Tags

, ,

O gesto que faltou

Estava pensando em escrever algo para lembrar o dia dos namorados quando, ao acompanhar minha irmã, sobrinha e cunhado ao portão de casa, houve um acidente feio.  Testemunhamos o momento em que um carro, dirigido por um jovem, acompanhado de outros jovens, sob um som altíssimo, fazendo uma conversão ilegal, bateu em uma moto, jogando o pobre motociclista longe. No asfalto, junto a estilhaços oriundos da moto, o rapaz gemia enquanto, rapidamente o motorista desceu do carro, observou a situação e, rapidamente, fugiu.

Por um momento, instantes marcantes para ambos, olhares foram trocados. Por mais assustado e mesmo em choque, o rapaz jogado sobre o asfalto olhou e gravou as feições do criminoso – sim, criminoso porque  fugitivo, e irresponsável. A avenida, movimentada, parou para socorrer o rapaz que, em meio à tragédia, pode guardar um dado de boa sorte: no exato instante em que caiu já se ouvia a sirene de um carro de socorro, do Corpo de Bombeiros, que certamente tinha outro destino, mas que parou e prestou os primeiros socorros.

Tendo sido atropelado, sei bem pelo que passa a vítima nesse momento. A dor é indescritível e dela pode-se dizer minimamente que é intensa, quase insuportável. Parece que o rapaz sofreu uma fratura. Se ocorrer luxação, inchaço, não é possível cirurgia imediata. A dor não alivia, mas piora com a consciência das consequências do acidente. A moto quebrada, os compromissos interrompidos. Fiquei um ano sem poder trabalhar. Espero que o rapaz tenha melhor sorte. Mas, o certo é que ele está, neste momento, sobre a cama de um hospital, amaldiçoando o momento em que tudo ocorreu.

E se tivesse escolhido outro caminho? E se deixasse para sair cinco minutos depois do seu local de origem? Em meio a tudo, os problemas do cotidiano permanecem. Quando fui atropelado portava uma pasta com todos os documentos. Só confiei em soltá-la na presença de uma amiga.  Com a fuga do motorista houve gritaria geral: – anotem a placa! O rapaz acidentado pediu, em meio a gemidos de dor, que a polícia não fosse chamada. Ele tem problemas com a moto. Uma licença não atualizada, várias multas, falta de habilitação? Não deixamos de manter um pé na realidade mesmo quando jogados no asfalto, com fraturas e escoriações.

Tenho lembranças remotas de quem me atropelou. Tenho certeza que era uma mulher, jovem, cabelos escuros. Fico pensando em como essa cidadã conseguiu seguir a vida; certamente preferiu acreditar que não foi nada, que fiquei bem. Se ela olhou pelo retrovisor percebeu que eu me arrastava pelo asfalto. O criminoso fugitivo de hoje viu o acidentado se movendo, ouviu os gemidos do infeliz e fugiu. Provavelmente dormirá tranquilo, com a ideia de que não matou e que o motociclista ficará bem. Como se a vitima, ao ficar bem, livrasse o criminoso fugitivo de suas responsabilidades!

Lamento, mas escreverei depois sobre o dia dos namorados. Infelizmente, muitos outros acidentes ocorrerão neste final de feriadão. Tomara que não ocorra nada fatal. E que aqueles que provocarem acidentes prestem socorro às vitimas. Nem todos terão a sorte de um socorro imediato. Podemos rezar pelas vítimas, por todos os envolvidos. Prioritariamente, sinto que é grande a necessidade de uma campanha, sensibilizando a todos para que, mediante um acidente, assumam suas responsabilidades.

.

Boa semana para todos!

.