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Dias chuvosos minam qualquer humor. O trânsito caótico, as falhas na energia elétrica e os sinais de telefonia que apresentam problemas. Na avenida, novos buracos, pequenos acidentes e um tombo grave de uma senhora que não conseguiu evitar o passeio escorregadio. É final de semestre e os trabalhos triplicam; e poderia listar mais e mais problemas nesta cidade sob nuvens pesadas, ventos frios, tudo úmido e ensopado.

Qualquer local é longe quando estamos sob um chuvisqueiro incessante. O tempo rola tão rápido quanto a enxurrada e, sem poder esperar estio, lá fui eu resolver outros problemas cotidianos. Bastou começar a pensar que podia com a chuva para que a tempestade apertasse. Com pés e pernas encharcados, irado a ponto de enfrentar um pitbull com meus próprios e precários dentes resolvi dar um tempo no prédio da  Caixa Cultural São Paulo e, lá, tomei conhecimento desta imagem:

Galáxia da Via Láctea registrada pelo Hubble

A Via Láctea! Sem pensar no grau da minha ignorância espacial fiquei imaginando de onde o telescópio Hubble tirou tal foto. Qual o ângulo da imagem? Qual a abrangência? Estaria a Terra no meio desses pontinhos todos? Meu ego! Meu Deus, o que sou? O que somos perante toda essa vastidão?

Longe e perto são conceitos tão relativos, tão dependentes de um ponto de referência! O que é a chuva sobre São Paulo perante a galáxia? Quais as influências das decisões da Rio+20 sobre todos esses pontinhos luminosos? Tudo tão menor! Somos tão pequenos perante tudo isso! Tive perante a foto, como diz um querido amigo, uma epifania (Segundo o Houaiss, “percepção da natureza ou do significado essencial de uma coisa”). Senti o nada que sou nessa Via Láctea; por mais que alguém tenha, nada se compara ao tamanho dessa galáxia e, ainda por cima, ou pelos lados, ou por baixo, há inúmeras outras galáxias!

Tentei fugir da “Dona Epifania” e manter os pés nessa terrinha boa de garoa, chuvisco e chuva: A foto é parte da exposição “Muito Além da Visão”, com imagens da NASA (National Aeronautics and Space Administration), tiradas pelo telescópio espacial Hubble, lançado no espaço em 1990. A exposição começou no dia 12 de maio e irá até 15 de julho. São 25 imagens inéditas, captadas com alta tecnologia. Além das fotos, há uma reprodução de uma câmera obscura, tal como a descrita e usada por Leonardo da Vinci. O local, carregado de informações interessantes, ficou em segundo plano pela força das imagens fazendo-me, literalmente, viajar.

As duas galáxias da constelação de Andrômeda

Outro dia fiquei todo “pimpão” quando uma amiga referiu-se a mim como “o cara!”. Já fui me sentindo, me achando. Eu eo Tom Cruise! O Neymar e eu! Eu… eu… ali, diante de uma parcela de muitos mundos; o absolutamente minúsculo ser inserido no planeta terra observando a imagem das duas galáxias da constelação de Andrômeda.  Tão nada quanto qualquer outro indivíduo desse nosso pequenino planeta. Lamento, Tom; desculpe, Neymar! Nem maiores, nem menores; somos apenas um quase nada! Fazer o que…

Pensei em listar aqui um monte de questões, de problemas humanos tais como ganância, orgulho, posse, egoísmo… Tudo é pequeno, tão nada! Tudo é infinitamente menor perante a grandeza do universo. Então sonhei que cada ser humano deveria ter a possibilidade de olhar para além do próprio céu, ver outros céus, a Via Láctea inteira.  Penso que muitos problemas seriam minimizados, alguns solucionados, se olhássemos para essa imensidão. Se por magia ou viagem concreta pudéssemos estar lá longe, entre esses pontinhos coloridos.

Se há nuvens, se o tempo é chuvoso, carregado, temos as fotos, uma exposição para visitar. De repente, a chuva vai embora, o vento leva as nuvens. Aí, a gente vai para a rua, para o campo, buscar um lugar onde possamos, com nossa limitada visão, olhar um pedaço da vastidão registrada pelas lentes do Hubble. Quem sabe, reconhecer nosso verdadeiro tamanho perante tudo isso.

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Bom final de semana.

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Para ver a exposição “Nasa além da visão”: Caixa Cultural São Paulo (Sé), Praça da Sé, 111 (Centro), São Paulo. Até dia 15 de julho, de terça a domingo, das 9h às 21h. É grátis. Outras informações pelo fone 011 3321 4400. Bom passeio!

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