Várzea, o futebol como metáfora

Abaixo, transcrição do post da página do instagram o_que_estou_lendo_agora

Às vésperas da Copa do Mundo e das eleições de 1982, a cidade de Guabiru transpira sonhos e mazelas por todos os poros. Encravada em um lugar qualquer da imaginação do autor, o município de restritas dimensões guarda segredos, maquinações, objetivos escusos e prazeres revelados no romance Várzea de Valdo Resende.

Centrado em núcleos narrativos que se mesclam no correr da trama, Várzea tem o futebol como metáfora de uma partida desigual, em que poucos ganham enquanto a maioria coleciona derrotas. Sina que historicamente nos persegue.

Altamente atrativo ao leitor, o livro ganha intensidade ao compreendermos suas poderosas entrelinhas. Como destacado no prefácio da edição, “Guabiru significa ratazana; na obra, várias delas se engalfinham para realizar seus ensejos. Várzea, termo utilizado para nomear os locais que recebem as peladas de times amadores, na verdade é um terreno inundável, desvalorizado, tão menosprezado como a massa de manobra utilizada pelos figurões da cidade, as ratazanas, no sentido de concretizar as suas artimanhas. Analogias que nos levam a refletir a respeito do desprezível, do vil, mas também nos antídotos a serem aplicados na consolidação de práticas e relações sociais e humanas capazes de nos elevarem e não, como em Várzea, nos envergonharem”.

De maneira a ilustrar essas questões, somos apresentados a Olympio Lins, técnico do Athenas, o time varzeano da cidade. Devotado à agremiação, foi atraído por uma proposta tentadora, caso saísse candidato ao legislativo e ajudasse a eleger um dos postulantes ao executivo, dando-lhe posterior sustentação política, ganharia em troca a realização de um sonho: a construção do estádio municipal, passo importante para a profissionalização do clube.

Relutante em um primeiro momento, Olympio embarca em um caminho tortuoso. Correto, pai de família dedicado, vê a espinha dorsal dos seus valores dobrarem-se às exigências da luta pelo poder. A primeira e dolorosa imposição é a troca de nome da equipe, que passa a se chamar Guabiru Sport Club, sepultando um passado valioso. Ato contínuo, torna-se um marionete: pode dar as cartas nos treinos, mas tem de beijar a mão de muita gente para atuar nos campos comandados pelos seus novos companheiros.

Independentemente das cores partidárias dos personagens, parte deles reúne-se assiduamente na casa de tolerância mais famosa de Guabiru. A Maison, administrada com mão de ferro pela cafetina Irani, é responsável por passagens hilárias, inclusive um emblemático desentendimento em que sobraram pernadas e sopapos aos frequentadores, tornando aquela noite inesquecível.

Há muito, no entanto, a ser explorado no volume de Valdo Resende, mais uma iniciativa do escritor de “Dois meninos – limbo”, “A sensitiva da Vila Mariana” e “O vai e vem da memória”.

Várzea, vendas
Edição física: diretamente com o autor @valdoresende. Formato digital: Google Livros.

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Meus agradecimentos a Jennifer Monteiro e ao Fernando Brengel pelo post,

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