Quantos morrerão nessa guerra?

Quinta-feira, durante uma avaliação, havia uma aluna muito nervosa. Ela queria voltar logo para casa, por conta de um “toque de recolher”. A garota mora na zona norte da cidade de São Paulo. Na quarta, um amigo, que mora no outro extremo, também deixou a escola por conta de situação similar. São dois jovens sem sinais de histeria; o medo é real, a situação absurda.

Os números oficiais são assustadores. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública estadual, a SSP-SP, entre janeiro e setembro deste ano, a violência gerou 982 mortes de civis e 90 de policiais. Outros números, infelizmente, comprovam que vivemos um capítulo mais denso dessa novela que não acaba: Em setembro de 2011 tivemos 71 mortes. Em setembro de 2012, foram 139 (95% de aumento!).

Se no ano passado, só no mês de setembro, já tivemos 71 mortes, qual a razão da demora para buscar soluções? Para o poder público 71 mortes não contam, é isso? Como tivemos esse aumento imenso – 139 mortes só no mês de setembro – surgiu uma Agência de Atuação Integrada. O incrível é que só agora, em 2012, surge uma agência para unir governo estadual e federal em ação contra a violência! Não aconteceu antes por conta de pinimbas partidárias? Deixaram a coisa piorar por evitarem alianças em tempos de eleição?

Quem segue de perto o noticiário viu que havia uma “briguinha” entre o Ministro da Justiça e o Secretário de Segurança Pública de São Paulo. Ou seja, enquanto arde a fogueira das vaidades e outros interesses não revelados imperam, o número de mortos vai aumentando. E só agora, após as eleições, o Governador do Estado (PSDB) e a Presidenta da República (PT) interferiram, acabando com a desavença dos compadres. Quais motivos justificam tanta demora?

Incomoda muito a banalidade com que a situação é tratada. Pessoas estão morrendo. E o que não fica totalmente claro é a identidade de todos esses mortos. Quantos inocentes caíram nessa batalha?  Com 90 policiais mortos, como as forças militares estão combatendo a corrupção dentro da instituição, para evitar que presos perigosos possam agir, mesmo dentro das prisões? Quantos transeuntes morreram vítimas de balas endereçadas a outros?

Cidadão comum, receio apontar causas. Percebo notícias distorcidas, e silêncios convenientes como o que houve no último debate para a prefeitura de São Paulo; a violência foi praticamente ignorada na conversa dos candidatos; tenho certeza que o político, muito esperto, vai justificar que a segurança é responsabilidade das esferas estaduais e federais. Mas o problema está aí, afetando o município. Também sei que temos um sistema político organizado e o processo eleitoral brasileiro é exemplar em eficiência e utilização de tecnologia. Só não entendo como não conseguimos levar toda essa competência para a solução de problemas vitais para a tranquilidade da população.

Nossos políticos regulam com eficácia o processo eleitoral, são ágeis em aumentar os próprios salários e mais ágeis ainda para livrarem-se de processos quando pegos em falcatruas. Temos uma economia invejável e um crescimento incontestável, os números comprovam, mas não apresentamos resultados similares na saúde, na educação e na segurança pública. Com toda a competência que podemos comprovar, resta concluir que falta o que comumente se denomina vontade política.

Somos cidadãos comuns desarmados e sem poder bélico. Queremos viver com dignidade; temos o direito de transitar sem medo pelas ruas e avenidas da nossa cidade. Precisamos trabalhar e estudar, passear, ir ao médico e, acima de tudo, queremos terminar o dia com vida.

982 civis, 90 de policiais: 1072 mortos! É gente demais! Não podemos banalizar essa situação. É bem provável que a onda de crimes diminua ante as atividades de final de ano; então, o maior receio é de que venhamos a enfrentar mais 30, 40% de aumento da violência em 2013, outro tanto em 2014, o dobro em 2015… Nossos dirigentes guardados por fortes esquemas de segurança e a população à mercê de balas perdidas. Quantos ainda morrerão nessa guerra?

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Até mais!

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Nota:

Leia aqui um texto diferente do que vem sendo informado sobre a situação.

11 comentários sobre “Quantos morrerão nessa guerra?

  1. Vânia Sanches

    como sempre você tem uma clareza da situação que é um soco no estômago. Pena que esses politiquinhos eleitos pela população que acha que não é atingida, porque não tem o toque de recolher na sua rua, não tem os cracudos (no caso do Rio) nas suas ruas, andando a esmo ou ainda não sentiram o peso dessa guerra com alguém da própria família abatido, não vão ler seu artigo.
    Mas esse é o país da copa, como diz a propaganda daquela cerveja… o que interessa é a festa… E se contabilizarmos as mortes pela seca no nordeste, que se acumula desde o século XIX e ainda estão na conta de Deus? Das crianças que já nascem viciadas em crack?

    A última ontem foi a indignação do meu filho mais velho (indignação bem apropriada, diga-se de passagem) aqui no Rio, os governos estadual e municipal estão desativando centros de esportes para alunos de escolas públicas, porque precisam investir dinheiro no esporte, quer dizer, nas megas construções para a copa e olimpíadas (é com letra minúscula mesmo!) Mas, para quem usar depois dos eventos internacionais, se bem que o caso do velódromo mostra bem o quanto se importam com isso… vão destruir o velódromo construído para o Pan (fora dos padrões exigidos para competições internacionais), transportar o entulho para Goiana (hã? para construir outro velódromo lá… ué… por que não deixa esse para atletas treinarem?) e gastar a bagatela de 140 milhões (eu acho) para construir um novo…. Esse é o governo do Rio…..pacificado sim, mas só para as empreiteiras e investidores… o resto…. que se dane, junto com as vítimas de guerra em cada um dos estados da União….
    Como já dizia Renato Russo “que país é esse?”

  2. Adalberto

    Um cachorro que é maltratado em qualquer espelunca, recebe mais atenção, revolta, condolências e etc…, do que a vida ceifada de um ser humano.

  3. Magda

    E saber que a mais alta cúpula dos nossos governantes, estão mais preocupados em resolver problemas de outros países, com tantos aqui carentes de solução aqui. Uma Merda.

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