O Pequeno Príncipe virou Xuxa

Os comerciantes de plantão sempre encontram oportunidades para vendas; deve ser por isso que eles transformaram o Pequeno Príncipe, a personagem de Saint-Exupéry, em produto(s). Um pouco mais velho que Xuxa (Le Petit Prince foi escrito em 1943), mas com um apelo tão forte quanto o da apresentadora, o garoto que mora em um planeta minúsculo, onde mal cabe uma flor, agora é também garoto-propaganda de bugigangas.

No planeta do Príncipe caberiam os cacarecos vendidos por Xuxa?

Pobre Príncipe. Tornou-se relógio, aparador de livros, pulseira, trava porta, caneca, armário, sacolas, travesseiro e, pasmem! Sapatinhos roxos, verdes e amarelos.Ah, tem cadernos e blocos e sabe-se lá o quanto mais. Tudo fabricado por seis “parceiros”; esses apóiam um grande shopping na iniciativa, assim descrita e disfarçada em ação cultural:

Instalada em uma área de 400 metros quadrados, a exposição “O Pequeno Príncipe” será composta por nove cenários, que remetem os visitantes à história do clássico infantil escrito por Antoine de Saint-Exupéry. 

Os muito interessados nas crianças brasileiras informam com destaque:

“Nosso querido Principezinho ganhou sua primeira loja oficial no Brasil. Produtos exclusivos nacionais e importados. Brinquedos educativos, objetos de decoração, acessórios para bebê e ótimas opções de presentes para cativar a todos que você ama.”

Creio ser de um cinismo imenso a inserção desta frase na peça publicitária da loja:

“Se tu vens às 4 da tarde desde as 3 eu começarei a ser feliz!”

Vontade de soltar um senhor palavrão! Até aqui, alguém percebeu algum interesse em livros? Certamente, com uma ação desse porte, os autores da façanha têm autorização daqueles que detêm os direitos da obra de Saint-Exupéry. Nem um dos lados pensou em incentivar a leitura ou, no mínimo, divulgar a obra do autor francês? Só falta colocarem o Príncipe como namorado da Barbie; aí sim, completam a lambança.

No site, em comentários e mensagens, “felizes mamães” mostram-se eufóricas comentando o evento, pedindo que a ação vá para outras cidades, comemorando a oportunidade de comprar para suas crianças objetos da personagem que, do nosso planeta, só levou a lembrança de um amigo.

O que essas incautas mamães carecem é de perceber que nenhuma caneca ou lençol, toalhinha, ou qualquer cacareco, alimentará a imaginação dos filhos tanto quanto o livro de Antoine de Saint-Exupéry. Não me importa o comércio de tanta porcaria. Ficaria satisfeito se o livro fosse o centro de interesses. Que houvesse uma sincera e honesta ação integrada de vendas e incentivo para que tenhamos futuros bons leitores.

O livro! Estímulo para a imaginação e a reflexão.

Os “espertos” comerciantes terão um bom argumento para o comércio de objetos. Para isso informam que só no Brasil “O Pequeno Príncipe” já vendeu mais de 8 milhões de exemplares; assim, para que vender mais livros, ou expor outros, se boa parte dos compradores anteriores ficarão felizes em colocar cacarecos, com a imagem do Príncipe, em seus armários?

Ações empresariais refletem a ética da empresa. Suas intenções, sua responsabilidade perante a sociedade. O consumidor brasileiro está cada vez mais atento para as ações de nossas empresas, para o real significado de cada empreendimento.

Aproveitar-se do grande afeto da população pelo livro “O Pequeno Príncipe” para comercializar diferentes produtos é uma senhora tacada para o Shopping Iguatemi (Campinas e Alphaville) e seus parceiros, Melissa, Tok & Stock, Jandaia, Teca, Dryzun, I-Stic, GCK Design e Pacific. Ok! Senhores comerciantes, os senhores ganharão muita grana! Qual a contrapartida? O que proporcionarão de real valor para nossas crianças?

“-Onde estão os homens?” A resposta: -Foram às compras.

Há um momento em que o Príncipe lança a pergunta: “- Onde estão os homens?” E a resposta, a depender dos empresários das empresas acima, só pode ser uma: Foram às compras!

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Boa semana!

7 comentários sobre “O Pequeno Príncipe virou Xuxa

  1. Ignez

    O mundo está mais para os espertos e criativos capitalistas, enquanto que as famílias responsáveis pela formação dos pimpolhos, cobrem suas carências e ausencias de responsabilidades nas compras dos lançamentos impostos por estes comerciantes. Não percebem, que estão sendo envolvidas por esses lobos que se alimentam de vovozinhas, titias, papais, mamães e filinhos que para proporcionarem momentos de satisfações fúteis, não se preocupam com o necessário. Porisso o resultado está aí: Uma droga só é pouco; estudo é bobagem; vestibular só se for o mais fácil, e etc… etc…,etc…

  2. Walcenis

    O mundo não está totalmente perdido, Não podemos perder a esperança, pois também temos Regina Casé, que no seu “ESQUENTA”, está fazendo um lindo trabalho de incentivo a leitura. Parece-me que está conseguindo envolver doadores e consequentemente leitores. Parabéns, Regina Casé!. “ESQUENTA” esta bandeira.

  3. Sempre fui fã do livro… lí diversas vezes… e a cada leitura uma nova descoberta ou aprendizado… Valdo, você tem toda a razão quando se fala do pouco incentivo a LEITURA e interpretação dessa obra tão linda… nessa campanha comercial. Bjs

  4. Tia Gagá

    Onde estão as crianças?
    Sendo a Mariah, filha da Alle, está lendo bons livros.
    Sempre preferindo uma boa leitura.
    É claro: Tem uma mãe incentivadora, controladora e atenta ao futuro.
    Parabéns Alle.

  5. Joyce Pereira

    Concordo com a indignação a respeito da cultura/leitura, pois ela ficou esquecida uma vez que a internet com seus jogos fáceis, trabalhos feitos e pronta para “resolver” a vida toma conta inclusive da infancia de muitos. Mas o mais triste é saber que a cultura não é prioridade no país, que os senhores responsáveis preferem investir em ginásios e campos de futebol para abertura da copa do mundo ou mesmo para “abrigar” times de futebol. Se priorizassemos de forma decente a cultura, a leitura seria uma materia obrigatoria nos institutos de ensino, desde pequenininhos passariam a tê-la como necessidade em suas vidas, bem como a educação financeira que é também muito importante, tanto pra si mesmo como para país. as empresas se aproveitam sim desta oportunidade, já que as praticas são tortas e não exemplares dos grandes direcionadores do país. uma historia tão rica, traduzida apenas em produto…….faltando com a historia, com a magia, a busca e o crescimento. os grandes aproveitam a oportunidade da oportunidade………..

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