio também foi violento e teve sua carreira comprometida por lutas, ferimentos e fugas. A última levou-o para longe de Roma e o pintor passou seus últimos dias tentando o perdão papal, morrendo em Porto Ércole, antes de conseguir retornar para Roma, o principal mercado de arte do período.

A Medusa Murtola é, deste post, a única obra exposta no MASP.

A pintura de Caravaggio – o nome do artista vem do lugarejo onde nasceu – é de um brutal e emocionado realismo. São composições dramáticas, violentas, buscando a emoção do receptor. O Barroco é um período em que a Igreja Católica busca responder aos avanços da Reforma Protestante. As construções e a arte barroca visam reforçar a fé católica, direcionar as sensações dos fiéis para o alto; prato cheio para figuras espiritualizadas, devotas, nobres. Caravaggio rebela-se contra o que foi denominado Maneirismo e escolhe seus modelos entre o povo e cria cenas religiosas com perturbadora realidade.

O domínio técnico do claro-escuro é absolutamente notório na obra de Caravaggio. As obras do pintor emergem da escuridão e cabem perfeitamente na penumbra de locais sacros como a Capela Contarelli, onde estão pinturas sobre a vida de São Mateus, ou as citadas acima, da Igreja de Santa Maria Del Popolo, que estão na capela Cerasi.

A Ceia em Emaús, exemplo da grande obra do artista, está na Galeria Nacional, em Londres.

O trabalho do artista está no Museu do Louvre, em Paris; no Palácio Barberini, em Roma; na Galeria Nacional, em Londres e, além das Igrejas e do museu do Vaticano, nas maiores galerias italianas tais como a Galeria Degli Uffizi e a Galeria Borghese. Se é difícil para o cidadão comum visitar todos esses lugares, visitar uma exposição dedicada ao artista é fundamental. Daí a relevância desse evento para os habitantes de São Paulo e para todos os que possam visitar a cidade.

Detalhes sobre horários, dias e preços estão em www.masp.art.br/masp2010

.

Até mais!

.

As linhas em Modigliani

Amedeo Modigliani está em São Paulo. No MASP. Italiano que fez parte da Escola de Paris, morto precocemente aos 36 anos em consequência de uma tuberculose. Diz a lenda, que foram essas as últimas palavras do artista: “Cara, cara Itália”. Pode ser mentira, mas cabe perfeitamente no espírito romântico à Lord Byron que permeia a vida de Modigliani.

Bebidas, mulheres, errante… palavras frequentes na biografia do pintor, escultor que, de origem abastada, conheceu a miséria da vida em Paris, vendendo desenhos por um copo de bebida. A obra de Modigliani é perceptível e única entre seus pares; suas personagens apresentam pescoços alongados em um traço distinto, que aqui chamo a atenção: as linhas de Modigliani.

Fortes, delicadas, grossas, finas, espessas, tênues… Nas linhas expressivas Modigliani mantém a tradição toscana  (Nascido em Livorno, passou por academias de Florença e Veneza) que, na visão dos críticos de arte são melodiosas, flexíveis. O grafismo de Modigliani é único com linhas que podem ser caracterizadas ainda mais: secas, elegantes, frágeis.

As linhas são o caminho vital, em Modigliani, para o domínio da forma. Vivendo entre os Cubistas, foi dono de um expressionismo que deforma em função de composições que mexem com o observador. Somos inclinados a acompanhar as linhas do artista e essas inclinam cabeças, alongam membros, tornando olhares vazios ou melancólicos; e as bocas, e os seios, os nus em Modigliani são vulneráveis, inocentes, desprendidos.

Como Tolouse-Lautrec, como Van Gogh, Modigliani preferiu gente simples como modelo para suas criações. Nessas escolhas – moças humildes, crianças frágeis – o olhar atento sobre a vida, as diferenças entre os homens, o sentimento humanitário frequentemente disfarçado em cinismo.

Artistas como Modigliani ficam distantes – em vida – do sistema que comercializa obras, tornando alguns muito ricos. É mais fácil encontrá-los em Montmartre, convivendo com boêmios, deserdados, embriagados, miseráveis. Por trilhar um caminho próprio vai ter uma única exposição que no dia da abertura foi fechada pela polícia. Os 33 nus que Modigliani expôs em 1917 escandalizaram Paris. O pintor faleceu em 1920, sem outra chance de mostrar oficialmente seu trabalho.

No MASP estão as linhas que o Modigliani traçou pelo espaço em formas únicas, tons quentes, indicando intimidade. Além das pinturas há desenhos e esculturas, permitindo aos visitantes uma visão maior de todo o trabalho do artista. O museu recebe visitantes de terça a domingo, das 11h00 às 18h00 e vai até o dia 15 de julho. Informações complementares pelo telefone 011 -3251 5644.

.

Bom final de semana!

.

De Chirico chegou!

Obra da fase inicial do artista: Gare Montparnasse, 1914

Na UNESP conheci De Chirico; a Marise e o Giorgio. Nessa ordem; a Marise foi minha colega e desde então minha grande amiga. Ela é De Chirico e sempre estudou o outro, o De Chirico greco-italiano. Minha amiga esteve na Itália, aprofundando-se no assunto sobre o qual dissertou em trabalho de mestrado. Conheci o trabalho do pintor na convivência com Marise. Depois, vi coisas dele em andanças por aí. Agora em São Paulo parte da obra desse artista singular.

De Chirico esteve em vários lugares antes de chegar a Paris, no início do século passado. Cidades da Grécia, Alemanha e da Itália, onde, em Florença, começa seu trabalho característico, que veio a ser denominado Escola Metafísica. “O enigma do Oráculo” e “Enigma de uma tarde de outono” estão entre as obras que dão o impulso inicial da Escola, que se caracteriza por combinar elementos anteriores ao artista com outros, retirados do cotidiano observado por ele. Em Paris expõe a série baseada na estação de Montparnasse (imagem acima), passando a ser reconhecido por seus pares.

Foi na capital francesa que o poeta Apolinário e o pintor Pablo Picasso disseram ser Giorgio de Chirico o pintor mais extraordinário de seu tempo. As praças misteriosas, as personagens estranhas, sugerem repetição e invenção. Um universo peculiar que instiga quem observa e faz do observador participante ativo quando este busca respostas aos “enigmas” propostos pelo artista.

As cidades e as personagens de De Chirico. (Reprodução / divulgação)

O insólito proposto por De Chirico está no Brasil, tendo primeiramente passado por Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo. Está no MASP, em São Paulo, até o dia 20 de maio e depois seguirá para Belo Horizonte, em Minas Gerais, onde será exibida na Casa Fiat, (29 de maio até 29 de julho). São 45 pinturas, 11 esculturas e 66 fotografias, da coleção da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma.

Denominada “De Chirico: O Sentimento da Arquitetura”, a exposição tem curadoria da arquiteta e crítica italiana Maddalena d’Alfonso. Prioriza a produção dos anos 60 e 70 do artista, falecido em 1978. Paisagens urbanas, cidades que mesclam arquitetura antiga e clássica e as estranhas figuras humanas criadas pelo pintor, que antecedeu o Surrealismo e alimentou este. A Fiat é a patrocinadora do evento que foi beneficiado pela Lei de Incentivo a Cultura, e que pode ser visto por R$ 15,00. Estudantes, professores e aposentados, com comprovantes, pagam R$ 7,00.

Certamente Marise De Chirico escreveria melhor sobre o tema. Fica aqui o convite para que ela escreva e para que todos compareçam ao MASP. Fica também um pedido para que Marise coloque na web as releituras que fez da obra de Giorgio de Chirico, que se constituem em um dos trabalhos de mestrado mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer.

Boa semana para todos.

.

Maria Dalmácia e Tueris Fustado, flores paulistanas

Morar na Avenida Paulista, no começo da década de 1980, tinha certo charme. Mesmo que este tal charme (segundo uma definição de quando eu era adolescente, charme é aquilo que tem as mulheres de seios grandes!) seja indefinível ou algo que esteja, ainda que tardiamente, no inconsciente coletivo.  Para quem era novo na cidade e não distinguia bairros, subúrbio, cidades satélites, a possibilidade de residir na Avenida Paulista era o máximo!

O Baronesa de Arari, as árvores do Trianon, em frente ao MASP

Pelas tramas do destino iríamos morar no Edifício Baronesa de Arari. Tudo de bom! O prédio fica na Avenida Paulista, esquina com a Rua Peixoto Gomide, com todo um lado voltado para o Parque Trianon e, de quebra, do outro lado da avenida está o MASP, o Museu de Arte de São Paulo. E isso é só um pequeno aspecto da geografia da região.

No Baronesa de Arari morou a lendária atriz Cacilda Becker com o marido, o também ator Walmor Chagas. Consta que lá foi o lar de Sérgio Cardoso, outro ator que entrou para a história do teatro nacional. Não bastasse essa trindade de semideuses do teatro, estão no histórico do edifício o pianista Pedrinho Mattar e Elke Maravilha; esta dando um toque pop ao ambiente.

Lógico que não tínhamos idéia dessas coisas. Assim como não sabíamos que o Baronesa de Arari foi o primeiro edifício residencial da avenida, e que herdou o nome de distinta nobre, D. Maria Dalmácia, da estirpe de indivíduos raros, os  ditos “paulistanos quatrocentões”. Pepê, minha amiga, conseguira alugar um apartamento com três quartos; com ela e outros dois amigos, dividiríamos a moradia na “ala nobre” do edifício, já que a outra, com quitinetes, era o “lado popular” do local.

Lados e cores distintas. Na parte clara, os apartamentos menores.

Quatro amigos somando forças; algo tipo “a força do proletariado” unida para morar bem na capital paulista. Nossa origem modesta ficou bem definida na chegada. Embora com destino à “ala nobre” subimos a Rua Augusta com um monte de cacarecos sobre um caminhão, onde Giba e eu ríamos muito, misturados a caixas, sacos e móveis. Na cabine, ao lado do motorista, as distintas damas. A Rua Augusta ainda era, para este que vos escreve, aquela das lojas para ricos e dos boys daquele rock tupiniquim de Hervé Cordovil:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora

Botei a turma toda do passeio pra fora

Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina

Parei a quatro dedos da vitrine

Hi, hi, Johnny…

Subimos lentamente com o velho caminhão. Mais pau de arara impossível! Não posso afirmar pelos outros, mas eu estava feliz. Já conhecia a avenida (quem passa por aqui sabe que a Paulista foi meu primeiro endereço na cidade) e voltar era muito bom. E não para uma pensão, mas para um apartamento enorme, espaçoso e, dito Baronesa, definitivamente um local nobre.

A decadência da aristocracia é uma coisa tão antiga que só eu não havia percebido que o fim já havia chegado inclusive naquele endereço da Avenida Paulista. Foi só descarregar a mobília, e levar para o elevador de serviço, para ouvir de uma moradora: – “Se eu fosse vocês não subiria por aí não; esse elevador caiu na semana passada!”.

Pronto. O edifício visto segundos antes como um castelo, virou cortiço. O grande cortiço, um “joga-chave”, pardieiro, uma favela vertical… Com muitos problemas exteriores e, interiormente, embora confortável, havia um problema tenebroso no apartamento. Um vazamento do banheiro do andar superior obrigava-nos a usar guarda-chuva em toda e qualquer utilização do vaso sanitário. Sem direito a reclamações, já que um processo em andamento ameaçava a interdição do prédio, o que ocorreu posteriormente.

Ficamos lá por um bom tempo, com várias configurações de moradores, permanecendo sempre juntos Beth, Pepe e Eu. No final do contrato já tínhamos a companhia de Claudio e fomos morar na Vila Mariana onde um monte de outras coisas foi acrescentado às nossas vidas.

Poderia contar outras histórias do Baronesa de Arari. Deixa para outra oportunidade. Há um livro sobre o edifício (José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas) e, neste momento, outros amigos moram por lá. Por enquanto, termino com uma dúvida: teria D. Maria Dalmácia, a Baronesa de Arari, conhecido Tueris Fustado, a menina que “desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa”?

Tueris Fustado é personagem que dá titulo ao romance de Octavio Cariello, Tueris, que será lançado no próximo dia 11, sábado, das 17h30 às 21h30 no Espaço Terracota. Avenida Lins de Vasconcelos, 1886. Reitero convite para o lançamento. Como o Martinelli, o Sampaio Moreira ou o Baronesa de Arari, o Tueris também é local de grandes histórias.

 .

Até mais!

.

Em tempo, o Baronesa de Arari está firme e forte, longe de ser o local ruim que um dia foi. Os nomes de amigos, aqui citados com certa sutileza só serão revelados pelos próprios, caso queiram, nos comentários (o que me deixaria muito feliz).

PAULISTA, DE UM MILHÃO DE ESTRELAS

Amanhã é o aniversário da Avenida Paulista. Optei por, neste primeiro momento, recordar um post que escrevi em outro aniversário, o da cidade de São Paulo.

-.-.-.-.-


Foto: Nelson Kon

Tive o privilégio de, chegando a São Paulo, ter a Avenida Paulista como primeiro endereço. A capital era local de passagem, antes dessa mudança; um local de curtas estadias para curtir shows, peças de teatro ou para consumir objetos necessários e fúteis de vasto mercado. Vim tornar-me “paulistano” residindo na avenida mais charmosa da cidade.

Na Paulista os faróis já vão abrir

E um milhão de estrelas prontas pra invadir

Os jardins onde a gente aqueceu numa paixão

Manhãs frias de abril…

Tendo a Avenida Paulista como epicentro fui, lenta e perenemente conhecendo a cidade.  Meus primeiros dias por aqui, como qualquer migrante, tinha a busca de um emprego como atividade primeira; chegada a noite, um mar de possibilidades bem próximas de casa. No Teatro Popular do Sesi encenavam “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Namorei intensamente a exposição permanente do Masp – que viria a ser referência em todas as minhas futuras aulas de arte. Lembro da tristeza durante a primeira Corrida de São Silvestre, por estar longe da família, e da alegria em saber do resultado do vestibular no hall do prédio da Gazeta.

A Paulista sempre foi lugar de gente interessante, de todos os tipos. Em uma distante manhã percebi um certo alvoroço em torno de uma moça, entrando em uma livraria vizinha da minha casa. A moça era MARIA BETHÂNIA. Posteriormente vi o primeiro show de DANIELA MERCURY em São Paulo, dei um cigarro para BETH FARIA e dividi uma mesa de bar com CAZUZA. Tudo na Paulista! Logo tive que bater em retirada, morar próximo do emprego conseguido, economizar no aluguel, na condução…

Se a avenida exilou seus casarões

Quem reconstruiria nossas ilusões?

Me lembrei de contar pra você nessa canção que o amor conseguiu

Um dia cogitou-se de tombar os casarões da Paulista; esses se tornariam patrimônio histórico municipal. Antes que a lei tramitasse pelos canais competentes, os proprietários apressaram-se em destruir as fachadas dos casarões. Uma visão grotesca que tive, passando de ônibus pela avenida. Desci do veículo e fui ver de perto o resultado de uma idéia mal colocada, tornada desastre paisagístico pela ganância dos proprietários das mansões.

Você sabe quantas noites eu te procurei nessas ruas onde andei?

Contam onde passeia hoje, esse seu olhar

Quantas fronteiras ele já cruzou no mundo inteiro de uma só cidade

Zanzei por vários outros bairros e, um dia, voltei a morar na Avenida Paulista. Bem ao lado do Parque Trianon, em um edifício charmosamente decadente. ELKE MARAVILHA estava entre os condôminos; se RITA LEE era “a mais completa tradução” para a cidade, ELKE era o mesmo para o Edifício Baronesa de Arari. Eu me considerava ainda um estrangeiro, um mineiro fora de Minas. Prestes a entregar os pontos, definitivamente, para a Avenida, para a cidade.

Dividia um apartamento com três amigos. Uma cantora, um pintor e uma agente de turismo. A diversidade interna era imensa; entre as poucas unanimidades, a fotografia – chegamos a montar um laboratório doméstico –  e as vozes de GAL COSTA e JANIS JOPLIN. Foram tempos de grandes aprendizados e, quase prontos, tomamos destinos distintos.

Se os seus sonhos emigraram sem deixar

Nem pedra sobre pedra pra poder lembrar

Dou razão, é difícil hospedar

No coração sentimentos assim

Divido a posse de São Paulo com milhões de seres que estão aqui, alguns distantes, mas ainda proprietários apaixonados dessa “minha cidade”. Não moro mais na Paulista, mas estou nas imediações. Caminho por quatro quarteirões para chegar na local que ainda considero o mais bonito, o mais charmoso. Vejo a Paulista como NELSON KON, o dono da foto da avenida que ilustra esse post. Quando ouço VÂNIA BASTOS cantando “Paulista”, a música de EDUARDO GUDIN e J. C. COSTA NETTO dos versos que intercalam este texto, grafados em azul, mil e uma situações retornam, emergem de todos os anos, de toda uma vida nesta cidade de São Paulo.

Sou feliz em estar aqui. Muito feliz por usufruir da Paulista, uma paixão que ultrapassou o encantamento, a surpresa, algumas decepções e rompimentos. Vejo a Avenida Paulista como o coração de São Paulo, o meu coração em São Paulo. Por isso, nesse aniversário da cidade, minha total e dedicada reverência. Nesse feriado irei caminhar pela Paulista. Minha forma de desejar feliz aniversário para São Paulo.

Até!

(publicado originalmente em  22/01/2010, 10:42, no Papolog.com/valdoresende

%d blogueiros gostam disto: