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As esperas da vida. Passamos tanto tempo aguardando acontecimentos e, quando esses chegam, pouco ou nada acontece. De outro lado, há fatos que transformam nossas vidas e nem sempre damos a devida importância aos mesmos, ou os relegamos ao esquecimento. A primeira palavra escrita, por exemplo. Uma vez desenhei a palavra BINO no quintal lá de casa. Recordo como se fosse agora a alegria de meu pai e o que aquele momento significou; era só uma palavra, mas eu sabia escrever! Todos os aprendizados posteriores nada mais foram do que a repetição daquele primeiro instante em que minha mão, insegura, riscava no chão o nome de meu pai.

Outro fato marcante na vida de qualquer cidadão é o primeiro salário. Pertenço àquela faixa da população que começou a trabalhar por necessidade, deixando a vocação para depois. Tive a sorte de pertencer a uma família que não dependeu do meu primeiro salário para nada;  então tive a sensação de autonomia que, não percebi, foi a de mero e restrito poder aquisitivo. O salário não era lá essas coisas, mas era meu. E eu poderia fazer o uso que quisesse. Tenho a nítida lembrança da sensação de poder sentida com aquelas cédulas em minhas mãos.

Amor a gente não espera, caça! Busca e procura são palavras suaves demais para a caça do adolescente. Fui daqueles que experimentou fases muito definidas: segurar outra mão e caminhar pela rua; roçar uma boca no primeiro beijo; formular a frase “- Quer namorar comigo?”, fazer sexo… Tudo muito marcante, transformando-me no ato. O amor podia ser ilusão, mas o aprendizado foi de extrema valia para a vida que veio depois.

As transformações vindas pelo conhecimento, pelo trabalho e pelo afeto estão entre as que valem. Há toda uma série de acontecimentos que não mudam nada.  Passagem de ano é um desses; transformamo-nos em bêbados mais ou menos felizes, sentimentais; passado o porre somos exatamente os mesmos. Maioridade é outra data esperada, mas tão transgredida antes que, ao chegar, já fizemos aquilo que queríamos fazer e ser quando nos tornássemos maiores de idade.

A Avenida 23 de maio estava assim, nesta quinta-feira. Nada mudou.

No país do futebol tivemos a Libertadores quarta, a Copa do Brasil quinta e vimos o anúncio da escalação para a seleção olímpica. As pessoas estão felizes, temporariamente. Estou feliz por elas. Todavia, a sensação de primeiro de janeiro não me sai da idéia. Para todo e qualquer lado que olho, reflito e constato que tudo permanece igual, apesar dos gritos de “É campeão!”. E aí, deu de pensar nas coisas que realmente nos transformam.

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Bom final de semana.

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