Cleide Queiroz em Palavra de Stela: Poesia e Teatro

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Cleide Queiroz em Palavra de Stela. Foto: João Caldas.

Um bom trabalho, dizem, pode ser resumido em uma frase; lá vai: Cleide Queiroz mostra infinitas faces de uma mulher no monólogo Palavra de Stela. Escrito assim parece pouco, indigno da performance da atriz que comemora nessa montagem 50 anos de carreira . Por isso é fundamental escrever um pouco mais.

Stela do Patrocínio foi internada em uma colônia psiquiátrica aos 21 anos e assim ficou por quase trinta anos. Um jeito diferente de Stela ser e, principalmente, de dizer coisas impressionou outra mulher, a artista plástica Neli Gutmacher, quando esta montou um ateliê na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, em Jacarepaguá.  Uma terceira mulher, Viviane Mosé, organizou a fala de Stela gravada por Neli , publicando essas em forma de poesia no livro “Reino dos bichos e dos Animais é o meu nome”. Uma síntese do percurso de mensagens resultantes na montagem Palavra de Stela, escrita e dirigida por Elias Andreato .

Sinto que é necessário ampliar esse preâmbulo. Que tal conhecer algumas palavras, da Stela do Patrocínio, transcritas do programa da peça?

“Não sou eu que gosto de nascer

Eles é que me botam para nascer todo dia

E nem sempre que eu morro me ressuscitam

Me encarnam me desencarnam me reencarnam

Me formam em menos de um segundo

Se eu sumir, desaparecer,

Eles me procuram onde eu estiver”

Eita! Dá uma vontade enorme de ter mais versos de Stela.

Uma história densa, um texto forte, poético. O público entra na sala do Top Teatro e a atriz já está em cena. Cleide Queiroz. A mulher tece teias por onde outras mulheres surgirão via mente de Stela, voz e corpo de Cleide. Poucos adereços em um cenário que ressalta possíveis espaços na mente da personagem, tornado físicos pela capacidade cênica da atriz.

A história não é linear. Vamos descobrindo Stela do Patrocínio aos poucos, simultaneamente vamos reconhecendo aqui e ali a trajetória da moça, da atriz, tudo devidamente realçado na direção de Elias Andreato e no inquietante figurino de Mira Haar.  Tem mais: Iansã comandando ventos e todos os elementos, tem Medeia tornada Joana, aquela da Gota D´água, que Cleide já interpretou na íntegra. Tem um jeito de ser e cantar que é Maria Bethânia sem deixar de remeter à fonte da própria Bethânia, Dalva de Oliveira e, sobretudo, tem Stela do Patrocínio.

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Stela do Patrocínio, com Cleide Queiroz. Foto: João Caldas.

Stela é a doente abandonada, a professora, a dona de casa, a menina, a mulher exuberante. Stela vai se desnudando, se desvelando enquanto fala com o público, com o gravador da psiquiátrica, com as pessoas todas que povoaram sua mente. Cleide Queiroz revela Stela em versos declamados com ritmo preciso, em canções que somam intenções, mas também a atriz nos mostra a personagem via silêncios perturbadores.

A coordenação do projeto é de Carlos Moreno. A direção de produção é de Sonia Kavantan. Palavra de Stela tem música original e arranjos de Jonatan Harold, desenho de movimento e programação visual de Roberto Alencar – cujos registros figuram entre as notáveis ilustrações do programa. Mira Haar, além do figurino, assina a cenografia. As fotos são de João Caldas.

Palavra de Stela está no TOP TEATRO (Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista. Tel: (11) 2309-4102). A temporada vai até o dia 27 de Agosto. Os horários:  sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h. Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia). Duração: 70 minutos. Vendas online: http://www.aloingressos.com.br/

Marque na sua agenda, reserve seus ingressos. Palavra de Stela é imperdível.

Até mais!

Talvez esteja entre os vizinhos

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E seguimos em frente, tudo esquecendo…

.

Talvez esteja entre os vizinhos,

Morador do mesmo bairro, na mesma cidade.

Pode ser o cara tranquilo que diz bom dia a todos,

O trabalhador correto, pontual e competente,

O estudante compenetrado, disciplinado,

O temente a Deus, o religioso abnegado.

Um homem qualquer

O ser – humano? – comum,

Indivíduo entre milhões.

Chegado o momento.

Sem alteração física, sem mãos trêmulas, sem incertezas.

Um tipo já conhecido repete o triste ato:

Meticulosamente prepara as armas, averigua a munição.

Criteriosamente escolhe um alvo,

Deliberadamente mata um, dois… Cinquenta pessoas!

O assassino tinha família, trabalho, religião.

Um passado com sinais, agora, constrangedores.

Recolhidos e identificados os corpos

Mães choram irreparáveis perdas.

E o roteiro – já conhecido – é seguido à risca:

Por que venderam armas ao assassino?

Qual a ligação do mesmo com grupos extremistas?

Como ele vivia, com quem, de onde veio tal absurdo?

Veja o passo a passo do acontecido!

Outro roteiro – também conhecido – merece repetição.

Somos os fabricantes e os compradores de armas.

Sossegamos a consciência cobrando do governo,

Clamamos por educação, por mais religião,

Moldamos Deus aos nossos míseros anseios,

Alimentamos preconceitos, seguimos discriminando…

E seguimos em frente, tudo esquecendo por mínimas distrações:

Um jogo de futebol, um capítulo de novela, um enlatado qualquer.

No entanto,

Talvez esteja entre os vizinhos,

Morador do mesmo bairro, na mesma cidade.

Pode ser o cara tranquilo que diz bom dia a todos,

O trabalhador correto, pontual e competente que,

Deliberadamente,

Mata um, dois… Cinquenta pessoas!

Do poeta, para hoje

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Nossa Senhora
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
   Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, 
   Dos propósitos que nos acariciam
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… 
   Vem, e embala-nos,
   Vem e afaga-nos.
   Beija-nos silenciosamente na fronte,
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam 
   Senão por uma diferença na alma.

.

Fernando pessoa/Álvaro de Campos

(Fragmento de “Dois excertos de odes”)

Desde Drummond!

E o poema poderia ser apenas um eco do passado…

“Lira Itabirana”, Carlos Drummond de Andrade, 1984

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

Sonho Antigo

Valdo Resende Prata MG DSC05765

O galo canta no telhado,

o sol desponta no horizonte.

O gado muge no cercado,

 a água jorra, vem da fonte.

.

E o céu é claro, o monte é verde,

A ave canta, alegria na garganta

Por mais um amanhecer.

.

Se é trabalho tem enxada, na terra a vida cultivar;

Se é domingo, da chapada vem o sino anunciar:

Que a vida é festa , mansa luta no trabalho

Pede à Deus, um operário, assim viver e morrer.

.

– E o meu corpo terá da noite o sereno

Do dia o aceno do pesado casco de um boi.

.

(Valdo Resende / do primeiro

caderno de poesias / 1982)

Doce lar

doce lar

Abrir a porta e reconhecer objetos

Identificar cheiros, sensações.

Ouvir lá fora o barulho habitual,

Indício inequívoco da Bela Vista.

Minha casa!

Fotos que reativam afetos

Lembranças que reforçam emoções.

Porto seguro sem igual

Entreposto para novas conquistas.

Estou em casa.

Valdo Resende, Julho / 2015

Inverno proletário, ou um beijo pra Caymmi

frio

Saudade da Bahia eu tenho é no frio;

Salvador e também, Maceió, Recife…

Nesse gelo paulistano

Morro de saudade do Piauí

Sonho com São Raimundo Nonato

Não quero mais morar aqui.

.

O mundo bem que podia ser equilibrado.

Melhor clima é o temperado,

Sem gente molhada de suor

Sem infelizes tiritando gelados,

Implorando chocolate, calor.

.

Quem tem saudade dos Andes?

Voltar aos Alpes italianos?

Férias de corpo encapado?

Na frente tenho o teclado

Na mente, chope gelado,

Sol de corpo amorenado.

.

“Ai, que saudade eu tenho da Bahia

Ah, Se eu escutasse o que mamãe dizia”

Não viria pra esse frio, não.

Ficaria lá no serrado

No mínimo iria para outro lado

Longe desse frio do cão.

Valdo Resende

Julho/2015