Criatividade! Cuidado com autocrítica e julgamentos.

criaçao michelangelo
Detalhe de A criação de Adão – Michelangelo: talento, dom, técnica, conhecimento…

Algumas palavras aparecem frequentemente quando o tema é o indivíduo criativo. Talento, dom, inspiração e vocação costumam compor as características de tal pessoa que, no mais das vezes, são coroadas com o adjetivo inato, ou seja, pertencentes ao mesmo desde o nascimento.

São palavras bonitas, cuja sonoridade nos alegra pelo significado comum que costumam carregar. Quem não gosta de ser identificado como talentoso? Como refutar a afirmação que tal atividade veio através de um dom único, intransferível, divino? Também é delicado duvidar de um indivíduo que se diz vocacionado e que resolveu ou criou algo via inspiração – também divina!

Não se trata aqui de negar tais acontecimentos na vida das pessoas. O cuidado fundamental do jovem estudante ou do profissional iniciante é com excessos de autocrítica ou com julgamento inadequado, mesmo que de pessoas bem-intencionadas. Sempre peço aos jovens que reflitam sobre essas questões, posto que em dado momento podem sofrer as consequências de uma autocrítica que, ao invés de propiciar reconhecimento e clareza da situação, passa a ser elemento inibidor. De outro lado, sem parâmetros e critérios precisos de avaliadores, podem sofrer julgamentos inapropriados.

O que um jovem principiante pode fazer diante do profissional criativo experimentado, reconhecido e aclamado socialmente que o sentencia, afirmando que ele não tem talento, não tem o dom, faltou inspiração? Prefiro alertar para a necessidade de critérios técnicos, referências previamente adotadas e, entre outros, a precisão da competência necessária, do conhecimento esperado na hora da avaliação. Ninguém ajuda ou torna melhor a trajetória do outro determinando falta de talento, dom, vocação…

Biógrafos costumam alardear o talento precoce de artistas como Mozart, por exemplo, como se tivesse pouca importância o fato de o pai do compositor ter sido músico da corte austríaca ou, outro dado, do Mozart menino ter presenciado a irmã estudando cravo. Nem de longe pretendo questionar a qualidade do grande compositor, mas penso ser importantíssimo fazer notar ao jovem que o ambiente era musical e o primeiro talento (sim, aquele talento da parábola evangélica) já estava dentro de casa: o cravo. A família musical, o ambiente austríaco foram o “dom” recebido pelo compositor que, com inspiração, entregou-se prazerosamente ao ato de compor.

Questões de fé são complexas e, previamente, merecem respeito. Se alguém acredita ser beneficiado com um dom deve, no mínimo, agradecer a quem deu e trabalhar, muito, com responsabilidade para ser digno de tal graça. E é esse trabalho árduo e profundo o primeiro passo da chamada inspiração; ou seja, estudar e preparar-se adequadamente para uma atividade é o ato de inspirar para, no processo em andamento, chegar na solução desejada. Sem conhecimento da técnica, sem exercícios primários fundamentais, Mozart tocaria cravo, órgão, violino, piano? Não há inspiração que resolva a falta de conhecimento.

O autoconhecimento é fundamental para que um indivíduo siga em frente conforme seus desejos. Sentir-se chamado para determinada profissão, a tal vocação comum aos meios religiosos, pressupõe o reconhecimento de uma disposição natural para a atividade sonhada. Além das disposições, há que se reconhecer as aptidões, as necessidades, as competências exigidas para seguir em frente evitando frustrações.

Trabalhei com o grande diretor teatral Antunes Filho com quem aprendi que “muitas pessoas são de teatro, poucas serão atores ou atrizes”. Tendo em vista a verdadeira dimensão de uma atividade, de um setor, de uma categoria profissional como o teatro, por exemplo, podemos perceber em que parte de todo esse universo estaremos nos realizando pessoal e profissionalmente. Não ter talento para aspectos criativos de um determinado setor não implica em abdicar da criatividade para atuar em áreas técnicas administrativas. Por essas e outras questões que é fundamental o cuidado com a autocrítica e o julgamento alheio.

Edward de Bono nos ensina que “fora da ciência e da avaliação objetiva, o julgamento é sempre subjetivo”.  Assim, peçamos de quem nos julga e avalia o conhecimento para tanto, a objetividade que nos ajude a identificar como seguir em frente, retomar caminhos, orientar novos rumos. Que outros reconheçam em nós talento, dom, inspiração… Nós mesmos, precisamos do autoconhecimento, da vontade que nos impede de recear custos materiais e imateriais na realização dos nossos sonhos. E ser criativo, como qualquer outro aspecto da atividade humana, pressupõe estudo e trabalho. Vamos nessa?

Até mais.

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ATENÇÃO: O texto acima permeia o conteúdo do curso CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NO AMBIENTE CORPORATIVO que será realizado no dia 19 de outubro de 2019 no Hotel Matsubara, em São Paulo. As inscrições estão abertas e os detalhes sobre o curso está no site www.competency.com.br

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

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Caminito Valdo Resende

A proibição aos artistas de rua

Uma manchete de jornal pode provocar alguns equívocos; por exemplo, no último dia 30 de novembro foi publicado que “SP TEM A MENOR TAXA DE DESEMPREGO EM 20 ANOS, SEGUNDO DIEESE”. Que ótimo, pensaria o ingênuo cidadão, até que lendo todo o texto, a informação seja numericamente esclarecida: na região metropolitana de São Paulo o contingente de desempregados foi estimado em 1,06 milhão de pessoas.

Outra notícia do ano passado, que continua repetindo e repercutindo nas redes sociais: “ARTISTAS DE RUA SÃO EXPULSOS DA PAULISTA”. São jovens músicos, instrumentistas e  “performers” variados. Nesta última categoria estão malabaristas, bailarinos e estátuas-vivas.

A proibição aos artistas de rua veio a partir de uma tal “Operação Delegada”. Nesta, policiais militares trabalham na folga para a prefeitura, coibindo o comércio ambulante irregular. As autoridades disseram ao Jornal da Tarde que “quando há qualquer tipo de exploração comercial, caracteriza-se um evento e há a necessidade de autorização da Prefeitura, que é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”.

Se a Prefeitura “é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”, porque não o faz?  Precisaríamos de um plebiscito para isso? Quanto tempo seria necessário para redigir um documento que permita a artistas trabalharem nas ruas, bastando para isso um cadastro na Secretaria de Cultura do município?

O prefeito desta cidade esteve muito ocupado criando um novo partido político e um artista de rua não garante milhares de votos; então, é mais fácil coibir do que regularizar e permitir que um desempregado possa garantir seu sustento. As proibições são mais ágeis que as soluções e assim temos conflitos imensos, como aqueles recentes ocorridos na região da Rua 25 de Março.

Caminito Valdo Resende
No Caminito quase dancei um tango!

O que falta a essas “autoridades” é uma visão mais ampla do que a arte pode fazer com um determinado local. Artistas caracterizam espaços urbanos e valorizam estes para além das fronteiras do próprio país. É de conhecimento mundial o quanto um artista valoriza uma região.

Na “Piazza Navona”, em Roma, músicos eruditos caminham pela antiga praça. Com um sinal gentil pedem licença e quando obtida, aproximam-se das mesas dos bares, colocadas no passeio público e tocam Vivaldi, Mozart ou outro grande autor.

O “Caminito” é atração imperdível em Buenos Aires com seus dançarinos e músicos de tango. Cantam, tocam e dançam para os turistas nas esquinas, convivendo harmoniosamente com os profissionais que exercem a mesma atividade nos bares e restaurantes locais.

Piazza Navona Valdo Resende
Walcenis, de boina preta, tomando sorvete na Piazza Navona

Tenho um amigo que vai anualmente para “Colônia”, na Alemanha, para trabalhar como estátua-viva. Ele fica em frente à famosa catedral da cidade e nesses últimos anos nunca foi coagido pelas autoridades alemãs. E é bom citar que ele tem visto apenas como turista.

Tratar artistas de rua como mero “comércio ambulante” é lamentável. É desconhecer uma tradição milenar que legou-nos poetas, menestréis, saltimbancos que enriqueceram a cultura humana com o fruto de um trabalho árduo.

Tenho um imenso respeito pelos artistas de rua. Pelos nossos cantadores nordestinos, nossos poetas de cordel; artistas que têm um extraordinário domínio de seu ofício, este quase sempre aprendido via tradição familiar. São improvisadores incríveis e, notável ainda, em um país ainda marcado pelo analfabetismo, improvisam em versos!

Outro dia, passando pela Praça da Sé, parei para ouvir por alguns minutos um rapaz com um violão, interpretando Raul Seixas. A música suavizando o caos de veículos motorizados, religiosos pregando aos borbotões. Em outro momento, na mesma região, um grupo típico nordestino  – zabumba, acordeom e triangulo – animava alguns transeuntes que dançavam, como se o calçadão fosse um belo salão de festas.

O que me conforta é saber que o atual prefeito irá passar, será esquecido da mesma forma que não nos lembramos dos artistas de rua. Só que estes permanecerão. É a história que nos permite afirmar isto. A tenebrosa Idade Média não acabou com os menestréis e a indústria do entretenimento não acabou com a arte de rua. Seria bom que as autoridades e os responsáveis pela “Operação Delegada” refletissem sobre essas questões.

Bom final de semana!

O Papa Alemão e o Pintor Judeu

Mundo pequeno, “mundo veio e sem portera” como é dito lá em Minas. Sem porteiras, cercas, divisões. Culturalmente são tantas as barreiras! Há uma brutal divisão econômica, entre os poucos ricos e os muito pobres; há divisões religiosas, onde cada grupo reivindica para si a correta interpretação da verdade divina. E há barreiras geográficas, temporais, afetivas…  O tal “mundo veio” tem mais “portera” que mundo; por isso me sensibilizou tanto um pronunciamento do Papa Bento XVI sobre “Deus, arte e beleza” (Sim, eu leio o que o Papa escreve! hehehehe).

Chagall - Judeu a Rezar (O Rabi de Vitebsk), 1914, óleo sobre tela, 104 x 84 cm Veneza, Museo d'Arte Moderna

Primeiro fiquei interessado no que o Papa diria sobre arte. E gostei! “A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.”

Vivendo no Vaticano – e quem já esteve por lá sabe que a gente tropeça em obras de arte por todos os corredores, nas paredes, no chão, no teto – não é difícil entender a familiaridade de Sua Santidade com o tema. O próprio é pianista e manifesta preferência por Mozart e Bach. Obviamente, ao exemplificar suas posições estéticas, Bento XVI foi para a grande herança católica: as grandes catedrais góticas e as imensas igrejas românicas. Surpresa boa foi o grande líder religioso ir além das fileiras católicas, citando dois artistas judeus.

Um concerto do luterano Bach foi regido pelo maestro Leonard Bernstein. O Papa confessou uma experiência estética singular ao ouvir a música de Bach sob a regência do americano Bernstein, judeu ucraniano na origem. Até ai, tudo bem, já que tradicionalmente a música não respeita fronteiras ideológicas, religiosas ou políticas. A boa música atravessa gostos e preferências pessoais atingindo o âmago do individuo de qualquer idade ou raça. A surpresa maior veio com outra citação do Papa, lembrando o pintor Marc Chagall.

Chagall, A Crucificação
Chagall, A Crucificação Branca, 1938 óleo sobre tela, 155 x 140 cm Chicago, The Art Institute of Chicago

Textualmente, o Papa escreveu: “… quantas vezes quadros ou afrescos, fruto da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos levam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda a beleza. Permanece profundamente verdadeiro o quanto escreveu um grande artista, Marc Chagall, que os pintores por séculos tingiram os seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia”.

Marc Chagall, judeu por excelência, tem o reconhecimento de um Papa alemão, que viveu de perto os horrores do nazismo. (O Papa foi obrigado a alistar-se, tendo desertado antes do final da guerra). Muitos afirmarão que Chagall não careceria de reconhecimentos específicos, uma vez que a comunidade artística inteira respeita seu legado, tendo reconhecido-o em vida. O que conta, aqui, é a quebra de barreiras, a união entre os povos.

Chagall, A Queda do Anjo, 1923-1947, óleo sobre tela, 148 x 189 cm Basileia, Kunstmuseum

Bento XVI, sendo alemão de origem, entende a importância de seus gestos perante o povo judeu. Certamente é por isso que foi o primeiro pontífice a visitar um museu judaico e, em seus textos, apareçam as agradáveis lembranças de um Bernstein ou de um Chagall. Gosto da idéia de um Papa quebrando barreiras, derrubando porteiras. Muito bom saber que uma das maiores barreiras mundiais – a língua – tenha sofrido um duro golpe através de ato atribuído a ele: quando ainda sacerdote, durante o Concílio Vaticano II, o futuro Papa apresentou a proposta da realização da missa em língua local em vez de latim.

Bravo, Santidade! Que a arte contribua para seres humanos assim, dispostos a quebrar obstáculos, a unir toda a gente.

Está um texto grandinho para uma segunda-feira. Todavia, vale a pena alardear todos os atos, mesmo que pequenos, que unem os povos desse planeta.

Paz para todos!

Nota: O texto original do Papa Bento XVI foi publicado no dia 31 de agosto, através de boletim da sala de imprensa da Santa Sé.