Presépios, para contar uma bela história

Ronaldo, Inimar, Marquito são os anjos. Anivaldo e Terezinha, os pais. Daniel, o menino Jesus.

Rituais nos ajudam a entender o tempo, a caminhar e seguir em frente sabendo que, independendo da nossa vontade, o futuro vem e não sabemos como esse será. O Natal nos sinaliza o começo ou recomeço de tudo. Há em toda a festa natalina evidentes sinais de esperança, fraternidade, recomeço e a fé de que algo bom nos virá. Que seja assim!

Um presépio materializa a ideia de nascimento, símbolo essencial de renovação do nosso cotidiano. Historicamente criado por São Francisco de Assis, um arremedo de teatro em que as personagens principais são uma criança vigiada pelos pais em uma estrebaria. É esse local onde ficam cavalos e, no intenso inverno italiano, outros animais são abrigados do frio. Sabe-se lá quais animais estiveram em Belém, na estrebaria original.

Enquanto representação desejada pelo Santo de Assis, o nascimento do menino Jesus já nasceu “fake”, para usar uma palavra atual. Teatro bem popular, feito a pedido de Francisco em 1223, sem pesquisa profunda quanto a adereços, vestuário e cenário, contando uma história ocorrida havia mais de mil anos, o primeiro presépio se constituiu em uma interpretação feita por um grupo de fiéis. O fato se espalhou e é repetido aos milhares a cada ano.

Essa dimensão teatral da representação do nascimento de Cristo é algo extraordinário! Contam que essa primeira vez foi com uma cena mais ou menos estática; diante dela o Santo fez orações. Teatro simples, vivíssimo! Certamente um animal se mexeu, fez algum ruído. Todos os componentes da cena respiraram! A criança pode ter chorado. Cena mais ou menos muda, feita de movimentos sutis e de calor humano.

 A notícia caminhou com a biografia do santo e os presépios se multiplicaram. De um lado materialmente: certamente já foram feitos presépios de todo e qualquer material manipulado pelo homem; do outro, os chamados “presépios vivos”: a representação inicial feita em igrejas e salões paroquiais ganharam o mundo, ocorrendo em todos os continentes, feitas por todas as raças. A criatividade humana é ilimitada.

Nosso presépio em 2022. Uma saudável mistura onde o que vale é ser feliz.

Dezembro é mês em que os presépios ganham espaço dentro de lares cristãos. Sem a neurose da representação realista, sem a obrigatoriedade da recriação documental, montar um presépio é momento de puro deleite. Há gente que gosta de repetir a mesma montagem herdada de pais e avós, com as mesmas imagens e o mesmo cenário e são felizes assim.  Há outros que deliram e fazem da montagem anual um intenso exercício de composição visual. São felizes também.

O ciclo da vida de Cristo termina em outro momento fartamente representado. Somando as encenações dos Presépios Vivos mais a Paixão de Cristo temos, sem dúvida, a maior expressão de teatro realmente popular do chamado mundo cristão. Quantos milhões de vezes tivemos essas representações? Atos religiosos representados em um espaço cênico. Assim nasceu o teatro no culto a Dioniso. E esse momento religioso, sem a pretensão da arte e livre de todas as complicações teóricas, é teatro puro, ingênuo, que reflete os modos e formas de vida de quem o faz. Sobretudo, expressão de fé!

O ato de nepotismo mais contundente da minha vida foi colocar Daniel, o meu irmão caçula, como Menino Jesus em uma manjedoura. Guardo três montagens natalinas na lembrança, primeiros exercícios do meu fazer teatral: uma foi metafórica, usando músicas de Chico Buarque e Paulinho da Viola na trilha sonora. Outra, mais complexa, inseria o nascimento de Jesus em um painel onde outras histórias ocorriam em paralelo. A primeira, mais simples e tradicional, foi a que o diretor colocou sem qualquer constrangimento os melhores amigos, Ronaldo e Marquito, como anjos e o irmão como o Cristo. Ontem, terminando de compor meu primeiro presépio aqui em Santos, todas essas lembranças vieram, de quando criei, junto a amigos e colegas, versões particulares para contar uma singela e bela história.

Feliz natal!

Maria Amélia, da delicadeza e do sorriso incansável.

Maria Amélia, ao centro, no Auto da Esperança

Ao longo de toda a minha vida tenho trabalhado com grandes mulheres: Mara, Sonia, Regina, Claudia, Vânia… A primeira, aquela quem norteou meus caminhos futuros, foi Maria Amélia. Lá em Uberaba, quando fomos aprendizes de quase tudo.

Um grupo considerável de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, foi organizado em diferentes equipes pelos padres coordenadores Líbero e Américo. Participei de uma dessas equipes, denominada Integração, coordenando-a com Maria Amélia e Terezinha Benetolo. Como o próprio nome da equipe sugere, nosso trabalho consistia em dar continuidade a trabalho anterior, realizado pela Catequese. Crianças, após a primeira comunhão, aprofundavam conosco temas religiosos e pertinentes a pré-adolescentes.

Caçulas de famílias distintas, Terezinha e eu éramos tímidos aprendizes no que Maria Amélia transitava com inequívoca simpatia e tranquilidade. Os diversos temas tratados pela Equipe de Integração eram facilitados pela nossa amiga que, já naquele momento, tinha algo de arrimo de família, lutando por melhores condições de trabalho para o próprio pai. “Estou trabalhando para conseguir uma banca no Mercado Municipal para o meu pai” recordo a frase que logo se tornou realidade.

Dessa equipe quero frisar de Maria Amélia a maturidade, o imenso carinho fraternal, às vezes maternal com que conduzia tudo sem perder a alegria, sem esconder um sorriso franco, sempre aberto a cada encontro. Trabalhamos por um bom período sem nenhuma perturbação, sem rusgas, intrigas. Fomos irmãos!

Lá pelas tantas, preparando com Ronaldo Feliciano Assis um momento do encontro de final de ano do grupo jovem, escrevi e dirigi o que chamo minha primeira experiência teatral. Entre as atrizes, lá está Maria Amélia se fazendo presente em momento de carinhosa lembrança.

Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, Valdo Resende, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel Lázaro das Neves, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Essas duas experiências, marcantes, nortearam minha vida pessoal e profissional. Aprendi a conhecer um pouco mais sobre crianças e adolescentes com a Equipe de Integração. Primeiros passos numa carreira de professor que ultrapassou três décadas de trabalho. Com o Auto da Esperança, iniciei uma carreira de teatro que, espero, ainda dê mais alguns frutos. Nas duas atividades trabalhei com mulheres, fui dirigido e coordenado por mulheres incríveis, sobretudo generosas, como foi Maria Amélia.

Cada um seguindo caminho distinto, nunca deixamos de lado os laços de amizade que nos uniram desde então. Ultimamente nos falávamos por WhatsApp e, não raro, ela deixava comentários delicados nas redes sociais como este, publicado abaixo que, infelizmente, veio a ser nossa despedida. Maria Amélia publicou a mensagem na sexta-feira, vindo a falecer no dia seguinte. A dona da delicadeza e do sorriso incansável fez sua passagem.

Registro aqui minhas sinceras homenagens, e certamente de todos os amigos de Maria Amélia Cruz Barbosa. Nossa tristeza infinita é somada a certeza de que pessoas como ela, só podem ter um destino de paz e harmonia ao lado do Criador. Registro também gratidão pelo carinho, pela amizade serena, pela simpatia nunca deixada de lado em todos os nossos encontros.