Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Miss Suéter, a garota solitária que tem lábios de mel

85 anos de Angela Maria

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Fascínio tenho eu por falsas louras

Ai, a negra lingerie

Com sardas, sobrancelha feita a lápis

E perfume da Coty…

Neste dia 13 de maio uma grande estrela que não foi miss suéter nem garota solitária, completa 85 anos. Lábios de mel, provavelmente ela tem; a garganta é de ouro. Ela não foi “miss”, mas foi rainha. É rainha. A Rainha do Rádio, Angela Maria.

…Fica comigo

Velha amiga e companheira

Vou cantá-la a vida inteira

Pra lembrar do que passou.

Angela Maira nasceu em Macaé, RJ, em 13 de maio de 1928. Com mais de 60 anos de carreira, é reconhecida pelo Guinness Book como recordista mundial de gravações de disco, 115. Foi rainha do rádio em 1954 e forma com Elis Regina e Dalva de Oliveira o trio das maiores cantoras brasileiras, com domínio vocal e uma capacidade de cantar que extrapola o comum. Afinação, potência e extensão são qualidades ímpares dessas mulheres.

Números e títulos não criam ídolos; músicas sim! E sucessos e canções que permanecem na memória de um país é o que conta. E isso, músicas de sucesso que permeiam a lembrança popular, Angela Maria tem aos montes.

Meu amor quando me beija

Vejo o mundo revirar

Vejo o céu aqui na terra

E a terra no ar…

Dominando toda a década de 1950 e emplacando êxitos nas décadas posteriores, Angela Maria esteve e está presente na vida de milhões de brasileiros, na manifestação do gosto musical de diferentes gerações. Angela Maria continua cantando como cantava quando meu tio e padrinho de batismo era fã da cantora. Tinha os discos e revistas sobre ela. Foi em criança que eu conheci e guardei algumas das canções preferidas do meu padrinho Nino.

Hoje não te quero mais

Eu preciso de paz

Já cansei de sofrer

Vives na rua jogado

És um fósforo queimado

Atirado no chão…

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Apelidada SAPOTI pelo então presidente Getúlio Vargas, Angela é a maior expressão do samba-canção, e dela se aproximaram cantoras como Maysa e Nora Ney, entre muitas outras que nunca obtiveram tanta popularidade como ela. A Sapoti também é lembrada por um comportamento impecável, uma elegância profissional excepcional. Não se tem notícias de pinimbas históricas envolvendo a cantora; o que ficou são os registros de uma carreira brilhante.

Tem certos dias em que eu penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Porque parece que acontece de repente

Como desejo de eu viver sem me notar…

Angela Maria já disse que quer ser lembrada por “Gente Humilde”, cujos versos estão acima. Todavia, muita gente lembra-se dela por “Babalu”, “Vida de Bailarina”, “Cinderela”, “Tango Pra Teresa” ou pela graciosa “Garota solitária”:

Esta noite eu chorei tanto

Sozinha sem um bem

Por amor todo mundo chora

Um amor todo mundo tem

Eu, porém, vivo sozinha

Muito triste sem ninguém…

Uma canção interpretada originalmente por ANGELA MARIA é sempre lembrada, no dia das mães. Aquela canção que diz “ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar” e fala do filho que (santo deus!) lembra “o avental todo sujo de ovo” pra rimar no final que gostaria de “começar tudo, tudo de novo”. As mães, aquelas que valem mais “que o céu, a terra e o mar” gostam. Na última semana a música foi lembrada em um seriado da Rede Globo, Louco por elas.

Lúcida e atuante, Angela Maria apresentou-se recentemente no Rio de Janeiro, em noite de gala, com um repertório baseado em grandes sucessos de uma carreira fonográfica iniciada em 1951 e que, em 2012 teve os principais sucessos registrados em DVD, lançado pela gravadora Lua Music, denominado Estrela da Canção Popular.

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As canções de Angela Maria estão ai. As emissoras de rádio tocam quase nada e raramente ela aparece em TV. Aliás, ela prefere churrascarias, restaurantes populares, onde pode sentir melhor a presença do público. Por aqui quero prestar uma homenagem sincera para essa extraordinária mulher. Cantora de lábios de mel, garota não muito solitária, mas sempre a minha miss suéter.

Guardarei para sempre

Seu retrato de miss com cetro e coroa

Com a dedicatória

Que ela, em letra miúda, insistiu em fazer

“-Pra que os olhos relembrem

Quando o teu coração infiel esquecer…”

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Até!

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Notas Musicais:

Todas as canções citadas são do repertório de ANGELA MARIA e estão identificadas na ordem em que aparecem no texto.

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

Balada Triste – Dalton Vogeler e Esdras P. da Silva

Lábios de Mel – Waldir Rocha

Fósforo Queimado – Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego

Gente Humilde – Garoto, Vinícius de Moraes, Chico Buarque

Babalu – Margarita Lecuona

Vida de Bailarina – Cholocate e Américo Seixas

Cinderela – Adelino Moreira

Tango Pra Teresa – Jair Amorim e Evaldo Gouveia

Garota solitária – Adelino Moreira

Mamãe – Herivelto Martins e David Nasser

Miss Suéter – João Bosco e Aldir Blanc

Clara Nunes, sempre!

Clara Nunes

30 anos sem Clara Nunes! Na próxima terça-feira lembramos aquela que está entre as maiores sambistas brasileiras, mineiríssima Clara das Gerais, falecida em 02 de abril de 1983. Uma morte ingrata para uma jovem com apenas 40 anos de vida, que colhia os frutos de uma carreira de imenso e merecido sucesso.

Algumas faces dessa cantora inesquecível: Quando a gente pensa em  forró, quem se lembra de Clara Nunes em “Feira de Mangaio”, “Viola de Penedo”, com a mais pura e esfuziante alegria nordestina? A brasilidade da cantora atravessa regiões e ela manda bem no forró do mestre Sivuca.

“Fumo de rolo, arreio e cangalha

Eu tenho pra vender, quem quer comprar

Bolo de milho, broa e cocada

Eu tenho pra vender, quem quer comprar…”

Se for para lembrar alguém que gravou grandes poetas, aparece o nome de Clara Nunes em canções como “Tu que me deste o teu cuidado” (Manuel Bandeira) e “Ai,quem me dera” (Vinícius de Moraes)? Esta canção do grande mestre tem poucos registros; quem conhece a gravação de Clara Nunes entende a dificuldade em sobrepujar a interpretação da cantora.

“Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais…

Creio que algo irá ser dito sobre os grandes sambas, os sucessos estrondosos. Quero, aqui, enfatizar a cantora de diferentes “Brasis”. Em rodas de capoeira, por exemplo, encontramos invariavelmente muitos marmanjos suados, desafinados, mas com muita ginga. Dá para imaginar, no meio dos caras, a voz límpida e afinada de Clara Nunes em “Fuzuê”?

“Eh, fuzuê

Parede de barro

Não vai me prender…”

Entrando no que há de mais representativo em Minas Gerais, a cantora da terra entrou de sola na obra de Guimarães Rosa, dá para somar a voz de Clara Nunes e um falar todo sertanejo em “Sagarana”?

“… quem quiser que cante outra

Mas à moda dos gerais

Buriti: rei das veredas

Guimarães: buritizais!”

É fácil pensar em Clara Nunes  entre as maiores cantoras desse país. Dona de uma enorme extensão vocal, ela soube usar esse potencial com um repertório caracterizado pela grande diversidade. Nos discos de Clara Nunes tem fado e rancho; tem jongo, valsa, bolero e… Samba!

Os sambas cantados por Clara Nunes são antológicos. Para voltar às raízes africanas ela foi além da Bahia; foi para Angola, assumindo contas, pulseiras, turbantes e gingado, muito balanço e força rítmica.

Admiro seu jeito mineiro de ser feminista. Criou seu teatro, para ter e propiciar um lugar de trabalho e gostava de ser independente. Teve um olhar atento para compositoras como d. Ivone lara, assim como realizou gravações memoráveis com Clementina De Jesus, juntas homenageando a Menininha Do Gantois.

Pra registrar preferências, tenho duas paixões na voz de Clara Nunes: “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque) e “Basta um dia” (da peça Gota D’Água, Chico Buarque e Ruy Guerra). Todas as outras que me perdoem, mas nessas, só ouço a grande cantora mineira.

30 anos sem Clara Nunes. Ficaram os vários discos e a voz inesquecível que Alcione chama de volta, como ninguém:

“Clara

Abre o pano do passado

Tira a preta do serrado

Põe Rei Congo no Gongá

Anda

Canta o samba verdadeiro

Faz o que mandou o mineiro,

Ó mineira!”

Clara Nunes é para ser lembrada; sempre!

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Até!

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Notas Musicais:

Feira de Mangaio – Glorinha Gadelha / Sivuca

Ai, quem me dera! – Vinícius de Moraes

Fuzuê – Romildo S. Bastos/ Toninho

Sagarana – João de Aquino/Paulo César Pinheiro.

Mineira– João Nogueira/Paulo César Pinheiro.

Primeira festa para Vinicius de Moraes

A logomarca oficial do enredo da União da Ilha
A logomarca oficial do enredo da União da Ilha

Será no dia 10 de fevereiro, no sambódromo carioca, com o desfile da União da Ilha. Com o enredo “Vinicius no plural – Paixão, poesia e carnaval”, a escola pretende comemorar o centenário do poeta, escritor e compositor Vinicius de Moraes. Nascido em 19 de outubro de 1913, o “Poetinha” foi, aos noves anos, morar com a família na Ilha do Governador. Este foi o mote que deu origem e motivação para o enredo da escola União da Ilha.

Vinicius de Moraes, sozinho, criou alguns dos mais belos poemas da literatura nacional. Junto aos parceiros Carlos Lyra, Tom Jobim, Edu Lobo, Ary Barroso, Francis Hime, Baden Powell e, entre outros, Chico Buarque, Vinicius revolucionou a música brasileira com a Bossa Nova, afros-sambas e outros grupos de composições notáveis, como a série infantil denominada A Arca de Noé, já em parceria com Toquinho.

O enredo da União da Ilha foi feito por um grupo de compositores (Ginho, Júnior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra).  Uma colcha de retalhos que pretende lembrar alguns fatos relativos ao poeta. O enredo funciona para quem já conhece tais fatos.

Ó PÁTRIA AMADA, RECEBE ESSE MENESTREL!

VOZ DO MORRO NA FOLIA, ORFEU CHEGOU, RAIOU O DIA!

LEVOU A BOSSA NO “TOM” D’ALEGRIA

SE É CANTO DE OSSANHA MENINA, ENTÃO NÃO VÁ!

UM BERIMBAU VAI ECOAR…

VEM, MEU CAMARÁ!

A União da Ilha enfrenta um imenso desafio. Vinicius de Moraes é patrimônio de todo aquele que ama poesia. Criar uma letra para homenagear o poeta é tarefa difícil. Arquibancada de sambódromo não é lugar para ficar buscando o significado de cada verso. O público quer, quando possível, cantar e sambar. O samba de enredo em questão vai dar muito mote pra comentarista de televisão; tomara que a escola consiga levantar o sambódromo.

Embora estranhando a letra (veja e ouça o samba de enredo clicando aqui) estou torcendo para que a União da Ilha faça um belíssimo carnaval. Pela própria União da Ilha, pelo público brasileiro, mas, sobretudo por Vinicius de Moraes. Em um país de escassos leitores, onde educação é prioridade apenas em discurso político, é muito bom ter um poeta como enredo de carnaval.

Vinicius de Moraes deixou pompas e circunstâncias para subir aos palcos, aproximando a poesia das letras de canções. É um dos principais responsáveis pela condição única da música brasileira em transitar entre o popular e o erudito, unindo em suas composições a expressão das três grandes raças que formam nosso povo. Vinícius soube ser criança e brincar nas  canções feito um menino, assim como foi o religioso que ensinou-nos a respeitar os orixás. Também foi o cantor da beleza feminina, dos encontros e desencontros amorosos. Foi grande entre os maiores porque, entre todos, certamente foi o que mais soube aproximar-se de todos nós.

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Até mais!

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valdoresende.com

As crianças da minha casa

Gosto muito de ver as pessoas em foto quando crianças. Essa brincadeira no Facebook tem um aspecto ótimo. Não importa quem seja o indivíduo; ele é o resultado de uma criança com olhos vívidos, ar inocente, alegria pura, semblante que é só esperança.

Wander Daniel, meu irmão caçula.

Há crianças que evidenciam surpresa perante a vida e, sobre esta, lançam uma fé inabalável, a crença em um futuro bom. São imagens que provocam alegria, despertam ternura e encantamento.

Em 2008 escrevi, no Papolog, sobre o dia das crianças e destaquei minhas irmãs. Resolvi resgatar e completar a família.

Tudo começou com duas crianças…

Mamãe Laura, Papai Bino. As histórias contadas revelam seriedade só em fotos!

Laura, que é paulista de Pioneiros, cresceu em diferentes casas, sempre próximas da linha da antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Em uma delas, em Araguari, a menina Laura encontrou o menino Bino (Para o registro, Felisbino), que havia nascido em Estrela do Sul, Minas Gerais.

Laura e Bino, já casados, tornaram-se os pais de seis crianças. E foi assim que escrevi sobre toda essa meninada:

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PRA NINAR TODA GENTE!

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Ando pensando nesse dia das crianças faz tempo! E, graças a Deus, crianças não faltam por aí. Lá em casa, por exemplo, tem três meninas. Cada uma com suas particularidades, com seu jeitinho, suas manias.

“Se lembra da fogueira

Se lembra dos balões

Se lembra dos luares dos sertões

A roupa no varal

Feriado nacional

E as estrelas salpicadas nas canções…”

As meninas lá de casa sempre foram bem sapecas. Como todas meninas, brincam com suas bonecas: bonecas de pano, de papelão, de louça, de plástico. Meu pai do céu, quantas bonecas! Ensaios infindos para uma possível maternidade. Se a gente dá um cascudo nas bonecas (todas têm nome próprio!) elas choram como se tivesse sido nelas. Mas elas gostam mesmo é de brincar.

Waldenia, mãe de duas meninas, um menino e uma neta menina.

“Eu levo a vida cantando

Hi, Lili, hi, Lili, hi lo

Por isso sempre contente estou

O que passou, passou…”

Meninas são meio esquisitas. Gostam de mandar a gente guardar as coisas, arrumar o quarto, botar os livros no lugar. Parecem mães! Quando menos se espera, lá vem elas usando batom, salto alto, a maquiagem da mãe. Pintam a boca! Colocam fitas no cabelo, colares, pulseiras, brincos e ficam em frente ao espelho… Bobas!

“Menininha do meu coração

Eu só quero você a três palmos do chão

Menininha não cresça mais não

Fique pequinininha na minha canção

Senhoria levada, batendo palminhas

Fingindo assustada do Bicho-papão…”

Não demorei em descobrir que um tal de brincar de casinha, vestir roupa de mãe, fazer comidinha, era um ensaio pra vida. Quase num piscar de olho, as meninas lá de casa deixaram as matinês pelas sessões de cinema do começo da noite. Todas enfeitadinhas, eufóricas, ansiosas, pra encontrar sabe-se lá quem, pois elas sempre… Cochichando!

“Olha as minhas meninas

As minhas meninas

Pra onde é que elas vão

Se já saem sozinhas

As notas da minha canção…”

E quando eu comecei a perceber o mundo direito, as meninas lá de casa já tinham suas meninas e meninos. E eu virei tio, meus dois irmãos viraram pais. Não me lembro de ter brincado de ser pai! Muito menos meus irmãos. O mais velho foi o primeiro a ter sua menina, lá pros lados onde escolheu morar. E, como se fosse um sonho rápido, foi a vez dele de tomar conta da sua menina.

Waldonei, pai de um menino e uma menina.

“Eu te vejo sair por aí

Te avisei que acidade era um vão

– Dá tua mão

– Olha pra mim

– Não faz assim

– Não vai lá não…”

Caraca; meus irmãos encheram a casa de meninos e meninas. E a gente querendo agradar todo mundo, beijar todo mundo, abraçar, guardar do mal do mundo. É uma tensão total se uma menininha cai, se um menino se machuca, se um briga com outro. Os meninos, pra variar, têm que maneirar… – Cuidado, ela é menininha!

Walcenis, um pouco mãe de todos nós.

Foi com minha mãe que começou essa história de “meninas”; ela se refere assim às minhas tias, tios. Em casa temos três meninas. Vieram depois outras meninas, filhas das meninas lá de casa que, por sua vez, tiveram meninos e meninas, ufa!. Ainda tenho o meu irmão caçula, que nos deu menino e meninas; e tenho o outro, que não está mais por aqui, mas que nos deixou uma menina e um menino.

“Mas o tempo é como um rio

Que caminha para o mar

Passa, como passa o passarinho

Passa o vento e o desespero

Passa como passa a agonia

Passa a noite, passa o dia

Mesmo o dia derradeiro…”

Fica repetitiva essa meninada, mas é puro carinho! Sei que estou aí, pelo mundo. Aprendi lá na adolescência a distinguir menina de namorada. Das meninas a gente fica amigo! De algumas, a gente vira um quase irmão. As três meninas, cujas fotos estão aqui no post, são minhas irmãs de pai e mãe. Tenho muitas outras, irmãs na vida.

Este dia das crianças quero dedicar aos meninos e meninas que encontrei por todo o tempo. Acho que a vida seria bem melhor se a gente tratasse as meninas e os meninos como irmãos. E, recordando bem seriamente como é ser irmão, é fácil tratar os outros com maior delicadeza, sendo duro só quando necessário; muito necessário!

Walderez, mãe de um casal, avó de uma menina e de um menino.

O mundo está hiper cheio de meninos e meninas. De todas as idades, credos, cores. Pode-se resolver essa data facilmente, dando um brinquedo bobo, fazendo um passeio qualquer. Afinal, essa data, ao que parece, surgiu foi para incrementar o comércio. Fazer o que… ela está aí! O jeito é encarar.

Esse blog, tudo indica, não é frequentado por crianças. Mas as pessoas que passam por aqui tem irmãos, irmãs… Meninos e meninas. Por isso, para as próximas noites quero dizer pra meninada da minha vida, que vou imaginar essa canção, com todo o meu carinho, para toda a “criançada”!

“É tão tarde, amanhã já vem

Todos dormem, a noite também

Só eu velo por você meu bem

Dorme anjo, o boi pega neném…

Boi, boi, boi

Boi da cara preta

Pega essa menina

Que tem medo de careta!”

(quase fim)

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Essa foi a história que ainda é. Vamos por aí, ao lado de tantas outras crianças que foram netos, bisnetos das duas primeiras, Laura e Bino. Abaixo, concluo este com a imagem do menino que escreve este blog .

Até!

Notas Musicais:

Maninha – Chico Buarque

Lili – Deutsch/ kaper – Versão: Haroldo Barbosa

Menininha –Vinicius de Moraes / Toquinho

As minhas meninas – Chico Buarque

As vitrines – Chico Buarque

O tempo e o rio– Capinam / Edu Lobo

Acalanto – Dorival Caymmi

Bethânia, oásis da música brasileira

O lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia celebra a carreira de uma das mais importantes cantoras da nossa história. “Oásis de Bethânia” é o título do novo trabalho, que tem na capa uma imagem do semi-árido brasileiro, em pleno sertão nordestino. Para a imprensa justificou a capa: “- Preciso lembrar que existe esse lugar no meu país. Isso me coloca do tamanho que eu sou”. Essa é a Bethânia, a mulher admirável, a mulher brasileira.

Ouvindo as dez faixas do cd,  reforço a certeza de que a discografia de Maria Bethânia sintetiza toda a música do país. Não é exagero afirmar que conhecer Bethânia é conhecer nossa música. Nos discos da cantora todos os ritmos, todas as regiões, todos os maiores compositores de nossa história. De Noel Rosa a Chico Buarque, Bethânia, que lançou em disco o irmão Caetano Veloso, canta Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ari Barroso, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues, D. Ivone Lara, Joyce, Edu Lobo, Alceu Valença…

Poxa, são 50 álbuns. A lista desse Oásis de qualidade que é a carreira de Maria Bethânia cabe muito mais nomes. De Luiz Gonzaga a Gonzaguinha, tem também Djavan, Gilberto Gil, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Roberto Mendes, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Haroldo Barbosa, Moraes Moreira, Dominguinhos e, que me perdoem todos os outros, vou encerrar essa lista primária com Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Além dos maiores compositores brasileiros, Maria Bethânia celebrou, em seus discos, as grandes cantoras do país, sempre respeitosamente reverenciadas por ela. As duas cantoras mais presentes em seus discos são Gal Costa e Dalva de Oliveira. Com a amiga Gal, muitas gravações em dupla, com sucessos memoráveis, como “Sonho Meu”. De Dalva, Bethânia resgatou boa parte do repertório da mais notável cantora da era do rádio; inclusive no presente álbum, Dalva de Oliveira é lembrada através de “Calúnia” (Marino Pinto e Paulo Soledade).

Muitas outras cantoras estão nos discos, álbuns ou DVDs de Maria Bethânia. Nara Leão, Alcione, Miúcha, Sandra de Sá, Wanderléa, a cubana Omara Portuondo, a francesa Jeanne Moreau, Dona Ivone Lara e, entre muitas outras, Ângela Maria e a divina Elizeth Cardoso. Como fez com Dalva de Oliveira, Maria Bethânia relembrou em outros discos as canções de Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Maysa, Isaura Garcia, Elis Regina…

Minha cantora preferida é incansável. Além dos próprios discos, Bethânia produziu outras cantoras, como D. Edith do Prato e a jovem Martinália e prepara, para breve, um Songbook com oito CDs dedicados à obra de Chico Buarque. Este sempre esteve nos discos da cantora. No atual, ela gravou “O Velho Francisco” com Lenine, um dos grandes momentos do álbum. Apesar de tudo o que já gravou de Chico Buarque, Maria Bethânia quer mais. Pretende abordar todas as diferentes faces do grande compositor brasileiro.

O trabalho constante de Maria Bethânia é o que faz da “Senhora do Engenho” a menina baiana que roda a saia pelos palcos do mundo todo, com uma graça e presença inconfundíveis. Estou, propositalmente, falando pouco sobre o atual disco, pois o lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia é fato para lembrar aspectos de uma carreira brilhante, única.

Oásis é onde o caminhante do deserto mata a sede. Oásis é o lugar agradável, paradisíaco, pleno de água e sombra e conforto. O “Oásis de Bethânia” é a caatinga nordestina, o pampa gaúcho, a chapada mineira, a mata e o sertão brasileiro. A obra de Bethânia é o oásis de qualidade das nossas canções.

Maria Bethânia incomoda muita gente. Quando todo mundo engole, economiza palavras, Bethânia nos brinda com a poesia de Fernando Pessoa, Castro Alves e torna populares os densos temas de Clarice Lispector. Incomoda, porque enquanto incontáveis artistas se rendem as leis de consumo, Bethânia grava Villa Lobos, revive Catulo da Paixão Cearense, e torna populares os pontos de Oxossi, Iansã.

Enfim, se milhares de brasileiros entregam-se a uma aposentadoria precoce, vivendo apaticamente em função de um copo de cerveja, um jogo de futebol ou um ordinário programa de televisão, de outro lado, uma jovem senhora baiana,  de 65 anos, nos dá claros sinais de que está longe de parar. Gravou o 50º e prepara oito novos álbuns para o próximo ano. Depois; bom, depois virão outros e mais outros e, tomara, muitos outros!

Que bom poder beber no seu Oásis, Maria Bethânia!

Bom final de semana!

Valsinha para um grande amor

Cerimônia de casamento é sinônimo de “Valsinha”, a música de Vinicius de Moraes e Chico Buarque, que está no disco “Construção”, de 1970. Tempos depois de o disco ter saído cantei essa canção para a entrada de minha irmã caçula, Walderez. Letra e melodia emocionam e fui convidado a cantar a mesma música para a entrada de outras noivas.

enlace
Enlaçadinhos!

Logo mais haverá um casamento. De Ellen e Wagner. Entre tantos alunos, ao longo de todos esses anos, prefiro identificá-los como sempre o fiz, pelos sobrenomes. Hoje é o dia do casório de Ellen Rotstein e Wagner Kojo. Não tenho a menor idéia de como será a cerimônia. Sei que lembrarei a velha música.

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar 

Ele, que hoje será o Wagner, é tipo quieto, fala pouco. Revejo o aluno tão aplicado quanto ambicioso. Boca dura e, próprio do jovem demais, um tanto ou quanto prepotente. No entanto, uma frase ficou como diferencial daquele aluno, no começo dos anos 2000; em meio aos colegas divididos entre Palmeiras, Corinthians e São Paulo FC, ele foi enfático: – Não tenho tempo para perder com essas coisas.

No pretenso país do futebol, foi bom conhecer um cara que não se deixa levar pela onda e tem objetivos bem determinados. Ficamos amigos, porque gosto de gente com personalidade marcante, e o tempo tem confirmado que o Wagner fez escolhas certas. É bem sucedido, dentro de parâmetros muito precisos, sem nunca ter deixado de ser um jovem contemporâneo, divertindo-se e vivendo um grande amor ao lado da Ellen.

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

Tenho certeza que o vestido dessa ela que é a Ellen não cheira a guardado. Mesmo porque ela não é do tipo que espera, prefere fazer, ir atrás, brigar pelo que deseja.  Miudinha, sempre falante e sempre com um sorriso que é só dentes, muitos dentes! A aluna brigava pelo que queria e impunha-se perante os colegas.

Autônoma e decidida, por exemplo, atravessa a cidade para comer comida japonesa (e algumas vezes nos encontramos pela mesma afinidade). Houve um momento que achei que perderia Ellen para o Canadá; de outra vez, para Florianópolis. Inquieta, ela vai longe. Ela busca algo, além do comum. Talvez esteja na Igreja que freqüenta, na profissão que escolheu, ou na família que começa a construir.

Eu vi o começo desse namoro, vi o desenvolvimento com todas as nuances de um relacionamento real. E agora testemunharei o enlace fazendo-me padrinho. Espero ver muita dança na noite desta sexta-feira; muitos beijos loucos e espero, com muita vontade, que o final de “Valsinha” venha a repetir-se hoje, amanhã e sempre:

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos

Tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu

Em paz

Ellen, Wagner, um grande beijo!